Viva a sociedade alternativa (#SQN).

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A Comunidade (Kollektivet) – 2016

Thomas Vinterberg

“Não temos nenhum gosto pelos costumes que, sob pretexto de satisfazerem plenamente o sexo, tornam o homem vazio de tudo o mais”. (Gustave Thibon)

 

Os anos 60 foram pródigos em idéias estúpidas e nocivas. Herbert Marcuse, Norman O. Brown et caterva rechearam o mundo de sandices revolucionárias disfarçadas de anti-guerra, anti-consumismo etc., mas que eram somente teorias anti-razão. Os Marcuse-horzapóstolos do sensualismo messiânico desejavam salvar a humanidade por meio do sexo livre e do consumo de drogas.

Uma das ideias mais curiosas dessa época foram as Comunidades Alternativas, nas quais grupos de hippies se juntavam para viver uma vida longe da sociedade burguesa-consumista-armamentista-opressora, felizes da vida cantando Imagine e Give Peace a Chance. Desejando fazer amor e não a guerra, levavam uma vida sem distinção de família, todos cuidando de todos (ou não), num clima de liberdade sem amarras.  Roupas  – e a racionalidade – eram opcionais.

article-2668985-000A073900000258-584_964x682O uso de maconha e outros alucinógenos (como o LSD) eram os principais ingredientes para estimular a criatividade e proporcionar “experiências espirituais”. Em atitude crítica ao Cristianismo, passaram a reverenciar o Hinduísmo, através de figuras como o músico Ravi Shankar e os gurus Swami Bhaktivedanta Prabhupada e Maharishi Mahesh Yogi. Os Beatles foram os condutores dessa carreata alternativa desgovernada.

Estavam em busca de um novo Éden; ou melhor, de uma nova Queda. Nas palavras do próprio Marcuse – a divindade pagã desse movimento:

“Se a culpa acumulada na dominação civilizada do homem pelo homem pode alguma vez ser redimida pela liberdade, então o pecado original deve ser cometido de novo: Devemos comer de novo da árvore do conhecimento, para retornarmos ao estado de inocência”[1].

Zulu+Premiere+Closing+Ceremony+66th+Annual+Ad2maEEshmPlThomas Vinterberg[2], o genial diretor dinamarquês responsável pelos maravilhosos (e perturbadores) A Caça (2012) e Submarino (2010), bem como pelo magnum opus do movimento Dogma 95[3], Festa de Família (1998), adentrou o ambiente alternativo para
mostrar o seu lado, digamos, convencional. Para tal, não escolheu malucos-beleza típicos, mas gente séria e respeitável, que simplesmente deseja colocar em prática, graças a uma oportunidade circunstancial, o antigo desejo de viver em comunidade.

A história se passa no início dos anos 1970, em Copenhague, na Dinamarca. Erik e Anna Møller, interpretados pelos excepcionais Ulrich Thomsen e Trine Dyrholm, são um casal de classe média – ele, professor de arquitetura; ela, âncora de um jornal televisivo. Completa a família a adolescente Freja (leia-se Fraya), moça de rosto angelical e um tantinho melancólico.

Erik recebe em testamento, de seus pais falecidos, uma casa grande, com três andares e muitos cômodos. Uma rápida visita com o corretor, e a notícia sobre o valor do imóvel, o fazem decidir-se por vendê-la, pois sabia que o custo para manter uma casa tão grande seria alto demais para seus padrões. Porém, Anna propõe ao marido, com uma insistência resoluta, que eles fiquem com a casa e convidem alguns amigos para dividir as despesas, e vivam a tão sonhada experiência (dela) de numa comunidade alternativa. O diálogo revela as reservas do marido:ole-horz

– Eu chequei duas vezes, 5
70 coroas por mês para o aquecimento é demais. Não podemos ficar nesta casa. Ela é grande demais.

– Podemos chamar mais gente, ligar pra Ditte, pro Ole…

– Não, não podemos. Eu sei o que você quer Anna, não vou morar numa comunidade. Eu fico cansado só de pensar. Sou velho pra isso também.

[…]

– Estou entediada, Erik. Alguma coisa tem que acontecer. […] Preciso ouvir outras pessoas também… ou vou enlouquecer. É uma casa grande, maravilhosa, deve ser ocupada por pessoas maravilhosas.

