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RAP é compromisso

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The Get Down – Baz Luhrmann – 2016 (Netflix)

O senso comum da periferia foi tomado de assalto. Não é de hoje que vemos grupelhos engajados falando em nome do povo, da periferia, dos nordestinos, dos negros. Não é de hoje que a classe artística – a expressão mais exata do “cretino fundamental”, de Nelson Rodrigues – lê a realidade da periferia a partir das lentes embaçadas de um marxismo tosco (desculpem o pleonasmo), e tenta, a todo custo, fazê-la caber dentro de sua minúscula visão de mundo: a ideologia do “mundo melhor”, mãe dos maiores genocídios da história humana.

Como procurei demonstrar num pequeno artigo recente (aqui), a periferia sempre foi dotada de um grande poder de percepção de sua própria realidade – que chamei, usando o termo do filósofo Eric Voegelin, de autointerpretação –, traduzido no apego ao trabalho, na valorização da família e na vigorosa cultura local. O crime e a violência, tão presentes nos rincões esquecidos pelo Poder Público, nunca retirou da gente simples a noção do certo e do errado, da Beleza, muito menos a sua capacidade de traduzir seu sofrimento em arte. A cultura da periferia fala de si para si, e sua crítica não é sociológica (no sentido acadêmico do termo), mas tão somente uma crônica de seu cotidiano. A periferia sabe que a salvação não está nas promessas imanentistas da ideologia; muito menos na política institucional. Sempre olhou com desconfiança para os políticos, e nunca lhes entregou o seu destino; pois sabe, desde há muito tempo, que o populismo é uma arma de manipulação que aprisiona e mata. A tão conhecida tensão que vive com a polícia — que os deveria proteger –, para dar um exemplo, é só um detalhe da maneira como a periferia vê o Governo e seus agentes.

Mas pareço divagar sobre o passado. Desde que a tradição periférica — baseada num conservadorismo difuso, entranhado nas mães e pais que batalhavam duro pelo futuro de seus filhos — foi substituída pela interpretação progressista dos intelectuais engajados (através de ONG’s, partidos políticos populistas e outros parasitas), tudo mudou. Crime, aborto, drogas, casamentos desfeitos por conta da liberação sexual, movimentos ideológicos de toda sorte, violência… todo tipo de bandeira revolucionária é testada, com relativo sucesso, nas periferias. E com isso, as vãs promessas de um futuro idílico, via reformas sociais radicais, aprisionou a mentalidade da periferia – sobretudo da geração atual – numa dependência irracional do Estado. A política invadiu a cultura. A resistência virou revolução. A arte virou ideologia.

E é por isso que The Get Down, a nova série original Netflix, criada pelo diretor Baz Luhrmann (do moderníssimo Romeu e Julieta, com Di Caprio, e de Moulin Rouge), deve ser vista. Mostrando, através de um grupo de jovens, o nascimento do Movimento Hip Hop, (RAP, Break e Grafite) no Bronx (EUA), a série, passada no final dos anos 1970, desbanca completamente a idéia de que o RAP nasceu como música de protesto. O RAP é a poesia de um povo e a expressão existencial de sua condição. Como eu disse: não é crítica social, é crônica do cotidiano; não é revolta, é reflexão. É uma expressão original da Cultura Pop.

Esses jovens levavam muito a sério a sua vocação, e a série mostra isso de maneira excepcional. A técnica do verso tônico (o “skeltonic”), criada pelo poeta inglês John Skelton, no séc. XV, foi elevada a graus inimagináveis nas mãos de grupos como Sugarhill Gang e Run DMC.

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Em The Get Down, os DJ’s Grandmaster Flash e Kool Herc, considerados os pais do Hip Hop, são retratados como mestres de um conhecimento gnóstico, um segredo capaz de levar os jovens ao êxtase em meio à diversão. O scratch e o back to back são os mantras desse thegetdown_s1e02_23976_1080_177ar_20a_en_prhq_20160317-00_03_10_14-still105culto; os DJ’s são os sacerdotes; e os rappers, os profetas. Dialogando com as tendências da época, eles, ao mesmo tempo, rejeitaram a Disco Music e “samplearam” muitos de seus hits, criando um som completamente original. O combo “duas pick-ups e um mixer” é o altar onde o DJ oferece seus sacrifícios. O palco é o local onde o MC profere seus vaticínios.

Enquanto Zeek (Ezequiel Figuero), um menino prodígio, constrói com esmero seus versos numa mesa apinhada de livros de poesia (chegando a citar o poeta persa Jalal Ad-Dim Rumi), e Shaolin Fantastic (fã de Bruce Lee e a quem Grandmaster Flash chama de “Gafanhoto”) passa as noites em claro buscando o segredo get-down4das pick-ups, a jovem corista Mylene Cruz tenta driblar o rigor de seu pai, um pastor pentecostal, para seguir seu sonho de cantar Disco Music. Cada um encarando a sua arte como um sacerdócio. Lembrando as palavras do cineasta Andrei Tarkóvski: “o poeta é um servidor, e está sempre tentando pagar pelo dom que, como que por um milagre, recebeu”.

