Mudanças no Ensino Médio. Eu ri.

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Versão estendida de artigo publicado no jornal Gazeta do Povo, em 04/10/2016.

No último dia 22 de setembro, o Governo Federal, manifestando a costumeira e popularesca preocupação estatal (e burocrática) com a Educação, apresentou uma medida provisória com uma série de mudanças no Ensino Médio. Eu ri. Sim, em meio à consternação geral – principalmente dos meus colegas de profissão, os professores –, eu ri.

As mudanças, entre outras coisas, visam a implantar a escola de tempo integral e permitir ao aluno escolher as disciplinas que deseja cursar, de acordo com a área que lhe seja afim: Matemática e suas tecnologias;  Ciências humanas e suas tecnologias;  Linguagens, Códigos e suas tecnologias; ou Ciências da Natureza e suas tecnologias (divisão adotada pelo ENEM desde 2009). Ou, ainda, a carreira profissional que deseja seguir. Eu ri.

Em entrevista recente, a socióloga Maria Helena Guimarães de Castro, secretária executiva do Ministério da Educação, disse que há um “tédio generalizado” entre os alunos do ensino médio; que o aluno de hoje tem interesse, por exemplo, pela “produção artística de rua, que incentiva o protagonismo juvenil”. Como não rir?! Ela acha um absurdo o número de oecd-pisa-logodisciplinas obrigatórias (13) – eu também –, e que em países como Finlândia, Singapura e Austrália o currículo é flexibilizado. O que ela não disse é que esses países, no último PISA (Programme for International Student Assessment), ficaram entre os 15 melhores dos 76 avaliados. Singapura, China e Coreia do Sul lideram. O Brasil amarga a 60ª posição, atrás de países como Cazaquistão, Uruguai e Irã. É para rir ou para chorar? Decidamos após alguns fatos.

O Ensino Médio tornou-se obrigatório no Brasil em 2009, via Emenda Constitucional nº 59; os Estados teriam até 2016 para se adequarem à nova exigência – não conseguiram, evidentemente. E, segundo a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) 9394/96, é função do Ensino Médio:

1) a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos; 2) a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores; 3) o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico; 4) a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina.

Ou seja, o Estado se propõe a oferecer uma gritante contradição em termos: educação obrigatória e de qualidade. Pretende, compulsoriamente, tornar o aluno proficiente e cidadão. Mas, ironia das ironias, no mesmo dia que a MP foi apresentada, um aluno do EM me perguntou: “professor, ‘vó’ se escreve com acento ou com chapeuzinho?”. Essa é a realidade. Nossos governantes ignoram que o aluno atual NÃO QUER estudar. Ele vai à escola para socializar, como dizem os pedagogos; vai pelo Bolsa Família, pelas drogas, pela namorada, pela merenda; menos pelo ensino. Esperar que ele vença o niilismo de sua geração e escolha qual disciplina prefere é superestimar sua capacidade, hoje movida quase exclusivamente por uma espécie de prazer suicida. Chega ao EM sem saber escrever uma palavra de duas letras e muito menos fazer as operações matemáticas básicas. Generalizo, mas não muito.

Sem falar no total cerceamento politicamente correto das sanções disciplinares; o aluno agora faz o que quer.

E tem mais: uma vez que, pela Constituição, a educação é um dever do Estado, este tem de assumir a responsabilidade, inclusive, pelo aluno que se recusa a estudar. Ou seja, a evasão escolar tornou-se um problema jurídico. Se o aluno desiste, é dever do Estado arrastá-lo chico-raimundoaté a escola. Se os pais não cooperam, o Conselho Tutelar deve assumir a brincadeira. Mas, no final, a culpa sempre recai sobre o professor, que, por um salário que não chega a R$ 20 a hora/aula, não torna a aula atrativa aos “educandos”. Tem como dar certo?

Alguns objetam: “Ah! Mas o professor também não se atualiza”. Isso é verdade, mas numa estrutura decente tais professores seriam obrigados a se atualizar, ou seriam obrigados a fazer outra coisa. Os próprios alunos dariam cabo de sua carreira. A completa desorganização favorece não só o mau aluno, mas também o mau professor.

Ainda um último complicador: o Brasil assinou, em 1990, a Declaração Mundial sobre Educação para Todos, da UNESCO, entregando-se às iniciativas globalistas cujos interesses reais passam ao largo das propostas (para quem não conhece, o livro Maquiavel Pedagogo, de Pascal Bernardin, publicado pela Vide Editorial, explica tudo). Em 2000, outro tratado, atrelado a esse, foi assinado. E as metas, com prazo até 2015, eram:

1 – Educação e cuidados na primeira infância:

Expandir e melhorar a educação e os cuidados na primeira infância, garantindo, além de condições de saúde, acesso à pré-escola.

2 – Universalização da educação primária:

Garantir que, até 2015, todas as crianças tenham acesso à educação primária completa, que no Brasil corresponde aos anos iniciais do ensino fundamental.

3 – Habilidades para jovens e adultos:

Garantir o acesso equitativo a uma aprendizagem adequada para habilidades laborais e técnicas.

4 – Alfabetização de adultos:

Alcançar, até 2015, aumento de 50% no nível de alfabetização de adultos.

5 – Igualdade de gênero:

Eliminar as disparidades de gênero na educação primária e secundária até 2015.

6 – Qualidade da educação:

Melhorar a qualidade para que resultados de aprendizagem mensuráveis e reconhecidos sejam alcançados por todos.

Tudo muito lindo, mas o Brasil só atingiu as metas 2 e 5. E, sem estrutura para tal, temos hoje salas de aula absolutamente lotadas, impossibilitando o mínimo de qualidade que se poderia exigir no ensino.

Ou seja, a despeito do completo sucateamento da estrutura estatal, nossos distintos governantes ainda se aventuram em seguir modelos internacionais. E, no final,  jogam em cima do professor a responsabilidade pela maioria das metas absurdas que desejam cumprir para satisfazer interesses alheios.

“Mas esperem!” – eles dizem. “E se os alunos escolhessem as disciplinas que querem estudar, e os mantivéssemos por mais tempo sob nossa tutela?”

Sim, amigos, eu ri.

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RAP é compromisso

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The Get Down – Baz Luhrmann – 2016 (Netflix)

O senso comum da periferia foi tomado de assalto. Não é de hoje que vemos grupelhos engajados falando em nome do povo, da periferia, dos nordestinos, dos negros. Não é de hoje que a classe artística – a expressão mais exata do “cretino fundamental”, de Nelson Rodrigues – lê a realidade da periferia a partir das lentes embaçadas de um marxismo tosco (desculpem o pleonasmo), e tenta, a todo custo, fazê-la caber dentro de sua minúscula visão de mundo: a ideologia do “mundo melhor”, mãe dos maiores genocídios da história humana.

Como procurei demonstrar num pequeno artigo recente (aqui), a periferia sempre foi dotada de um grande poder de percepção de sua própria realidade – que chamei, usando o termo do filósofo Eric Voegelin, de autointerpretação –, traduzido no apego ao trabalho, na valorização da família e na vigorosa cultura local. O crime e a violência, tão presentes nos rincões esquecidos pelo Poder Público, nunca retirou da gente simples a noção do certo e do errado, da Beleza, muito menos a sua capacidade de traduzir seu sofrimento em arte. A cultura da periferia fala de si para si, e sua crítica não é sociológica (no sentido acadêmico do termo), mas tão somente uma crônica de seu cotidiano. A periferia sabe que a salvação não está nas promessas imanentistas da ideologia; muito menos na política institucional. Sempre olhou com desconfiança para os políticos, e nunca lhes entregou o seu destino; pois sabe, desde há muito tempo, que o populismo é uma arma de manipulação que aprisiona e mata. A tão conhecida tensão que vive com a polícia — que os deveria proteger –, para dar um exemplo, é só um detalhe da maneira como a periferia vê o Governo e seus agentes.

Mas pareço divagar sobre o passado. Desde que a tradição periférica — baseada num conservadorismo difuso, entranhado nas mães e pais que batalhavam duro pelo futuro de seus filhos — foi substituída pela interpretação progressista dos intelectuais engajados (através de ONG’s, partidos políticos populistas e outros parasitas), tudo mudou. Crime, aborto, drogas, casamentos desfeitos por conta da liberação sexual, movimentos ideológicos de toda sorte, violência… todo tipo de bandeira revolucionária é testada, com relativo sucesso, nas periferias. E com isso, as vãs promessas de um futuro idílico, via reformas sociais radicais, aprisionou a mentalidade da periferia – sobretudo da geração atual – numa dependência irracional do Estado. A política invadiu a cultura. A resistência virou revolução. A arte virou ideologia.

E é por isso que The Get Down, a nova série original Netflix, criada pelo diretor Baz Luhrmann (do moderníssimo Romeu e Julieta, com Di Caprio, e de Moulin Rouge), deve ser vista. Mostrando, através de um grupo de jovens, o nascimento do Movimento Hip Hop, (RAP, Break e Grafite) no Bronx (EUA), a série, passada no final dos anos 1970, desbanca completamente a idéia de que o RAP nasceu como música de protesto. O RAP é a poesia de um povo e a expressão existencial de sua condição. Como eu disse: não é crítica social, é crônica do cotidiano; não é revolta, é reflexão. É uma expressão original da Cultura Pop.

Esses jovens levavam muito a sério a sua vocação, e a série mostra isso de maneira excepcional. A técnica do verso tônico (o “skeltonic”), criada pelo poeta inglês John Skelton, no séc. XV, foi elevada a graus inimagináveis nas mãos de grupos como Sugarhill Gang e Run DMC.

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Em The Get Down, os DJ’s Grandmaster Flash e Kool Herc, considerados os pais do Hip Hop, são retratados como mestres de um conhecimento gnóstico, um segredo capaz de levar os jovens ao êxtase em meio à diversão. O scratch e o back to back são os mantras desse thegetdown_s1e02_23976_1080_177ar_20a_en_prhq_20160317-00_03_10_14-still105culto; os DJ’s são os sacerdotes; e os rappers, os profetas. Dialogando com as tendências da época, eles, ao mesmo tempo, rejeitaram a Disco Music e “samplearam” muitos de seus hits, criando um som completamente original. O combo “duas pick-ups e um mixer” é o altar onde o DJ oferece seus sacrifícios. O palco é o local onde o MC profere seus vaticínios.

Enquanto Zeek (Ezequiel Figuero), um menino prodígio, constrói com esmero seus versos numa mesa apinhada de livros de poesia (chegando a citar o poeta persa Jalal Ad-Dim Rumi), e Shaolin Fantastic (fã de Bruce Lee e a quem Grandmaster Flash chama de “Gafanhoto”) passa as noites em claro buscando o segredo get-down4das pick-ups, a jovem corista Mylene Cruz tenta driblar o rigor de seu pai, um pastor pentecostal, para seguir seu sonho de cantar Disco Music. Cada um encarando a sua arte como um sacerdócio. Lembrando as palavras do cineasta Andrei Tarkóvski: “o poeta é um servidor, e está sempre tentando pagar pelo dom que, como que por um milagre, recebeu”.

Esses jovens não eram tolos, havia mais cultura entre eles do que se pode imaginar. Uma cultura integrada, não essa coisa segregada que querem hoje impor à periferia. Ainda não 22289_tupac-shakurhavia se disseminado a bobagem da Apropriação Cultural, e rappers como Tupac Shakur (2 Pac), puderam estudar ballet e representar peças de Shakespeare – como ele realmente o fez.

Em meio às questões familiares já conhecidas – o idealismo dos jovens e a preocupação conservadora dos pais –, e o cotidiano violento do Bronx, The Get Down nos faz mergulhar no universo musical riquíssimo do Hip Hop, mostrando que o desejo mais profundo daquela juventude era pura e simplesmente fazer ARTE — gostemos ou não. Há muita música e dança em The Get Down, muita diversão e alegria, mas também uma boa dose daquele drama tão comum na juventude: as escolhas individuais.

O RAP como crítica social surgiu somente quando os rappers começaram a se envolver diretamente com grupos políticos de esquerda – sobretudo as ervas daninhas marxistas – que lhes botou cabrestos ideológicos.

Por isso, mesmo que não gostemos de RAP, mesmo que The Get Down não seja uma série perfeita – como Downton Abbey é para um conservador – vale a pena conferir como surgiu uma das maiores expressões da Cultura Pop dos últimos 30 anos, e ver que a periferia não é – ou pelo menos não deveria ser – somente aquele celeiro de luta de classes que a intelligentsia quer nos enfiar goela abaixo.
Paulo Cruz.

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Viva a sociedade alternativa (#SQN).

