Mudanças no Ensino Médio. Eu ri.

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Versão estendida de artigo publicado no jornal Gazeta do Povo, em 04/10/2016.

No último dia 22 de setembro, o Governo Federal, manifestando a costumeira e popularesca preocupação estatal (e burocrática) com a Educação, apresentou uma medida provisória com uma série de mudanças no Ensino Médio. Eu ri. Sim, em meio à consternação geral – principalmente dos meus colegas de profissão, os professores –, eu ri.

As mudanças, entre outras coisas, visam a implantar a escola de tempo integral e permitir ao aluno escolher as disciplinas que deseja cursar, de acordo com a área que lhe seja afim: Matemática e suas tecnologias;  Ciências humanas e suas tecnologias;  Linguagens, Códigos e suas tecnologias; ou Ciências da Natureza e suas tecnologias (divisão adotada pelo ENEM desde 2009). Ou, ainda, a carreira profissional que deseja seguir. Eu ri.

Em entrevista recente, a socióloga Maria Helena Guimarães de Castro, secretária executiva do Ministério da Educação, disse que há um “tédio generalizado” entre os alunos do ensino médio; que o aluno de hoje tem interesse, por exemplo, pela “produção artística de rua, que incentiva o protagonismo juvenil”. Como não rir?! Ela acha um absurdo o número de oecd-pisa-logodisciplinas obrigatórias (13) – eu também –, e que em países como Finlândia, Singapura e Austrália o currículo é flexibilizado. O que ela não disse é que esses países, no último PISA (Programme for International Student Assessment), ficaram entre os 15 melhores dos 76 avaliados. Singapura, China e Coreia do Sul lideram. O Brasil amarga a 60ª posição, atrás de países como Cazaquistão, Uruguai e Irã. É para rir ou para chorar? Decidamos após alguns fatos.

O Ensino Médio tornou-se obrigatório no Brasil em 2009, via Emenda Constitucional nº 59; os Estados teriam até 2016 para se adequarem à nova exigência – não conseguiram, evidentemente. E, segundo a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) 9394/96, é função do Ensino Médio:

1) a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos; 2) a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores; 3) o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico; 4) a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina.

Ou seja, o Estado se propõe a oferecer uma gritante contradição em termos: educação obrigatória e de qualidade. Pretende, compulsoriamente, tornar o aluno proficiente e cidadão. Mas, ironia das ironias, no mesmo dia que a MP foi apresentada, um aluno do EM me perguntou: “professor, ‘vó’ se escreve com acento ou com chapeuzinho?”. Essa é a realidade. Nossos governantes ignoram que o aluno atual NÃO QUER estudar. Ele vai à escola para socializar, como dizem os pedagogos; vai pelo Bolsa Família, pelas drogas, pela namorada, pela merenda; menos pelo ensino. Esperar que ele vença o niilismo de sua geração e escolha qual disciplina prefere é superestimar sua capacidade, hoje movida quase exclusivamente por uma espécie de prazer suicida. Chega ao EM sem saber escrever uma palavra de duas letras e muito menos fazer as operações matemáticas básicas. Generalizo, mas não muito.

Sem falar no total cerceamento politicamente correto das sanções disciplinares; o aluno agora faz o que quer.

E tem mais: uma vez que, pela Constituição, a educação é um dever do Estado, este tem de assumir a responsabilidade, inclusive, pelo aluno que se recusa a estudar. Ou seja, a evasão escolar tornou-se um problema jurídico. Se o aluno desiste, é dever do Estado arrastá-lo chico-raimundoaté a escola. Se os pais não cooperam, o Conselho Tutelar deve assumir a brincadeira. Mas, no final, a culpa sempre recai sobre o professor, que, por um salário que não chega a R$ 20 a hora/aula, não torna a aula atrativa aos “educandos”. Tem como dar certo?

Alguns objetam: “Ah! Mas o professor também não se atualiza”. Isso é verdade, mas numa estrutura decente tais professores seriam obrigados a se atualizar, ou seriam obrigados a fazer outra coisa. Os próprios alunos dariam cabo de sua carreira. A completa desorganização favorece não só o mau aluno, mas também o mau professor.

Ainda um último complicador: o Brasil assinou, em 1990, a Declaração Mundial sobre Educação para Todos, da UNESCO, entregando-se às iniciativas globalistas cujos interesses reais passam ao largo das propostas (para quem não conhece, o livro Maquiavel Pedagogo, de Pascal Bernardin, publicado pela Vide Editorial, explica tudo). Em 2000, outro tratado, atrelado a esse, foi assinado. E as metas, com prazo até 2015, eram:

1 – Educação e cuidados na primeira infância:

Expandir e melhorar a educação e os cuidados na primeira infância, garantindo, além de condições de saúde, acesso à pré-escola.

2 – Universalização da educação primária:

Garantir que, até 2015, todas as crianças tenham acesso à educação primária completa, que no Brasil corresponde aos anos iniciais do ensino fundamental.

3 – Habilidades para jovens e adultos:

Garantir o acesso equitativo a uma aprendizagem adequada para habilidades laborais e técnicas.

4 – Alfabetização de adultos:

Alcançar, até 2015, aumento de 50% no nível de alfabetização de adultos.

5 – Igualdade de gênero:

Eliminar as disparidades de gênero na educação primária e secundária até 2015.

6 – Qualidade da educação:

Melhorar a qualidade para que resultados de aprendizagem mensuráveis e reconhecidos sejam alcançados por todos.

Tudo muito lindo, mas o Brasil só atingiu as metas 2 e 5. E, sem estrutura para tal, temos hoje salas de aula absolutamente lotadas, impossibilitando o mínimo de qualidade que se poderia exigir no ensino.

Ou seja, a despeito do completo sucateamento da estrutura estatal, nossos distintos governantes ainda se aventuram em seguir modelos internacionais. E, no final,  jogam em cima do professor a responsabilidade pela maioria das metas absurdas que desejam cumprir para satisfazer interesses alheios.

“Mas esperem!” – eles dizem. “E se os alunos escolhessem as disciplinas que querem estudar, e os mantivéssemos por mais tempo sob nossa tutela?”

Sim, amigos, eu ri.

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RAP é compromisso

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The Get Down – Baz Luhrmann – 2016 (Netflix)

O senso comum da periferia foi tomado de assalto. Não é de hoje que vemos grupelhos engajados falando em nome do povo, da periferia, dos nordestinos, dos negros. Não é de hoje que a classe artística – a expressão mais exata do “cretino fundamental”, de Nelson Rodrigues – lê a realidade da periferia a partir das lentes embaçadas de um marxismo tosco (desculpem o pleonasmo), e tenta, a todo custo, fazê-la caber dentro de sua minúscula visão de mundo: a ideologia do “mundo melhor”, mãe dos maiores genocídios da história humana.

Como procurei demonstrar num pequeno artigo recente (aqui), a periferia sempre foi dotada de um grande poder de percepção de sua própria realidade – que chamei, usando o termo do filósofo Eric Voegelin, de autointerpretação –, traduzido no apego ao trabalho, na valorização da família e na vigorosa cultura local. O crime e a violência, tão presentes nos rincões esquecidos pelo Poder Público, nunca retirou da gente simples a noção do certo e do errado, da Beleza, muito menos a sua capacidade de traduzir seu sofrimento em arte. A cultura da periferia fala de si para si, e sua crítica não é sociológica (no sentido acadêmico do termo), mas tão somente uma crônica de seu cotidiano. A periferia sabe que a salvação não está nas promessas imanentistas da ideologia; muito menos na política institucional. Sempre olhou com desconfiança para os políticos, e nunca lhes entregou o seu destino; pois sabe, desde há muito tempo, que o populismo é uma arma de manipulação que aprisiona e mata. A tão conhecida tensão que vive com a polícia — que os deveria proteger –, para dar um exemplo, é só um detalhe da maneira como a periferia vê o Governo e seus agentes.

