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“Preto parado é suspeito; correndo, é ladrão!”

zé-pequeno

O racismo ideológico da esquerda

 

“Não há outra solução senão esperar melhoras com paciência e resignação”.

(André Rebouças, em 1898)

Creio que todos conheçam a frase que dá título a este texto. É antiga. Quando eu era pequeno ouvia muito isso, em casa mesmo, de troça. Mas trata-se de uma frase séria, criada com conotação claramente preconceituosa, dizendo que o negro vive na marginalidade auto-imposta, que gosta de malandragem, samba, cachaça e mulheres (sim, no plural).

Bem, infelizmente há um fundo de verdade nessa frase; pois, com o fim da escravidão os negros libertos foram empurrados para a marginalidade (para viverem à margem da sociedade) pelos republicanos e oligarcas que tomaram o poder  – tomo aqui como base a interpretação dos próprios abolicionistas, via André Rebouças. Com isso, restou ao negro aquele sentimento de que, de fato, a abolição nunca se concretizou. Tal constatação, feita pelos abolicionistas logo nos anos subseqüentes ao fatídico 13 de maio de 1888, fez com que estes ainda lutassem muito para conseguir alguma melhora na condição social da população negra. Porém, o sonho estava se esvaindo, a luta estava vencida. Os escravocratas, revoltados com o fim da escravidão e com a relutância do imperador em indenizá-los pela perda da mão de obra, juntaram-se aos republicanos e, proclamada a República, abandonaram os negros na condição onde muitos ainda hoje permanecem.

andre-reboucasTal desolação é relatada em várias cartas do grande abolicionista André Rebouças – que, com o fim da monarquia, devotado amigo que era da família real, com ela partiu para Portugal; depois foi para Cannes, Luanda e, por fim, suicidou-se melancolicamente na Ilha da Madeira, em 09 maio de 1898. Numa dessas missivas, endereçada ao caríssimo amigo Joaquim Nabuco, Rebouças diz (sobre o aniversário da Abolição):

“A 13 de maio de 1889 eu tive uma tristeza inexplicável. Lembra-se que foi necessário telegrama para tirar-me do meu isolamento de Petrópolis… Na tarde de 22 de agosto de 1888, quando voltávamos da faustosa e hipocrita recepção do Imperador, eu lhe disse ao ouvido: ‘agora posso dormir tranquilo…’ Parecia-me que, a todo o momento, os escravocratas assassinavam a princeza redentora e cubriam de sangue a página santa, que havíamos escrito durante oito longos anos…

“A 22 de agosto de 1888, ainda esperavam os celerados indenização e Chins… Foi quando Dom Pedro disse-lhes: ‘Não! Não… Mil vezes não!’ que eles foram para a república de mamelucos – bandeirantes e traficantes de escravos brancos e amarelos; porque a Inglaterra não permite que sejam Negros Africanos”.[1]

Ao lermos as cartas de Rebouças – negro, engenheiro competente, abolicionista e, sobretudo, amigo do grande D. Pedro II –, vemos com pesar o duro golpe que foi o apressar da abolição por interesses escusos, bem como o resultado, para os negros, do movimento revolucionário capitaneado pelos republicanos e escravocratas que depuseram a monarquia.

O fato é que, como foi realizada, a abolição lançou milhares de famílias, jovens, velhos e crianças em condições miseráveis, fazendo, com isso, que os crimes entre essa população aumentassem e ganhassem destaque; e também é grilhoesfato que ainda hoje essa situação não foi totalmente remediada, pois a maioria da população pobre do Brasil ainda é composta por negros (pretos e pardos).

Mas é preciso cautela para analisar os desdobramentos disso. A relação entre pobreza e criminalidade é absolutamente circunstancial, pois, no final da contas, criminoso é aquele que ESCOLHE praticar um crime. Essa história rousseauniana de que o criminoso é vítima da sociedade, que comete crime porque se vê à margem e vitimado pela “burguesia capitalista opressora”, só é aceita entre ideólogos revolucionários, sedentos e incansáveis por instaurar a famigerada Luta de Classes no país. Não há nenhuma relação direta entre uma coisa e outra, e os exemplos abundam!

Em minha família, por exemplo, os únicos que entraram para a vida do crime (sim, eles existem), o fizeram não por falta de oportunidade – tiveram muitas! – mas por influência e, claro, por escolha. Ou seja, num lugar onde traficantes e criminosos são considerados heróis, entrar para o crime torna-se uma questão de influência. Às vezes acontece por causa das drogas (do uso ou do tráfico), às vezes, pela busca de status entre os amigos. Ou seja, na vida turbulenta de um jovem da periferia, como diz a letra do Rap: “ele se espelha em quem ta mais perto”.

Por outro lado, há centenas de famílias honradas, batalhadoras, cujos filhos estão lutando contra essa tendência, buscando exemplos dentro e fora de casa, mas sempre exemplos de superação, determinação e fé. Desviando do crime e escolhendo a “estrada menos viajada” [Robert Frost]. E temos, ao longo da história, muitos casos que merecem destaque, que poderiam servir de exemplo norteador da construção da identidade não só do negro, mas do Brasil. Exemplos notáveis como o dos abolicionistas (Nabuco, Rebouças, José do Patrocínio, Teodoro Sampaio et alii); de escritores/poetas como Machado de Assis, Cruz e Souza e Lima Barreto; de músicos como Pe. José Maurício Nunes Garcia e Carlos Gomes; de mestres como Ernesto Carneiro Ribeiro e tantos outros.

Tais exemplos, seguidos com afinco, nos ajudariam a criar, ainda que devagar, mas consistentemente, geração após geração, um Brasil menos preconceituoso e mais igualitário – primeiro no âmbito cultural (que é de onde tudo flui), depois no social. Uma conquista sólida e perene.

W. E. B. Du Bois[i], o primeiro negro a conseguir um título de Doutor em Harvard (ainda no séc. XIX), e grande precursor w.e.b.-duboisda causa pelos diretos dos negros nos EUA, disse bem:

“Repito, podemos subestimar o preconceito de cor do Sul e, no entanto, este continua a ser um fato ponderável. Tais desvios curiosos da mente humana existem e devem ser encarados com sobriedade. Eles não podem ser destruídos pela zombaria, não são sempre fáceis de atacar nem são simplesmente abolidos por decretos judiciais. E, contudo, não devem ser estimulados pela inércia. Devem ser reconhecidos como fatos, porém como fatos desagradáveis; coisas que entravam as vias da civilização, da religião, do sentimento de decência. Só podem ser enfrentados de uma maneira – pelo alargamento e pela expansão da razão humana, pela universalização do gosto e da cultura”[2].

E sobre a superação das dificuldades, assevera:

“O esforço de todos os homens honrados do séc. XX é, portanto, garantir que na futura competição das raças a sobrevivência dos mais aptos possa significar o triunfo do bom, do belo e do verdadeiro; que preservemos para a civilização do futuro tudo que é realmente bom, nobre e forte, e não continuemos a incentivar a ganância, a desfaçatez e a crueldade. Para fazer com que tal esperança frutifique, somos compelidos diariamente a empreender um estudo cada vez mais consciencioso dos fenômenos dos contatos entre as raças – um estudo franco e imparcial, não falsificado ou colorido por nossos desejos ou temores”[3].

Não é por mágica, nem por revolução e nem pelo Estado; é por esforço – de trabalho e de cultura. Essa é a única via.

E o mais curioso ainda é que Du Bois não tinha a mente fechada e tacanha dos negros “do movimento” de hoje, sequazes de doutrinas afrocentristas e segregadoras (racistas, portanto). Ele sabia a diferença entre uma cultura local, folclórica, e a Alta Cultura*, importante civilizadora do Ocidente onde, ao fim e ao cabo, vivia e fruto de séculos de tradição:

“Sento-me em companhia de Shakespeare, e ele não se retrai. Além da linha do preconceito, caminho de braços dados com Balzac e Dumas, onde homens sorridentes e mulheres acolhedoras deslizam entre dourados salões. Das cavernas da noite que oscilam entre a terra firme e o traçado das estrelas, chamo por Aristóteles e Marco Aurélio ou por qualquer outra alma que eu deseje e eles se aproximam graciosamente, sem escárnio ou condescendência. Assim, casado com a verdade, vivo por sobre o Véu. E esta a vida que você não quer nos dar, cavalheiresca América?”[4]

E o nosso Rebouças também da o exemplo. De seu exílio informa ao amigo ex-Imperador: “Continuo a educar o meu coração lendo Tolstoi e o Santo Homero”[5]

E não se trata de relegar a cultura ancestral (longe disso!), mas de se inteirar e ser alimentado pela cultura que orienta a vida intelectual e social do pais onde se nasce e vive. Só assim é possível progredir. Alimentar, no Ocidente, uma cultura afrocentrista, segrega em vez de agregar.

Esse é o verdadeiro Movimento Negro – os Negros em Movimento! Educando-se e buscando, incansavelmente, a superação das dificuldades.

Racismo e ideologia

Porém, o discurso ideológico da esquerda é nefasto e oportunista. Apropriou-se compulsoriamente da “Causa Negra”, e se fez porta-voz de toda uma população que buscava, com muita dificuldade, o seu espaço. Mas não só isso: igualou essa Causa a outras tantas, e todas a uma agenda revolucionária, fomentando toda sorte de ressentimentos, incitando brancos contra negros, ricos contra pobres, mulheres contra homens, homossexuais contra heterossexuais etc. Ou seja, instaurou a tensão social e o ódio de classes, raças, sexo etc..

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Mas esse não é um ódio qualquer, pois todo ser humano em sã consciência repudia tal sentimento. Esse é um ódio, como nos diz o filósofo romeno Gabriel Liiceanu – em seu apuradíssimo ensaio “Do Ódio” – “culto e cultivado”, e organizado intelectualmente como ideologia; e desse modo passa a ter “dignidade histórica e aura científica. E o crime que o acompanha é, a seu turno, enobrecido, porque a finalidade a que ele serve sonha com o bem para muitos e, no limite, para toda a humanidade”[6].

