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Lutero e o ofício de escritor

martin-Luther

Dedicado ao escritor e amigo Karleno Bocarro

Um sermão sobre Educação[1]

Para além do reformador religioso contumaz, Lutero foi um homem extremamente preocupado com a Educação. Em seus escritos sobre o assunto, há sentenças categóricas como:

Quando eu era moço, era corrente nas escolas o seguinte ditado: “Non minus est negligere scholarem quam corrumpere virginem” — “negligenciar um estudante não é crime menor do que violentar uma virgem”. Isso foi dito para alertar os professores, pois naqueles tempos não se conhecia pecado maior do que violar uma moça.[2]

O excerto abaixo é parte de uma prédica redigida em 1530 e enviada a Lázaro Spengler, secretário do Conselho da cidade de Nürnberg. Nele, Lutero fala do ofício de escritor:

 “[…] No entanto, existem certos fanfarrões que consideram o nome de ‘escritor’ quase indigno de ser pronunciado ou ouvido. Não te importes com isso. Pensa assim: esses bons companheiros também precisam algo com que se divertir e alegrar. Deixa que se divirtam. Tu, porém, continues sendo um escritor perante Deus e o mundo. Por mais que cavaqueiem, podes observar que, não obstante, estimam a pena ao extremo; colocam-na em seus chapéus e elmos, como se assim quisessem reconhecer concretamente que a pena é o máximo do mundo, sem a qual não estariam armados para a luta, nem a viver em tempos de paz; muito menos fanfarronar com tanta segurança. Pois também eles se valem da paz que os pregadores e mestres (os juristas) do imperador ensinam e mantém. Vês, portanto, que colocam nosso instrumento de trabalho, a amada pena, no lugar de maior destaque (como convém), enquanto cingem o instrumento de seu próprio ofício na cintura; ali ele fica no lugar devido e apropriado para seu ofício. Ele não ficaria bem na cabeça; lá tem que flutuar a pena. Se pecaram contra ti, pois bem, esta é tua penitência; deves perdoar-lhes.

“Já que me ocorreu que muitos desses fanfarrões são tão hostis ao ofício de escritor — pois ignoram ou não se dão conta de que é um ofício e obra divina, e também não enxergam o quanto ele é necessário e útil para o mundo; e se o percebessem (que Deus o permita), de qualquer forma já seria tarde — faze o seguinte: deixa-os e procura excelentes e piedosos nobres, como o finado conde Jorge von Wertheim, senhor João von Schwarzenberg, senhor Jorge von Fronsberg e outros também falecidos (sem falar dos que ainda vivem).

“[…] Há os que pensam que o ofício de escritor é simples e fácil. Mas montar armado, suportar calor, frio, pó, sede e outros incômodos, isso, sim, seria um trabalho de verdade. Pois é. Esta é a velha e conhecida cantilena diária: ninguém vê onde aperta o sapato do outro. Cada qual sente apenas seu próprio infortúnio e cobiça a fortuna do outro. Sem dúvida, eu teria dificuldades se tivesse que montar armado. Por outro lado, gostaria de ver o cavaleiro capaz de ficar sentado quieto o dia inteiro com os olhos fixos num livro, mesmo que não precisasse preocupar-se com nada, nem imaginar, pensar ou ler qualquer coisa. Pergunta a um secretário de chancelaria, a um pregador ou orador o quanto é trabalhoso escrever e discursar; pergunta a um professor o quanto é penoso ensinar e educar meninos. É verdade, a pena é leve, e não há instrumento de trabalho, em nenhuma atividade, mais fácil de ser confeccionada do que a do escritor, pois ele só precisa da pena de ganso. E elas existem em abundância e de graça. No entanto, neste caso, quem apanha e mais tem que trabalhar são as melhores partes do corpo humano: a cabeça, o membro mais nobre, a língua e a faculdade suprema, a fala; enquanto em outras atividades trabalha somente o punho, os pés, as costas ou outros membros semelhantes. E enquanto trabalham, podem cantar alegremente e fazer brincadeiras, coisas que o escritor não pode.Três dedos bastam, se diz a respeito do escritor, mas todo o corpo e a alma estão empenhados.”[3]


[1] LUTERO, Martinho. “Uma prédica para que mandem os filhos à Escola”. In: Obras Selecionadas – Vol. 5. São Leopoldo: Sinodal, 1995. Tradução de Ilson Kayser.