Mas pareço divagar sobre o passado. Desde que a tradição periférica — baseada num conservadorismo difuso, entranhado nas mães e pais que batalhavam duro pelo futuro de seus filhos — foi substituída pela interpretação progressista dos intelectuais engajados (através de ONG’s, partidos políticos populistas e outros parasitas), tudo mudou. Crime, aborto, drogas, casamentos desfeitos por conta da liberação sexual, movimentos ideológicos de toda sorte, violência… todo tipo de bandeira revolucionária é testada, com relativo sucesso, nas periferias. E com isso, as vãs promessas de um futuro idílico, via reformas sociais radicais, aprisionou a mentalidade da periferia – sobretudo da geração atual – numa dependência irracional do Estado. A política invadiu a cultura. A resistência virou revolução. A arte virou ideologia.

E é por isso que The Get Down, a nova série original Netflix, criada pelo diretor Baz Luhrmann (do moderníssimo Romeu e Julieta, com Di Caprio, e de Moulin Rouge), deve ser vista. Mostrando, através de um grupo de jovens, o nascimento do Movimento Hip Hop, (RAP, Break e Grafite) no Bronx (EUA), a série, passada no final dos anos 1970, desbanca completamente a idéia de que o RAP nasceu como música de protesto. O RAP é a poesia de um povo e a expressão existencial de sua condição. Como eu disse: não é crítica social, é crônica do cotidiano; não é revolta, é reflexão. É uma expressão original da Cultura Pop.

Esses jovens levavam muito a sério a sua vocação, e a série mostra isso de maneira excepcional. A técnica do verso tônico (o “skeltonic”), criada pelo poeta inglês John Skelton, no séc. XV, foi elevada a graus inimagináveis nas mãos de grupos como Sugarhill Gang e Run DMC.

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Em The Get Down, os DJ’s Grandmaster Flash e Kool Herc, considerados os pais do Hip Hop, são retratados como mestres de um conhecimento gnóstico, um segredo capaz de levar os jovens ao êxtase em meio à diversão. O scratch e o back to back são os mantras desse thegetdown_s1e02_23976_1080_177ar_20a_en_prhq_20160317-00_03_10_14-still105culto; os DJ’s são os sacerdotes; e os rappers, os profetas. Dialogando com as tendências da época, eles, ao mesmo tempo, rejeitaram a Disco Music e “samplearam” muitos de seus hits, criando um som completamente original. O combo “duas pick-ups e um mixer” é o altar onde o DJ oferece seus sacrifícios. O palco é o local onde o MC profere seus vaticínios.

Enquanto Zeek (Ezequiel Figuero), um menino prodígio, constrói com esmero seus versos numa mesa apinhada de livros de poesia (chegando a citar o poeta persa Jalal Ad-Dim Rumi), e Shaolin Fantastic (fã de Bruce Lee e a quem Grandmaster Flash chama de “Gafanhoto”) passa as noites em claro buscando o segredo get-down4das pick-ups, a jovem corista Mylene Cruz tenta driblar o rigor de seu pai, um pastor pentecostal, para seguir seu sonho de cantar Disco Music. Cada um encarando a sua arte como um sacerdócio. Lembrando as palavras do cineasta Andrei Tarkóvski: “o poeta é um servidor, e está sempre tentando pagar pelo dom que, como que por um milagre, recebeu”.

Esses jovens não eram tolos, havia mais cultura entre eles do que se pode imaginar. Uma cultura integrada, não essa coisa segregada que querem hoje impor à periferia. Ainda não 22289_tupac-shakurhavia se disseminado a bobagem da Apropriação Cultural, e rappers como Tupac Shakur (2 Pac), puderam estudar ballet e representar peças de Shakespeare – como ele realmente o fez.

Em meio às questões familiares já conhecidas – o idealismo dos jovens e a preocupação conservadora dos pais –, e o cotidiano violento do Bronx, The Get Down nos faz mergulhar no universo musical riquíssimo do Hip Hop, mostrando que o desejo mais profundo daquela juventude era pura e simplesmente fazer ARTE — gostemos ou não. Há muita música e dança em The Get Down, muita diversão e alegria, mas também uma boa dose daquele drama tão comum na juventude: as escolhas individuais.

O RAP como crítica social surgiu somente quando os rappers começaram a se envolver diretamente com grupos políticos de esquerda – sobretudo as ervas daninhas marxistas – que lhes botou cabrestos ideológicos.

Por isso, mesmo que não gostemos de RAP, mesmo que The Get Down não seja uma série perfeita – como Downton Abbey é para um conservador – vale a pena conferir como surgiu uma das maiores expressões da Cultura Pop dos últimos 30 anos, e ver que a periferia não é – ou pelo menos não deveria ser – somente aquele celeiro de luta de classes que a intelligentsia quer nos enfiar goela abaixo.
Paulo Cruz.

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Viva a sociedade alternativa (#SQN).

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A Comunidade (Kollektivet) – 2016

Thomas Vinterberg

“Não temos nenhum gosto pelos costumes que, sob pretexto de satisfazerem plenamente o sexo, tornam o homem vazio de tudo o mais”. (Gustave Thibon)

 

Os anos 60 foram pródigos em idéias estúpidas e nocivas. Herbert Marcuse, Norman O. Brown et caterva rechearam o mundo de sandices revolucionárias disfarçadas de anti-guerra, anti-consumismo etc., mas que eram somente teorias anti-razão. Os Marcuse-horzapóstolos do sensualismo messiânico desejavam salvar a humanidade por meio do sexo livre e do consumo de drogas.

Uma das ideias mais curiosas dessa época foram as Comunidades Alternativas, nas quais grupos de hippies se juntavam para viver uma vida longe da sociedade burguesa-consumista-armamentista-opressora, felizes da vida cantando Imagine e Give Peace a Chance. Desejando fazer amor e não a guerra, levavam uma vida sem distinção de família, todos cuidando de todos (ou não), num clima de liberdade sem amarras.  Roupas  – e a racionalidade – eram opcionais.

article-2668985-000A073900000258-584_964x682O uso de maconha e outros alucinógenos (como o LSD) eram os principais ingredientes para estimular a criatividade e proporcionar “experiências espirituais”. Em atitude crítica ao Cristianismo, passaram a reverenciar o Hinduísmo, através de figuras como o músico Ravi Shankar e os gurus Swami Bhaktivedanta Prabhupada e Maharishi Mahesh Yogi. Os Beatles foram os condutores dessa carreata alternativa desgovernada.

Estavam em busca de um novo Éden; ou melhor, de uma nova Queda. Nas palavras do próprio Marcuse – a divindade pagã desse movimento:

“Se a culpa acumulada na dominação civilizada do homem pelo homem pode alguma vez ser redimida pela liberdade, então o pecado original deve ser cometido de novo: Devemos comer de novo da árvore do conhecimento, para retornarmos ao estado de inocência”[1].

Zulu+Premiere+Closing+Ceremony+66th+Annual+Ad2maEEshmPlThomas Vinterberg[2], o genial diretor dinamarquês responsável pelos maravilhosos (e perturbadores) A Caça (2012) e Submarino (2010), bem como pelo magnum opus do movimento Dogma 95[3], Festa de Família (1998), adentrou o ambiente alternativo para
mostrar o seu lado, digamos, convencional. Para tal, não escolheu malucos-beleza típicos, mas gente séria e respeitável, que simplesmente deseja colocar em prática, graças a uma oportunidade circunstancial, o antigo desejo de viver em comunidade.