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A Comunidade (Kollektivet) – 2016

Thomas Vinterberg

“Não temos nenhum gosto pelos costumes que, sob pretexto de satisfazerem plenamente o sexo, tornam o homem vazio de tudo o mais”. (Gustave Thibon)

Os anos 60 foram pródigos em idéias estúpidas e nocivas. Herbert Marcuse, Norman O. Brown et caterva rechearam o mundo de sandices revolucionárias disfarçadas de anti-guerra, anti-consumismo etc., mas que eram somente teorias anti-razão. Os Marcuse-horzapóstolos do sensualismo messiânico desejavam salvar a humanidade por meio do sexo livre e do consumo de drogas.

Uma das ideias mais curiosas dessa época foram as Comunidades Alternativas, nas quais grupos de hippies se juntavam para viver uma vida longe da sociedade burguesa-consumista-armamentista-opressora, felizes da vida cantando Imagine e Give Peace a Chance. Desejando fazer amor e não a guerra, levavam uma vida sem distinção de família, todos cuidando de todos (ou não), num clima de liberdade sem amarras.  Roupas  – e a racionalidade – eram opcionais.

article-2668985-000A073900000258-584_964x682O uso de maconha e outros alucinógenos (como o LSD) eram os principais ingredientes para estimular a criatividade e proporcionar “experiências espirituais”. Em atitude crítica ao Cristianismo, passaram a reverenciar o Hinduísmo, através de figuras como o músico Ravi Shankar e os gurus Swami Bhaktivedanta Prabhupada e Maharishi Mahesh Yogi. Os Beatles foram os condutores dessa carreata alternativa desgovernada.

Estavam em busca de um novo Éden; ou melhor, de uma nova Queda. Nas palavras do próprio Marcuse – a divindade pagã desse movimento:

“Se a culpa acumulada na dominação civilizada do homem pelo homem pode alguma vez ser redimida pela liberdade, então o pecado original deve ser cometido de novo: Devemos comer de novo da árvore do conhecimento, para retornarmos ao estado de inocência”[1].

Zulu+Premiere+Closing+Ceremony+66th+Annual+Ad2maEEshmPlThomas Vinterberg[2], o genial diretor dinamarquês responsável pelos maravilhosos (e perturbadores) A Caça (2012) e Submarino (2010), bem como pelo magnum opus do movimento Dogma 95[3], Festa de Família (1998), adentrou o ambiente alternativo para mostrar o seu lado, digamos, pouco convencional. Para tal, não escolheu malucos-beleza típicos, mas gente séria e respeitável, que simplesmente deseja colocar em prática, graças a uma oportunidade circunstancial, o antigo desejo de viver em comunidade.

A história se passa no início dos anos 1970, em Copenhague, na Dinamarca. Erik e Anna Møller, interpretados pelos excepcionais Ulrich Thomsen e Trine Dyrholm, são um casal de classe média – ele, professor de arquitetura; ela, âncora de um jornal televisivo. Completa a família a adolescente Freja (leia-se Fraya), moça de rosto angelical e um tantinho melancólico.

Erik recebe em testamento, de seus pais falecidos, uma casa grande, com três andares e muitos cômodos. Uma rápida visita com o corretor, e a notícia sobre o valor do imóvel, o fazem decidir-se por vendê-la, pois sabia que o custo para manter uma casa tão grande seria alto demais para seus padrões. Porém, Anna propõe ao marido, com uma insistência resoluta, que eles fiquem com a casa e convidem alguns amigos para dividir as despesas, e vivam a tão sonhada experiência (dela) de numa comunidade alternativa. O diálogo revela as reservas do marido:ole-horz

– Eu chequei duas vezes, 70 coroas por mês para o aquecimento é demais. Não podemos ficar nesta casa. Ela é grande demais.

– Podemos chamar mais gente, ligar pra Ditte, pro Ole…

– Não, não podemos. Eu sei o que você quer Anna, não vou morar numa comunidade. Eu fico cansado só de pensar. Sou velho pra isso também.

[…]

– Estou entediada, Erik. Alguma coisa tem que acontecer. […] Preciso ouvir outras pessoas também… ou vou enlouquecer. É uma casa grande, maravilhosa, deve ser ocupada por pessoas maravilhosas.

Então ela o “convence”, e por meio de indicações e entrevistas escolhem os demais membros da confraria. E lá chegam: o divorciado Ole; o casal de professores Steffen e Dritte Johansen, com o pequeno Villads, que tem problemas cardíacos; a ruiva riponga Mona; e o imigrante libanês chorão Allon, que não tem emprego fixo e vive de biscates. Com tudo acertado – inclusive um sistema de voto para as decisões importantes – a comemoração não poderia ser diferente: um mergulho nas águas frias do mar escandinavo… todo mundo nu.

O visível incomodo de Erik com a situação é contrastado pela felicidade contagiante de Anna. E apesar de não viverem num clima de total liberdade sexual, há certas liberdades entre eles – como a nudez e os “selinhos” – que constrangem Erik, um homem mais reservado. Suas tentativas de tratar de assuntos familiares são sufocadas pela total falta de privacidade inerente a qualquer ambiente coletivo. À mesa do jantar, a balbúrdia quase o enlouquece, e ele passa a se irritar com frequência. Enquanto isso, Freja – aparentemente encorajada pelo comportamento liberal da família – vive suas primeiras experiências sexuais com um jovem de sua escola.

Claro que isso não daria certo.

De repente, Erik e Anna se vêem diante de uma crise de proporções inconciliáveis, e ter de lidar com isso era algo para que ela, tão firme em seu desejo por transgredir padrões, absolutamente não estava preparada

Como bem diagnosticou Theodore Dalrymple, falando sobre a Revolução Sexual:pic_related_032115_SM_Dalrymple

“O coração quer coisas contraditórias, incompatíveis; as convenções sociais surgiram para resolver alguns conflitos de nossos próprios impulsos; a eterna frustração é uma companheira inescapável da civilização, como Freud observara – todas essas verdades recalcitrantes não foram percebidas pelos proponentes da liberação sexual, o que condenou a revolução ao fracasso definitivo”.[4]

Vinterberg, como sói acontecer com o excelente cinema nórdico, nos faz mergulhar nas contradições do espírito humano, revelando que, ao contrário do que querem os ideólogos – que tentam moldar o mundo de acordo com suas teorias – a realidade sempre acaba por se impor. Porém, em geral, até que isso aconteça, o dano causado pelas ideologias deixa rastros de destruição por toda parte.

A Comunidade não é uma obra-prima, mas é um ótimo filme. Um drama com pitadas de comédia, com fotografia incrível e atuações muito boas. Os temas são tratados sem pedantismo ou pieguice, e Vinterberg é sempre sincero, sabe como conduzir uma história e ir fundo nas contradições com aquele típico espírito kierkegaardiano – de quem entende que:

kierkegaard1“O nosso tempo entrega-se de tal maneira à voluptuosidade do estético, encontra-se de tal forma inflamado e propício à fecundação, que concebe com a facilidade da perdiz, à qual basta, segundo diz Aristóteles, ouvir a voz do macho ou sentir o seu vôo por cima dela”.[5]

Assistam, pois!

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[1] MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização. Zahar, p. 175. Tradução: Álvaro Cabral.

[2] http://www.imdb.com/name/nm0899121/

[3] http://oglobo.globo.com/cultura/filmes/lancado-ha-20-anos-manifesto-dogma-95-lembrado-em-ciclo-de-filmes-16103947

[4] DALRYMPLE, Theodore. A vida na sarjeta. É Realizações, p. 69. Tradução: Márcia Xavier de Brito.

[5] KIERKEGAARD, Sören. O desespero humano. Abril Cultural. Tradução: Maria José Marinho.


HIMENEU ACORRENTADO

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Casamento Silencioso (Nunta Mută) – 2008

“Toda a tragédia do comunismo é simbolizada pela pretensão alucinante de uma minoria de encarnar uma elite cujos escopos utópicos  canonizem também os seus métodos mais bárbaros”. (Vladimir Tismăneanu)

Em 1953, a Romênia vivia sob o domínio soviético. O sanguinário Nicolae Ceaușescu, que ceausescu_14chegaria ao poder total somente na década de 1970, já era um rato a sorrateiramente conquistar espaço dentro da hierarquia comunista que dominava seu país. Porém, desde o fim da Segunda Guerra, quando o rei Mihai (Miguel) I se aliou aos stalinistas – para depois, em 1947, ser deposto e ter de se exilar no Ocidente –, o povo romeno agonizava sob a “intimidação soviética”. Nas palavras do cientista político Vladimir Tismăneanu:

Vladimir-TismaneanuAs formações comunistas locais seguiram um modelo de destruição sistemática dos
partidos não comunistas, de desintegração da sociedade civil e de ocupação do tipo monopolista do espaço público por intermédio dos rituais ideológicos controlados pelo estado com a ajuda das instituições repressivas dos novos regimes.[1]

E é, sobretudo, a respeito dessa “desintegração da sociedade civil” que trata o filme Casamento Silencioso (Nunta Mută), rodado em 2008, na Romênia, sob direção de Horaţiu Mălăele, veterano ator e diretor de teatro. Trata-se de uma grande crítica ao absolutismo comunista e sua sanha violenta pelo controle total da sociedade.

O filme se inicia nos dias atuais, com uma equipe de televisão que estuda fenômenos paranormais, indo às ruínas de um vilarejo onde se diz ocorrerem tais excentricidades. Gogonea, o prefeito local, é quem os conduz. Ao chegar, deparam-se com um lugar inóspito – que, como diz o prefeito em tom irônico, foi destruído pelos comunistas para a vilaconstrução de uma fábrica, mas que agora está sendo destruído pelos capitalistas para a construção de uma vila para ricos –  e encontram uma velha prostituta, Marinela, com quem têm uma conversa estranhamente animada. Mas, de repente surge um grupo de senhoras, de semblante sorumbático, vestidas de preto e carregando velas como num cortejo. O diretor fica bastante intrigado, e pergunta ao prefeito o que, de fato, ocorrera naquele lugar. Então o prefeito lhes conta.

Nesse momento somos remetidos a 1953, àquele pequeno vilarejo, que então exalava as cores e os aromas da primavera. Somos apresentados a um povo alegre e expansivo – nãocomunas obstante o “fantasma do comunismo”, que o assombra insistentemente. As referências iniciais ao regime stalinista são satíricas; o bom humor é um modo de resistência à invasão bárbara (voltaremos a isso). Numa das primeiras cenas, a alegria e a descontração dos jovens é contrastada com alguns tanques de guerra em treinamento e com um grupo de aspirantes comunistas, jovens também, pateticamente trajados, marchando e gritando palavras de ordem no meio da rua.tanques

No armazém, local da jogatina e bebedeira dos homens, Voicu Gogonea, membro do partido comunista local – e pai do prefeito que nos conta a história –, é ridicularizado pelos amigos. No entanto, o pomo da discórdia é o namoro entre Iancu Vrabie e Mara Aschie, vividos pelos jovens atores Alexandru Potocean e Meda Andreea Victor. O ardor de sua paixão vem deixando o pai de Mara, Grigore Aschie, de cabelo em pé – a ponto de quase levá-lo às vias de fato com o pai de Iancu, Haralamb Vrabie. A fama de galanteador do nunta-muta-679571lrapaz é conhecida (e reprovada) por todos no vilarejo.

Iancu chega ao armazém bem no meio da confusão entre seu pai e o pai de Mara, e promete casar com a moça. Imediatamente todos passam a comemorar e se abraçar como se nada tivesse acontecido! Os pais passam a se tratar como parentes e a programar o grande acontecimento. O grandalhão Grigore sugere o próximo domingo. Mas dois problemas se impõem: no próximo domingo o Circo chegará ao vilarejo, e no outro será a Quaresma. Então o pai de Iancu sugere a quinta-feira. Perfeito! Grigore aceita com um soco na mesa, o qual faz tremer todo o armazém.

Gogonea, que havia deixado o armazém, se encontra com outro comunista, Sandu Prastie, Instrutor Cultural Regional, que, exibindo um indefectível bigodinho de Hitler, diz estar programado, para o próximo sábado, a exibição de um filme – ou melhor, de propaganda comunista seguida de um filme. Gogonea diz que não há energia elétrica no vilarejo, mas recebe como resposta a típica truculência autoritária:

“Não é problema meu. Dê um jeito ou eu o denuncio por obstrução da iluminação cultural das massas”.