Outra característica desse ódio, como nos aponta Liiceanu, é a impessoalidade. De posse desse ódio o militante pode tudo. Diz:

“Já não se odeia uma pessoa isolada, odeia-se uma pessoa como agente de uma categoria. Odeia-se uma hipóstase englobadora, odeia-se um ‘como’ explicativo-categorial […] Odeia-se a alguém como; odeias alguém como burguês, como hebreu, como cigano, como intelectual, como islamita, como americano, como húngaro etc.

“Em conclusão, o ódio tornou-se impessoal à medida que nem o que odeia é uma pessoa isolada (mas membro de um grupo, de uma organização, de um partido, de um ‘movimento’ etc. Nem o que é odiado é isolado, mas pertence a uma categoria (de classe, de raça, de nação, de religião)”[7].

Portanto, meus caros, estamos à mercê de um ódio organizado, ideológico, que permite a essa corja militante odiar à vontade e, não raro, acusar aos outros de “discurso de ódio”, numa manipulação lingüística de fazer inveja.

Aliás, a linguagem metonímica é um dos grandes trunfos do discurso ideológico da esquerda. Diante de uma geração inteira educada por acadêmicos estruturalistas e filósofos da linguagem, essa turma consegue o efeito denunciado por Lewis Carroll em seu “[Alice] Do lado de dentro do espelho”, que é o de dar a uma palavra o sentido que se quer, não importando o sentido próprio que ela tenha[8].

A cor dessa cidade

O entrevero que tive com a cantora Daniela Mercury e seus seguidores (autodenominados “mercuryanos”) é um bom exemplo.

Ela escreveu um tuíte:

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Caros, não é preciso ser um lingüista para compreender o que essa frase significa. Se eu digo “a redução da maioridade penal exterminará pretos e pobres”, o que digo? Exatamente que os pretos e pobres são criminosos, ou potenciais criminosos. E isso é cristalino como água de uma fonte virgem.

Isso exigiu de mim uma resposta no mesmo tom com o qual essa gente costuma acusar os outros:

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E o restante da pequena discussão com a representante dos mercuryanos, segue abaixo:

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Claro que eu, ofendido, disparei como quem não quer se ver representado por esse discurso patético.

Agora, o que é a redução da maioridade penal? É uma alteração na legislação que visa a prender criminosos menores de 18 anos – aos 16, nesse caso – que cometem crimes hediondos. E o que isso tem que ver com pretos e pobres? Segundo Daniela Mercury, é o seguinte: pretos e pobres são marginalizados pela sociedade. Consequentemente são empurrados para a criminalidade e, consequentemente, são presos.

Mas qual o nexo causal disso? Absolutamente NENHUM! Porque há um salto malicioso entre marginalização e criminalidade. Ser colocado à margem não nos leva, automaticamente, a cometer crimes! Há inúmeros casos que provam o contrário disso. Muitos defensores dessa ideia absurda são prova contrária disso. E, curiosamente, quanto mais próximos da escravidão deitamos os nossos olhos, mais vemos negros célebres e reconhecidos pela sociedade.

Daí surge outra manipulação ideológica, que diz ser apenas uma minoria que consegue driblar esse, digamos, destino.

Ora essa, se uma minoria consegue, porque não pode influenciar a maioria? Respondo: porque o discurso ideológico, o vitimismo torpe, o ódio cultivado e a barreira imposta por ONG’s, políticos e ideólogos de toda sorte – muitas vezes, mais até que um traficante –, vivem a martelar na cabeça das pessoas que moram na periferia que seu esforço jamais será reconhecido pela chamada elite, que suas conquistas jamais valerão nada nesse mundo que os rejeita; e que a única forma de mudar essa situação é buscar ajuda do Governo e seus Programas Bem-Estar Social! E o Estado se torna a tábua de salvação dessas pessoas. E o truque fatal de um Estado Socialista totalitário é, justamente, manter essas pessoas cativas por Programas Sociais, para garantir o voto e  a perpetuação no Poder. E essa falsa resolução é gritada aos quatro ventos como a verdade absoluta (a única diante da relativização total). Por outras palavras, é pegar o negro livre e fazê-lo escravo do Estado. É fazer o cão tornar ao vômito[9].

E está fechado o ciclo. Uma turba inumerável de ressentidos doutrinada por ideólogos – na esfera acadêmica e cultural, das novelas aos estudos acadêmicos – e um Estado forte que sustenta toda essa desgraça, oferecendo migalhas sem nunca resolvê-la.

Como diz Antonio Gramsci – fundador do partido comunista italiano e pai do socialismo do séc. XX (pós-revolução russa): “Na fase da luta pela hegemonia, desenvolve-se a ciência política; na fase estatal, todas as superestruturas devem desenvolver-se, sob pena de dissolução do Estado”[10].

É urgente que os negros escapem dessa manipulação e percebam o valor que há no indivíduo, no esforço, na perseverança, nas determinações e decisões tomadas de acordo com a própria consciência. É um esforço e tanto, demandará muito sacrifício. Mas só assim será possível construir um futuro perene e de raízes profundas, não só para si, mas para seus filhos e netos. E, por fim, para o Brasil de todos os brasileiros.

Paulo Cruz

[1] REBOUÇAS, André. “Diários e Notas Autobiográficas”, José Olympio, p. 400.

[2] DU BOIS, W. E. B. “As almas da gente negra”. Lacerda Editores, p. 146. Tradução: Heloísa Toller Gomes

[3] DU BOIS, Ibid., p. 217.

[4] DU BOIS, Ibid., p. 162.

[5] REBOUÇAS, Op. Cit., p. 381.

[6] LIICEANU, Gabriel. “Do ódio”. Vide Editorial, p. 49. Tradução: Elpídio Mário Dantas Fonseca

[7] LIICEANU, Ibid., pp. 54-55.

[8] “— Quando uso uma palavra, replicou Osvaldo Oval — em tom de desdém —, o significado dela é aquele que quero que ela tenha — e não admito discussão.

— Isso é questão de saber se você pode atribuir o significado que quiser a uma palavra.

— Isso é uma questão de saber quem é que manda. E basta!” (CARROLL, Lewis. “Do lado de dentro do espelho”. Itatiaia, p. 237. Tradução: Eugênio Amado).

[9] “Como o cão torna ao seu vômito, assim o tolo repete a sua estultícia”. (Provérbios 26:11)

[10] GRAMSCI, Antonio. “Cadernos do Cárcere – Vol. I”. Civilização Brasileira, p. 210. Tradução: Carlos Nelson Coutinho.

[i] Infelizmente, Du Bois, com a instauração das leis Jim Crow, e vendo que o grande sonho de Reconstrução da América não dava o espaço necessário aos negros, buscou refúgio no Socialismo, o que, evidentemente, não deu em nada. Beijou as mãos do genocida Mao Tsé-Tung, depois rumou para Gana e lá morreu no completo ostracismo.

* Sobre Alta Cultura, Ortega y Gasset explica:

“O império que sobre a vida pública hoje exerce a vulgaridade intelectual, é talvez o fator da presente situação mais novo, menos assimilável a nada do pretérito. Pelo menos na história européia até hoje, nunca o vulgo havia crido ter ‘idéias’ sobre as coisas. Tinha crenças, tradições, experiências, provérbios, hábitos mentais, mas não se imaginava de posse de opiniões teóricas sobre o que as coisas são ou devem ser – por exemplo, sobre política ou sobre literatura -. Parecia-lhe bem ou mal o que o político projetava e fazia; dava ou retirava sua adesão, mas sua atitude reduzia-se a repercutir, positiva ou negativamente, a ação criadora de outros. Nunca se lhe ocorreu opor às ‘idéias’ do político outras suas; nem sequer julgar as ‘idéias’ do político do tribunal de outras ‘idéias’ que cria possuir. A mesma coisa em arte e nas demais ordens da vida pública. Uma e inata consciência de sua limitação, de não estar qualificado para teorizar, vedava-o completamente. A conseqüência automática disto era que o vulgo não pensava, nem de longe, decidir em quase nenhuma das atividades públicas, que em sua maior parte são de índole teórica.
Hoje, pelo contrário, o homem médio tem as ‘idéias’ mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por isso perdeu o uso da audição. Para que ouvir, se já tem dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir, mas, pelo contrário, de julgar, de sentenciar, de decidir. Não há questão de vida pública em que não intervenha, cego e surdo como é, impondo suas ‘opiniões’.

“Mas não é isto uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massas tenham “idéias”, quer dizer, que sejam cultas? De maneira alguma. As “idéias” deste homem médio não são autenticamente idéias, nem sua posse é cultura. A idéia é um xeque-mate à verdade. Quem queira ter idéias necessita antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras do jogo que ela imponha. Não vale falar de idéias ou opiniões onde não se admite uma instância que a regula, uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. Estas normas são os princípios da cultura. Não me importa quais são. O que digo é que não há cultura onde não há normas. A que nossos próximos possam recorrer. Não há cultura onde não há princípios de legali5àde civil a que apelar. Não há cultura onde não há acatamento de certas últimas posições intelectuais a que referir-se na disputa (50). Não há cultura quando as relações econômicas não são presididas por um regime de tráfico sob o qual possam amparar-se. Não há cultura onde as polêmicas estéticas n o reconhecem a necessidade de justificar a obra de arte.
Quando faltam todas essas coisas, não há cultura; há, no sentido mais estrito da palavra, barbárie. E isto é, não tenhamos ilusões, o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas”.

