Arquivo do mês: janeiro 2014

Lutero e o ofício de escritor

martin-Luther

Dedicado ao escritor e amigo Karleno Bocarro

Um sermão sobre Educação[1]

Para além do reformador religioso contumaz, Lutero foi um homem extremamente preocupado com a Educação. Em seus escritos sobre o assunto, há sentenças categóricas como:

Quando eu era moço, era corrente nas escolas o seguinte ditado: “Non minus est negligere scholarem quam corrumpere virginem” — “negligenciar um estudante não é crime menor do que violentar uma virgem”. Isso foi dito para alertar os professores, pois naqueles tempos não se conhecia pecado maior do que violar uma moça.[2]

O excerto abaixo é parte de uma prédica redigida em 1530 e enviada a Lázaro Spengler, secretário do Conselho da cidade de Nürnberg. Nele, Lutero fala do ofício de escritor:

 “[…] No entanto, existem certos fanfarrões que consideram o nome de ‘escritor’ quase indigno de ser pronunciado ou ouvido. Não te importes com isso. Pensa assim: esses bons companheiros também precisam algo com que se divertir e alegrar. Deixa que se divirtam. Tu, porém, continues sendo um escritor perante Deus e o mundo. Por mais que cavaqueiem, podes observar que, não obstante, estimam a pena ao extremo; colocam-na em seus chapéus e elmos, como se assim quisessem reconhecer concretamente que a pena é o máximo do mundo, sem a qual não estariam armados para a luta, nem a viver em tempos de paz; muito menos fanfarronar com tanta segurança. Pois também eles se valem da paz que os pregadores e mestres (os juristas) do imperador ensinam e mantém. Vês, portanto, que colocam nosso instrumento de trabalho, a amada pena, no lugar de maior destaque (como convém), enquanto cingem o instrumento de seu próprio ofício na cintura; ali ele fica no lugar devido e apropriado para seu ofício. Ele não ficaria bem na cabeça; lá tem que flutuar a pena. Se pecaram contra ti, pois bem, esta é tua penitência; deves perdoar-lhes.

“Já que me ocorreu que muitos desses fanfarrões são tão hostis ao ofício de escritor — pois ignoram ou não se dão conta de que é um ofício e obra divina, e também não enxergam o quanto ele é necessário e útil para o mundo; e se o percebessem (que Deus o permita), de qualquer forma já seria tarde — faze o seguinte: deixa-os e procura excelentes e piedosos nobres, como o finado conde Jorge von Wertheim, senhor João von Schwarzenberg, senhor Jorge von Fronsberg e outros também falecidos (sem falar dos que ainda vivem).

“[…] Há os que pensam que o ofício de escritor é simples e fácil. Mas montar armado, suportar calor, frio, pó, sede e outros incômodos, isso, sim, seria um trabalho de verdade. Pois é. Esta é a velha e conhecida cantilena diária: ninguém vê onde aperta o sapato do outro. Cada qual sente apenas seu próprio infortúnio e cobiça a fortuna do outro. Sem dúvida, eu teria dificuldades se tivesse que montar armado. Por outro lado, gostaria de ver o cavaleiro capaz de ficar sentado quieto o dia inteiro com os olhos fixos num livro, mesmo que não precisasse preocupar-se com nada, nem imaginar, pensar ou ler qualquer coisa. Pergunta a um secretário de chancelaria, a um pregador ou orador o quanto é trabalhoso escrever e discursar; pergunta a um professor o quanto é penoso ensinar e educar meninos. É verdade, a pena é leve, e não há instrumento de trabalho, em nenhuma atividade, mais fácil de ser confeccionada do que a do escritor, pois ele só precisa da pena de ganso. E elas existem em abundância e de graça. No entanto, neste caso, quem apanha e mais tem que trabalhar são as melhores partes do corpo humano: a cabeça, o membro mais nobre, a língua e a faculdade suprema, a fala; enquanto em outras atividades trabalha somente o punho, os pés, as costas ou outros membros semelhantes. E enquanto trabalham, podem cantar alegremente e fazer brincadeiras, coisas que o escritor não pode.Três dedos bastam, se diz a respeito do escritor, mas todo o corpo e a alma estão empenhados.”[3]


[1] LUTERO, Martinho. “Uma prédica para que mandem os filhos à Escola”. In: Obras Selecionadas – Vol. 5. São Leopoldo: Sinodal, 1995. Tradução de Ilson Kayser.

[2] LUTERO, Martinho, 1995, p. 307.

[3] LUTERO, Martinho, 1995, pp. 355, 356.

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