A cena da sessão de cinema é uma das mais engraçadas do filme. Mostra, ao mesmo tempo, a torpeza moral dos comunistas, bem como sua patética pretensão de serem levados a sério. O instrutor cultural chega numa moto toda arrebentada, trazendo Marinela no carro passageiro, cochichando libertinagens e recebendo o olhar reprovador das senhoras que aguardavam a projeção. Em seguida, durante a exibição de um daqueles
desfiles cívicos típicos do comunismo, Stálin surge na tela. Os comunistas levantam exaltados para o saudar, mas Gogonea, que estava sentado na ponta do banco, cai. Todos riem. Então o diretor Horaţiu Mălăele transforma esse pequeno desentendimento numa
cena de comédia pastelão do cinema mudo, com direito à imagem acelerada e preto-e-branco. Em seguida, o circo chega com todo o seu festival de cores, personagens bizarros e uma alegria maculada pela triste música de Alexandru Andrieş – aliás, a trilha sonora é belíssima!

Himeneu acorrentado

nunta-muta-177756lApós o misterioso assassinato de uma jovem envolvendo os comunistas, chega o dia do casamento. Quatro porcos, dois bezerros, ensopados, lingüiça recheada, charuto de couve, bolos, pães e muita bebida aguardam os convidados em casa de Grigore. Estes aparecem desfilando pelas ruas do vilarejo, no maior clima de festa, dançando e comemorando muito. De repente, a festa é interrompida pela chegada de Gogonea, acompanhado de dois oficiais comunistas de alta patente, muitíssimo mal-encarados. Gogonea diz:

“Bom dia, Camaradas! Este é o Camarada Pastaie Dumitru, da capital. O cavalheiro é o Capitão Vladimir Bezimienyi, oficial político da Quarta Divisão e representante do Estado Maior”.

Grigore ainda tenta descontrair:

“Gogonea, se veio para nos mostrar o quão é estúpido, isso nós já sabíamos. Se quiser beber com a gente, traga seus amigos e junte-se a nós”.

Mas o oficial o interrompe – traduzido do russo pelo outro:

comunas2“Talvez você não saiba, mas o nosso Pai, Iosif Vissarionovich Stálin, Josef Stálin, faleceu ontem à noite, de hemorragia cerebral. O Grande Conselho Soviético declarou
sete dias de Luto Internacional. Portanto, devido à demonstração de luto, todos os eventos populares estão estritamente proibidos. A bandeira nacional estará a meio-mastro. Aqueles que não cumprirem este decreto, serão acusados de alta traição”.

Grigore tenta explicar a difícil situação: em sete dias toda a comida estará estragada, e pede a compreensão dos oficiais, que lha negam categoricamente:

“Sem exceções! Qualquer manifestação que possa distrair o povo romeno da gratidão devida ao ‘Pai de Todos os Povos’ é estritamente proibida. Sem risos, sem jogos de futebol, sem casamentos, sem funerais”.

Gogonea novamente demonstra sua estupidez, dizendo:

“Como assim, sem funerais? O Camarada Stálin não terá um funeral?”

Toma na cara uma bofetada que o derruba, sangrando. Os comunistas vão embora; Gogonea os segue; e os convidados, perplexos, ainda não acreditam na ordem que acabaram de receber.

Mas a perplexidade dura pouco. Grigore os reúne e decide pela transgressão: farão uma festa secreta, um “casamento silencioso”. Música sem música, brinde sem brinde, alegria sem alegria. A sequência do casamento é poderosa! O riso se mistura ao drama, a comédia à tragédia, e o nonsense oferece sentido.

Alegrias difíceis

O filósofo Olavo de Carvalho notou, em sua brilhante introdução ao magnum opus de Constantin Noica – o maior filósofo romeno do séc. XX – As seis doenças do espírito contemporâneo­, que:

Não há povo talvez no universo que tenha mais que ele o senso da incongruência entre o exterior e o interior do homem, da impossibilidade de expressar a realidade nua e crua sem que ela acabe parecendo uma q8-dQ-hVfantasia alucinada. O dadaísmo, não convém esquecer, é invenção romena. Também o é o teatro do absurdo […] Esse povo tem o gênio da ambigüidade aparente a encobrir uma sinceridade profunda, que os brasileiros também têm, mas que nele se mescla a um toque de gravidade tragicômica que nos falta quase por completo. […] E é nessa faixa de indecisão e perplexidade que eles colocam o melhor, o mais profundo e o mais autêntico de uma visão romena do mundo.[2]

E Casamento Silencioso tem exatamente essa característica. Não é exatamente uma comédia, mas uma tragédia cujo absurdo só pode ser expressado pelo riso. Não é por acaso que o diretor mistura elementos misteriosos a situações que fogem à nossa compreensão. Como afirma Olavo:

[…] nenhum dos grandes escritores romenos dá o menor sinal de ser indiferente aos sofrimentos humanos ou de pretender defender-se deles mediante um artifício intelectual, seja o da ironia, seja qualquer outro. Ao contrário, eles não apenas assumem o sofrimento e o absurdo da vida com plena consciência da fatuidade desses artifícios, como também procuram expressá-lo da maneira mais franca, direta e literal. É precisamente desta franqueza que brota, quase paradoxalmente, o efeito cômico, quando o sofrimento descrito, chegando aos últimos limites da opressão e do nonsense, ultrapassa o dom das lágrimas e se converte em riso.[3]

A situação vivida pelas personagens de Casamento Silencioso parece absurda, mas não é – o filme é baseado em fatos reais. O comunismo mergulhou a Romênia em anos de 61512016obscuridade e terror tamanhos, que nenhum ocidental é capaz de compreender a não ser pelos recursos imaginativos que só a comédia pode oferecer. Nas palavras de Gabriel Liiceanu – editor, ex-discípulo de Noica e o mais destacado filósofo romeno da atualidade:

O tempo e o mundo que começaram depois da Segunda Guerra Mundial assemelharam-se, para os romenos, a um pesadelo. Um pesadelo é um cenário de vida em que entras sem que, de tua vida anterior, algo seja predito. A história cai por terra, pura e simplesmente, e, de um dia para o outro, nada mais se parece com o que foi.[4]

E sob esse pesadelo a Romênia viveu até 1989, quando Ceaușescu foi deposto e executado.

Sendo o casamento “ por excelência, a vocação que permite pôr Deus no que a vida tem aparentemente de mais comum e de mais banal” [Gustave Thibon], o comunismo (como habilmente é retratado no filme) é a retirada total de Deus não só daquilo que é comum e banal, mas da própria celebração da existência, da vida. É a morte que irrompe no silêncio. É o triunfo daquilo que, como nos demonstra Tismăneanu: é mnemófobo (contra a memória), é axiófobo (contra os valores) e é noofóbico (contra o espírito).[5] O comunismo foi a Noite Escura da alma romena – quiçá, do mundo.

Mas o romeno não se entrega facilmente e luta contra o próprio destino. E o faz com aquela

[…] paradoxal e inconfundivelmente romena propriedade de, justamente quando mais nos oprimem com a visão do intolerável, nos libertar de súbito, nos infundir uma luminosidade calma e soberana e nos elevar às portas de um reino angélico de contemplação e sabedoria. Eles celebram a vitória da linguagem sobre o mutismo ruidoso do mundo satânico. O jogo de excêntricos amalucados revela assim sua verdadeira natureza, a missão secreta desses anjos disfarçados em palhaços: é o divinum opus da cura pela palavra.[6]

Andrei Pleșu, na magistral conferência Da alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental – publicada em livro homônimo pela É Realizações –, nos apresenta essa estratégia de resistência do povo romeno – a mesma apresentada em Casamento Silencioso. É diante da total opressão e sufocamento da vida, que a vida mesma se apresenta, contrabandeada, oculta, travestida em tragédia, em alegrias mínimas e/ou proibidas. E Pleșu explica isso contrapondo a alegria “normal”, vivenciada por europeus do Ocidente, com as experiências de quem viveu diante dos horrores do comunismo:

A “normalidade” da Europa Ocidental consta de uma lista extensa de “obviedades”: é óbvio encontrares de comer; teres aquecimento em casa quando está frio lá fora; teres, sem interrupção, energia elétrica; passar o ônibus no horário; teres passaporte; encontrares-te com quem quiseres; creres no que quiseres; escreveres e publicares o que quiseres. É óbvio xingares o governo, vaiares as forças de ordem, veres filmes do Plesu-2mundo inteiro, leres qualquer autor, usares ou não barba e cabelos longos; teres quantos filhos quiseres; teres, em geral, direitos individuais que as instituições têm de respeitar. Nada disso era óbvio para o cidadão de um país comunista.[7]

Para descrever tal situação, Pleșu divide as alegrias possíveis ao povo romeno sob o comunismo, em Alegrias Mínimas, Negativas e Proibidas. Das alegrias mínimas, diz:

O regime totalitário não nos pôde tirar as grandes alegrias, as alegrias em que qualquer homem tem parte, indiferente da condição em que vive: a alegria do amor, da amizade, da criatividade. Mas, obrigando-nos a nos concentrar em alegrias mínimas, nos enviuvou das alegrias simples. Era-nos proibido em primeiro lugar não o luxo, mas o natural, o viver tranquilo, a nobreza calma do humano.[8]

E usa como exemplo um belo exercício de resistência pela organização de um mercado paralelo de alimentos:

Sabotamos o furor comunista de austeridade por um esforço gigantesco, organizado e solidário, cujo resultado foi a constituição de um mercado negro de alimentos, amplo e eficiente. Procurar, laboriosamente, o necessário, espreitar o momento (e o local) da distribuição fulgurante das mercadorias (de azeitonas, por exemplo), conservar o ritual doméstico da mesa e dos feriados, oferecer ao hóspede estrangeiro um almoço suficientemente bom que ele não mais entendesse nada do discurso acerca da pobreza do anfitrião – todas essas coisas (além das filas intermináveis e fervendo de subversão) foram formas de resistência muito mais disseminadas do que se crê.[9]

É curioso percebermos o quanto a escassez pode unir um povo; pode nutri-lo com uma coragem que só nasce no perigo iminente. E é também nessa total falta de perspectiva que aquela alegria improvável surge, quase imperceptível, como um portento. O testemunho de Pleșu merece citação:

[…] o primeiro grito de vitória que ouvi, a primeira alegria articulada, atestando a mudança radical dos tempos, veio da parte de uma vizinha boa gente, sem nenhum tipo de apetência revolucionária. Ela entrou impetuosa no quintal, passando, heroica, por entre balas, e proclamou, em benefício de todo o bairro: “No armazém da esquina há azeitonas! E não há fila!”. Senti imediatamente o aroma do futuro.[10]

Sim, pois a quem, no Ocidente, ocorreria não ter azeitonas no armazém? Mas, a exemplo do que está acontecendo na Venezuela dos dias atuais – cujo povo luta por papel higiênico –, não é nem um pouco estranho que os romenos, sob o mesmo comunismo, se espantassem de, ao entrarem numa padaria e perguntarem se havia pão, ouvirem um “sim” como resposta.[11] Essa era a situação real dos romenos sob o regime stalinista – e é a dos venezuelanos sob o chavismo de Nicolás Maduro, hoje.

Das alegrias negativas, Pleșu assevera:

As alegrias mínimas são a euforia do estritamente necessário. As alegrias negativas derivam não da satisfação de ter uma experiência agradável, mas da de não ter uma experiência ruim. As alegrias negativas exprimem-se perfeitamente no sintagma “poderia ter sido ainda pior”. Elas sobrevêm no horizonte de uma expectativa sombria e derivam da não realização dessa expectativa.[12]

Para Pleșu, tais alegrias, no Oriente, ganharam um contorno diferente do que se espera delas no Ocidente. Não é simplesmente ser poupado da anormalidade – como perder o emprego ou não adoecer –, mas, ao contrário, da “normalidade” comunista:

Alegra-se de não ter sido muito censurado um livro publicado por uma editora, de não lhe derrubarem a igreja ou a casa, de não ter sido dedurado à Securitate, ou que, embora dedurado, não era (ainda) apenado, interrogado ou preso, etc.[13]

E, por fim, diz das alegrias proibidas:

No Leste Europeu, a proibição era ilegítima, de maneira que a transgressão dela era um ato de coragem moral, uma forma pura de júbilo espiritual. Ler escondido um grande autor proibido, ter uma vida religiosa, escutar a “Europa Livre”, hospedar amigos do estrangeiro, fazer piadas à custa do governo totalitário, não declarar na polícia que tens uma máquina de escrever – eram tantas vitórias quantos pontos ganhos contra o abuso ditatorial. As alegrias proibidas são alegrias perigosas. O prazer é dobrado pela palpitação do risco.[14]

Nesse caso, a história do filme é um exemplo perfeito. A cena do casamento é, sem tirar nem pôr, um movimento de total subversão ao regime comunista, usando como arma de defesa a fartura e a festa. Enquanto os comunistas estavam de luto, os romenos festejavam. Celebravam a vida em plena morte. A quantidade de comida e bebida – com direito a um engraçadíssimo deboche flatulento do senhor Vrabie – é rebeldia pura.