(Ortega y Gasset, “A Rebelião das Massas”)

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Lutero e o ofício de escritor

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Dedicado ao escritor e amigo Karleno Bocarro

Um sermão sobre Educação[1]

Para além do reformador religioso contumaz, Lutero foi um homem extremamente preocupado com a Educação. Em seus escritos sobre o assunto, há sentenças categóricas como:

Quando eu era moço, era corrente nas escolas o seguinte ditado: “Non minus est negligere scholarem quam corrumpere virginem” — “negligenciar um estudante não é crime menor do que violentar uma virgem”. Isso foi dito para alertar os professores, pois naqueles tempos não se conhecia pecado maior do que violar uma moça.[2]

O excerto abaixo é parte de uma prédica redigida em 1530 e enviada a Lázaro Spengler, secretário do Conselho da cidade de Nürnberg. Nele, Lutero fala do ofício de escritor:

 “[…] No entanto, existem certos fanfarrões que consideram o nome de ‘escritor’ quase indigno de ser pronunciado ou ouvido. Não te importes com isso. Pensa assim: esses bons companheiros também precisam algo com que se divertir e alegrar. Deixa que se divirtam. Tu, porém, continues sendo um escritor perante Deus e o mundo. Por mais que cavaqueiem, podes observar que, não obstante, estimam a pena ao extremo; colocam-na em seus chapéus e elmos, como se assim quisessem reconhecer concretamente que a pena é o máximo do mundo, sem a qual não estariam armados para a luta, nem a viver em tempos de paz; muito menos fanfarronar com tanta segurança. Pois também eles se valem da paz que os pregadores e mestres (os juristas) do imperador ensinam e mantém. Vês, portanto, que colocam nosso instrumento de trabalho, a amada pena, no lugar de maior destaque (como convém), enquanto cingem o instrumento de seu próprio ofício na cintura; ali ele fica no lugar devido e apropriado para seu ofício. Ele não ficaria bem na cabeça; lá tem que flutuar a pena. Se pecaram contra ti, pois bem, esta é tua penitência; deves perdoar-lhes.

“Já que me ocorreu que muitos desses fanfarrões são tão hostis ao ofício de escritor — pois ignoram ou não se dão conta de que é um ofício e obra divina, e também não enxergam o quanto ele é necessário e útil para o mundo; e se o percebessem (que Deus o permita), de qualquer forma já seria tarde — faze o seguinte: deixa-os e procura excelentes e piedosos nobres, como o finado conde Jorge von Wertheim, senhor João von Schwarzenberg, senhor Jorge von Fronsberg e outros também falecidos (sem falar dos que ainda vivem).

“[…] Há os que pensam que o ofício de escritor é simples e fácil. Mas montar armado, suportar calor, frio, pó, sede e outros incômodos, isso, sim, seria um trabalho de verdade. Pois é. Esta é a velha e conhecida cantilena diária: ninguém vê onde aperta o sapato do outro. Cada qual sente apenas seu próprio infortúnio e cobiça a fortuna do outro. Sem dúvida, eu teria dificuldades se tivesse que montar armado. Por outro lado, gostaria de ver o cavaleiro capaz de ficar sentado quieto o dia inteiro com os olhos fixos num livro, mesmo que não precisasse preocupar-se com nada, nem imaginar, pensar ou ler qualquer coisa. Pergunta a um secretário de chancelaria, a um pregador ou orador o quanto é trabalhoso escrever e discursar; pergunta a um professor o quanto é penoso ensinar e educar meninos. É verdade, a pena é leve, e não há instrumento de trabalho, em nenhuma atividade, mais fácil de ser confeccionada do que a do escritor, pois ele só precisa da pena de ganso. E elas existem em abundância e de graça. No entanto, neste caso, quem apanha e mais tem que trabalhar são as melhores partes do corpo humano: a cabeça, o membro mais nobre, a língua e a faculdade suprema, a fala; enquanto em outras atividades trabalha somente o punho, os pés, as costas ou outros membros semelhantes. E enquanto trabalham, podem cantar alegremente e fazer brincadeiras, coisas que o escritor não pode.Três dedos bastam, se diz a respeito do escritor, mas todo o corpo e a alma estão empenhados.”[3]


[1] LUTERO, Martinho. “Uma prédica para que mandem os filhos à Escola”. In: Obras Selecionadas – Vol. 5. São Leopoldo: Sinodal, 1995. Tradução de Ilson Kayser.

[2] LUTERO, Martinho, 1995, p. 307.

[3] LUTERO, Martinho, 1995, pp. 355, 356.


C. S. Lewis e a formação do imaginário

Die Chroniken von Narnia: Der König von Narnia

[…] Mas, quando amanheceu, caía uma chuva enjoada, tão grossa que, da janela, quase não se viam as montanhas, nem os bosques, nem sequer o riacho do quintal.

– Tinha certeza de que ia chover! – disse Edmundo.

Haviam acabado de tomar café com o professor e estavam na sala que lhes fora destinada, um aposento grande e sombrio, com quatro janelas.

– Não fique reclamando e resmungando o tempo todo – disse Susana para Edmundo. – Aposto que, daqui à uma hora, o tempo melhora. Enquanto isso, temos um rádio e livros à vontade.

– Isso não me interessa – disse Pedro. – Vou é explorar a casa.

Todos concordaram, e foi assim que começaram as aventuras. Era o tipo da casa que parece não ter fim, cheia de lugares surpreendentes. As primeiras portas que entreabriram davam para quartos desabitados, como, aliás, já esperavam. Mas não demoraram a encontrar um salão cheio de quadros, onde também acharam uma coleção de armaduras. Havia a seguir uma sala forrada de verde, com uma harpa encostada a um canto. Depois de terem descido três degraus e subido cinco, chegaram a um pequeno saguão com uma porta, que dava para uma varanda, e ainda para uma série de salas, todas cobertas de livros de alto a baixo. Os livros eram quase todos muito antigos e enormes. Pouco depois, espiavam uma sala onde só existia um imenso guarda-roupa, daqueles que têm um espelho na porta. Nada mais na sala, a não ser uma mosca morta no peitoril da janela.

– Aqui não tem nada! – disse Pedro, e saíram todos da sala.

Todos menos Lúcia. Para ela, valia a pena tentar abrir a porta do guarda-roupa, mesmo tendo quase certeza de que estava fechada à chave. Ficou assim muito admirada ao ver que se abriu facilmente, deixando cair duas bolinhas de naftalina. Lá dentro viu dependurados compridos casacos de peles. Lúcia gostava muito do cheiro e do contato das peles. Pulou para dentro e se meteu entre os casacos, deixando que eles lhe afagassem o rosto. Não fechou a porta, naturalmente: sabia muito bem que seria uma tolice fechar-se dentro de um guarda-roupa. Foi avançando cada vez mais e descobriu que havia uma segunda fila de casacos pendurada atrás da primeira. Ali já estava meio escuro, e ela estendia os braços, para não bater com a cara no fundo do móvel. Deu mais uns passos, esperando sempre tocar no fundo com as pontas dos dedos. Mas nada encontrava.

“Deve ser um guarda-roupa colossal!”, pensou Lúcia, avançando ainda mais. De repente notou que estava pisando qualquer coisa que se desfazia debaixo de seus pés. Seriam outras bolinhas de naftalina? Abaixou-se para examinar com as mãos. Em vez de achar o fundo liso e duro do guarda-roupa, encontrou uma coisa macia e fria, que se esfarelava nos dedos. “É muito estranho”, pensou, e deu mais um ou dois passos. O que agora lhe roçava o rosto e as mãos não eram mais as peles macias, mas algo duro, áspero e que espetava.

– Ora essa! Parecem ramos de árvores!

Só então viu que havia uma luz em frente, não a dois palmos do nariz, onde deveria estar o fundo do guarda-roupa, mas lá longe. Caía-lhe em cima uma coisa leve e macia. Um minuto depois, percebeu que estava num bosque, à noite, e que havia neve sob os seus pés, enquanto outros flocos tombavam do ar. Sentiu-se um pouco assustada, mas, ao mesmo tempo, excitada e cheia de curiosidade. Olhando para trás, lá no fundo, por entre os troncos sombrios das árvores, viu ainda a porta aberta do guarda-roupa e também distinguiu a sala vazia de onde havia saído. Naturalmente, deixara a porta aberta, porque bem sabia que é uma estupidez uma pessoa fechar-se num guarda-roupa[1].

O trecho acima é bastante significativo; faz parte da mais famosa obra de C. S. Lewis: O Leão, a Feiticeira e o guarda-roupas — um dos sete livros da série As Crônicas de Nárnia, sucesso absoluto do gênero, com mais de 100 milhões de cópias vendidas, e traduzido para mais de 40 idiomas.

As Crônicas… foram a grande investida de Lewis no gênero literário que, desde a sua infância, mais o fascinara. Mais do que isso, foi o gênero responsável por sua formação intelectual. Sua relação com os chamados Contos de Fadas foi duradoura a ponto de ocupar boa parte de sua vida acadêmica. Suas reflexões a esse respeito vão ao encontro das obras de outros grandes intelectuais que o influenciaram  influência profunda, que foi capaz de moldar a essência de seu pensamento. Ele mesmo nos diz:

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Lewis, um leitor voraz!

O homem imaginativo em mim é mais velho, mais continuamente operativo e, nesse sentido, mais básico que o escritor religioso ou o crítico. Foi ele quem, numa primeira tentativa (com pouco sucesso), me impulsionou a ser um poeta. Foi ele quem, em resposta à poesia dos outros, me fez um crítico, e, em defesa dessa faceta, por vezes um polemista crítico. Foi ele que, depois da minha conversão, levou-me a encarnar minha fé religiosa em formas simbólicas ou mitopoéticas, variando de Screwtape a uma espécie de teologia de ficção científica. E foi, naturalmente, aquele que me fez, nos últimos anos, escrever a série de histórias sobre Nárnia para crianças; não perguntando o que as crianças queriam e, em seguida, me esforçando para me adaptar (isso não foi necessário), mas porque o Conto de Fadas foi o gênero que melhor se ajustou ao que eu queria dizer.[2]

Oxford, Inklings e retorno ao Cristianismo

Clive Staples Lewis (ou Jack, como gostava de ser chamado) nasceu em Belfast, na Irlanda do Norte, em 1898, filho de um advogado e da filha de um pastor. Cresceu num ambiente de cristãos nominais e nada fervorosos. Perdeu a mãe aos nove anos de idade, experiência que o marcara profundamente[3].