Então ela o “convence”, e por meio de indicações e entrevistas escolhem os demais membros da confraria. E lá chegam: o divorciado Ole; o casal de professores Steffen e Dritte Johansen, com o pequeno Villads, que tem problemas cardíacos; a ruiva riponga Mona; e o imigrante libanês chorão Allon, que não tem emprego fixo e vive de biscates. Com tudo acertado – inclusive um sistema de voto para as decisões importantes – a comemoração não poderia ser diferente: um mergulho nas águas frias do mar escandinavo…todo mundo nu.

O visível incomodo de Erik com a situação é contrastado pela felicidade contagiante de Anna. E apesar de não viverem num clima de total liberdade sexual, há certas liberdades entre eles – como a nudez e os “selinhos” – que constrangem Erik, um homem mais reservado. Suas tentativas de tratar de assuntos familiares são sufocadas pela total falta de privacidade inerente a qualquer ambiente coletivo. À mesa do jantar, a balbúrdia quase o enlouquece, e ele passa a se irritar com frequência. Enquanto isso, Freja – aparentemente encorajada pelo comportamento liberal da família – vive suas primeiras experiências sexuais com um jovem de sua escola.

Claro que isso não daria certo.

De repente, Erik e Anna se vêem diante de uma crise de proporções inconciliáveis, e ter de lidar com isso era algo para que ela, tão firme em seu desejo por transgredir padrões, absolutamente não estava preparada

Como bem diagnosticou Theodore Dalrymple, falando sobre a Revolução Sexual:pic_related_032115_SM_Dalrymple

“O coração quer coisas contraditórias, incompatíveis; as convenções sociais surgiram para resolver alguns conflitos de nossos próprios impulsos; a eterna frustração é uma companheira inescapável da civilização, como Freud observara – todas essas verdades recalcitrantes não foram percebidas pelos proponentes da liberação sexual, o que condenou a revolução ao fracasso definitivo”.[4]

Vinterberg, como sói acontecer com o excelente cinema nórdico, nos faz mergulhar nas contradições do espírito humano, revelando que, ao contrário do que querem os ideólogos – que tentam moldar o mundo de acordo com suas teorias – a realidade sempre acaba por se impor. Porém, em geral, até que isso aconteça, o dano causado pelas ideologias deixa rastros de destruição por toda parte.

A Comunidade não é uma obra-prima, mas é um ótimo filme. Um drama com pitadas de comédia, com fotografia incrível e atuações muito boas. Os temas são tratados sem pedantismo ou pieguice, e Vinterberg é sempre sincero, sabe como conduzir uma história e ir fundo nas contradições com aquele típico espírito kierkegaardiano – de quem entende que:

kierkegaard1“O nosso tempo entrega-se de tal maneira à voluptuosidade do estético, encontra-se de tal forma inflamado e propício à fecundação, que concebe com a facilidade da perdiz, à qual basta, segundo diz Aristóteles, ouvir a voz do macho ou sentir o seu vôo por cima dela”.[5]

Assistam, pois!

__________________________________________

[1] MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização. Zahar, p. 175. Tradução: Álvaro Cabral.

[2] http://www.imdb.com/name/nm0899121/

[3] http://oglobo.globo.com/cultura/filmes/lancado-ha-20-anos-manifesto-dogma-95-lembrado-em-ciclo-de-filmes-16103947

[4] DALRYMPLE, Theodore. A vida na sarjeta. É Realizações, p. 69. Tradução: Márcia Xavier de Brito.

[5] KIERKEGAARD, Sören. O desespero humano. Abril Cultural. Tradução: Maria José Marinho.

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2 respostas para “Viva a sociedade alternativa (#SQN).

  • Elpídio Fonseca

    Caríssimo em Cristo Paulo, excelente resenha, que, como sempre, atiça a curiosidade do leitor a assistir ao filme! Abraço!

  • leonardomalves

    Gostei da dica. As comunidades alternativas, desde os cultos pitagóricos aos utopistas do século XIX (quem dirá os tantos malucos do século XX e agora), com raras exceções sobreviveram a mais de uma geração.

    A falha em viver na ampla sociedade, ao mesmo tempo que a transforma, fez dessas comunidades uma caricatura do paraíso. E esquecem que a serpente já está no paraíso…

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