E quando o filme retorna às ruínas do vilarejo, a equipe da Paramedia se rende à força dos eventos passados naquele local em 1953, e decide contar aquela história –  que não deixa de ser paranormal (à margem do normal) para os padrões atuais.

Casamento Silencioso é, sobretudo, uma lição de resistência altiva e coragem. E é evidente que, diante de um regime totalitário, às vezes o martírio é a única opção. Por isso, quando vemos, hoje, intelectuais defendendo o socialismo/comunismo como algo viável, é impossível não sentirmos repulsa por tamanha canalhice. Um regime que assassinou brutalmente milhões de pessoas, que espalhou o terror onde quer que tenha sido implantado, não pode triunfar novamente – ainda que travestido da tão famigerada e sedutora democracia. E nisso os romenos são os nossos mestres. Eles nos ensinam que todo projeto em direção a um “mundo melhor” não passa de delírio totalitário; que toda pretensão de democracia imposta por ideólogos leva ao genocídio.

Paulo Cruz, julho de 2016

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[1] TISMANEANU, Vladimir. Do Comunismo – O destino de uma religião política. Vide Editorial, 2015, p. 47. Tradução: Elpídio Fonseca.

[2] CARVALHO, Olavo de. In: NOICA, Constantin. As seis doenças do espírito contemporâneo. BestBolso, p. 14. Tradução: Fernando Klabin e Elena Sburlea.

[3] Idem, p. 15.

[4] LIICEANU, Gabriel. Do ódio. Vide Editorial, p. 101. Tradução: Elpídio Fonseca.

[5] Cf. TISMANEANU, Vladimir. Do Comunismo – O destino de uma religião política. Vide Editorial, 2015, Tradução: Elpídio Fonseca.

[6] CARVALHO, Olavo de. In: NOICA, Constantin. As seis doenças do espírito contemporâneo. BestBolso, p. 16. Tradução: Fernando Klabin e Elena Sburlea.

[7] Pleșu, Andrei. Da alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental. É Realizações, p. 23. Tradução: Elpídio Fonseca.

[8] Idem, p. 24.

[9] Idem, p. 25.

[10] Idem, p. 22.

[11] Cf.: Idem, p. 26.

[12] Idem, p. 28.

[13] Idem, p. 28.

[14] Idem, p. 29.


E O OSCAR VAI PARA…

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Lars von Trier, o controverso cineasta dinamarquês, em 2005 produziu um filme curioso: Manderlay – continuação do premiado Dogville (2003) e parte de uma trilogia inacabada, USA: Land of Opportunities. Tais películas ficaram famosas pela inovação nas filmagens, 9fev2014---lars-von-trier-ironiza-o-apelido-que-recebeu-no-festival-de-cannes-com-a-declaracao-persona-non-grata-estampada-na-camiseta-1391956641941_956x500realizadas num galpão escuro, com iluminação precária e praticamente sem cenários – apenas demarcando o chão com fita branca.

Mas não é por isso que Manderlay chama a atenção. Enquanto em Dogville a personagem Grace está fugindo de seu pai gangster, em Manderlay ela o está acompanhando. Os carros estão parados em uma estrada e os dois estão discutindo. De repente, uma mulher negra sai de um portão e pede ajuda, dizendo que um homem está na iminência de ser chicoteado por seus senhores. A mulher saíra de Manderlay – uma fazenda de algodão que vive um sistema escravista. O problema é que já tinham passado 70 anos da abolição! Grace se espanta e resolve intervir.

Entram em Manderlay e impedem o castigo, mas são confrontados pela Senhora, a dona doManderlay_movie_poster local, e seus filhos. Os capangas de Grace ameaçam, a Senhora tem um mal súbito e morre, deixando, curiosamente, aqueles escravos completamente desnorteados. Wilhelm, que é o negro mais velho daquele grupo, chora ajoelhado à beira da cama da Senhora, o que deixa Grace confusa. Ela se aproxima e oferece um consolo sem palavra, mas o homem quebra o silêncio: “Tenho medo”. Grace diz: “Não há o que temer, levaremos todas as armas da família”. Mas ele responde: “Não. Tenho medo do que acontecerá agora. Temo não estarmos preparados para uma vida totalmente nova. Em Manderlay, os escravos jantam às 19h. A que horas jantam as pessoas livres?”.

Ou seja, aqueles negros não tinham a menor ideia de como viver sem que alguém comandasse e/ou aprovasse suas atividades mais rotineiras. Eram totalmente dependentes do arbítrio alheio. Então Grace manderlay-vertdecide ficar para ajudá-los nessa caminhada rumo à liberdade. O problema é que isso não ocorre, pois o tempo passa e os libertos continuam subservientes, indolentes e sem perspectiva. Talvez tenham percebido que a liberdade cobra um alto preço e optado por permanecer escravos.

O filme tem um tom irônico, e a escravidão é só um gancho para outros temas abordados indiretamente. No entanto, sempre me lembro dele quando vejo negros comportando-se como se a escravidão fosse um sistema ainda vigente, a subtrair direitos e cercear liberdades. Como se o racismo, produto imoral de tal sistema, ainda merecesse uma reação
à altura dos tempos da Casa Grande e da Senzala.

Por falar em cinema, o Oscar 2016 é um exemplo notório dessa mentalidade. A falta de negros indicados, pelo segundo ano consecutivo, fez o diretor Spike Lee propor, juntamente com o casal Will e Jada Pinkett Smith, um boicote à premiação. Ou seja, ao mesmo tempo que criticam um sistema, desejam que ele os reconheça; não pelo mérito, 1164289_630x354mas pela cor. Como se ainda precisassem ouvir da Senhora: “muito bem, meu filho”.

O que essas pessoas não percebem é que ser livre é, também, ser preterido, e cobrar reparação perene é voltar à escravidão. Ainda que a uma escravidão ideológica.

Disse bem o rapper Ice Cube sobre esse assunto em uma entrevista recente: “não fazemos filmes para a indústria, fazemos para os fãs […]. Isso é ridículo”. Mas os eternos escravos de Hollywood só querem mesmo é o reconhecimento dos senhores.

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Artigo publicado no jornal Gazeta do Povo em 30/01/2016:

http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/e-o-oscar-vai-para-4bxrtca53hy53yro6ceij0hrk

Paulo Cruz é professor de Filosofia e mestrando em Ciências da Religião.


VINDE A MIM

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Era uma vez um garotinho muito inteligente. Sua irmã mais velha – igualmente inteligente, pois vinham de uma família muito culta – era a principal interlocutora para a variedade de assuntos que aguçavam a sua curiosidade. Mas Cristiano – esse era seu nome – não era um menino isolado. Tinha muitos amigos e adorava brincar e jogar videogame. Seus pais, desde cedo o ensinaram que “há tempo para tudo”.

Cristiano era um garoto extremamente perspicaz. Qualquer sinal de desordem colocava sua mente em alerta: uma discussão, um cheiro diferente no ar, uma coisa fora do lugar adequado, uma ideia absurda etc.. Guardadas as devidas proporções, de dentro de seu universo de uma criança de 08 anos, Cris percebia tudo!

Um dia Cristiano foi passear no Shopping com a família. De repente percebeu uma movimentação diferente perto do pátio central. Viu um senhor alto, imponente, porém de aspecto bastante simples, cercado de pessoas. Uma pequena multidão se digladiava para chegar perto (quiçá tocar) aquele homem. E ele, pacientemente, a todos acolhia, e parecia gostar.

A mãe de Cristiano, de quem havia herdado a peculiar perspicácia, pensou sem dizer: “não sei quem é, mas não é um artista”. Sua irmãzinha estancou; ficou boquiaberta e nada dizia, parecia ter visto um fantasma! O pai, com ar aristocrático de quem é completamente alheio a celebridade de qualquer tipo, disse, lacônico: “A televisão não pára de produzir ídolos de última hora”.

Mas Cristiano, num átimo, saiu em disparada! Sua irmã, imediatamente, o seguiu correndo o mais que podia!

O homem, que até então estava com a atenção completamente voltada para a multidão que o cercava, levantou a cabeça e olhou diretamente para aquelas duas crianças correndo em disparada ao seu encontro. E de um modo incrivelmente rápido – como se tivesse passado por dentro de todos – se desvencilhou da multidão e caminhou, de braços abertos, até as crianças. Ajoelhou, pois era muito alto, lhes deu um longo e apertado abraço e disse baixinho aos seus ouvidos: “Vosso é o Reino de Deus!”.

Quando os pais das crianças – que continuaram vagarosamente caminhando em direção àquele encontro – estavam a uns três metros da cena, o homem se levantou, deu dois ou três passos até a multidão e nela se diluiu, desaparecendo por completo. Ao se aproximarem daquele aglomerado de gente e espiarem por cima das cabeças, viram um lindo presépio e, no centro, uma escultura do Menino Jesus que parecia lançar ao casal um olhar compassivo e radiante.

Nunca mais aquela família foi a mesma. As crianças? Ah, as crianças cresceram e se tornaram adultos responsáveis, sem nunca terem esquecido que tinham sido feitas herdeiras de um reino no meio de um Shopping Center.

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Um FELIZ NATAL a todos os meus queridos leitores!

Paulo Cruz

 

 


As ideologias e a morte da razão na periferia

Mandela-Fidel

 

“Há mais racismo aqui, na Cuba comunista, do que nas piores partes do Mississipi”!

(Garland Grant, ex-membro dos Panteras Negras, preso em Cuba após sequestrar um avião, em 1971, nos EUA, e fugir para a Ilha do Dr. Castro).

Antes que os movimentos de esquerda espalhassem suas narrativas vitimistas na periferia – por intermédio, sobretudo, das teorias europeias de Rousseau, Foucault, Bourdieu et caterva – e minasse completamente sua capacidade de auto-interpretação e resistência, quem fornecia à juventude as lentes para a compreensão de sua realidade era basicamente o Rap Para a minha geração (que nasceu na década de 1970), grupos como Racionais MC’s, Thaide e DJ Hum e DMN preenchiam a Imaginação Moral dos garotos que, sem acesso aos Contos de Fadas, eram advertidos pelos insistentes apelos dos pais e das crônicas de Mano Brown, Ndee Naldinho etc.

Por Imaginação Moral, quero dizer da “capacidade de percepção ética que transpõe as barreiras da experiência privada e dos acontecimentos do momento […]”, e que aspira  “apreender a justa ordem da alma e a justa ordem da comunidade”. (Russel Kirk, em A era de T. S. Eliot, É Realizações).

Era através do RAP que os jovens da periferia interpretavam sua própria realidade – coletiva e individual –, e tal auto-interpretação era quase sempre profética – no sentido de ter uma compreensão profunda, intuitiva e imediata dos problemas; quando não, era divertida. E isso dava Sentido e Ordem a essa juventude. Meu próprio contato com minha realidade existencial e social foi muito influenciado pela música e por todo o universo de valores que ela carregava. Tudo fazia sentido para mim quando eu ouvia: “a mudança estará em nossa consciência, praticando nossos atos com coerência; e a consequência será o fim do próprio medo, pois quem gosta de nós, somos nós mesmos” (Mano Brown, em Pânico na Zona Sul).

O filósofo Eric Voegelin estava certo:

“Quem quer que tente interpretar de uma maneira noética e crítica a ordem do homem, da sociedade e da história verifica que, ao tempo desta tentativa, o campo já está ocupado por outras interpretações. Pois cada sociedade é constituída por uma auto-interpretação de sua ordem, e é por isso que cada sociedade conhecida na história produz símbolos – míticos, revelatórios, apocalípticos, gnósticos, teológicos, ideológicos, e assim por diante – pelos quais expressa sua experiência voegelin_photode ordem. Chamo esses atos de auto-interpretação encontrados na realidade política de ‘interpretações não noéticas’” […] “As interpretações não noéticas não apenas precedem as interpretações noéticas no tempo; mesmo depois do aparecimento destas últimas, elas permanecem a forma da auto-interpretação da sociedade, que a tentativa noética sempre encontra, confrontando-a. Sociedades cuja autocompreensão constitutiva é noética não existem. A peculiaridade desse relacionamento sugere que as interpretações noéticas, por razões que serão examinadas posteriormente, podem funcionar como um corretivo ou suplemento para as interpretações não noéticas, mas não podem substituí-las”[1].