A história se passa no início dos anos 1970, em Copenhague, na Dinamarca. Erik e Anna Møller, interpretados pelos excepcionais Ulrich Thomsen e Trine Dyrholm, são um casal de classe média – ele, professor de arquitetura; ela, âncora de um jornal televisivo. Completa a família a adolescente Freja (leia-se Fraya), moça de rosto angelical e um tantinho melancólico.

Erik recebe em testamento, de seus pais falecidos, uma casa grande, com três andares e muitos cômodos. Uma rápida visita com o corretor, e a notícia sobre o valor do imóvel, o fazem decidir-se por vendê-la, pois sabia que o custo para manter uma casa tão grande seria alto demais para seus padrões. Porém, Anna propõe ao marido, com uma insistência resoluta, que eles fiquem com a casa e convidem alguns amigos para dividir as despesas, e vivam a tão sonhada experiência (dela) de numa comunidade alternativa. O diálogo revela as reservas do marido:ole-horz

– Eu chequei duas vezes, 5
70 coroas por mês para o aquecimento é demais. Não podemos ficar nesta casa. Ela é grande demais.

– Podemos chamar mais gente, ligar pra Ditte, pro Ole…

– Não, não podemos. Eu sei o que você quer Anna, não vou morar numa comunidade. Eu fico cansado só de pensar. Sou velho pra isso também.

[…]

– Estou entediada, Erik. Alguma coisa tem que acontecer. […] Preciso ouvir outras pessoas também… ou vou enlouquecer. É uma casa grande, maravilhosa, deve ser ocupada por pessoas maravilhosas.

Então ela o “convence”, e por meio de indicações e entrevistas escolhem os demais membros da confraria. E lá chegam: o divorciado Ole; o casal de professores Steffen e Dritte Johansen, com o pequeno Villads, que tem problemas cardíacos; a ruiva riponga Mona; e o imigrante libanês chorão Allon, que não tem emprego fixo e vive de biscates. Com tudo acertado – inclusive um sistema de voto para as decisões importantes – a comemoração não poderia ser diferente: um mergulho nas águas frias do mar escandinavo…todo mundo nu.

O visível incomodo de Erik com a situação é contrastado pela felicidade contagiante de Anna. E apesar de não viverem num clima de total liberdade sexual, há certas liberdades entre eles – como a nudez e os “selinhos” – que constrangem Erik, um homem mais reservado. Suas tentativas de tratar de assuntos familiares são sufocadas pela total falta de privacidade inerente a qualquer ambiente coletivo. À mesa do jantar, a balbúrdia quase o enlouquece, e ele passa a se irritar com frequência. Enquanto isso, Freja – aparentemente encorajada pelo comportamento liberal da família – vive suas primeiras experiências sexuais com um jovem de sua escola.

Claro que isso não daria certo.

De repente, Erik e Anna se vêem diante de uma crise de proporções inconciliáveis, e ter de lidar com isso era algo para que ela, tão firme em seu desejo por transgredir padrões, absolutamente não estava preparada

Como bem diagnosticou Theodore Dalrymple, falando sobre a Revolução Sexual:pic_related_032115_SM_Dalrymple

“O coração quer coisas contraditórias, incompatíveis; as convenções sociais surgiram para resolver alguns conflitos de nossos próprios impulsos; a eterna frustração é uma companheira inescapável da civilização, como Freud observara – todas essas verdades recalcitrantes não foram percebidas pelos proponentes da liberação sexual, o que condenou a revolução ao fracasso definitivo”.[4]

Vinterberg, como sói acontecer com o excelente cinema nórdico, nos faz mergulhar nas contradições do espírito humano, revelando que, ao contrário do que querem os ideólogos – que tentam moldar o mundo de acordo com suas teorias – a realidade sempre acaba por se impor. Porém, em geral, até que isso aconteça, o dano causado pelas ideologias deixa rastros de destruição por toda parte.

A Comunidade não é uma obra-prima, mas é um ótimo filme. Um drama com pitadas de comédia, com fotografia incrível e atuações muito boas. Os temas são tratados sem pedantismo ou pieguice, e Vinterberg é sempre sincero, sabe como conduzir uma história e ir fundo nas contradições com aquele típico espírito kierkegaardiano – de quem entende que:

kierkegaard1“O nosso tempo entrega-se de tal maneira à voluptuosidade do estético, encontra-se de tal forma inflamado e propício à fecundação, que concebe com a facilidade da perdiz, à qual basta, segundo diz Aristóteles, ouvir a voz do macho ou sentir o seu vôo por cima dela”.[5]

Assistam, pois!

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[1] MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização. Zahar, p. 175. Tradução: Álvaro Cabral.

[2] http://www.imdb.com/name/nm0899121/

[3] http://oglobo.globo.com/cultura/filmes/lancado-ha-20-anos-manifesto-dogma-95-lembrado-em-ciclo-de-filmes-16103947

[4] DALRYMPLE, Theodore. A vida na sarjeta. É Realizações, p. 69. Tradução: Márcia Xavier de Brito.

[5] KIERKEGAARD, Sören. O desespero humano. Abril Cultural. Tradução: Maria José Marinho.


HIMENEU ACORRENTADO

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Casamento Silencioso (Nunta Mută) – 2008

“Toda a tragédia do comunismo é simbolizada pela pretensão alucinante de uma minoria de encarnar uma elite cujos escopos utópicos  canonizem também os seus métodos mais bárbaros”. (Vladimir Tismăneanu)

Em 1953, a Romênia vivia sob o domínio soviético. O sanguinário Nicolae Ceaușescu, que ceausescu_14chegaria ao poder total somente na década de 1970, já era um rato a sorrateiramente conquistar espaço dentro da hierarquia comunista que dominava seu país. Porém, desde o fim da Segunda Guerra, quando o rei Mihai (Miguel) I se aliou aos stalinistas – para depois, em 1947, ser deposto e ter de se exilar no Ocidente –, o povo romeno agonizava sob a “intimidação soviética”. Nas palavras do cientista político Vladimir Tismăneanu:

Vladimir-TismaneanuAs formações comunistas locais seguiram um modelo de destruição sistemática dos
partidos não comunistas, de desintegração da sociedade civil e de ocupação do tipo monopolista do espaço público por intermédio dos rituais ideológicos controlados pelo estado com a ajuda das instituições repressivas dos novos regimes.[1]

E é, sobretudo, a respeito dessa “desintegração da sociedade civil” que trata o filme Casamento Silencioso (Nunta Mută), rodado em 2008, na Romênia, sob direção de Horaţiu Mălăele, veterano ator e diretor de teatro. Trata-se de uma grande crítica ao absolutismo comunista e sua sanha violenta pelo controle total da sociedade.

O filme se inicia nos dias atuais, com uma equipe de televisão que estuda fenômenos paranormais, indo às ruínas de um vilarejo onde se diz ocorrerem tais excentricidades. Gogonea, o prefeito local, é quem os conduz. Ao chegar, deparam-se com um lugar inóspito – que, como diz o prefeito em tom irônico, foi destruído pelos comunistas para a vilaconstrução de uma fábrica, mas que agora está sendo destruído pelos capitalistas para a construção de uma vila para ricos –  e encontram uma velha prostituta, Marinela, com quem têm uma conversa estranhamente animada. Mas, de repente surge um grupo de senhoras, de semblante sorumbático, vestidas de preto e carregando velas como num cortejo. O diretor fica bastante intrigado, e pergunta ao prefeito o que, de fato, ocorrera naquele lugar. Então o prefeito lhes conta.