Depois de passar por alguns professores particulares, recebeu uma bolsa de estudos em Oxford, e, após concluir seus estudos, conseguiu um cargo de instrutor no Magdalen College, de em Oxford, onde permaneceria por 29 anos!

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The Inklings

Em Oxford conheceu homens cuja grande amizade desfrutou até o final de sua vida, sobretudo J. R. R. Tolkien, Nevill Coghill, Hugo Dyson, Owen Barfileld e Charles Williams. Com estes (e outros) formaria os Inklings, uma espécie de confraria intelectual que se reunia para ler e debater seus temas favoritos. O grupo existiu formalmente de 1933 até meados de 1949; e, num Pub em Oxford chamado The Eagle and Child, ou no próprio escritório de Lewis no Magdalen College, foram gestadas e discutidas as grandes obras destes homens — com destaque para O Senhor dos Anéis, de Tolkien, e As Crônicas de Nárnia, de Lewis.

Foi também por influência dos Inklings que Lewis voltou ao cristianismo e se tornou um dos mais famosos apologistas cristãos do séc. XX.

 

Imaginação Moral

Toda a longa jornada intelectual e de fé de C. S. Lewis foi alimentada pela mitologia e pela imaginação.

Ele conta que uma de suas primeiras e mais marcantes experiências imaginativas ocorreu ao ler uma tradução que o poeta norte-americano Longfellow fez do poema Drapa, escrito pelo sueco Esaías Tegner, e cita um trecho:

I heard a voice, that cried,

“Balder the Beautiful

Is dead, is dead!”

[Ouvi uma voz, que chorava,

“Balder, o Belo,

Está morto, está morto!”][4]

Um biógrafo de Lewis, Colin Durez, “lê” o poema assim:

The-Death-of-Baldr

“A Morte de Balder”, by Christoffer Wilhelm Eckersberg (1817)

O pálido cadáver do sol morto é carregado através do firmamento sententrional. Lufadas de Niffelheim erguem os lençóis de névoa ao seu redor quando ele passa. Balder está morto — Balder, o Belo, deus do sol de verão, mais bonito de todos os deuses! A luz irradia de sua fronte, há runas em sua língua, assim como na espada do guerreiro. Todas as coisas na terra e no ar estão obrigadas, por mágico feitiço, a jamais feri-lo; mesmo as plantas e pedras — todas, exceto o visco! Hoeder, velho deus cego e silencioso, inocentemente trespassa o brando peito de Balder com sua lança afiada, feita por artifício com o visco maldito![5]

Outro biógrafo, David Downing, relata:

Embora, na época, Lewis não tivesse a mínima ideia de quem era Balder, tais versos o preencheram com um tipo particular de alegria, que ele denominou “borealidade” (ou “nortidade”), uma visão austera e extática das coisas “frias, espaçosas, severas, pálidas e remotas”.

Uma pequena explicação: Balder, o Belo, é um deus da mitologia nórdica, filho de Odin e Friga. Após ter vários sonhos em que sua vida corria perigo, contou seus tormentos aos deuses e esses resolveram ajudá-lo. Então Friga, sua mãe, conseguiu que o Fogo, a Água, o Ferro e todos os outros metais, as Pedras, as Árvores, as Feras, as Aves, os Peixes e todos os animais que rastejam, jurassem não lhe fazer mal. Com isso, os deuses passaram a brincar com Balder, atirando-lhe coisas como num alvo. Porém, o astuto Loki, cevado de inveja, descobriu que uma planta chamada Visco poderia ferir o deus protegido. Colheu dessa planta, passou na ponta de uma lança e deu nas mãos de Hoeder, o deus cego que não participava da brincadeira por não enxergar o “alvo”. Loki direcionou as mãos de Hoeder, que feriu Balder e o matou.

A história de Balder, nos versos de Tegner/Longfellow, causou uma marca indelével no pequeno Jack, um garoto “produto de longos corredores, cômodos vazios e banhados de sol, silêncios no piso superior, sótãos explorados em solidão, ruídos distantes de caixas-d’água e tubos murmurantes, e o barulho do vento sobre as telhas. Além disso, de livros infindáveis”[6].

As óperas de Richard Wagner também marcaram a infância de Lewis, sobretudo a saga O Anel dos Nibelungos. Ele conta que gastava o dinheiro de sua mesada nas resenhas e discos de Wagner, fazendo a associação entre Siegfried — o herói da saga wagneriana — e Balder, o Belo deus[7].

Toda essa profunda Admiração[8] pelos dos mitos e pelos contos de fadas foi responsável pela formação de sua Imaginação Moral, termo do filósofo Edmund Burke para descrever aquela virtude “que o coração possui e o entendimento ratifica, como necessária para coibir os defeitos de nossa natureza nua e trêmula e para elevá-la à dignidade em nossa própria avaliação”[9].

Para Russell Kirk, filósofo, historiador e crítico literário norte-americano, a Imaginação Moral trata de ideias que “inferidas dos séculos de experiência humana, […] são novamente expressas de uma era para a outra”[10]. E para G. K. Chesterton — que escreveu com brilhantismo sobre o assunto em seu Ortodoxia —, a Ética da Terra dos Elfos é o fruto da mais pura moralidade ancestral e origem de sua filosofia particular. Vale citá-lo:

Minha primeira e última filosofia, aquela na qual acredito com certeza absoluta, eu a aprendi na creche. Geralmente a aprendi de uma babá; isto é, daquela solene sacerdotisa ao mesmo tempo da democracia e da tradição, indicada pelos astros. Aquilo em que eu mais acreditava naquela época, aquilo em que mais acredito atualmente, são coisas que chamamos de contos de fadas. Eles me parecem inteiramente razoáveis. Não são fantasias: comparadas com eles, outras coisas são fantásticas. Comparados com eles, a religião e o racionalismo são ambos anormais, embora a religião esteja anormalmente certa e o racionalismo anormalmente errado. O país das fadas nada mais é do que o país ensolarado do senso comum. Não é a terra que julga o céu, mas o céu que julga a terra; assim, para mim pelo menos, não era a terra que criticava a Terra dos Elfos, mas a Terra dos Elfos que criticava a terra. Conheci o pé de feijão mágico antes de provar feijão; tive certeza sobre o homem na Lua antes de ter certeza sobre a Lua […] As antigas babás não falavam às crianças sobre a relva, mas sobre fadas que dançam sobre a relva; e os antigos gregos não conseguiam ver as árvores devido às dríades. […] Mas não estou preocupado com nenhum dos estatutos da Terra dos Elfos em separado, mas sim com o espírito total de sua lei, que aprendi antes de saber falar e hei de reter quando não mais puder escrever. Estou preocupado com certo modo de olhar para a vida, que foi criado em mim pelos contos de fada, mas foi, desde àquela época, humildemente ratificado pelos simples fatos.[11].

Lewis, absorvendo e continuando o legado intelectual dessa tradição, associou essa ideia ao que chamou de Tao, conceito emprestado da sabedoria oriental e desenvolvido em sua obra A Abolição do Homem:

[…] é a realidade além de todos os atributos, o abismo que era antes do Próprio Criador. Ele é a Natureza, é a Via, o Caminho. É a Via pela qual o universo prossegue, a Via da qual tudo eternamente emerge, imóvel e tranqüilamente, para o espaço e o tempo. É também a Via que todos os homens deveriam trilhar, imitando essa progressão cósmica e supracósmica, amoldando todas as atividades a esse grande modelo. “No ritual”, dizem os Analectos, “é a harmonia com a Natureza que é louvada”. Os antigos judeus igualmente louvavam a Lei como “verdadeira” […] É a doutrina do valor objetivo, a convicção de que certas posturas são realmente verdadeiras, e outras realmente falsas a respeito do que é o universo e do que somos nós.[12]

Tal realidade está impressa nos contos de fadas de uma maneira muito particular e profunda. E para Lewis, uma característica marcante desse tipo de história é

[…] a presença de seres não-humanos que, não obstante, comportam-se, em diversos graus, como seres humanos: gigantes, anões e animais falantes. A meu ver, eles são, no mínimo (pois é possível que tenham muitas outras fontes de poder e beleza), um hieróglifo admirável que veicula uma psicologia, uma tipologia de caráter, de modo muito mais sucinto que o romance, e aos leitores, que um romance ainda não poderia atingir”[13].

Escrever (somente?) para crianças

Num ensaio intitulado Três maneiras de escrever para crianças, Lewis expõe sua motivação e seu “método” para escrever histórias de fantasia. Defendendo-se daqueles que diziam que as histórias infantis eram um departamento especial, cuja função era entreter e entregar às crianças aquilo que elas “queriam”, diz que os contos de fadas eram “a melhor forma artística de expressar algo que você quer dizer”[14]. E, evidentemente, isso não se restringia – ou restringe – às crianças, pois “uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim”[15]. E completa:

O conto de fadas é acusado de dar às crianças uma falsa impressão do mundo em que vivem. Na minha opinião, porém, nenhum outro tipo de literatura que a crianças poderiam ler lhes daria uma impressão tão verdadeira. As histórias infantis que se pretendem “realistas” tendem muito mais a enganar as crianças.[16]

Lewis tinha plena consciência dos limites da Fantasia, sua função e apreciação pelas crianças. Inclusive, fez uma distinção do termo entre o devaneio irresponsável e a imaginação criativa de onde nascem as histórias. Sobre isso, discorreu brilhantemente em seu A Experiência de Ler (ou Um Experimento em Crítica Literária, Pt-Br), chamando o devaneio de Castelos-no-Ar-Doentios e a imaginação criativa de Castelos-no-Ar-Normais[17].

É curioso perceber como Lewis espalha os conceitos em suas histórias! A citação inicial deste ensaio termina com o narrador dizendo que Lúcia ao entrar em Nárnia deixou a porta aberta, pois “sabia que é uma estupidez uma pessoa fechar-se num guarda-roupa”. É muito bom entrar, mas é preciso sair.

