Arquivo do mês: agosto 2013

O guardião da ortodoxia girardiana

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Robert Hamerton-Kelly

Robert Hamerton-Kelly (Dez 26, 1938 – Jul 7, 2013) 

Uma experiência edificante

Lembro-me do dia 03 de setembro de 2011 como se fosse hoje. No Espaço É Realizações desenrolava-se o Seminário Internacional René Girard (1923 – 2015). Gabriel Andrade, doutor em Ciências Humanas pela Universidade de Zulia, na Venezuela, e “biógrafo intelectual” de Girard (livro aqui), proferia uma palestra que destoava (e muito) daquilo que grande parte das pessoas que ali estavam conheciam sobre o “pai” da Teoria Mimética.

Não me lembro exatamente do conteúdo da palestra – que, se Deus quiser, um dia será, juntamente com as outras, lançada em DVD ou (quem sabe?) disponibilizada no YouTube –, mas, tentando resgatar seu conteúdo pelo autor, encontrei na Internet uma entrevista em que Andrade responde à seguinte pergunta:

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Palestra de Gabriel Andrade

 Por que você afirma ser necessário expurgar o religioso na teoria mimética?

Gabriel Andrade – Vejo como muito difícil aceitar racionalmente a existência de Deus. Não há provas de sua existência e, ademais, creio que haja provas de sua inexistência. (Fundamentalmente, o problema do mal: se Deus é bom e onipotente, por que permite o sofrimento?). De forma tal que o único modo possível de crer em Deus é mediante a fé, e creio que uma pessoa racional não pode conduzir seus juízos pela fé. Parece-me que o principal problema da fé é que ela conduz ao relativismo: se por fé é legítimo aceitar que Maria foi virgem, por que não aceitar por fé que Joseph Smith teve um encontro com o anjo Moroni? A obra de Girard trata de oferecer alguns argumentos apologéticos para tratar de convencer-nos de que a Bíblia foi divinamente revelada e que, então, Deus existe. Mas esses argumentos me resultam ser muito débeis e creio que só convenceriam ao que já está convencionado de que a religião cristã é verdadeira. Contrariamente à opinião generalizada, parece-me que realmente existe uma oposição entre ciência e religião. Nisso acompanho autores ateus como Richard Dawkins , Sam Harris  e Daniel Dennett . Há, contudo, aspectos da obra de Girard que são bastante resgatáveis para uma pessoa com mentalidade científica, sempre e quando não se empreguem como elementos apologéticos a favor do cristianismo [1].

O tom da palestra foi mais ou menos o da resposta acima.

Ao final da exposição de Andrade, liberaram para perguntas.

E eis que uma voz de trovão retumba! O auditório treme e se volta para uma figura alta e imponente; um senhor grisalho e com um jeitão desleixado de quem não estava “dando muita bola pra torcida”. Ledo engano.

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A pergunta de Hamerton-Kelly

Essa figura ‘sui generis’ era Robert Hamerton-Kelly, Deão da Stanford Memorial Church, na Universidade de Stanford, teólogo e pastor Metodista, que em julho deste ano foi morar com Deus. Hamerton-Kelly seria um dos palestrantes do dia seguinte.

O teólogo desbancou Gabriel Andrade com algo mais ou menos assim:

Desculpe, mas você não sabe o que está falando! Seus argumentos são infantis e já foram refutados há muito tempo. Esse é o problema de quem só lê autores Iluministas sem nunca, ao menos, se dar o trabalho de estudar teologia seriamente. Essa é minha especialidade, e garanto que você não sabe o que está falando.

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Hamerton-Kelly explica para Andrade a incoerência de sua abordagem.

Houve um “Ooooooooooh” geral na plateia. Andrade ainda tentou se justificar, mas ficou tão evidente o abismo de conhecimento que separava esses dois girardianos, que ele foi obrigado a ceder.

No dia seguinte, em sua própria palestra, Hamerton-Kelly deixou bem claro:

A Teoria do Desejo Mimético e do Bode Expiatório não podem, em hipótese alguma, ser separadas de seu conteúdo teológico!

Sim, esse era Robert-Hamerton-Kelly, amigo pessoal de René Girard e, provavelmente, o mais fiel guardião de seu pensamento.

Uma curiosidade: Hamerton-Kelly foi amigo de Eric Voegelin; inclusive, realizou os serviços de seu funeral na Stanford Memorial Church, como nos conta Paul Caringella:

The funeral plans were made by Eric himself in the presence of his wife Lissy and the Dean of Stanford Memorial Church, Robert Hamerton-Kelly, in Eric’s room at the Stanford Hospital in early December of 1984. I was also present. Eric said that he wanted the Lutheran order to be followed for his funeral.[2]

O guardião se foi. Girard, que está vivo e com 89 anos, já não tem mais o vigor necessário para proteger seu patrimônio intelectual dos deturpadores mesquinhos. Só nos resta pedir a proteção divina – e que Deus levante novos girardianos comprometidos com o pensamento de Girard.

Descanse em Paz, Robert Hamerton-Kelly!

Ps.: Dia 05 de novembro de 2015, o grande René Girard foi encontrar o Dr. Robert Hamerton-Kelly. Que Deus os tenha num excelente lugar!

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Veja um vídeo de Robert Hamerton-Kelly aqui.

Outro aqui, sobre a Antropologia da Cruz, numa entrevista concedida a Daniel Lance.
E aqui, um link para seu livro, “Violência Sagrada: Paulo e a Hermenêutica da Cruz”, publicado pela É Realizações.
Violencia Sagrada