Ou seja, antes das interpretações acadêmicas (noéticas) fornecidas por pesquisadores, militantes e suas ONG’s, a periferia já possuía um modo de auto-interpretação (não-noética), e era necessário que essas novas interpretações, noéticas – elaboradas academicamente, mas nem sempre calcadas na realidade factual –, fossem mediadas pela auto-interpretação que lá estava anteriormente  dava sentido à vida das pessoas. Era essa auto-interpretação que advertia o jovem da periferia a prestar atenção à sua condição e buscar melhorá-la, apesar dos reveses: a polícia, o tráfico, o desemprego, a violência, o crime. A função social do Rap sempre foi uma realidade na periferia. E antes de incentivar o crime, mostrava que seu caminho era quase sempre sem volta e trágico. Quem não se lembra de O homem na estrada? Com toda virulência de seu discurso, a letra relata a saga de um criminoso, tentando se desvencilhar de seu destino, marcado pela vida pregressa. Ou seja, antes de ser um coitado, uma vítima da sociedade que precisa de toda sorte de ajuda estatal, o jovem da periferia é um sobrevivente que, sozinho, precisa furar o bloqueio de suas circunstâncias e avançar, rumo a um objetivo positivo.

Fiz coro com os Racionais MC’s, advertindo os próprios negros:

“[…] Você não me escuta

Ou não entende o que eu falo

Procuro te dar um toque

E sou chamado de preto otário,

Atrasado, revoltadoracionais-holo

Pode crer

Estamos jogando com um baralho marcado

Não quero ser o mais certo

E sim um mano esperto

Não sei se você me entende, mas eu distingo o errado do certo.

(e mano se vai continuar com essas idéias aí? Tá me tirando? Dá licença)

A verdade é que enquanto eu reparo meus erros

Você sequer admite os seus.

Limitado é seu pensamento, você mesmo quer

Falar sobre mulher,

Seu principal passatempo,

O Dom Juan das vagabundas, eu lamento,

Vive contando vantagem se dizendo o tal

Mas simplesmente falta postura, QI suficiente.

Me diga alguma coisa que ainda não sei.

Malandros como você muitos finados contei.

Não sabe sequer dizer,

Veja só você!, o número de cor do seu próprio RG.

Então, Príncipe dos Burros, limitado!

Nesse exato momento foi coroado,

Diga qual a sua origem, quem é você?

Você não sabe responder.

Negro Limitado”.

Ouça a música inteira aqui.

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Ou avaliando o efeito das drogas e do álcool na periferia:

“[…] Mas aí, se quiser se destruir está no lugar certo

Tem bebida e cocaína sempre por perto,

A cada esquina, 100, 200 metros:

Nem sempre é bom ser esperto.

Schmidt, Taurus, Rossi, Dreyer ou Campari,

Pronúncia agradável,

estrago inevitável,

Nomes estrangeiros que estão no nosso morro pra

matar (M. E. R. D. A.)

Como se fosse hoje ainda me lembro,

7 horas, sábado, 4 de Dezembro

Uma bala, uma moto, com 2 imbecis

Mataram nosso mano que fazia o morro mais feliz,

E indiretamente ainda faz,

mano Rogério esteja em paz

Vigiando lá de cima

A molecada do Parque Regina

[…]

Tô cansado dessa porra,

de toda essa bobagem,

Alcolismo, vingança, treta, malandragem.

Mãe angustiada, filho problemático

Famílias destruídas,

fins de semana trágicos.

O sistema quer isso

a molecada tem que aprender

Fim de semana no Parque Ipê.

Ou ainda – quem diria?! – um sábio conselho de Netinho de Paula, hoje um político de viés comunista, cassado (em 2015) por infidelidade partidária:

“Pode crer, Racionais Mc’s e Negritude Junior juntos. Vamos investir em nós istoecombr_netinhomesmos, mantendo distância das drogas e do álcool. Aí rapaziada do Parque Ipê, Jd. São Luiz, Jd. Ingá, Parque Arariba, Váz de Lima, Morro do Piolho, Vale das Virtudes e Pirajussara. É isso aí mano Brown!.

 

Ouça a música inteira aqui.

Isso, para um jovem pobre, era a crônica da periferia. Entre uma e outra palavra de ordem: um conselho, uma admoestação, um vaticínio.

Qual garoto negro da minha geração não se lembra da excelente Mova-se, do grupo DMN?

“[…] A moeda da sorte subiu e não desceu,

E a esperança que tinha diminuiu não cresceu,

O apogeu do nada,

Metralhadora sem bala,

Um boneco que fala após ter dado corda.

Não renasce mais a esperança,

São muitas portas fechadasDMN Cada Vez Mais Preto

Somente uma aberta,

Muito discreta dizendo quem vai, quem fica.

Hei! Eu não estou na lista!

Acredite nisso é uma prisão sem muro,

Onde o pão ainda é duro e nada é seguro

Se apoiar em quem se estamos sozinhos?

Eu não guardo segredo,

Eu vou mais além

Mova-se!”

Ouça a música inteira aqui.

Por fim, a advertência de LF (DMN) e Edy Rock (Racionais) na pesadíssima H. Aço:

“[…] Famílias inteiras estão caindo na vala,

perdendo a resistência

e o pesadelo não pára;

ser Homem de Aço é resistir,

não posso dar as costas se o problema mora aqui;

eu não vou fugir

nem fingir que não vi,

nem me distrair,

nenhum playboy paga pau vai rir de mim.

Tenho uma meta a seguir,

sou fruto daqui,

se for pra somar:

ei, mano, chega aí!

pra ser mais um braço,

um guerreiro arregaço,

contra o poder ser a pedra no sapato

sem marra, mentira, incerteza, sem falha,

um centroavante nessa grande batalha,

e no limite a humildade faça o seu espaço

pra ser também um H. Aço.”

Ouça a música inteira aqui.

Não se trata de gostar ou não de Rap, da letra ou da música; se é poesia ou não, se tem qualidade literária ou não. A questão aqui é perceber a cd-athaliba-e-a-firma-13906-MLB164052830_5652-Oauto-interpretação, o senso comum da periferia e sua capacidade de compreender qual era a sua responsabilidade e o que cabia ao Estado – ou até à elite (perdão pelo pleonasmo). Não nos esqueçamos da excepcional Política (aqui), sucesso do grupo Athalyba e a Firma, altamente intelectualizada e mais que apropriada para o momento brasileiro atual.

Quando essa auto-interpretação foi substituída, sumariamente, por teses que não nasceram na periferia, mas em gabinetes confortáveis de Universidades européias renomadas, por gente que só conhece a pobreza de ouvir falar — ambientes repletos de lugares-comuns como o homem nasce bom e a sociedade o corrompe”, ou que todo sistema de educação é político e repressivo, onde os exames (provas) estabelecem um controle normalizante, uma vigilância que permite qualificar, classificar e punir; ou, ainda, que existe um racismo da inteligência, perpetrado pela classe dominante a fim de subjugar os pretos-e-pobres –, a capacidade de compreensão da periferia é destruída e substituída por ideologias[1]. Some-se a isso o total ocaso da Educação, a explosão do analfabetismo funcional, e duas gerações de jovens completamente incapazes de compreender as complexidades da vida [falo como professor], e temos a fórmula mágica para a formação de idiotas úteis prontos a obedecer fielmente ao primeiro que ousar escravizar suas mentes.

 

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As novas fontes de interpretação da periferia. Que tal?

Lembrando que: ser livre é, antes de tudo, resistir ao desejo de obedecer alguém somente para não ser responsável pelos próprios atos. A liberdade é, antes de tudo, liberdade de consciência.

E o fato do Rap também ter mudado ao longo dos anos é um sinal claro da 4ee366171926bddc5fa83b8b1fef084d.500x553x1influência ideológica que sofreu (Rap sobre Marighella?!). Não que não tivesse, desde o começo, um apelo, digamos, socializante, mas penso que era algo um tanto incipiente. Hoje é comum vermos rappers enaltecendo Che Guevara, que desprezava os negros, e cujo regime que ajudou a construir já teve (se é que ainda não tem) 85% de negros entre seus presos políticos. O etnólogo cubano Carlos Moore que nos diga.

Como diz o economista americano Thomas Sowell, o socialismo não resiste a três perguntas básicas – e por isso mesmo é incapaz de ajudar os pretos-e-pobres:

  1. Comparar com o quê?
  2. A que custo?

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    Sowell, incansável contra as ideologias

  3. Que prova concreta tens?

Enquanto a periferia não voltar a ser dona de seu próprio destino – fugindo da demagogia política –, os negros, os pobres, os ricos, enfim, os brasileiros serão cada vez mais divididos em classes manipuláveis e cada vez menos terão condições de resistir e buscar soluções para seus próprios problemas.

Se há um pedido que a periferia deve fazer ao Estado e aos Movimentos Sociais a ele ligados, esse é: devolvam-nos a tão sonhada LIBERDADE!

Paulo Cruz

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[1] O termo ideologia foi cunhado na época de Napoleão Bonaparte (1769-1821). Antoine-Louis-Claude Destutt de Tracy  (1754-1836) , o autor de Les Elements D’Ideologie [Os Elementos da Ideologia], era um “metafísico abstrato” do tipo que, desde então, se tornou comum na margem esquerda do Sena, um ponto de encontro para ideólogos incipientes, entre os quais, em décadas recentes, o famoso libertador  Kampuchea Democrático, Pol Pot (1928-1998). […] Napoleão desprezou os ideólogos ao observar que o mundo não é governado por ideias abstratas, mas pela imaginação. […] A ideologia torna impossível o compromisso político […]. Quando o fanatismo ideológico rejeita qualquer solução conciliatória, os fracos vão para o paredão. As atrocidades ideológicas do “Terceiro Mundo”, nas últimas décadas, ilustram o ponto: os massacres políticos no Congo, Timor Guiné Equatorial, Chade, Camboja, Uganda, Iêmen, El Salvador, Afeganistão e Somália. […] As ideologias são acometidas de um feroz facciosismo, na base do princípio da fraternidade – ou morte. As revoluções devoram os seus filhos. Por outro lado, o políticos prudentes, rejeitando a ilusão de uma verdade política absoluta, diante da qual todo cidadão deve se curvar, entendem que as estruturas políticas e econômicas não são meros produtos de uma teoria, a serem erigidos num dia e demolidos no outro; pelo contrário, instituições sociais se desenvolvem ao longo dos séculos, como se fossem orgânicas. O reformador radical, proclamando-se onisciente, derruba todos os rivais para chegar mais rapidamente ao Paraíso Terreno. (KIRK, Russell. A Política da Prudência. É Realizações, 2013, pp. 92-93;98. Tradução: Márcia Xavier de Brito).

[1] VOEGELIN, Eric. “Anamnese – Da teoria da História e da Política”. É Realizações, 2009, p. 427. Tradução: Elpídio Fonseca.

 


Ficção científica contra o cientificismo

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Uma análise de Além do Planeta Silencioso, de C. S. Lewis

Se vocês fossem súditos de Maleldil,

teriam paz. (Oyarsa de Malacandra)

 

Clive Staples Lewis (1898 – 1962) – C. S. Lewis – foi um dos mais importantes intelectuais do séc. XX. Teve sua formação profundamente influenciada pela literatura imaginativa de sua infância e juventude, fato reconhecido publicamente em carta à Milton Society of America, em 1954:

“[Em todos os meus livros] há um fio condutor. O homem imaginativo em mim é mais velho, mais continuamente operativo e, nesse sentido, mais básico que o escritor religioso ou o crítico.” [1].

Inclusive, foi essa mesma paixão que o encaminhou novamente ao Cristianismo. E mesmo em suas obras mais teóricas é possível notar essa marca pungente da imaginação. Tal 31om07lewismodo de encarar a fé o ligou, de maneira indelével, às figuras extraordinárias de seus mentores (tais como George MacDonald e G. K. Chesterton), e de seus amigos (como J. R. R. Tolkien e Dorothy L. Sayers), expoentes e defensores dos Contos de Fadas. Lewis, inclusive, diz que ainda nos tempos de ateísmo teve sua imaginação batizada pela leitura de MacDonald [2].

Além de autor de obras teológico-filosóficas importantes – tais como O problema do sofrimento e A abolição do Homem – foi um notável escritor de histórias de Fantasia, dentre as quais se destaca a série infanto-juvenil As Crônicas de Nárnia (escrita entre 1949 e 1954), sucesso absoluto do gênero, com mais de 100 milhões de cópias vendidas, e traduzida para mais de 40 idiomas.