Nesse momento somos remetidos a 1953, àquele pequeno vilarejo, que então exalava as cores e os aromas da primavera. Somos apresentados a um povo alegre e expansivo – nãocomunas obstante o “fantasma do comunismo”, que o assombra insistentemente. As referências iniciais ao regime stalinista são satíricas; o bom humor é um modo de resistência à invasão bárbara (voltaremos a isso). Numa das primeiras cenas, a alegria e a descontração dos jovens é contrastada com alguns tanques de guerra em treinamento e com um grupo de aspirantes comunistas, jovens também, pateticamente trajados, marchando e gritando palavras de ordem no meio da rua.tanques

No armazém, local da jogatina e bebedeira dos homens, Voicu Gogonea, membro do partido comunista local – e pai do prefeito que nos conta a história –, é ridicularizado pelos amigos. No entanto, o pomo da discórdia é o namoro entre Iancu Vrabie e Mara Aschie, vividos pelos jovens atores Alexandru Potocean e Meda Andreea Victor. O ardor de sua paixão vem deixando o pai de Mara, Grigore Aschie, de cabelo em pé – a ponto de quase levá-lo às vias de fato com o pai de Iancu, Haralamb Vrabie. A fama de galanteador do nunta-muta-679571lrapaz é conhecida (e reprovada) por todos no vilarejo.

Iancu chega ao armazém bem no meio da confusão entre seu pai e o pai de Mara, e promete casar com a moça. Imediatamente todos passam a comemorar e se abraçar como se nada tivesse acontecido! Os pais passam a se tratar como parentes e a programar o grande acontecimento. O grandalhão Grigore sugere o próximo domingo. Mas dois problemas se impõem: no próximo domingo o Circo chegará ao vilarejo, e no outro será a Quaresma. Então o pai de Iancu sugere a quinta-feira. Perfeito! Grigore aceita com um soco na mesa, o qual faz tremer todo o armazém.

Gogonea, que havia deixado o armazém, se encontra com outro comunista, Sandu Prastie, Instrutor Cultural Regional, que, exibindo um indefectível bigodinho de Hitler, diz estar programado, para o próximo sábado, a exibição de um filme – ou melhor, de propaganda comunista seguida de um filme. Gogonea diz que não há energia elétrica no vilarejo, mas recebe como resposta a típica truculência autoritária:

“Não é problema meu. Dê um jeito ou eu o denuncio por obstrução da iluminação cultural das massas”.

A cena da sessão de cinema é uma das mais engraçadas do filme. Mostra, ao mesmo tempo, a torpeza moral dos comunistas, bem como sua patética pretensão de serem levados a sério. O instrutor cultural chega numa moto toda arrebentada, trazendo Marinela no carro passageiro, cochichando libertinagens e recebendo o olhar reprovador das senhoras que aguardavam a projeção. Em seguida, durante a exibição de um daqueles
desfiles cívicos típicos do comunismo, Stálin surge na tela. Os comunistas levantam exaltados para o saudar, mas Gogonea, que estava sentado na ponta do banco, cai. Todos riem. Então o diretor Horaţiu Mălăele transforma esse pequeno desentendimento numa
cena de comédia pastelão do cinema mudo, com direito à imagem acelerada e preto-e-branco. Em seguida, o circo chega com todo o seu festival de cores, personagens bizarros e uma alegria maculada pela triste música de Alexandru Andrieş – aliás, a trilha sonora é belíssima!

Himeneu acorrentado

nunta-muta-177756lApós o misterioso assassinato de uma jovem envolvendo os comunistas, chega o dia do casamento. Quatro porcos, dois bezerros, ensopados, lingüiça recheada, charuto de couve, bolos, pães e muita bebida aguardam os convidados em casa de Grigore. Estes aparecem desfilando pelas ruas do vilarejo, no maior clima de festa, dançando e comemorando muito. De repente, a festa é interrompida pela chegada de Gogonea, acompanhado de dois oficiais comunistas de alta patente, muitíssimo mal-encarados. Gogonea diz:

“Bom dia, Camaradas! Este é o Camarada Pastaie Dumitru, da capital. O cavalheiro é o Capitão Vladimir Bezimienyi, oficial político da Quarta Divisão e representante do Estado Maior”.

Grigore ainda tenta descontrair:

“Gogonea, se veio para nos mostrar o quão é estúpido, isso nós já sabíamos. Se quiser beber com a gente, traga seus amigos e junte-se a nós”.

Mas o oficial o interrompe – traduzido do russo pelo outro:

comunas2“Talvez você não saiba, mas o nosso Pai, Iosif Vissarionovich Stálin, Josef Stálin, faleceu ontem à noite, de hemorragia cerebral. O Grande Conselho Soviético declarou
sete dias de Luto Internacional. Portanto, devido à demonstração de luto, todos os eventos populares estão estritamente proibidos. A bandeira nacional estará a meio-mastro. Aqueles que não cumprirem este decreto, serão acusados de alta traição”.

Grigore tenta explicar a difícil situação: em sete dias toda a comida estará estragada, e pede a compreensão dos oficiais, que lha negam categoricamente:

“Sem exceções! Qualquer manifestação que possa distrair o povo romeno da gratidão devida ao ‘Pai de Todos os Povos’ é estritamente proibida. Sem risos, sem jogos de futebol, sem casamentos, sem funerais”.

Gogonea novamente demonstra sua estupidez, dizendo:

“Como assim, sem funerais? O Camarada Stálin não terá um funeral?”

Toma na cara uma bofetada que o derruba, sangrando. Os comunistas vão embora; Gogonea os segue; e os convidados, perplexos, ainda não acreditam na ordem que acabaram de receber.

Mas a perplexidade dura pouco. Grigore os reúne e decide pela transgressão: farão uma festa secreta, um “casamento silencioso”. Música sem música, brinde sem brinde, alegria sem alegria. A sequência do casamento é poderosa! O riso se mistura ao drama, a comédia à tragédia, e o nonsense oferece sentido.

Alegrias difíceis

O filósofo Olavo de Carvalho notou, em sua brilhante introdução ao magnum opus de Constantin Noica – o maior filósofo romeno do séc. XX – As seis doenças do espírito contemporâneo­, que:

Não há povo talvez no universo que tenha mais que ele o senso da incongruência entre o exterior e o interior do homem, da impossibilidade de expressar a realidade nua e crua sem que ela acabe parecendo uma q8-dQ-hVfantasia alucinada. O dadaísmo, não convém esquecer, é invenção romena. Também o é o teatro do absurdo […] Esse povo tem o gênio da ambigüidade aparente a encobrir uma sinceridade profunda, que os brasileiros também têm, mas que nele se mescla a um toque de gravidade tragicômica que nos falta quase por completo. […] E é nessa faixa de indecisão e perplexidade que eles colocam o melhor, o mais profundo e o mais autêntico de uma visão romena do mundo.[2]

E Casamento Silencioso tem exatamente essa característica. Não é exatamente uma comédia, mas uma tragédia cujo absurdo só pode ser expressado pelo riso. Não é por acaso que o diretor mistura elementos misteriosos a situações que fogem à nossa compreensão. Como afirma Olavo:

[…] nenhum dos grandes escritores romenos dá o menor sinal de ser indiferente aos sofrimentos humanos ou de pretender defender-se deles mediante um artifício intelectual, seja o da ironia, seja qualquer outro. Ao contrário, eles não apenas assumem o sofrimento e o absurdo da vida com plena consciência da fatuidade desses artifícios, como também procuram expressá-lo da maneira mais franca, direta e literal. É precisamente desta franqueza que brota, quase paradoxalmente, o efeito cômico, quando o sofrimento descrito, chegando aos últimos limites da opressão e do nonsense, ultrapassa o dom das lágrimas e se converte em riso.[3]

A situação vivida pelas personagens de Casamento Silencioso parece absurda, mas não é – o filme é baseado em fatos reais. O comunismo mergulhou a Romênia em anos de 61512016obscuridade e terror tamanhos, que nenhum ocidental é capaz de compreender a não ser pelos recursos imaginativos que só a comédia pode oferecer. Nas palavras de Gabriel Liiceanu – editor, ex-discípulo de Noica e o mais destacado filósofo romeno da atualidade:

O tempo e o mundo que começaram depois da Segunda Guerra Mundial assemelharam-se, para os romenos, a um pesadelo. Um pesadelo é um cenário de vida em que entras sem que, de tua vida anterior, algo seja predito. A história cai por terra, pura e simplesmente, e, de um dia para o outro, nada mais se parece com o que foi.[4]

E sob esse pesadelo a Romênia viveu até 1989, quando Ceaușescu foi deposto e executado.

Sendo o casamento “ por excelência, a vocação que permite pôr Deus no que a vida tem aparentemente de mais comum e de mais banal” [Gustave Thibon], o comunismo (como habilmente é retratado no filme) é a retirada total de Deus não só daquilo que é comum e banal, mas da própria celebração da existência, da vida. É a morte que irrompe no silêncio. É o triunfo daquilo que, como nos demonstra Tismăneanu: é mnemófobo (contra a memória), é axiófobo (contra os valores) e é noofóbico (contra o espírito).[5] O comunismo foi a Noite Escura da alma romena – quiçá, do mundo.

Mas o romeno não se entrega facilmente e luta contra o próprio destino. E o faz com aquela

[…] paradoxal e inconfundivelmente romena propriedade de, justamente quando mais nos oprimem com a visão do intolerável, nos libertar de súbito, nos infundir uma luminosidade calma e soberana e nos elevar às portas de um reino angélico de contemplação e sabedoria. Eles celebram a vitória da linguagem sobre o mutismo ruidoso do mundo satânico. O jogo de excêntricos amalucados revela assim sua verdadeira natureza, a missão secreta desses anjos disfarçados em palhaços: é o divinum opus da cura pela palavra.[6]

Andrei Pleșu, na magistral conferência Da alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental – publicada em livro homônimo pela É Realizações –, nos apresenta essa estratégia de resistência do povo romeno – a mesma apresentada em Casamento Silencioso. É diante da total opressão e sufocamento da vida, que a vida mesma se apresenta, contrabandeada, oculta, travestida em tragédia, em alegrias mínimas e/ou proibidas. E Pleșu explica isso contrapondo a alegria “normal”, vivenciada por europeus do Ocidente, com as experiências de quem viveu diante dos horrores do comunismo:

A “normalidade” da Europa Ocidental consta de uma lista extensa de “obviedades”: é óbvio encontrares de comer; teres aquecimento em casa quando está frio lá fora; teres, sem interrupção, energia elétrica; passar o ônibus no horário; teres passaporte; encontrares-te com quem quiseres; creres no que quiseres; escreveres e publicares o que quiseres. É óbvio xingares o governo, vaiares as forças de ordem, veres filmes do Plesu-2mundo inteiro, leres qualquer autor, usares ou não barba e cabelos longos; teres quantos filhos quiseres; teres, em geral, direitos individuais que as instituições têm de respeitar. Nada disso era óbvio para o cidadão de um país comunista.[7]

Para descrever tal situação, Pleșu divide as alegrias possíveis ao povo romeno sob o comunismo, em Alegrias Mínimas, Negativas e Proibidas. Das alegrias mínimas, diz:

O regime totalitário não nos pôde tirar as grandes alegrias, as alegrias em que qualquer homem tem parte, indiferente da condição em que vive: a alegria do amor, da amizade, da criatividade. Mas, obrigando-nos a nos concentrar em alegrias mínimas, nos enviuvou das alegrias simples. Era-nos proibido em primeiro lugar não o luxo, mas o natural, o viver tranquilo, a nobreza calma do humano.[8]

E usa como exemplo um belo exercício de resistência pela organização de um mercado paralelo de alimentos:

Sabotamos o furor comunista de austeridade por um esforço gigantesco, organizado e solidário, cujo resultado foi a constituição de um mercado negro de alimentos, amplo e eficiente. Procurar, laboriosamente, o necessário, espreitar o momento (e o local) da distribuição fulgurante das mercadorias (de azeitonas, por exemplo), conservar o ritual doméstico da mesa e dos feriados, oferecer ao hóspede estrangeiro um almoço suficientemente bom que ele não mais entendesse nada do discurso acerca da pobreza do anfitrião – todas essas coisas (além das filas intermináveis e fervendo de subversão) foram formas de resistência muito mais disseminadas do que se crê.[9]

É curioso percebermos o quanto a escassez pode unir um povo; pode nutri-lo com uma coragem que só nasce no perigo iminente. E é também nessa total falta de perspectiva que aquela alegria improvável surge, quase imperceptível, como um portento. O testemunho de Pleșu merece citação:

[…] o primeiro grito de vitória que ouvi, a primeira alegria articulada, atestando a mudança radical dos tempos, veio da parte de uma vizinha boa gente, sem nenhum tipo de apetência revolucionária. Ela entrou impetuosa no quintal, passando, heroica, por entre balas, e proclamou, em benefício de todo o bairro: “No armazém da esquina há azeitonas! E não há fila!”. Senti imediatamente o aroma do futuro.[10]

Sim, pois a quem, no Ocidente, ocorreria não ter azeitonas no armazém? Mas, a exemplo do que está acontecendo na Venezuela dos dias atuais – cujo povo luta por papel higiênico –, não é nem um pouco estranho que os romenos, sob o mesmo comunismo, se espantassem de, ao entrarem numa padaria e perguntarem se havia pão, ouvirem um “sim” como resposta.[11] Essa era a situação real dos romenos sob o regime stalinista – e é a dos venezuelanos sob o chavismo de Nicolás Maduro, hoje.

Das alegrias negativas, Pleșu assevera:

As alegrias mínimas são a euforia do estritamente necessário. As alegrias negativas derivam não da satisfação de ter uma experiência agradável, mas da de não ter uma experiência ruim. As alegrias negativas exprimem-se perfeitamente no sintagma “poderia ter sido ainda pior”. Elas sobrevêm no horizonte de uma expectativa sombria e derivam da não realização dessa expectativa.[12]

Para Pleșu, tais alegrias, no Oriente, ganharam um contorno diferente do que se espera delas no Ocidente. Não é simplesmente ser poupado da anormalidade – como perder o emprego ou não adoecer –, mas, ao contrário, da “normalidade” comunista:

Alegra-se de não ter sido muito censurado um livro publicado por uma editora, de não lhe derrubarem a igreja ou a casa, de não ter sido dedurado à Securitate, ou que, embora dedurado, não era (ainda) apenado, interrogado ou preso, etc.[13]

E, por fim, diz das alegrias proibidas:

No Leste Europeu, a proibição era ilegítima, de maneira que a transgressão dela era um ato de coragem moral, uma forma pura de júbilo espiritual. Ler escondido um grande autor proibido, ter uma vida religiosa, escutar a “Europa Livre”, hospedar amigos do estrangeiro, fazer piadas à custa do governo totalitário, não declarar na polícia que tens uma máquina de escrever – eram tantas vitórias quantos pontos ganhos contra o abuso ditatorial. As alegrias proibidas são alegrias perigosas. O prazer é dobrado pela palpitação do risco.[14]

Nesse caso, a história do filme é um exemplo perfeito. A cena do casamento é, sem tirar nem pôr, um movimento de total subversão ao regime comunista, usando como arma de defesa a fartura e a festa. Enquanto os comunistas estavam de luto, os romenos festejavam. Celebravam a vida em plena morte. A quantidade de comida e bebida – com direito a um engraçadíssimo deboche flatulento do senhor Vrabie – é rebeldia pura.