Ainda sobre seu método, esclarece:

Essa forma me permite, ou obriga, a deixar de fora certas coisas que eu queria mesmo deixar de fora: obriga-me a concentrar toda a força do livro nas palavras e atos dos personagens. Ela coíbe o que um crítico generoso, mas perspicaz, chamou de “o demônio expositivo” que vive em mim, e também impõe certas restrições muito frutíferas ao tamanho da obra[18].

Em seu texto, Lewis cita outro importante ensaio, escrito por seu amigo J. R. R. Tolkien, e diz que “talvez seja a contribuição mais importante que alguém já tenha dado a esse tema”[19]. O ensaio de Tolkien é mesmo monumental! Discorrendo sobre as origens e características daquilo que ele chama de histórias do Belo Reino (Faërie), nos apresenta um vislumbre muito preciso e precioso do mundo das fadas.

Recuperação, Escape e Consolo

Segundo Tolkien, os contos de fadas afetam o ser humano de três maneiras: Recuperação, Escape e Consolo.

A Recuperação é um modo de readquirirmos o deslumbramento, a admiração pelas coisas que se tornaram corriqueiras em nossos dias, coisas com as quais não nos importamos mais, mas que carregam em si mesmas o mistério da vida. Como diz Tolkien:

Precisamos olhar o verde outra vez, e nos surpreendermos de novo (mas sem sermos cegados) com o azul, o amarelo e o vermelho. Precisamos encontrar o centauro e o dragão, e depois, talvez, contemplar de repente, como os antigos pastores, os carneiros, os cães, os cavalos e os lobos. As histórias de fadas nos ajudam a realizar essa recuperação. […] A recuperação (que inclui o retorno e a renovação da saúde) é uma re-tomada — a retomada de uma visão clara. Não digo “ver as coisas como elas são”, porque assim me envolveria com os filósofos, porém posso arriscar-me a dizer “ver as coisas como nós devemos (ou deveríamos) vê-las” — como coisas à parte de nós mesmos[20].

Temos um exemplo singular do que diz Tolkien na história O sobrinho do mago, das Crônicas de Lewis. Nesse conto há uma cena sublime, da criação de Nárnia. O garoto Digory, de posse dos anéis mágicos de seu tio, transportou a todos, do meio de uma confusão causada pela feiticeira Jadis, para o Bosque Entre Dois Mundos e, de lá, para um mundo de completa escuridão. Quando, de repente:

No escuro, finalmente, alguma coisa começava a acontecer. Uma voz cantava. Muito longe. Nem mesmo era possível precisar a direção de onde vinha. Parecia vir de todas as direções, e Digory chegou a pensar que vinha do fundo da terra. Certas notas pareciam a voz da própria terra. O canto não tinha palavras. Nem chegava a ser um canto. De qualquer forma, era o mais belo som que ele já ouvira. Tão bonito que chegava a ser quase insuportável. O cavalo também parecia estar gostando muito, pois relinchou como faria um cavalo de carga se, depois de anos e anos de duro trabalho, se encontrasse livre na mesma campina onde correra quando jovem e, de repente, visse um velho amigo cruzando a relva e trazendo-lhe um torrão de açúcar.

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O Sobrinho do Mago

E duas coisas maravilhosas aconteceram ao mesmo tempo. Uma: outras vozes reuniram-se à primeira, e era impossível contá-las. Vozes harmonizadas à primeira, mais agudas, vibrantes, argênteas. Outra: a escuridão em cima cintilava de estrelas. Elas não chegaram devagar, uma por uma, como fazem nas noites de verão. Um momento antes, nada havia lá em cima, só a escuridão; num segundo, milhares e milhares de pontos de luz saltaram, estrelas isoladas, constelações, planetas, muito mais reluzentes e maiores do que em nosso mundo. Não havia nuvens. As novas estrelas e as novas vozes surgiram exatamente ao mesmo tempo. Se você tivesse visto e ouvido aquilo, tal como Digory, teria tido a certeza de que eram as estrelas que estavam cantando e que fora a Primeira Voz, a voz profunda, que as fizera aparecer e cantar.

– Louvado seja! – disse o cocheiro. – Se eu soubesse que existiam coisas assim, teria sido um homem muito melhor[21].

A narrativa se segue até o completo surgimento da belíssima Nárnia, sob o canto de Aslam, o Grande Leão.

Esse é o tipo de recuperação de que fala Tolkien. A maravilha de perceber, por meio dos contos de fadas, aquilo que Chesterton diz tão bem-humoradamente: “Eu sempre acreditava que o mundo envolvia uma mágica: agora achava que talvez ele envolvesse um mágico”[22].

O Escape envolve uma ligeira sutileza. Escape não é a mesma coisa que escapismo. Com essa distinção Tolkien quer dizer que não se pode confundir “o escape do prisioneiro com a fuga do desertor”[23]. Sua concepção de escape trata do desejo de ultrapassar o ordinário e, muitas vezes, aterrador cotidiano.

Outro exemplo pode ser retirado das Crônicas de Lewis. Na história O Cavalo e seu menino, acompanhamos a história de um garoto chamado Shasta, que vive infeliz com um homem cruel e sagaz que diz ser o seu pai; mas ele, em seu íntimo, sente que não é seu filho. Quando descobre, de fato, que não é filho de Arriche (o homem cruel) — e descobre por conta de uma negociação que seu padrasto faz para vendê-lo a um tarcaã (senhor de alta linhagem) —, pensa: “Quem sabe não serei filho de algum tarcaã… ou filho até do Tisroc — que ele viva para sempre! —, ou filho de um deus?”[24]

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O Cavalo e seu Menino

E então Shasta foge, em companhia de um cavalo falante — de nome Bri —, para uma grande aventura em Nárnia, terra que sempre sonhou conhecer. E nós, ao lermos a história de Shasta, participamos de sua aventura e fazemos de seu escape o nosso!

Por fim, Tolkien fala do Consolo, mais precisamente o Consolo do Final Feliz. Tolkien diz que, assim como a Tragédia é verdadeira forma do Drama, o Consolo do Final Feliz é a verdadeira forma das histórias de fadas. Para isso criou um termo: Eucatástrofe. Eucatástrofe é um contrário da Discatástrofe, ou seja:

[…] a repentina “virada” jubilosa (porque não há um final verdadeiro em qualquer conto de fadas), essa alegria que é uma das coisas que as histórias de fadas conseguem produzir supremamente bem não é essencialmente “escapista” nem “fugitiva”. Em seu ambiente de contos de fadas — ou de outro mundo — ela é uma graça repentina e milagrosa: nunca se pode confiar que ocorra outra vez. Ela não nega a existência da discatástrofe, do pesar e do fracasso. Ela nega (em face de muitas evidências, por assim dizer) a derrota final universal, e nessa medida é evangelium, dando um vislumbre fugaz da Alegria, Alegria além das muralhas do mundo, pungente como o pesar […] Na eucatástrofe enxergamos, numa breve visão, que a resposta pode ser maior pode ser um lampejo longínquo ou um eco do evangelium no mundo real[25].

E arremata:

Eu me arriscaria dizer que, abordando a História Cristã nessa direção, por muito tempo tive a sensação de que Deus redimiu as corruptas criaturas-criadoras, os homens, de maneira adequada a esse aspecto de sua estranha natureza, e também a outros. Os Evangelhos contém uma história de fadas, ou uma narrativa maior que engloba toda a essência delas. Contém muitas maravilhas peculiarmente artísticas, belas e emocionantes: “míticas” no seu significado perfeito e encerrado em si mesmo e entre as maravilhas está a maior e mais completa eucatástrofe concebível. […] O Evangelium não ab-rogou as lendas, ele as consagrou; em especial o “final feliz”[26].

Termino citando um exemplo espetacular de eucatástrofe que está em A última batalha, última história das Crônicas. Para não tirar-vos o gosto da leitura — que vos advirto a fazer —, cito somente um pequeno trecho, onde o professor Kirke (ou Lorde Digory), descobre que há outra Nárnia, mais Bela, Perfeita e Verdadeira que aquela que os quatro irmãos conheceram no início de suas aventuras.

— Ouça, Pedro [disse Lorde Digory]. Quando Aslam disse que vocês nunca mais poderiam voltar a Nárnia, ele se referia à Nárnia em que vocês estavam pensando. Aquela, porém, não era a verdadeira Nárnia. Ela teve um começo e um fim. Era apenas uma sombra, uma cópia da verdadeira Nárnia que sempre existiu e sempre existirá aqui, da mesma forma que o nosso mundo é apenas uma sombra ou uma cópia de algo do verdadeiro mundo de Aslam. Lúcia, você não precisa prantear Nárnia. Todas as criaturas queridas, tudo o que importava da velha Nárnia foi trazido aqui para a verdadeira Nárnia, através daquela Porta. Tudo é diferente, sim; tão diferente quanto uma coisa real difere de sua sombra, ou como a vida real difere de um sonho.

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A Última Batalha

Enquanto ele falava essas palavras, sua voz fez todo mundo estremecer como ao som de uma trombeta. Mas quando ele acrescentou: — Está tudo em Platão, tudo em Platão… Caramba! Gostaria de saber o que essas crianças aprendem na escola! —, os mais velhos desataram a rir. Era exatamente isso que ele costumava dizer muito tempo atrás, naquele outro mundo, onde sua barba era grisalha em vez de dourada”[27].

Resta-me dizer que a leitura dAs Crônicas de Nárnia certamente será, para as crianças e jovens, um excelente exercício de formação do imaginário. E para os adultos, um resgate mais que necessário.

Boa leitura!

Paulo Cruz

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 Referências bibliográficas

BULLFINCH, Thomas.  O livro de ouro da mitologia. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

BURKE, Edmund. Reflexões sobre a revolução na França. 2012. Rio de Janeiro: Top Books, 2012.

CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2007.

DOWNING, David. C. S. Lewis – o mais relutante dos convertidos. São Paulo: Vida, 2006.