No entanto, antes de escrever as Crônicas, Lewis se viu diante dos eventos que antecederam a Segunda Guerra Mundial. Após sua curta participação como soldado na Primeira Grande Guerra – fora ferido poucos meses depois de ser deslocado para a França, em Novembro de 1917 –, Lewis sabia muito bem quais horrores uma guerra poderia produzir. Mais do que isso, percebia que a influência muito sutil de certo Evolucionismo e Darwinismo Social começava a povoar o imaginário das pessoas comuns, e que esse fato, certamente, contribuía para dar crédito à aura cientificista que se iniciara na metade do séc. XIX, e encontrara seu correspondente literário nas obras de autores como H. G. Wells, Olaf Stapledon, Bernard Shaw etc., grandes homens da literatura de ficção científica daqueles tempos. Lewis fora leitor voraz de Wells em sua infância, e afirma que o fascínio por outros planetas exercia sobre ele um sentimento arrebatador semelhante à luxúria [3].

Cientificistas

Wells, Stapledon, Haldane e Shaw

Em 1937, ele e seu amigo J. R. R. Tolkien – autor da saga O Senhor dos Anéis – julgaram, numa conversa informal, haver muito pouco do que eles realmente gostavam nas histórias de ficção científica, e out-of-the-silent-planetdecidiram fazer uma aposta: cada um deveria tentar escrever uma história do gênero. Tolkien escreveria uma “viagem no tempo”, e Lewis uma “viagem ao espaço”. Dessa aposta surgiu  Além do Planeta Silencioso (Out of Silent Planet), primeiro volume daquela que seria conhecida como a Trilogia Cósmica (ou Trilogia Espacial ou Trilogia de Ransom), de Lewis. O livro de Tolkien – conhecido como A estrada perdida – nunca foi terminado [4]. A trilogia está dividida em: Além do Planeta Silencioso (Out of Silent Planet), Perelandra (Perelandra) e Uma força medonha (That hideous strength), publicados em 1938, 1943 e 1945, respectivamente. Lewis Perelandra-1nos conta que escrever esses livros foi um exercício não tanto de satisfação daquela sua arrebatadora curiosidade por “outros mundos” mas o seu exorcismo [5].That-Hideous-Strength

Costuma-se dividir a Trilogia por tema: Além do Planeta Silencioso como uma viagem cósmica, Perelandra como uma fantasia edênica, e Essa força medonha como uma sátira à Academia moderna [6]. E é exatamente em seu primeiro livro que se encontra a crítica mais contundente e direta ao cientificismo literário. Numa carta a seu amigo e biógrafo Roger Lancelyn Green, escreve:

“O que imediatamente me estimulou a escrever foi o livro Primeiros e Últimos Homens [1930], de  Olaf Stapledon , e o ensaio de J. B. S. Haldane chamado Mundos Possíveis [1927], os quais pareciam levar a sério a ideia desse tipo de viagem e ter a perspectiva desesperadamente imoral que eu tentei ridicularizar em Weston. Eu gosto de pensar toda ideia inter-planetária como uma mitologia e simplesmente queria trazer para o meu ponto de vista (cristão) o que, até agora, tem sido usado pelo lado oposto” [7].

Curiosamente, um dos amigos de Lewis em Oxford cunhou, para definir essa onda cientificista que assolava a Inglaterra de seus dias, um neologismo diretamente ligado a H. G. Wells:  Wellsianity. Em duas ocasiões [8] Lewis se refere a esse termo para falar da perspectiva científica darwinista de Wells e sua grande influência na imaginação dos leitores de suas obras.

Wells também era um conhecido membro da Sociedade Fabiana – um movimento socialista britânico nascido no final do século XIX, que tinha como proposta a elevação da classe operária para torná-la apta a assumir o controle dos meios de produção – e escreveu livros sobre a Nova Ordem Mundial, como o famoso The Open Conspiracy [9]. Lewis, em carta a seu amigo de infância Arthur Greeves, diz lamentar que “Wells tenha vendido sua primogenitura por um ‘prato de mensagem’” [10].

Em Além do Planeta Silencioso, Lewis faz, ao mesmo tempo, uma homenagem a Wells, pela grande influência que este exercera em sua imaginação juvenil, e fornece uma resposta crítica à sua visão de mundo, numa brilhante inversão de paradigma.  Há, inclusive, referências diretas ao livro Os primeiros homens da Lua (1901) [11]. A nota inicial do livro diz:

“Observações depreciativas a histórias anteriores desse gênero aparecem neste livro meramente para fins dramáticos. O autor lamentaria se algum leitor o imaginasse tolo demais para apreciar as fantasias do senhor H. G. Wells ou ingrato demais para não reconhecer tudo o que ele deve a elas” [12].

Além do Planeta Silencioso conta a história de Elwin Ransom – protagonista de toda a Trilogia –, um filólogo (em homenagem a Tolkien), e sua viagem ao planeta Malacandra. Ransom está fazendo uma viagem a pé quando encontra uma senhora e resolve perguntar-lhe sobre um local onde pudesse pernoitar. A mulher diz que não tinha nada por perto, mas aproveita para falar de seu filho Harry, que trabalhava numa fazenda próxima dali, mas ainda não voltara de lá – e isso a estava preocupando, pois já deveria estar em casa. Ransom, então, promete tentar descobrir o paradeiro do rapaz (e conseguir um local para descansar).

Chegando à propriedade, viu que o portão estava trancado e havia uma sebe que servia de muro. Decidiu, por conta da promessa feita à mulher, entrar por um vão embaixo do portão. Ao entrar, logo ouviu vozes, e, aproximando-se, viu que se tratava de uma briga entre três homens; um deles, visivelmente mais jovem, parecia ser Harry. Interveio na confusão com um tímido “Ei! Ora essa…” [13] e os homens tiveram um sobressalto. Irritado, um deles pergunta: “Posso perguntar quem é você e o que está fazendo aqui?” [14] Ransom se apresenta e é reconhecido por um dos homens, que fora seu colega de faculdade. O dono da propriedade chamava-se Edward Weston, um cientista; o outro chamava-se Dick Devine (o antigo colega de Ransom). Após uma conversa um tanto confusa, os dois resolvem soltar Harry, mas – numa atitude um tanto sinistra – convidam Ransom para ficar. Mesmo estranhando um pouco, ele entra. Oferecem-lhe uma bebida. Ransom bebe, sente-se tonto, desmaia e acorda no que descobre ser uma nave espacial (esférica, como a de Wells em Os primeiros homens da lua).

Neste ponto já é possível perceber a índole maldosa, diabólica, dos raptores de Ransom, característica que Lewis deixa transparecer nos vilões da Trilogia. Note-se que não se trata somente de uma maldade ética ou social, mas teológica. Tais personagens abusam das imprecações blasfematórias e revelam uma mentalidade claramente maligna. David Downing esclarece que:

“Essas personagens revelam em seu discurso um estado de espírito que demonstra que Screwtape [o demônio mais velho de Cartas de um diabo a seu aprendiz] os tem exatamente onde quer que estejam” [15].

Weston revela a Ransom que eles estão a caminho de Malacandra – planeta cujo nome, diz a Ransom, descobriu pelos próprios habitantes, evidenciando que estivera lá anteriormente. Não diz qual o motivo da viagem, mas deixa claro que seus objetivos visam algo muito maior: “salvar a humanidade”. E diz, triunfalmente:

“Na realidade, admito que tivemos de infringir alguns direitos seus. Minha única defesa é que os fins justificam os meios. Ao que nos seja dado saber, estamos fazendo o que nunca foi feito na história do homem, talvez na história do universo. Aprendemos a saltar do cisco de matéria no qual nossa espécie surgiu. O infinito e, portanto, talvez a eternidade, está sendo posto nas mãos da espécie humana. Você pode ser tão mesquinho a ponto de pensar que os direitos ou a vida de um indivíduo ou de um milhão de indivíduos tenham a menor importância em comparação com isso” [16].

Tal aparente superioridade apregoada por Weston é, em Além do Planeta Silencioso, claramente, uma inversão na filosofia de H. G. Wells presente em outro de seus best-sellers: A Guerra dos Mundos. A começar pelo fato de serem os terráqueos a invadir um outro planeta, e não o contrário. O darwinismo social de Wells transmite uma ideia de progresso e evolução totalmente materialista e cientificista; é a Wellsianidade [Wellsianity] criticada por Lewis [17].

Outra curiosa inversão que Lewis faz na filosofia cientificista está no espanto que Ransom tem ao ver o Espaço, que, ao contrário do que sempre lera e imaginara, não era vazio e monótono, mas cheio de “vida” [18].

Vale lembrar que Lewis não era contra ciência em si, mas contra a sua supervalorização, como se tal perspectiva, baseada no culto à racionalidade, desenvolvimentista e reducionista, pudesse resolver todos os problemas da humanidade – pretensão que, em certo sentido, perdura até os dias de hoje. Essa exacerbação dos domínios da ciência será alvo de críticas de Lewis também em sua obra A abolição do homem (1943), um ensaio sobre Educação e Moral Natural que investe categoricamente contra a perspectiva racionalista do progresso com uma frase lapidar: “a conquista do Homem sobre a Natureza revela-se, no momento de sua consumação, a conquista da Natureza sobre o Homem” [19]. Como nos diz Alister McGrath:

“Lewis temia que os triunfos da ciência pudessem correr mais rápido do que os indispensáveis avanços éticos que forneciam o conhecimento, a disciplina e a virtude de que a ciência precisava” [20].

Ao chegarem em Malacandra – que posteriormente descobrirá se tratar do planeta Marte (a Terra era chamada por eles de Thulcandra, o Planeta Silencioso) –, Ransom consegue fugir de Weston e Devine em meio

sorn

Sorn

a uma confusão entre os terráqueos e algumas criaturas malacandrianas que encontram, os sorns, mesmo sem saber ainda por qual motivo fora capturado. Depois de correr muito, Ransom  tem o primeiro deslumbramento de estar a milhões de quilômetros de casa: o planeta parece mais convidativo que amedrontador. Toma contato com a estranha

hross

Hross

vegetação do local, bebe água e come de um não menos estranho fruto, que o sacia imediatamente. Anda mais um pouco e encontra uma criatura,
parecida com uma doninha gigante, num pequeno barco: um hross. Consegue estabelecer contato, utilizando todos os seus dotes de filólogo, e percebe que a criatura é bastante amigável. É levado à aldeia dos hrossa e lá permanece por um longo tempo. Não só aprende o idioma daquelas estranhas e afetuosas criaturas, como se dá conta de que são portadoras de uma moralidade bastante elevada e de uma religião curiosíssima.

Quando revela aos hrossa que não estava só, que fora trazido por outros dois homens tortos (o equivalente a mau em malacandriano),

“[…] os hrossa acharam tudo isso muito difícil, mas por fim todos concordaram que ele deveria ir ver o Oyarsa. Oyarsa o protegeria. Ransom perguntou quem era Oyarsa. Devagar e com muitos erros de interpretação, ele extraiu a informação de que Oyarsa (1) morava em Meldilorn; (2) sabia tudo e governava todos; (3) sempre existiu; (4) não era um hross, nem era um dos séroni. E então Ransom, seguindo um palpite seu, perguntou se Oyarsa tinha criado o mundo. Os hrossa quase latiram com o fervor da negativa que deram. Os habitantes de Thulcandra não sabiam que Maleldil, o Jovem, criara e ainda governava o mundo? Até uma criança sabia isso” [21].

Surpreendeu-se ainda mais ao saber que existiam outros seres, de natureza sutil, chamados eldila, semelhante aos anjos do Cristianismo. E também os pfifltriggi, mineradores hábeis para trabalhar com o arbol hru, “sangue do Sol” – ouro, o que fez Ransom entender o interesse de Devine por Malacandra, já que o de Weston era “científico”.

Por fim Ransom descobre, para seu completo espanto, que essa variedade seres  de Malacandra – hrossa, sorns e pfifltriggi, cujo

pfifltriggi

Pfifiltriggi

coletivo era conhecido como hnau, que Ransom intuiu ser semelhante ao termo criatura (havia uma dúvida se os eldila eram hnau) – viviam em perfeita harmonia e paz, governadas por um Oyarsa, uma inteligência tutelar guardiã de todo o planeta. Eram hnau criados por Maleldil, e importava a eles permanecerem como este os criara. A prudência dos malacandrianos fica muito evidente numa conversa que Ransom tem com Hyoi, seu amigo hrossa, enquanto preparavam seu barco [22].