E quando o filme retorna às ruínas do vilarejo, a equipe da Paramedia se rende à força dos eventos passados naquele local em 1953, e decide contar aquela história –  que não deixa de ser paranormal (à margem do normal) para os padrões atuais.

Casamento Silencioso é, sobretudo, uma lição de resistência altiva e coragem. E é evidente que, diante de um regime totalitário, às vezes o martírio é a única opção. Por isso, quando vemos, hoje, intelectuais defendendo o socialismo/comunismo como algo viável, é impossível não sentirmos repulsa por tamanha canalhice. Um regime que assassinou brutalmente milhões de pessoas, que espalhou o terror onde quer que tenha sido implantado, não pode triunfar novamente – ainda que travestido da tão famigerada e sedutora democracia. E nisso os romenos são os nossos mestres. Eles nos ensinam que todo projeto em direção a um “mundo melhor” não passa de delírio totalitário; que toda pretensão de democracia imposta por ideólogos leva ao genocídio.

Paulo Cruz, julho de 2016

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[1] TISMANEANU, Vladimir. Do Comunismo – O destino de uma religião política. Vide Editorial, 2015, p. 47. Tradução: Elpídio Fonseca.

[2] CARVALHO, Olavo de. In: NOICA, Constantin. As seis doenças do espírito contemporâneo. BestBolso, p. 14. Tradução: Fernando Klabin e Elena Sburlea.

[3] Idem, p. 15.

[4] LIICEANU, Gabriel. Do ódio. Vide Editorial, p. 101. Tradução: Elpídio Fonseca.

[5] Cf. TISMANEANU, Vladimir. Do Comunismo – O destino de uma religião política. Vide Editorial, 2015, Tradução: Elpídio Fonseca.

[6] CARVALHO, Olavo de. In: NOICA, Constantin. As seis doenças do espírito contemporâneo. BestBolso, p. 16. Tradução: Fernando Klabin e Elena Sburlea.

[7] Pleșu, Andrei. Da alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental. É Realizações, p. 23. Tradução: Elpídio Fonseca.

[8] Idem, p. 24.

[9] Idem, p. 25.

[10] Idem, p. 22.

[11] Cf.: Idem, p. 26.

[12] Idem, p. 28.

[13] Idem, p. 28.

[14] Idem, p. 29.


E O OSCAR VAI PARA…

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Lars von Trier, o controverso cineasta dinamarquês, em 2005 produziu um filme curioso: Manderlay – continuação do premiado Dogville (2003) e parte de uma trilogia inacabada, USA: Land of Opportunities. Tais películas ficaram famosas pela inovação nas filmagens, 9fev2014---lars-von-trier-ironiza-o-apelido-que-recebeu-no-festival-de-cannes-com-a-declaracao-persona-non-grata-estampada-na-camiseta-1391956641941_956x500realizadas num galpão escuro, com iluminação precária e praticamente sem cenários – apenas demarcando o chão com fita branca.

Mas não é por isso que Manderlay chama a atenção. Enquanto em Dogville a personagem Grace está fugindo de seu pai gangster, em Manderlay ela o está acompanhando. Os carros estão parados em uma estrada e os dois estão discutindo. De repente, uma mulher negra sai de um portão e pede ajuda, dizendo que um homem está na iminência de ser chicoteado por seus senhores. A mulher saíra de Manderlay – uma fazenda de algodão que vive um sistema escravista. O problema é que já tinham passado 70 anos da abolição! Grace se espanta e resolve intervir.

Entram em Manderlay e impedem o castigo, mas são confrontados pela Senhora, a dona doManderlay_movie_poster local, e seus filhos. Os capangas de Grace ameaçam, a Senhora tem um mal súbito e morre, deixando, curiosamente, aqueles escravos completamente desnorteados. Wilhelm, que é o negro mais velho daquele grupo, chora ajoelhado à beira da cama da Senhora, o que deixa Grace confusa. Ela se aproxima e oferece um consolo sem palavra, mas o homem quebra o silêncio: “Tenho medo”. Grace diz: “Não há o que temer, levaremos todas as armas da família”. Mas ele responde: “Não. Tenho medo do que acontecerá agora. Temo não estarmos preparados para uma vida totalmente nova. Em Manderlay, os escravos jantam às 19h. A que horas jantam as pessoas livres?”.

Ou seja, aqueles negros não tinham a menor ideia de como viver sem que alguém comandasse e/ou aprovasse suas atividades mais rotineiras. Eram totalmente dependentes do arbítrio alheio. Então Grace manderlay-vertdecide ficar para ajudá-los nessa caminhada rumo à liberdade. O problema é que isso não ocorre, pois o tempo passa e os libertos continuam subservientes, indolentes e sem perspectiva. Talvez tenham percebido que a liberdade cobra um alto preço e optado por permanecer escravos.

O filme tem um tom irônico, e a escravidão é só um gancho para outros temas abordados indiretamente. No entanto, sempre me lembro dele quando vejo negros comportando-se como se a escravidão fosse um sistema ainda vigente, a subtrair direitos e cercear liberdades. Como se o racismo, produto imoral de tal sistema, ainda merecesse uma reação
à altura dos tempos da Casa Grande e da Senzala.

Por falar em cinema, o Oscar 2016 é um exemplo notório dessa mentalidade. A falta de negros indicados, pelo segundo ano consecutivo, fez o diretor Spike Lee propor, juntamente com o casal Will e Jada Pinkett Smith, um boicote à premiação. Ou seja, ao mesmo tempo que criticam um sistema, desejam que ele os reconheça; não pelo mérito, 1164289_630x354mas pela cor. Como se ainda precisassem ouvir da Senhora: “muito bem, meu filho”.

O que essas pessoas não percebem é que ser livre é também ser preterido, e cobrar reparação perene é voltar à escravidão. Ainda que a uma escravidão ideológica.

Disse bem o rapper Ice Cube sobre esse assunto em uma entrevista recente: “não fazemos filmes para a indústria, fazemos para os fãs […]. Isso é ridículo”. Mas os eternos escravos de Hollywood só querem mesmo é o reconhecimento dos senhores.

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Artigo publicado no jornal Gazeta do Povo em 30/01/2016:

http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/e-o-oscar-vai-para-4bxrtca53hy53yro6ceij0hrk

Paulo Cruz é professor de Filosofia e mestrando em Ciências da Religião.


VINDE A MIM

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Era uma vez um garotinho muito inteligente. Sua irmã mais velha – igualmente inteligente, pois vinham de uma família muito culta – era a principal interlocutora para a variedade de assuntos que aguçavam a sua curiosidade. Mas Cristiano – esse era seu nome – não era um menino isolado. Tinha muitos amigos e adorava brincar e jogar videogame. Seus pais, desde cedo o ensinaram que “há tempo para tudo”.