[2] LUTERO, Martinho, 1995, p. 307.

[3] LUTERO, Martinho, 1995, pp. 355, 356.


O Egípcio

“O Egípcio”, de Mika Waltari

O poder transformador da leitura.

O primeiro livro que li inteiro foi “Dom Casmurro”. Porém, o primeiro que me arrebatou foi “O Egípcio”.

Leitura incentivada no início da década de 1990, por meu amado e saudoso pai, Antônio da Cruz (05/04/1940 – 09/11/2012). Lembro-me até hoje de sua insistência – o livro é um catatau com mais de 600 páginas e eu era apenas um adolescente em ebulição. Eu dizia: “pai, esse livro é muito grosso!”. E ele respondia: “se você ler três páginas deste livro, não conseguirá parar mais!”. Dito e feito!

Na época, eu chegava da escola, almoçava e ia para seu escritório, trabalhar. Ele me passava o serviço – em geral, serviços de fórum e prefeituras – e eu ia, “Egípcio” debaixo do braço, lendo vorazmente onde quer que encontrasse um tempo: ônibus, metrô, filas.

Obs.: conheci toda a cidade de SP assim, trabalhando (iniciei aos 14 anos). Ele me dizia: “tem de ir ao fórum da Lapa”. Eu dizia: “como faz pra ir?”. E ele: “não sei, só sei ir de carro” – e me lembrava do “Mensagem a Garcia”. E eu saía perguntando; e sempre chegava ao destino.

Voltando ao “Egípcio”. Meu pai nunca perdia a oportunidade de ler para mim o último parágrafo do livro (em negrito, ao final). Fazia sempre que o tinha à mão; e emocionado, dizia: “não é maravilhoso?!”

Pois é! E curiosamente, após sua morte, essa história se tornou profeticamente emblemática para mim: meu pai é o meu Sinuhe.

Descanse em paz, Dr. Antônio.

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“Eu, SINUHE, filho de Senmut e de sua mulher Kipa escrevo isto. Não o escrevo para a glória dos deuses da terra de Kan, porque estou cansado de deuses, nem para a glória dos faraós, porque estou cansado de seus feitos. Tampouco escrevo por medo ou por qualquer esperança  no futuro; escrevo para mim, apenas. O que vi, conheci e perdi durante a minha vida, foi coisa demasiada para que me domine um vão temor; e, quanto a algum desejo de imortalidade, estou tão exausto disso quanto dos deuses e dos reis. É apenas por minha causa que escrevo, por tal motivo e essência diferindo eu de todos os escritores passados e vindouros.

[…]

“Isto tudo eu, Sinuhe, o egípcio, escrevi; e apenas para mim. Não escrevi para os deuses nem para os homens; e nem para imortalizar o meu nome. Apenas para dar paz ao meu coração cuja cota está agora servida de vez. Sei que logo depois da minha morte os guardas destruiriam, se pudessem, tudo quanto escrevi. Sim, pois, por ordem de Horemheb porão abaixo as paredes da minha casa. Aliás, creio que tudo isso tanto se me dá. Seja como for, a verdade é que estou conservando cuidadosamente estes livros que escrevi, e Muti trançou uma rija cobertura de fibra para cada um deles. Guardo estes livros assim protegidos dentro de uma caixa de prata, e a caixa de prata está dentro de uma caixa de madeira grossa que por sua vez se acha dentro de uma outra, de cobre, tal qual foram protegidos outrora os livros divinos de Toth e depois descidos ao leito do rio. Se os meus livros não caírem em poder dos guardas e se Muti os esconder  na minha sepultura, não sei. E nem me importo muito com isso.