DURIEZ, Colin. Tolkien e C. S. Lewis – O dom da amizade. São Paulo: Nova Fronteira, 2006.

KIRK, Russel. T. S. Eliot, a imaginação moral do século XX. São Paulo: É Realizações, 2011.

LEWIS, C. S. A experiência de ler. Lisboa: Porto, 2003.

LEWIS, C. S. A Abolição do Homem. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

LEWIS, C. S. As crônicas de Nárnia – Volume Único. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

LEWIS, C. S. Surpreendido pela Alegria. São Paulo: Mundo Cristão, 1998.

TOLKIEN, J. R. R. Sobre histórias de fadas. São Paulo: Conrad, 2006.


[1] LEWIS, C. S.. O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupas, pp. 13-15.

[2] http://www.discovery.org/a/518 (tradução minha).

[3] Com a morte de minha mãe, toda a felicidade serena, tudo o que era tranquilo e confiável, desapareceu de minha vida. Estava por vir muita diversão, muitos prazeres, muitas punhaladas da Alegria; mas nada da velha segurança. Agora era mar e ilhas; o grande continente afundara como Atlântida. (LEWIS, 1998, p. 28).

[4] LEWIS, 1998, p. 24.

[5] DURIEZ, 2006, p. 91.

[6] LEWIS, Op. Cit., 1998, p. 18.

[7] Cf. LEWIS, 1998, pp. 78-81.

[8] Thaumazein (Gr.) ou Mirandum (Lt.), segundo Aristóteles, o que também deu origem à Filosofia.

[9] BURKE, Edmund, 2012, p. 245.

[10] KIRK, 2011, p. 140.

[11] CHESTERTON, 2007, pp. 82,83.

[12] LEWIS, 2005, pp. 16,17.

[13] LEWIS, 2010, pp. 745.

[14] LEWIS, Ibid., pp. 742.

[15] LEWIS, Ibid., 743.

[16] LEWIS, Ibid., 746.

[17] Cf. LEWIS, 2003, pp. 73-81.

[18] LEWIS, Ibid. 746.

[19] LEWIS, Ibid. 745.

[20] TOLKIEN, 2006, p. 65.

[21] LEWIS, 2010, p. 56, 57.

[22] CHESTERTON, op. Cit., p. 101.

[23] TOLKIEN, Op. Cit., p. 69.

[24] LEWIS, 2010, p. 196.

[25] TOLKIEN, Op. Cit., p. 77, 79.

[26] TOLKIEN, Ibid., p. 81.

[27] LEWIS, 2010, pp. 729,730.


O Egípcio

“O Egípcio”, de Mika Waltari

O poder transformador da leitura.

O primeiro livro que li inteiro foi “Dom Casmurro”. Porém, o primeiro que me arrebatou foi “O Egípcio”.

Leitura incentivada no início da década de 1990, por meu amado e saudoso pai, Antônio da Cruz (05/04/1940 – 09/11/2012). Lembro-me até hoje de sua insistência – o livro é um catatau com mais de 600 páginas e eu era apenas um adolescente em ebulição. Eu dizia: “pai, esse livro é muito grosso!”. E ele respondia: “se você ler três páginas deste livro, não conseguirá parar mais!”. Dito e feito!

Na época, eu chegava da escola, almoçava e ia para seu escritório, trabalhar. Ele me passava o serviço – em geral, serviços de fórum e prefeituras – e eu ia, “Egípcio” debaixo do braço, lendo vorazmente onde quer que encontrasse um tempo: ônibus, metrô, filas.

Obs.: conheci toda a cidade de SP assim, trabalhando (iniciei aos 14 anos). Ele me dizia: “tem de ir ao fórum da Lapa”. Eu dizia: “como faz pra ir?”. E ele: “não sei, só sei ir de carro” – e me lembrava do “Mensagem a Garcia”. E eu saía perguntando; e sempre chegava ao destino.

Voltando ao “Egípcio”. Meu pai nunca perdia a oportunidade de ler para mim o último parágrafo do livro (em negrito, ao final). Fazia sempre que o tinha à mão; e emocionado, dizia: “não é maravilhoso?!”

Pois é! E curiosamente, após sua morte, essa história se tornou profeticamente emblemática para mim: meu pai é o meu Sinuhe.

Descanse em paz, Dr. Antônio.

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“Eu, SINUHE, filho de Senmut e de sua mulher Kipa escrevo isto. Não o escrevo para a glória dos deuses da terra de Kan, porque estou cansado de deuses, nem para a glória dos faraós, porque estou cansado de seus feitos. Tampouco escrevo por medo ou por qualquer esperança  no futuro; escrevo para mim, apenas. O que vi, conheci e perdi durante a minha vida, foi coisa demasiada para que me domine um vão temor; e, quanto a algum desejo de imortalidade, estou tão exausto disso quanto dos deuses e dos reis. É apenas por minha causa que escrevo, por tal motivo e essência diferindo eu de todos os escritores passados e vindouros.

[…]

“Isto tudo eu, Sinuhe, o egípcio, escrevi; e apenas para mim. Não escrevi para os deuses nem para os homens; e nem para imortalizar o meu nome. Apenas para dar paz ao meu coração cuja cota está agora servida de vez. Sei que logo depois da minha morte os guardas destruiriam, se pudessem, tudo quanto escrevi. Sim, pois, por ordem de Horemheb porão abaixo as paredes da minha casa. Aliás, creio que tudo isso tanto se me dá. Seja como for, a verdade é que estou conservando cuidadosamente estes livros que escrevi, e Muti trançou uma rija cobertura de fibra para cada um deles. Guardo estes livros assim protegidos dentro de uma caixa de prata, e a caixa de prata está dentro de uma caixa de madeira grossa que por sua vez se acha dentro de uma outra, de cobre, tal qual foram protegidos outrora os livros divinos de Toth e depois descidos ao leito do rio. Se os meus livros não caírem em poder dos guardas e se Muti os esconder  na minha sepultura, não sei. E nem me importo muito com isso.

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Eu leio porque ele lia

“Sim, pois eu, Sinuhe, sou um ser humano. Vivi em todos aqueles que viveram antes de mim, e viverei nos que vierem depois de mim. Viverei nas lágrimas e nos risos humanos, no medo e na mágoa humana, na bondade e na torpeza humana, na justiça e no erro, na fraqueza e na força. Não desejo oferendas na minha sepultura e nem imortalidade para meu nome. Isto foi escrito por Sinuhe, o egípcio, que viveu sozinho todos os dias de sua vida”.

(Trecho inicial e final do livro “O Egípcio”, obra monumental do finlandês Mika Waltari)


Conhecimento como formação

O conhecimento como formação intelectual

Uma reflexão baseada no filme

The Great Debaters, de Denzel Washington

“Todos os homens , por natureza, tendem ao saber[1].” (Aristóteles. Metafísica, I)

A frase acima é de Aristóteles[2], filósofo grego e um dos mais importantes pensadores de todos os tempos. Esta é a primeira sentença da obra máxima de Aristóteles, a Metafísica­ – na verdade um conjunto de livros que tratam das questões que estavam além da física, do grego: tà metà tà physiká. Figura nesta obra o que Aristóteles considerava de maior relevância na investigação filosófica: a causa primeira de todas as coisas. Portanto, ter o conhecimento citado logo na primeira sentença de sua obra máxima nos dá uma idéia de sua extrema importância.

O que Aristóteles diz é que é da natureza do ser humano a tendência[3] para o conhecimento, para o saber como formação intelectual. E, se o levarmos realmente a sério, podemos dizer que todo aquele que se recusa à busca do conhecimento – e aqui acrescento, a excelência no saber – está contra sua própria natureza.

A epígrafe de Aristóteles não é fortuita. Suas idéias são a força motriz do filme The Great Debaters [O Grande Desafio], segundo longa dirigido por Denzel Washington – onde também atua como protagonista. Suas formulações na área da Lógica e da Retórica dão forma ao modelo de debates do filme.

“A Lógica é a arte do pensamento, e a Retórica é a arte de comunicar o pensamento de uma mente à outra, ou a adaptação da linguagem à circunstância”[4], escreve Irmã Miriam Joseph, autora de O Trivium (É Realizações, 2008). Estas duas “disciplinas”, somadas à Gramática, fazem parte da educação tradicional liberal da Idade Média (aprox. ano 800) conhecida como TRIVIUM[5]. O Trivium, juntamente com o Quadrivium (Aritmética, Geometria, Astronomia e Música), formava o conjunto das sete Artes Liberais[6], cujo intuito era fornecer uma educação sólida para um indivíduo.

Irmã Mirian Joseph (1898 – 1982), uma freira e professora norteamericana, recuperou o Trivium para ensiná-lo num colégio nos EUA na década de 1930, pois entendeu a diferença entre os saberes técnicos, utilitários e o conhecimento fornecido pelas Artes Liberais.[7]

O que vemos no filme são alunos selecionados entre os melhores e treinados na arte da persuasão (Retórica) e do pensar correto (Lógica). E mais, era preciso um preparo não só técnico, mas cultural, acima da mera instrução. Era preciso rigor científico de pesquisa, o que só um conhecimento integrado, “generalista”, oferece. E isso os permitiu quebrar os paradigmas sociais da época (herança dos muitos anos de escravidão) e ultrapassar a barreira racial que separava brancos e negros. Isso tudo por causa da inteligência, do conhecimento, da cultura. Foram desbravadores de uma experiência transformadora no mundo acadêmico da época, pois permaneceram invictos por dez anos e venceram uma das melhores faculdades “brancas” dos EUA (University of Southern California – no filme, retratada como a Harvard University).

Gustave Thibon (1903 – 2001), filósofo francês, dizia existir uma grande diferença entre a Instrução e a Cultura; e que, apesar das duas serem aquisição de conhecimentos, a Cultura exigia a participação vital, a vivência interior do sujeito[8]. Por isso, há um processo complexo no instruir-se, no educar-se.