Na audiência posterior com o Oyarsa de Malacandra, descobre que o nosso mundo também possui um Oyarsa, mas este se tornou Torto e fora expulso da presença de Maleldil [23]. Depois, o Oyarsa malacandriano pede a Ransom que lhe conte mais especificamente sobre o que Maleldil fez a Thulcandra (aparentemente ele tinha apenas informações gerais). E após Ransom contar a história (que Lewis não narra, mas deixa entender que é a História da Redenção Cristã), o Grande Eldil  diz: “Você me revelou mais coisas assombrosas do que é conhecido em todos os céus” [24].

A semelhança com a doutrina cristã não é mera coincidência. Porém, não é uma semelhança, digamos, ortodoxa. A abordagem que Lewis faz é imaginativa, permitindo-se alterações para adequá-las à sua narrativa [25]. Não é exatamente uma alegoria, mas um modo de, como ele mesmo disse, “imaginar em voz alta […] o que Deus poderia ter feito em outros mundos” [26].

Quando ocorre o tão temido reencontro com Weston e Devine, Ransom está com Hyoi e este é assassinado por Weston, que lhe “jogou a morte de longe” – ou seja, atirou (as armas de fogo não eram conhecidas em Malacandra). Ransom foge e é orientado por outro hrossa a ir, imediatamente, ao encontro do Oyarsa. Já em presença do Grande Eldil, Ransom tem esclarecida sua ida a Malacandra: fora chamado. O Oyarsa tentara contato amigável com Weston e Devine quando estes estiveram pela primeira vez em Malacandra, e enviou alguns sorns ao encontro dos tortos. Sem sucesso, pediu aos sorns que lhes dissessem que não seria permitido pegar “sangue do Sol” (estavam pegando ouro onde quer que encontrassem) enquanto não trouxessem alguém com quem pudesse conversar. Ou seja, a ida de Ransom não foi propriamente um rapto, mas arquitetada pelo próprio Oyarsa de Malacandra [27].

Quando Ransom esclarece que Devine estava interessado em ouro, e Weston na dominação de Malacandra e extermínio dos hnau para a expansão dos domínios terrestres, a pergunta do Oyarsa é uma clara ironia à ideia de dominação interplanetária presente nos livros de H. G. Wells: “Eles têm alguma lesão no cérebro?” [28]. E toda a explicação de Ransom é recebida pelo Oyarsa com um misto de surpresa e desprezo.

Por fim, quando os dois tortos são trazidos à presença do Oyarsa, dá-se a cena mais irônica de Além do Planeta Silencioso. Primeiro porque Weston e Devine não entendem de onde sai a voz do Grande Eldil, pois não o veem; e como racionalistas ateus, duvidam de sua autenticidade:

– Por que vocês mataram os meus hnau?

Weston e Devine olharam ansiosos ao redor para identificar quem estava falando.

– Meu Deus! – exclamou Devine em inglês. – Não me diga que eles têm um alto-falante?

– Ventriloquia – retrucou Weston, num sussurro rouco. – Bastante comum entre selvagens. O feiticeiro ou curandeiro finge entrar em transe e lança a voz. O que temos que fazer é identificar o curandeiro e dirigir nossos comentários a ele, não importa de onde a voz pareça estar  vindo. Isso destrói sua coragem e mostra que você detectou a tramóia. Você está vendo algum selvagem em transe? Com mil demônios, já o vi! [29]

Outra curiosa ironia é a conversa entre os tortos e o Oyarsa, que tem de ser traduzida por Ransom, pois o conhecimento de  Weston da língua malacandriana era bastante  rudimentar (no texto, foi “traduzida” num inglês cheio de erros gramaticais por Lewis). Inclusive, o discurso arrogante e grandiloquente de Weston foi amenizado por Ransom:

– […] Você dar muito sangue do Sol para nós, nós voltar para o céu. Você nunca mais ver nós. Certo?

– Silêncio – disse Oyarsa. Houve uma alteração quase imperceptível na luz, se é que ela poderia ser chamada de luz, de onde a voz provinha. Devine se encolheu todo e caiu. Quando retomou sua posição, sentado, estava branco e ofegante.

– Prossiga – disse Oyarsa a Weston.

Mim, não… não… – começou Weston  em malacandriano e então desistiu de tentar. – Não consigo dizer o que quer nessa língua maldita – disse em inglês.

– Fale com Ransom e ele traduzirá para nossa língua – disse Oyarsa. [30]

O que se segue é absolutamente emblemático. Weston declara todo seu cientificismo prepotente e retrógrado – apesar de Malacandra ser um mundo aparentemente primitivo no que se referia à tecnologia, eram muito mais avançados moralmente:

– Para você posso parecer um ladrão vulgar, mas carrego nos ombros o destino da espécie humana. Sua vida tribal, com armas da Idade da Pedra e cabanas semelhantes a colmeias, seus barquinhos primitivos e sua estrutura social elementar, não têm nada que se compare com nossa civilização: com nossa ciência, nossa medicina e nosso Direito, nossos exércitos, nossa arquitetura, nosso comércio e nosso sistema de transporte, que está rapidamente ultrapassando os obstáculos de espaço e tempo. Nosso direito de sobrepujá-los é o direito do superior sobre o inferior. A vida… [31]

Então Ransom traduz para o malacandriano, fazendo as adequações necessárias e amenizando o tom de pretensa superioridade tanto quanto possível. Continua Weston:

– A vida é maior que qualquer sistema de moralidade. Suas exigências são absolutas. Não é com tabus tribais e máximas banais que ela seguiu seu curso implacável da ameba ao homem e do homem à civilização.

E depois de mais algumas declarações seu discurso termina, num tom claramente triunfalista:

– Posso cair, mas enquanto eu viver, não consentirei, com um chave dessas nas mãos, em fechar os portões do futuro para os da minha espécie. O que o futuro nos reserva, para além do nosso conhecimento atual, é inconcebível para a imaginação. Basta, para mim, que haja um Além”. [32]

A resposta de Oyarsa não poderia começar melhor: “– Foi bom ouvi-lo. Pois, embora sua mente seja mais fraca, sua vontade é menos torta do que eu pensava. Não é para si mesmo que você faria tudo isso”.[33]

E após alguma discussão sobre as motivações de Weston, Oyarsa declara:

– Agora vejo como o senhor do mundo silencioso modificou você. Existem leis conhecidas por todos os hnau, leis de piedade, justiça, vergonha etc., e uma destas é o amor aos seus semelhantes. Ele ensinou você a desobedecer a todas elas, exceto esta última, que não é uma das maiores. Ele deturpou-a de tal maneira que a transformou em loucura e tomou conta de seu cérebro onde governa tudo como se fosse um pequenino Oyarsa cego. Nada mais lhe resta senão obedecê-la; apesar disto, se lhe perguntarmos porque ela é uma lei, você não poderá dar uma razão diferente da que faz as outras serem leis; estas, no entanto, embora maiores que ela, são desobedecidas [34].

É evidente que Weston não acredita em nada do que ouve, mas ouve algo que o exaspera completamente:

– Você não pergunta por que meu povo, cujo mundo é velho, não foi para o seu e apoderou-se dele há muito tempo?

– Ho! Ho! – disse Weston. Vocês não saber como fazer.

– Você está errado – disse Oyarsa. Há milhares de anos atrás, quando ainda não existia vida em seu mundo, a morte gelada estava invadindo meu harandra. Neste tempo eu estava muito preocupado, não tanto com a morte dos meus hnau, pois Maleldil não lhes deu vida muito longa, mas com os pensamentos que o senhor do seu mundo, que ainda não estava preso, botara em suas cabeças. O Oyarsa Mau teria feito com que eles fossem como vocês são agora, bastante sábios para perceber a aproximação do fim de sua espécie, mas não para suportá-lo. Conselheiros errados teriam logo surgido entre eles. Eram perfeitamente capazes de construir naves de espaço. Maleldil, porém, fez com que parassem, através de minha pessoa. Curei alguns, desencarnei outros…

– Agora ver resultado! interrompeu Weston. Vocês muito poucos agora presos à handramit, logo morrer todos.

– Sim, disse Oyarsa, mas há uma coisa que abandonamos de vez na harandra: o medo. E com o medo, o assassinato e a rebelião. O mais fraco entre todo o meu povo não tem medo da morte. É o Espírito Mau de seu mundo que estraga suas vidas fazendo com que procurem fugir daquilo que no fim a todos alcançará. Se vocês fossem súditos de Maleldil, teriam paz[35].

O desfecho dessa audiência é a expulsão dos terráqueos. O Oyarsa mesmo se encarrega de enviá-los de volta à Terra em sua nave danificada. Faz uma proposta a Ransom de que ele poderia ficar se quisesse; o que ele, humildemente, nega.

Por fim, ao término do livro percebemos bem o que C. S. Lewis pretendia combater. Além do Planeta Silencioso é um livro escrito com muita delicadeza, e Lewis utiliza toda sua capacidade, bem como sua grande apreciação por histórias de ficção científica, para nos brindar com uma narrativa cuja criatividade só encontra paralelo n’O Senhor dos Anéis, de seu amigo Tolkien.

Paulo Cruz

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Referências bibliográficas

CARPENTER, Humphrey. A Cartas de J. R. R. Tolkien. São Paulo: Arte e Letra, 1981, Kindle Edition.

DOWNING, David. C. S. Lewis — o mais relutante dos convertidos. São Paulo: Vida, 2006.

Planets in peril — A critical study of C. S. Lewis’s Ransom trilogy. Massachusetts: University of Massachusetts, 1992.

LEWIS, C. S. A Abolição do Homem. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

Além do Planeta Silencioso. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

O Peso de Glória. São Paulo: Vida, 2010.

Surpreendido pela Alegria. São Paulo: Mundo Cristão, 1998.

MCGRATH, Alister. A vida de C. S. Lewis: do ateísmo às terras de Nárnia. São Paulo: Mundo Cristão, 2013.

 

SITES

Making the Poor Best of Dull Things: C. S. Lewis as Poet. in: http://cslewis.drzeus.net/papers/dullthings.html (acesso em 08/07/2014).

There is No Such Thing As Space. In: http://apilgriminnarnia.com/2012/06/20/space/ (Acesso em 10/07/2014).

The War of the Worldviews: H.G. Wells vs. C.S. Lewis. In: http://apilgriminnarnia.com/2012/08/28/warofworldviews1/

[1] Disponível em: http://cslewis.drzeus.net/papers/dullthings.html (tradução nossa. Acesso em 08/07/2014).

[2] “Na profundeza das minhas ignomínias, na então inabalável ignorância do meu intelecto, tudo isso me foi dado sem questionamento, sem consentimento até. Naquela noite minha imaginação foi, num certo sentido, batizada; o restante de mim, não sem razão, demorou mais tempo”. (LEWIS, 1998, p. 186).

[3] “A ideia de outros planetas exercia sobre mim uma atração peculiar e inebriante, bem diferente de quaisquer outros dos meus interesses literários. […] O interesse, quando me vinham as crises, era arrebatador, como a luxúria.” (Ibid., p. 42).

 [4] Cf.: CARPENTER, 1981, Kindle Edition, pos. 727.

 [5] Cf.: LEWIS, op. cit., p. 42.

[6] Cf.: DOWNING, 1992, pp. 5-6.

 *Filósofo e escritor britânico.

** Biólogo e geneticista britânico.

[7] GREEN, HOOPER, 1975, p. 163, apud DOWNING, op. cit., pp. 36-37, tradução nossa.

[8] Cf.: LEWIS, C. S.. “Teologia é Poesia”. In:_____.O Peso de Glória. São Paulo: Vida, 2008; LEWIS, C. S.. “The Funeral of a Great Myth”. In: Christian Reflections. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1967.

[9] http://en.wikipedia.org/wiki/The_Open_Conspiracy (Acesso em 11/07/2014).

[10] Cf.: GREEN, HOOPER, 1975, p. 164, apud DOWNING, op. cit., p. 124).

[11] Lewis reconheceu seu débito para com Wells, e ao lermos Além do Planeta Silencioso, somos frequentemente atingidos por suas semelhanças com Primeiros Homens na Lua. Ambas as histórias retratam um físico determinado que constrói uma nave espacial esférica em seu quintal, acompanhado por um homem mais jovem em busca de ouro interplanetário; ambas as naves fazem uso de um enigmático dispositivo anti-gravidade; tanto um quanto outro mencionam o tilintar de meteoritos sobre o casco da nave e as venezianas de aço utilizadas para a luz do sol intensa; Ambos mostram terráqueos cheios de temores sobre mundos alienígenas que, numa audiência com o espírito guardião, descobrem que eles é que representam um perigo para as outras espécies. (DOWNING, op. cit., p. 124, tradução nossa).

[12] LEWIS, 2010, nota.

[13] Ibid., p. 08.

[14] Ibid., p. 08.

[15] DOWNING, op. cit., p. 85, tradução nossa.