Cristiano era um garoto extremamente perspicaz. Qualquer sinal de desordem colocava sua mente em alerta: uma discussão, um cheiro diferente no ar, uma coisa fora do lugar adequado, uma ideia absurda etc.. Guardadas as devidas proporções, de dentro de seu universo de uma criança de 08 anos, Cris percebia tudo!

Um dia Cristiano foi passear no Shopping com a família. De repente percebeu uma movimentação diferente perto do pátio central. Viu um senhor alto, imponente, porém de aspecto bastante simples, cercado de pessoas. Uma pequena multidão se digladiava para chegar perto (quiçá tocar) aquele homem. E ele, pacientemente, a todos acolhia, e parecia gostar.

A mãe de Cristiano, de quem havia herdado a peculiar perspicácia, pensou sem dizer: “não sei quem é, mas não é um artista”. Sua irmãzinha estancou; ficou boquiaberta e nada dizia, parecia ter visto um fantasma! O pai, com ar aristocrático de quem é completamente alheio a celebridade de qualquer tipo, disse, lacônico: “A televisão não pára de produzir ídolos de última hora”.

Mas Cristiano, num átimo, saiu em disparada! Sua irmã, imediatamente, o seguiu correndo o mais que podia!

O homem, que até então estava com a atenção completamente voltada para a multidão que o cercava, levantou a cabeça e olhou diretamente para aquelas duas crianças correndo em disparada ao seu encontro. E de um modo incrivelmente rápido – como se tivesse passado por dentro de todos – se desvencilhou da multidão e caminhou, de braços abertos, até as crianças. Ajoelhou, pois era muito alto, lhes deu um longo e apertado abraço e disse baixinho aos seus ouvidos: “Vosso é o Reino de Deus!”.

Quando os pais das crianças – que continuaram vagarosamente caminhando em direção àquele encontro – estavam a uns três metros da cena, o homem se levantou, deu dois ou três passos até a multidão e nela se diluiu, desaparecendo por completo. Ao se aproximarem daquele aglomerado de gente e espiarem por cima das cabeças, viram um lindo presépio e, no centro, uma escultura do Menino Jesus que parecia lançar ao casal um olhar compassivo e radiante.

Nunca mais aquela família foi a mesma. As crianças? Ah, as crianças cresceram e se tornaram adultos responsáveis, sem nunca terem esquecido que tinham sido feitas herdeiras de um reino no meio de um Shopping Center.

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Um FELIZ NATAL a todos os meus queridos leitores!

Paulo Cruz

 

 


As ideologias e a morte da razão na periferia

Mandela-Fidel

 

“Tem [sic] mais racismo aqui, na Cuba comunista, do que nas piores partes do Mississipi”!

(Garland Grant, ex-membro dos Panteras Negras, preso em Cuba após sequestrar um avião, em 1971, nos EUA, e fugir para a Ilha do Dr. Castro).

Antes que a esquerda espalhasse suas narrativas vitimistas na periferia – por intermédio, sobretudo, das teorias europeias de Rousseau, Foucault, Bourdieu et caterva – e minasse completamente sua capacidade de autointerpretação e resistência, quem fornecia à juventude as lentes para a compreensão da realidade era basicamente o RAP. Para a minha geração (que nasceu na década de 1970), grupos como Racionais MC’s, Thaide e DJ Hum e DMN preenchiam a Imaginação Moral dos garotos que, sem acesso aos Contos de Fadas, eram advertidos pelos insistentes apelos dos pais e das crônicas de Mano Brown, Ndee Naldinho etc. Era através do RAP que os jovens da periferia interpretavam sua própria realidade, e tal autointerpretação era quase sempre profética; quando não, divertida. E era isso que dava Sentido e Ordem a essa juventude. Meu contato com a realidade foi muito influenciado pela música e por todo um universo de valores que ela carregava. Tudo fazia sentido para mim quando eu ouvia que: “a mudança estará em nossa consciência, praticando nossos atos com coerência; e a consequência será o fim do próprio medo, pois quem gosta de nós, somos nós mesmos” (Brown).

O filósofo Eric Voegelin estava certo:

“Quem quer que tente interpretar de uma maneira noética e crítica a ordem do homem, da sociedade e da história verifica que, ao tempo desta tentativa, o campo já está ocupado por outras interpretações. Pois cada sociedade é constituída por uma autointerpretação de sua ordem, e é por isso que cada sociedade conhecida na história produz símbolos – míticos, revelatórios, apocalípticos, gnósticos, teológicos, ideológicos, e assim por diante – pelos quais expressa sua experiência voegelin_photode ordem. Chamo esses atos de autointerpretação encontrados na realidade política de ‘interpretações não noéticas’” […] “As interpretações não noéticas não apenas precedem as interpretações noéticas no tempo; mesmo depois do aparecimento destas últimas, elas permanecem a forma da autointerpretação da sociedade, que a tentativa noética sempre encontra, confrontando-a. Sociedades cuja autocompreensão constitutiva é noética não existem. A peculiaridade desse relacionamento sugere que as interpretações noéticas, por razões que serão examinadas posteriormente, podem funcionar como um corretivo ou suplemento para as interpretações não noéticas, mas não podem substituí-las”[1].

Ou seja, antes das interpretações acadêmicas (noéticas) fornecidas por pesquisadores militantes e suas ONG’s, a periferia já possuía um modo de autointerpretação (não-noética), e era necessário que essas interpretações noéticas fossem mediadas pela autointerpretação que lá estava anteriormente. Era essa autointerpretação que advertia o jovem da periferia a prestar atenção à sua condição e buscar melhorá-la apesar dos reveses: a polícia, o tráfico, o desemprego, a violência, o crime.

Fiz coro com os Racionais MC’s, advertindo os próprios negros:

“[…] Você não me escuta

Ou não entende o que eu falo

Procuro te dar um toque

E sou chamado de preto otário,

Atrasado, revoltadoracionais-holo

Pode crer

Estamos jogando com um baralho marcado

Não quero ser o mais certo

E sim um mano esperto

Não sei se você me entende, mas eu distingo o errado do certo.

(e mano se vai continuar com essas idéias aí? Tá me tirando? Dá licença)

A verdade é que enquanto eu reparo meus erros

Você sequer admite os seus.

Limitado é seu pensamento, você mesmo quer

Falar sobre mulher,

Seu principal passatempo,

O Dom Juan das vagabundas, eu lamento,

Vive contando vantagem se dizendo o tal

Mas simplesmente falta postura, QI suficiente.

Me diga alguma coisa que ainda não sei.

Malandros como você muitos finados contei.

Não sabe sequer dizer,

Veja só você!, o número de cor do seu próprio RG.

Então, Príncipe dos Burros, limitado!

Nesse exato momento foi coroado,

Diga qual a sua origem, quem é você?

Você não sabe responder.

Negro Limitado”.

Ouça a música inteira aqui.

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Ou avaliando o efeito das drogas e do álcool na periferia:

“[…] Mas aí, se quiser se destruir está no lugar certo

Tem bebida e cocaína sempre por perto,

A cada esquina, 100, 200 metros:

Nem sempre é bom ser esperto.

Schmidt, Taurus, Rossi, Dreyer ou Campari,

Pronúncia agradável,

estrago inevitável,

Nomes estrangeiros que estão no nosso morro pra

matar (M. E. R. D. A.)

Como se fosse hoje ainda me lembro,

7 horas, sábado, 4 de Dezembro

Uma bala, uma moto, com 2 imbecis

Mataram nosso mano que fazia o morro mais feliz,

E indiretamente ainda faz,

mano Rogério esteja em paz

Vigiando lá de cima

A molecada do Parque Regina

[…]

Tô cansado dessa porra,

de toda essa bobagem,

Alcolismo, vingança, treta, malandragem.