Dora Ferreira da Silva (1918 – 2006), poeta brasileira, descreve em versos o sofrimento e o desabrochar do saber:

EDUCAR-SE

Educar-se na ausência

nas portas seladas

de maçanetas que giram sozinhas.

No mistério educar-se

ultrapassando horizontes

sem nada pedir:

a boca resolve-se

em silêncio.

Silêncio é esquecimento

do que passou tão depressa

para o passo da alma.

Tristeza desfez-se em brumas

alegria súbito acendeu-se

num raio oblíquo

e as estrelas vieram

definitivas. [9]

Uma vida intelectual consistente, que faça diferença na sociedade, exige muito esforço. A ideia equivocada do “hábito de leitura” não ajuda quem quer construir uma base sólida de conhecimentos, pois não se trata simplesmente de ler, mas o que ler e como ler. C. S. Lewis – professor acadêmico, crítico literário e poeta (famoso pela série As Crônicas de Nárnia) – escreveu que há uma grande diferença entre receber e usar uma obra de arte – em nosso caso, aqui, a Literatura[10]. Porém, essa exigência mínima para uma formação intelectual consistente gerará frutos não só naquele que estuda e se aplica, mas em todos à sua volta.

No contexto do filme, não só os quatro alunos (Henry Lowe, Samantha Booke, James Farmer Jr. e Hamilton Burgess) merecem destaque, mas toda uma geração de negros americanos, citados no início do filme pelo professor Melvin Tolson (Washington), que iniciaram um movimento intelectual e cultural extremamente rico no Harlem, bairro negro dos EUA. Nomes como os poetas Gwendolyn Bennett, Countee Cullen e Langston Hughes, bem como W. E. B. Du Bois – o primeiro negro a graduar-se e doutorar-se (Ph.D.) em Harvard – influenciaram e transformaram a história não só dos negros americanos, mas de todos os EUA. O Harlem Renaissance, como este movimento ficou conhecido, foi o embrião de iniciativas importantíssimas, tais como o Movimento pelos Direitos Civis, de Martin Luther King Jr.

Mas vale também a ressalva de dizer que o conhecimento integra e segrega, pois, ao nos instruirmos com essa profundidade, saímos da camada comum, somos alçados a um nível de compreensão diferenciado da realidade e tornamo-nos mais críticos e seletos em nossas escolhas. Por outro lado, abre-se para nós um acesso cultural elevado, para apreciação de coisas que dificilmente teríamos condições de apreciar e vivenciar tendo uma instrução de nível, digamos, mediano.

Portanto, o que temos diante de nós não é só um incentivo à leitura e à instrução, mas um desafio a ser vencido; é uma porta que se abre para a formação intelectual sólida, para um conhecimento cultural profundo, capaz de transformar o indivíduo e – por que não? – a sociedade.

 Paulo Cruz


[1] ARISTÓTELES. Metafísica. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2005. Saber, aqui, vem do grego ειδω (eido), que tem como um dos significados: ser perito em, tomar forma (formar-se).

[2] Aristóteles: filósofo grego nascido em 384/383 a.C., em Estagira, na Macedônia. Foi aluno de Platão (outro grande filósofo e com quem forma a dupla de maior destaque do pensamento ocidental) e ficou em sua Escola, a Academia, durante vinte anos; saindo após a morte deste para fundar sua própria Escola, o Liceu, em 334.

[3] Tendência: n substantivo feminino

a.            aquilo que leva alguém a seguir um determinado caminho ou a agir de certa forma; predisposição, propensão

b.            disposição natural; inclinação, vocação

(Fonte: Dicionário Houaiss. Grifos meus.)

[4] JOSEPH, Irmã Miriam. O Trivium. São Paulo: É Realizações, 2008, p. 21.

[5] Trivium significa o cruzamento e a articulação de três ramos ou caminhos e tem a conotação de um “cruzamento de estradas” acessível a todos (Ibid. apud Catholic Encyclopedia, vol. 1, s.v., “The Seven Liberal Arts”)

[6] “A educação prospera mais quando se a procura livremente. Este é o sentido da palavra ‘liberal’(de líber, livre), nas Sete Artes Liberais da Idade Média, que eram ensinadas ao homem livre, em oposição às artes ‘iliberais’ presa, controlada por guildas (corporações de ofícios)”. José Monir Nasser, In: Ibid. p. 12.

[7] “As artes utilitárias ou servis permitem que alguém sirva a – outrem, ao estado, a uma corporação, a uma profissão – e que ganhe a vida. As artes liberais, em contraste, ensinam como viver; elas treinam uma pessoa a erguer-se acima de seu ambiente natural para viver uma vida intelectual e racional, e, portanto, a viver uma vida conquistando a verdade”. (Ibid, p. 20)

[8] “Uma pessoa pode ser muito culta sem ser muito instruída, e pode ser muita instruída sem ser culta. Mais precisamente, toda cultura implica um mínimo de instrução, mas a recíproca não é verdadeira: pode-se ter muita instrução e não ter cultura alguma. É possível ser erudito ou “sábio” de uma maneira puramente mecânica e por efeito de uma doutrinação puramente externa”. (THIBON, Gustave. Palestra proferida em Lausanne, em 18 de abril de 1965. Tradução: Fernando Marques.

[9] SILVA, Dora Ferreira. Cartografia do Imaginário. São Paulo: TA Queiroz Editor, 2003, p. 120

[10] “Uma obra de arte tanto pode ser ‘recebida’ como usada. Quando é ‘recebida’, exercemos o nossos sentidos e imaginação, bem como vários outros poderes, de acordo com um padrão inventado pelo artista. Quando a ‘usamos’, tratamo-la como um [mero] auxílio para nossas próprias atividades (…) ‘Usar’ é inferior a ‘receber’, porque a arte, quando mais usada que recebida, limita-se a facilitar, abrilhantar, aliviar ou suavizar a nossa vida, mas sem nada lhe acrescentar”. (LEWIS, C. S. A experiência de ler. Lisboa: Elementos Sudoeste, 2003, p. 123, 124)


Jack Lewis e eu

A INFLUÊNCIA DE C. S. LEWIS EM MINHA VIDA CRISTÃ E INTELECTUAL


Confesso francamente todas as ambições idiotas do fim do século XIX. Como todos os outros menininhos pomposos, tentei colocar-me à frente de meu tempo; e descobri que estava 1800 anos atrás. Forcei minha voz com penoso exagero juvenil ao proferir minhas verdades. E fui punido da maneira mais adequada e engraçada, pois mantive as verdades: mas descobri, não que não eram verdades, mas simplesmente que não eram minhas. Quando imaginei que estava sozinho encontrei-me de fato na ridícula posição de receber o apoio de toda a cristandade. Deus me perdoe, mas talvez eu tenha tentado ser original; mas só consegui inventar por minha própria iniciativa uma cópia inferior das tradições existentes da religião civilizada. O navegador pensou ser o primeiro a descobrir a Inglaterra; eu julguei ser o primeiro a descobrir a Europa. Tentei fundar uma heresia só minha; e quando lhe dei o último acabamento descobri que era a ortodoxia. (CHESTERTON, G. K. Ortodoxia).

Não me lembro de uma influência tão marcante, depois do Senhor Jesus – creio que seja preciso dizer –, do que a impressa em mim pela leitura das obras de C. S. Lewis; isso logo nos primórdios de minha conversão ao cristianismo.

Dietrich Bonhoeffer também foi fundamental, mas posterior e de maneira diferente.

Lewis é um tipo fascinante. Acho que, principalmente, por ter sido a criança que não fui. Não que eu não goste da criança que fui, mas porque, de certa maneira, foi ele, e não eu, que entrou em contato com as óperas de Richard Wagner – uma paixão mais que tardia, em meu caso – ainda na infância. Alguém que pode, nessa mesma infância, vislumbrar os versos arrebatadores de Longfellow, em sua tradução do poema Drapa, de Isaías Tegner:

I heard a voice, that cried,

“Balder the Beautiful

Is dead, is dead!”

[Ouvi uma voz, que chorava,

“Bálder, o Belo,

Está morto, está morto!”][1]

e ser fisgado, como um peixe, pelo que chamou de Alegria, a “Flor Azul” de Novalis.

Também foi ele, e não eu, um “produto de longos corredores, cômodos vazios e banhados de sol, silêncios no piso superior, sótãos explorados em solidão, ruídos distantes de caixas-d’água e tubos murmurantes, e o barulho do vento sobre as telhas. Além disso, de livros infindáveis”[2].

Veja, caro leitor, não falo isso com inveja; digo mais por causa de minha fascinação por elementos biográficos formadores, do que por qualquer outra coisa. Tenho os meus, é certo, mas descobrir os de outros – principalmente daqueles que admiro – provocam em mim uma espécie de nostalgia por quem não fui.

Lembro-me de ter lido avidamente a biografia de Thomas Merton – o famoso monge (e poeta) trapista americano – e entrado em crise. Os elementos formadores vividos em seu período universitário são descritos de maneira fascinante! E também de ter lido a autobiografia de Eric Voegelin – tema de meu TCC em Filosofia, dada a paixão imediata – numa única noite, completamente extasiado.

O anseio incontido – quase desesperado – de Lewis pela Alegria, de certa forma, se parece com o meu. Mas eu nunca consegui denominá-lo, ou sequer percebê-lo, até minha própria conversão. Acho que ele também; mas registrou isso num livro, e eu não (risos).

A Alegria, para Lewis, é “uma espécie particular de infelicidade ou pesar. Só que do tipo que queremos”. Uma ânsia pelo inatingível, só comparada ao anseio por Deus. Com isso, quero concordar com o que disse o cineasta Andrei Tarkovski: “A arte nasce e se afirma onde quer que exista uma ânsia eterna e insaciável pelo espiritual, pelo ideal”; e completa dizendo que “o artista é sempre um servidor, e está eternamente tentando pagar pelo dom que, como que por milagre, lhe foi concedido” [3]. Todo artista é, de fato, um “refém” da Alegria.