[16] LEWIS, op. cit., p.30.

[17] Cf.: http://apilgriminnarnia.com/2012/06/20/space/ (Acesso em 10/07/2014).

[18] […] com a passagem do tempo, Ransom foi se conscientizando de outra causa mais espiritual para essa progressiva leveza e exultação do coração. Ele estava se livrando de um pesadelo, há muito tempo gerado na mente moderna pela mitologia  que segue na esteira da ciência. Ransom tinha lido sobre o “Espaço”: há anos, ocultava-se  no fundo do seu pensamento a lúgubre fantasia do vácuo negro e frio, da total ausência de vida, que supostamente separava os mundo. Até agora, não sabia  quanto essa ideia o afetava – agora que o próprio nome “Espaço” parecia uma blasfêmia caluniosa, diante do oceano empíreo de radiância no qual eles nadavam. Não poderia chamá-lo de “morto”; sentia que a vida se derramava do oceano para dentro dele a todo instante. (LEWIS, op. cit., p. 38).

[19] LEWIS, 2005, p. 64.

[20] McGRATH, 2013, p. 249.

[21] LEWIS, op. cit., p. 90.

[22] A natureza bélica dos preparativos sugeriu muitas perguntas a Ransom. Ele não conhecia uma palavra para “guerra”, mas conseguiu fazer com que Hyoi entendesse o que queria saber. Os séroni, os hrossa e os pfifltriggi saiam em expedições daquele tipo, uns contra os outros?

– Para que? – perguntou Hyoi.

Foi difícil explicar.

– Se duas espécies quisessem a mesma coisa, e nenhuma cedesse – disse Ransom –, uma delas não acabaria recorrendo à força, dizendo “tratem de nos dar ou mataremos vocês”?

– Que tipo de coisa?

– Bem, comida, talvez.

– Se outro hnau quisesse comida, por que nós não a daríamos? Com frequência é o que fazemos.

– Mas e se não tivéssemos o suficiente para nós mesmos?

– Mas Maleldil não para de fazer crescer as plantas. (LEWIS, Ibid., p. 96).

[23] No passado, nós conhecíamos o Oyarsa do seu mundo… ele era mais brilhante e maior do que eu… e naquela época não a chamávamos de Thulcandra. É a história mais longa e mais amarga de todas. Ele se tornou torto. Isso ocorreu antes que qualquer tipo de vida surgisse no seu mundo. Aqueles foram os Anos Tortos, dos quais ainda falamos nos céus, quando ele ainda não estava preso a Thulcandra, mas livre como nós. Sua intenção era estragar outros mundos além do seu. Ele atingiu sua lua com a mão esquerda e, com a direita, trouxe a morte pelo frio à minha harandra [montes] antes do tempo. Se por meu braço Maleldil não aberto as handramits [vales] e deixado fluir as fontes termais, meu mundo teria sido despovoado. Não o deixamos à solta  por muito tempo. Houve uma guerra tremenda, e nós o expulsamos  dos céus e o prendemos no ar de seu próprio mundo, como Maleldil nos ensinou. Lá ele sem dúvida permanece até agora, e nada mais sabemos daquele planeta: ele é silencioso. (LEWIS, Ibid, pp. 164-165).

[24] Cf.: LEWIS, Ibid., p. 194.

[25] Isso é certamente assunto de ficção científica. Também é teologia cristã, embora com um tom distintamente medieval. Em resposta a questionamentos sobre o simbolismo da Trilogia, Lewis explicou, sem rodeios, que Maleldil, o Velho e o Jovem representam o Pai e o Filho da teologia cristã, que os eldils representam os anjos e o Torto era Satanás (DOWNING, op. cit., pp. 40-41. Tradução nossa).

[26] Cf.: LEWIS, 1966, apud DOWNING, Ibid., pg. 41.

[27] Cf.: LEWIS, op. cit., pp. 166-167.

[28] Cf. LEWIS, Ibid., pp. 167-168.

[29] LEWIS, Ibid. p. 172.

[30] LEWIS, Ibid. pp. 183-184.

[31] LEWIS, Ibid. p. 184.

[32] LEWIS, Ibid. pp. 185, 187.

[33] LEWIS, Ibid. p. 188.

[34] LEWIS, Ibid. p. 189.

[35] LEWIS, Ibid. pp. 190-191 (Grifo nosso).


O turbante e a turba

Artigo publicado em 07 de outubro de 2015 no jornal Gazeta do Povo.

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“Quem construiu as pirâmides?, gritou o orador ismaelita. Um negro. Quem inventou a circulação do sangue? Um negro. […] Quem descobriu a América? […] Como tão nobremente escreveu o escritor negro Karl Marx, […] África para o trabalhador africano, Europa para o trabalhador africano, Ásia, Oceania, América, Ártico e Antártida para o trabalhador africano.”

O discurso acima poderia ter sido escrito por Cheikh Anta Diop – cheikh_anta_86antropólogo senegalês, coordenador da História Geral da África, da Unesco –, cuja tese era de que o Egito Antigo não só foi o berço da civilização, mas uma nação negra e influente, fonte, inclusive, da filosofia grega, de onde Platão e Aristóteles teriam roubado, dentre outras coisas, sua cosmogonia. Mas não: o excerto pertence ao romance Scoop, do satirista britânico Evelyn Waugh, e retrata muito bem o caráter megalômano da teoria de Diop.

A ideia pan-africanista busca uma identidade soberana negra, africana na diáspora, e ganhou força no início do século 20, com Marcus Garvey e W.E.B. Du Bois; demonstra o desejo de autoafirmação dos negros americanos após o fim da escravidão. Du Bois falava dos laços afetivos com a “mãe pátria”, e garantia que os negros tinham uma mensagem positiva para oferecer enquanto “raça negra”; e reacendeu o debate (eugenista e europeu) acerca do racismo biológico.

A tese de Du Bois é romântica, atraente, mas inconsistente. Primeiro, duboisporque o conceito de raças, no sentido biológico, é falso – e Du Bois não conseguiu desvencilhar-se dele. E, depois, porque tal unidade africana nunca existiu na África.

Recentemente, os teóricos afrocentristas embriagaram-se de fontes francesas (pode?) – principalmente Pierre Bourdieu e Michel Foucault, figuras onipresentes nas teses acadêmicas esquerdistas – e na ideologia do multiculturalismo, e termos como “apropriação cultural” e “poder simbólico” tornaram-se a chave-mestra do debate racial contemporâneo.

Daí que a investida mais recente do movimento negro é a apropriação cultural de teorias europeias para defender a exclusividade de uma cultura negra turban-Sophia-Lorencomo “símbolo de luta”. Assim, reivindicam o controle sobre o que as pessoas podem usar (e dizer) pela cor de sua pele; ou, pior ainda, por sua “identificação cultural” – veja o caso dos turbantes. Invertem o famigerado “Colored Only” da segregação americana, e assinam um atestado de incoerência. No Brasil, esse terrorismo ideológico cerceia a liberdade das pessoas e cria um falso separatismo num país majoritariamente miscigenado.

Paradoxalmente, o pan-africanista Du Bois, primeiro negro a obter um doutorado em Harvard, não era separatista. Culto, elegante e de escrita requintada – The Souls of Black Folk encantou o eminente filósofo William James, seu professor –, sabia o que era bom. Nas palavras do filósofo anglo-ganês Kwame Appiah:

“[Du Bois] era um homem de esquerda, mas um elitista e um dândi, que desenvolveu a noção de que a comunidade afroamericana deveria ser conduzida pelo que chamou de ‘Talented Tenth’ (algo como a Décima Parte Talentosa), uma elite intelectual negra que lutaria por seus direitos no campo das ideias, sem negar o que havia de melhor na cultura ocidental”.

Como ele mesmo disse: “além da linha do preconceito, caminho de braços dados com Balzac e Dumas […] Assim, casado com a Verdade, vivo por sobre o Véu”.

E nós, o que fizemos? Trocamos a Décima Parte Talentosa por uma turba de histéricos.

Paulo Cruz

 


Dois pretos, duas medidas

Como o Governo e os Movimentos Sociais manipulam as estatísticas

Há um tempo atrás, pensando no método estatístico dos “justiceiros sociais” da esquerda, produzi um gráfico do tipo “preciso desenhar?”. Ei-lo:

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A proposição é muito simples:RappersMestiços

Se um sujeito mestiço claro (como alguns rappers famosos brasileiros), cresce na periferia, ouvindo rap e samba o dia inteiro, andando com negros a vida toda — pois é evidente que há mais negros na periferia –, qual a probabilidade de ele se definir como negro quando indagado a respeito de sua “raça”? Não precisa responder; apenas pense.
Agora pense num outro, com o mesmo tom de pele, crescendo na classe média alta, ouvindo Bach, frequentando museus e viajando para o exterior uma vez ao ano. Como este se definirá?

Não é possível saber com certeza, mas me parece que um mestiço que cresça na periferia tende muito mais a se autodeclarar negro do que aquele que não convive com negros; ainda mais se os seus ascendentes diretos (pai, mãe e avós) não forem negros.

O conceito de autodeclaração é extremamente subjetivo, para não dizer falso. Utilizar-se desse artifício espúrio para garantir cotas raciais (!) ou estimar a população carcerária, é uma falsificação da realidade brasileira. Os negros somam mais de 50% da população. O problema é que, destes, apenas 7,6 são pretos, e 43,1 são pardos. (Fonte: Censo 2010 no UOL)

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Entre os universitários também se dá o mesmo: em 2010, no grupo de pessoas de 15 a 24 anos que frequentava a universidade, 31,1estudantes-negros-universidades% eram brancos, 12,8% eram pretos e 13,4% pardos. Ou seja, somados, pretos e pardos são 26,2%, uma diferença muito menor do que fazem parecer os ideólogos. (Fonte: Censo 2010)

E entre a população carcerária também é a mesma coisa. Vejam o que diz o site Afropress:

Até junho de 2013 (os dados estão sendo divulgados com atraso de um ano, provavelmente por causa das eleições), o Brasil tinha 574.027 pessoas presas – a quarta maior população carcerária do mundo. Do total de pessoas presas 289.843 são pretas e pardas (86.311 pretas e 221.404 pardas). Os brancos são cerca de 176.137, os amarelos, 2.755, indígenas 763 e 11.527 são classificados como “outras”, ou seja, não se enquadram na terminologia adotada pelo IBGE, que define cinco categorias: preto, pardo, amarelo, indígena e branco (grifo meu).

Ou seja, a maioria da população carcerária é composta de pardos, e não de pretos.

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Quem é branco e quem é negro nessa foto?

O que se conclui? Que o Governo e os Movimentos Sociais manipulam os dados como querem — para não dizer que manipulam as pesquisas (mas isso não digo).

É sempre oportuno lembrar o que disse o velho Aristóteles, há milhares de anos, em sua Metafísica:

“Nem a cor branca, nem a cor preta no homem produzem uma diferença de espécie e entre o homem branco e o homem preto não existe diferença de espécie; e não haveria diferença de espécie mesmo que déssemos um nome diferente a cada um. De fato, branco e preto só é o homem entendido como matéria, e a matéria não produz diferença” (1058b).

Ou seja, falar em raça em termos biológicos é uma estupidez. Em termos culturais, é discriminação.

Outra coisa curiosa é a velha história, defendida pelo Movimento Negro, de que o conceito de Democracia Racial visa a embranquecer a população. Tudo bem que esse pensamento é uma reação amedrontada às ideias eugenistas e evolucionistas em voga no séc. XIX, defendidas por intelectuais como Sílvio Romero —  e inspiradas, sobretudo, nas teses estúpidas de Arthur de Gobineau. Porém, a realidade tem mostrado o contrário. Vejamos:

Em 2000, os brancos somavam 53,74% da população; em 2010 eram 47,33%. Já os pardos passaram de 38,45% para 43,13%, e os pretos de 6,21 % para 7,61%. Ou seja, o que está diminuindo é a população branca!

E aqui, mais uma vez, o genial Gilberto Freyre (não obstante sua completa demonização pela esquerda acadêmica), tem razão: o Brasil é mestiço. Essa é a verdadeira riqueza da nação brasileira. E nenhum esperneio ou negacionismo mudará isso.

A cultura e a contribuição dos negros e seus ascendentes africanos jamais será apagada da história brasileira, e não importa o quão mais clara ou escura a pele de sua população se torne. E, convenhamos: são as afinidades eletivas — e o amor, evidentemente — que determinam os relacionamentos amorosos, não a ideologia de raças.

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“Operários”, de Tarsila do Amaral. Ou: quando os comunistas, num ato falho, enxergam a realidade.

Paulo Cruz