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Eu leio porque ele lia

“Sim, pois eu, Sinuhe, sou um ser humano. Vivi em todos aqueles que viveram antes de mim, e viverei nos que vierem depois de mim. Viverei nas lágrimas e nos risos humanos, no medo e na mágoa humana, na bondade e na torpeza humana, na justiça e no erro, na fraqueza e na força. Não desejo oferendas na minha sepultura e nem imortalidade para meu nome. Isto foi escrito por Sinuhe, o egípcio, que viveu sozinho todos os dias de sua vida”.

(Trecho inicial e final do livro “O Egípcio”, obra monumental do finlandês Mika Waltari)


Lutero e a (livre) interpretação

Martin Luther

“Sim”, objetas novamente, ”se é verdade que é necessário ter escolas, de que nos adianta ensinar latim, grego, hebraico e outras artes liberais? Não se poderia ensinar a Bíblia e a palavra de Deus em língua alemã, o que nos basta para a salvação?” Resposta: Sim, infelizmente sei muito bem que sempre seremos chamados e haveremos de ser bestas e bichos loucos, pois é assim que nos chamam os países vizinhos, como certamente o merecemos. Apenas me admira por que não dizemos também: “Que nos interessa seda, o vinho, especiarias e este tipo de produtos estrangeiros, quando nós mesmos temos na Alemanha vinho, trigo, lã, linho, madeira e pedras em abundância para nosso consumo, e não somente isso, mas temos, inclusive, seleção e escolha para honrarias e jóias”? As ciências e as línguas, que não nos prejudicam, mas que, pelo contrário, nos servem de ornamento, proveito, honra e promoção (tanto para o entendimento da Sagrada Escritura como, também, para dirigir o governo secular), a estas queremos desprezar; os produtos estrangeiros, porém, que não nos são necessários nem úteis, e que, além disso, nos escorcham até os ossos, destes não queremos prescindir! Não é com razão que tais pessoas sejam chamadas de tolos e bestas?

(…)

E que seja dito o seguinte: não conseguiremos preservar o Evangelho corretamente sem as línguas. AS línguas são a bainha da espada do Espírito. São o cofre no qual se guarda essa preciosidade. Elas são o vaso que contém essa bebida. São a despensa em que está guardado esse alimento. E, como o mostra o próprio Evangelho, são os balaios nos quais se guardam esses pães e essas sobras. Sim, se o desprezarmos – Deus nos guarde disso! – a ponto de esquecermos as línguas, não perderemos apenas o Evangelho, mas chegaremos ao ponto de não mais falarmos ou escrevermos direito nem o latim nem o alemão. Como prova e advertência disso, tomemos por exemplo lamentável e assustador as universidades e conventos, nos quais não só se desaprende o Evangelho, mas também se corrompe a língua latina e alemã. Aí, então, as miseráveis pessoas quase viraram bichos; não sabem falar ou escrever corretamente nem alemão nem latim e quase perderam, inclusive, a razão natural.

(…)

Contanto que trataram as Escrituras sem o conhecimento das línguas, todas as explicações dos antigos pais, ainda que não ensinem nada de errado, revelam com muita freqüência uma linguagem insegura, desajeitada e inadequada. (…) Também o próprio Santo Agostinho tem que admitir, conforme escreve em seu livro “Da Doutrina Cristã”, que um mestre cristão, que quer interpretar a Escritura, tem de conhecer, além do latim, o grego e o hebraico. Do contrário, é impossível que não tropece em toda parte; pois isso até é muito difícil quando alguém domina bem as línguas.

(…)

Por isso é algo bem diferente o caso de um simples pregador da fé e de um intérprete da Escritura ou, como diz S. Paulo, de um profeta. Um simples pregador dispõe (é verdade), com base em traduções, de suficientes enunciados e textos claros para entender e ensinar a Cristo, viver uma vida piedosa e pregar a outros. No entanto, para interpretar a Escritura e tratá-la autonomamente e para combater aqueles que citam a Escritura erroneamente – para isso não tem formação; sem línguas isso não é possível. Mas na cristandade sempre se precisa destes profetas que estudam a Escritura e a interpretam e que e que também sejam aptos para o debate; para tanto não basta uma vida piedosa e o ensino correto.

(LUTERO, Martinho. Aos Conselhos de todas as cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs (1524). In: “Obras Selecionadas” – Vol. V, Sinodal, pp. 310-312).