A imaginação artística que se apoderou de Lewis na infância só chegou a mim, com a devida intensidade, perto dos trinta anos. Se bem que, a primeira experiência de deslumbramento artístico que tive foi com a leitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis, nos tempos de Ginásio (hoje Fundamental II). A dúvida “Capitu-traiu-ou-não-traiu” me foi avassaladora! Não consegui parar de ler, mesmo depois de passado o dia da prova (vê-se o interesse no livro per se). E não obstante todo o absurdo de ter-se que ler livros para ser avaliado – o que causava ojeriza em qualquer garoto propenso a não estudar – terminei a leitura de Dom Casmurro, digamos, realizado. E fim, esse foi o único livro que li na infância.

Só voltei a ler na adolescência, por alguma influência que ignoro. Mas se continuei – e melhorei o nível, passando de Paulo Coelho a Tolstói – foi por influência direta de meu pai, um ávido leitor.

Voltando a Lewis.

Clive Staples Lewis (Jack, como gostava de ser chamado) nasceu em Belfast, na Irlanda do Norte, em 1898, filho de um advogado e da filha de um pastor. Cresceu num ambiente de cristãos nominais e nada fervorosos. Perdeu a mãe aos nove anos de idade, uma experiência que o marcara profundamente[4].

Lewis relata três bênçãos fundamentais de sua infância: (1) “bons pais, boa comida e um jardim (que então parecia grande) onde brincar”; (2) a babá Lizzie Endicott, “na qual mesmo a exigente memória da infância não consegue apontar falhas”; e (3) seu irmão Warren (Warnie) Lewis, um companheiro durante toda a vida[5].

Depois de passar por alguns professores particulares e por internatos – e aqui vale destacar a figura marcante de W. T. Kirkpatrick, professor que Lewis comparava a uma “entidade puramente lógica”, ocupando um capítulo inteiro de sua autobiografia e cuja importância foi ter lhe ensinado a pensar – recebe uma bolsa de estudos em Oxford. No mesmo ano, ingressa em um batalhão do Exército para servir na Primeira Guerra, de onde voltaria, ferido, quase dois anos depois.

Depois de concluídos seus estudos, consegue um cargo de instrutor no Magdalen College, em Oxford, onde permaneceu por 29 anos!

Em Oxford conheceu homens cuja grande amizade desfrutaria por toda a vida, sobretudo: J. R. R Tolkien, Nevill Coghill, Hugo Dyson, Owen Barfileld e Charles Williams. Com estes (e outros) formaria os Inklings, espécie de confraria intelectual, que se reunia para ler e debater seus temas favoritos. O grupo existiu formalmente de 1933 até meados de 1949. Num Pub, em Oxford, chamado The Eagle and Child ou no próprio escritório de Lewis no Magdalen College, foram gestadas e discutidas as grandes obras destes homens; com destaque para O Senhor dos Anéis, de Tolkien – cujo encorajamento de Lewis foi fundamental, e sem o qual, disse Tolkien, ele nunca teria terminado e publicado – e também As Crônicas de Nárnia, de Lewis, obra influenciada por Tolkien, e também duramente criticada por este, por causa de seu tom excessivamente alegórico.

Foi também por influência dos Inklings que Lewis voltou ao cristianismo.

Após longos anos de ateísmo materialista e pessimismo, Lewis toma contato com as obras de George MacDonald e G. K. Chesterton. O choque ao ler Phantastes, de MacDonald, com “suas jornadas pelas matas, os inimigos fantasmagóricos, as damas boas e más da narrativa” o extasiaram. Diz ele: “pela primeira vez o canto das sereias soava como a voz da minha mãe ou da minha babá”[6]. Quando ferido, num hospital na França, teve o primeiro contato com um volume de ensaio de Chesterton. Lewis relata: “Talvez fosse de se esperar que meu pessimismo, ateísmo e ódio do sentimentalismo fizessem dele para mim o menos atraente de todos os escritores. Parece até que a Providência, ou alguma ‘causa segunda’, de uma espécie bem obscura, supere nossas inclinações anteriores quando decide aproximar duas mentes”[7].

Daqui para frente Lewis estaria a um passo da crença. E diz ainda: “Na leitura de Chesterton, como na de MacDonald, eu não sabia aquilo em que estava me enredando. O jovem que deseja se conservar ateu ortodoxo não pode ser seletivo demais nas leituras. A ciladas estão em toda parte – Bíblias abertas, milhões de surpresas, como diz [George] Herbert – ‘finas malhas e armadilhas’”[8].

Ainda vale a pena citar um trecho sobre Chesterton e MacDonald, descrevendo a reação de Lewis aos dois antes de sua conversão:

“George MacDonald fizera mais por mim que qualquer outro escritor; logicamente, era uma pena ter ele aquela espécie de obsessão com o cristianismo. Ele era bom, apesar disso. Chesterton era mais sensato que todos os outros modernos juntos; salvo, é claro, seu cristianismo. […] O desfecho de tudo pode praticamente ser expresso pela corruptela do grande verso de Roland, na Chanson: ‘os cristãos estão errados, mas todos os outros são chatos’”[9].

Dali,  então, passou a considerar alguma forma de idealismo, mas sem relação alguma com qualquer tipo de divindade. Porém, quando percebeu, por onde olhava via cristãos, ou religiosos; e se viu exposto. Relata, num tom ligeiramente cômico:

“A raposa fora expulsa da Floresta Hegeliana e agora corria em campo aberto, ‘com toda a angustia do mundo’, desgrenhada e exausta, os cães já no seu encalço. E quase todos agora (de uma forma ou de outra) faziam parte da matilha: Platão, Dante, MacDonald, Herbert, Barfield, Tolkien, Dyson, a própria Alegria. Tudo e todos se haviam unido do outro lado”[10].

E quando menos esperava…:

“Aquilo que eu temia tanto pairava afinal sobre mim. Cedi, enfim, no período do ano letivo subsequente à Páscoa de 1929, admitindo que Deus era Deus, e ajoelhai-me e orei: talvez, naquela noite, o mais deprimido e relutante converso de toda a Inglaterra”[11].

No entanto, é importante salientar que até então Lewis só se convertera a uma espécie de teísmo, sem ainda admitir a obra de Jesus Cristo. Mas aqui, toda sua longa vivência como um estudioso e amante da Imaginação e dos Mitos o ajudou, e muito. Numa conversa com Tolkien e Dyson sobre mitos, ele finalmente começou a compreender a Encarnação. A esse respeito, quem escreve é seu biógrafo David Downing:

“No dia 1º de outubro de 1931, chegou a palavra definitiva, quando Jack escreveu a Arthur [Greeves]: ‘Acabo de passar do crer em Deus ao crer definitivamente em Cristo – no cristianismo’, acrescentando que ‘seu longo passeio noturno com Dyson e Tolkien estava diretamente relacionado a isso’. Jack descrevera seu longo passeio com J. R. R. Tolkien e Hugo Dyson numa carta a Arthur na semana anterior, dizendo que os três haviam começado a falar sobre metáfora e mito logo após o jantar, continuando a conversa enquanto caminhavam ao longo do Addison’s Walk perto do alojamento de Jack no Magdalen College e só foram dormir às quatro da manhã. […] De modo específico, proporcionou-lhe um modo de entender a encarnação como o cumprimento histórico dos mitos do Deus-que-morre encontrados em muitas culturas”[12].

Uma semana depois – e antes da carta enviada a Greeves -, num passeio de moto com seu irmão até o zoológico, Lewis diz:

“Sei muito bem quando se deu o passo final, embora me escape como. Fui levado até Whipsnade numa manhã ensolarada. Quando partimos, eu não acreditava que Jesus Cristo é o Filho de Deus, e quando chegamos ao zoológico, já cria”[13].

Muito se poderia dizer ainda sobre a vida de C. S. Lewis: seu casamento com Joy Davidman, suas riquíssimas e comoventes trocas de cartas, suas doações generosas, o abrigo de crianças na guerra etc; mas foi essa história, de uma conversão incomum e sem grandes arroubos emocionais – como a minha – que fez de Lewis uma de minhas maiores influências. Inspiram-me, sobretudo, o grande escritor religioso e defensor da fé que Lewis se tornou depois que encontrou a Cristo – não obstante os constantes protestos (e até certo afastamento) de seu grande amigo J. R. R. Tolkien, para quem a Teologia deveria ser assunto para “profissionais”. Produziu obras magistrais como Cristianismo Puro e Simples[14], O Problema do Sofrimento, Os Quatro Amores, A Abolição do Homem e As Crônicas de Nárnia, e que o transformaram, notoriamente, num gênio a serviço do Reino de Deus.

Paulo Cruz

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Referências bibliográficas

CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2007.

DOWNING, David. C. S. Lewis – o mais relutante dos convertidos. São Paulo: Vida, 2006.

DURIEZ, Colin. Tolkien e C. S. Lewis – O dom da amizade. São Paulo: Nova Fronteira, 2006.

LEWIS, C. S. Supreendido pela Alegria. São Paulo: Mundo Cristão, 1998.


[1] LEWIS, 1998, p. 24.

[2] Ibid. p. 18.

[3] TARKOVSKI, 2002, p. 40.

[4] Com a morte de minha mãe, toda a felicidade serena, tudo o que era tranquilo e confiável, desapareceu de minha vida. Estava por vir muita diversão, muitos prazeres, muitas punhaladas da Alegria; mas nada da velha segurança. Agora era mar e ilhas; o grande continente afundara como Atlântida. (LEWIS, 1998, p. 28).

[5] LEWIS, 1998, pp. 13, 14.

[6] LEWIS, 1998, p. 184.

[7] Ibid., p. 194.

[8] Ibid., p. 196.

[9] Ibid., pp. 218, 219.

[10] Ibid., p. 229.

[11] Ibid. p. 232.

[12] DOWNING, 2006, p. 156.

[13] LEWIS, 1998, p. 242.

[14] Transcrição de uma série de programas que Lewis apresentou na Rádio BBC no tempo da 2ª Guerra, a pedido dos próprios combatentes.