Mãe angustiada, filho problemático

Famílias destruídas,

fins de semana trágicos.

O sistema quer isso

a molecada tem que aprender

Fim de semana no Parque Ipê.

Ou ainda – quem diria?! – um sábio conselho de Netinho de Paula, hoje um político socialista cassado (em 2015) por infidelidade partidária:

“Pode crer, Racionais Mc’s e Negritude Junior juntos. Vamos investir em nós istoecombr_netinhomesmos, mantendo distância das drogas e do álcool. Aí rapaziada do Parque Ipê, Jd. São Luiz, Jd. Ingá, Parque Arariba, Váz de Lima, Morro do Piolho, Vale das Virtudes e Pirajussara. É isso aí mano Brown!.

 

Ouça a música inteira aqui.

Isso, para um jovem pobre, era a crônica da periferia. Entre uma e outra palavra de ordem, um conselho, uma admoestação, um vaticínio.

Qual garoto negro da minha geração não se lembra da excelente “Mova-se”, do grupo DMN?

“[…] A moeda da sorte subiu e não desceu,

E a esperança que tinha diminuiu não cresceu,

O apogeu do nada,

Metralhadora sem bala,

Um boneco que fala após ter dado corda.

Não renasce mais a esperança,

São muitas portas fechadasDMN Cada Vez Mais Preto

Somente uma aberta,

Muito discreta dizendo quem vai, quem fica.

Hei! Eu não estou na lista!

Acredite nisso é uma prisão sem muro,

Onde o pão ainda é duro e nada é seguro

Se apoiar em quem se estamos sozinhos?

Eu não guardo segredo,

Eu vou mais além

Mova-se!”

Ouça a música inteira aqui.

Por fim, a advertência de LF (DMN) e Edy Rock (Racionais) na pesadíssima H. Aço:

“[…] Famílias inteiras estão caindo na vala,

perdendo a resistência

e o pesadelo não pára;

ser Homem de Aço é resistir,

não posso dar as costas se o problema mora aqui;

eu não vou fugir

nem fingir que não vi,

nem me distrair,

nenhum playboy paga pau vai rir de mim.

Tenho uma meta a seguir,

sou fruto daqui,

se for pra somar:

ei, mano, chega aí!

pra ser mais um braço,

um guerreiro arregaço,

contra o poder ser a pedra no sapato

sem marra, mentira, incerteza, sem falha,

um centroavante nessa grande batalha,

e no limite a humildade faça o seu espaço

pra ser também um H. Aço.”

Ouça a música inteira aqui.

Não se trata de gostar ou não de RAP, da letra ou da música; se é poesia ou não, se tem qualidade literária ou não. A questão aqui é perceber a cd-athaliba-e-a-firma-13906-MLB164052830_5652-Oautointerpretação, o senso comum da periferia e sua capacidade de compreender qual era a sua responsabilidade e o que cabia ao Governo – ou até à elite. Não nos esqueçamos da excepcional Política (aqui), sucesso do grupo Athalyba e a Firma, altamente intelectualizada e mais que apropriada para o momento brasileiro atual.

Quando essa autointerpretação foi substituída sumariamente por teses que não nasceram na periferia, mas em gabinetes confortáveis de Universidades renomadas, por gente que só conhece a pobreza de ouvir falar, lugares-comuns com “o homem nasce bom e a sociedade o corrompe”, ou que todo sistema de educação é político e repressivo, ou, ainda, que existe um racismo da inteligência perpetrado pela classe dominante a fim de subjugar os pretos-e-pobres, a capacidade de compreensão da periferia é destruída e substituída por ideologias[1]. Some-se a isso o ocaso da Educação, a explosão do analfabetismo funcional, e duas gerações de jovens completamente incapazes de compreender as complexidades da vida [falo como professor], e temos a fórmula mágica para a formação de uma militância cega, pronta para obedecer fielmente ao primeiro que ousar escravizar suas mentes.

 

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As novas fontes de interpretação da periferia. Que tal?

Lembrando que: ser livre é, antes de tudo, resistir ao desejo de obedecer alguém somente para não ser responsável pelos próprios atos. A liberdade é, antes de tudo, liberdade de consciência.

E o fato do RAP também ter mudado ao longo dos anos é um sinal claro da 4ee366171926bddc5fa83b8b1fef084d.500x553x1influência ideológica que sofreu (RAP sobre Marighella?!). Não que não tivesse, desde o começo, um apelo, digamos, socialista, mas penso que era algo um tanto incipiente. Hoje é comum vermos rappers enaltecendo Che Guevara, que desprezava os negros, e cujo regime que ajudou a construir já teve (se é que ainda não tem) 85% de negros entre seus presos políticos. O etnólogo cubano Carlos Moore que nos diga.

Como diz o economista americano Thomas Sowell, o socialismo não resiste a três perguntas básicas – e por isso mesmo é incapaz de ajudar os pretos-e-pobres:sowell

  1. Comparar com o quê?
  2. A que custo?
  3. Que prova concreta tens?

Enquanto a periferia não voltar a ser dona de seu próprio destino – pois o Poder Público só finge ajudar para angariar seus votos na base da demagogia –, os negros, os pobres, os ricos, enfim, os brasileiros serão cada vez mais divididos em classes manipuláveis e cada vez menos terão condições de resistir e buscar soluções para seus próprios problemas.

Se há um pedido que a periferia deve fazer ao Estado e aos Movimentos Sociais a ele ligados, esse é: devolvam-nos a tão sonhada LIBERDADE!

Paulo Cruz

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[1] O termo ideologia foi cunhado na época de Napoleão Bonaparte (1769-1821). Antoine-Louis-Claude Destutt de Tracy  (1754-1836) , o autor de Les Elements D’Ideologie [Os Elementos da Ideologia], era um “metafísico abstrato” do tipo que, desde então, se tornou comum na margem esquerda do Sena, um ponto de encontro para ideólogos incipientes, entre os quais, em décadas recentes, o famoso libertador  Kampuchea Democrático, Pol Pot (1928-1998). […] Napoleão desprezou os ideólogos ao observar que o mundo não é governado por ideias abstratas, mas pela imaginação. […] A ideologia torna impossível o compromisso político […]. Quando o fanatismo ideológico rejeita qualquer solução conciliatória, os fracos vão para o paredão. As atrocidades ideológicas do “Terceiro Mundo”, nas últimas décadas, ilustram o ponto: os massacres políticos no Congo, Timor Guiné Equatorial, Chade, Camboja, Uganda, Iêmen, El Salvador, Afeganistão e Somália. […] As ideologias são acometidas de um feroz facciosismo, na base do princípio da fraternidade – ou morte. As revoluções devoram os seus filhos. Por outro lado, o políticos prudentes, rejeitando a ilusão de uma verdade política absoluta, diante da qual todo cidadão deve se curvar, entendem que as estruturas políticas e econômicas não são meros produtos de uma teoria, a serem erigidos num dia e demolidos no outro; pelo contrário, instituições sociais se desenvolvem ao longo dos séculos, como se fossem orgânicas. O reformador radical, proclamando-se onisciente, derruba todos os rivais para chegar mais rapidamente ao Paraíso Terreno. (KIRK, Russell. A Política da Prudência. É Realizações, 2013, pp. 92-93;98. Tradução: Márcia Xavier de Brito).

[1] VOEGELIN, Eric. “Anamnese – Da teoria da História e da Política”. É Realizações, 2009, p. 427. Tradução: Elpídio Fonseca.