Esses jovens não eram tolos, havia mais cultura entre eles do que se pode imaginar. Uma cultura integrada, não essa coisa segregada que querem hoje impor à periferia. Ainda não 22289_tupac-shakurhavia se disseminado a bobagem da Apropriação Cultural, e rappers como Tupac Shakur (2 Pac), puderam estudar ballet e representar peças de Shakespeare – como ele realmente o fez.

Em meio às questões familiares já conhecidas – o idealismo dos jovens e a preocupação conservadora dos pais –, e o cotidiano violento do Bronx, The Get Down nos faz mergulhar no universo musical riquíssimo do Hip Hop, mostrando que o desejo mais profundo daquela juventude era pura e simplesmente fazer ARTE — gostemos ou não. Há muita música e dança em The Get Down, muita diversão e alegria, mas também uma boa dose daquele drama tão comum na juventude: as escolhas individuais.

O RAP como crítica social surgiu somente quando os rappers começaram a se envolver diretamente com grupos políticos de esquerda – sobretudo as ervas daninhas marxistas – que lhes botou cabrestos ideológicos.

Por isso, mesmo que não gostemos de RAP, mesmo que The Get Down não seja uma série perfeita – como Downton Abbey é para um conservador – vale a pena conferir como surgiu uma das maiores expressões da Cultura Pop dos últimos 30 anos, e ver que a periferia não é – ou pelo menos não deveria ser – somente aquele celeiro de luta de classes que a intelligentsia quer nos enfiar goela abaixo.
Paulo Cruz.

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HIMENEU ACORRENTADO

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Casamento Silencioso (Nunta Mută) – 2008

“Toda a tragédia do comunismo é simbolizada pela pretensão alucinante de uma minoria de encarnar uma elite cujos escopos utópicos  canonizem também os seus métodos mais bárbaros”. (Vladimir Tismăneanu)

Em 1953, a Romênia vivia sob o domínio soviético. O sanguinário Nicolae Ceaușescu, que ceausescu_14chegaria ao poder total somente na década de 1970, já era um rato a sorrateiramente conquistar espaço dentro da hierarquia comunista que dominava seu país. Porém, desde o fim da Segunda Guerra, quando o rei Mihai (Miguel) I se aliou aos stalinistas – para depois, em 1947, ser deposto e ter de se exilar no Ocidente –, o povo romeno agonizava sob a “intimidação soviética”. Nas palavras do cientista político Vladimir Tismăneanu:

Vladimir-TismaneanuAs formações comunistas locais seguiram um modelo de destruição sistemática dos
partidos não comunistas, de desintegração da sociedade civil e de ocupação do tipo monopolista do espaço público por intermédio dos rituais ideológicos controlados pelo estado com a ajuda das instituições repressivas dos novos regimes.[1]

E é, sobretudo, a respeito dessa “desintegração da sociedade civil” que trata o filme Casamento Silencioso (Nunta Mută), rodado em 2008, na Romênia, sob direção de Horaţiu Mălăele, veterano ator e diretor de teatro. Trata-se de uma grande crítica ao absolutismo comunista e sua sanha violenta pelo controle total da sociedade.

O filme se inicia nos dias atuais, com uma equipe de televisão que estuda fenômenos paranormais, indo às ruínas de um vilarejo onde se diz ocorrerem tais excentricidades. Gogonea, o prefeito local, é quem os conduz. Ao chegar, deparam-se com um lugar inóspito – que, como diz o prefeito em tom irônico, foi destruído pelos comunistas para a vilaconstrução de uma fábrica, mas que agora está sendo destruído pelos capitalistas para a construção de uma vila para ricos –  e encontram uma velha prostituta, Marinela, com quem têm uma conversa estranhamente animada. Mas, de repente surge um grupo de senhoras, de semblante sorumbático, vestidas de preto e carregando velas como num cortejo. O diretor fica bastante intrigado, e pergunta ao prefeito o que, de fato, ocorrera naquele lugar. Então o prefeito lhes conta.

Nesse momento somos remetidos a 1953, àquele pequeno vilarejo, que então exalava as cores e os aromas da primavera. Somos apresentados a um povo alegre e expansivo – nãocomunas obstante o “fantasma do comunismo”, que o assombra insistentemente. As referências iniciais ao regime stalinista são satíricas; o bom humor é um modo de resistência à invasão bárbara (voltaremos a isso). Numa das primeiras cenas, a alegria e a descontração dos jovens é contrastada com alguns tanques de guerra em treinamento e com um grupo de aspirantes comunistas, jovens também, pateticamente trajados, marchando e gritando palavras de ordem no meio da rua.tanques

No armazém, local da jogatina e bebedeira dos homens, Voicu Gogonea, membro do partido comunista local – e pai do prefeito que nos conta a história –, é ridicularizado pelos amigos. No entanto, o pomo da discórdia é o namoro entre Iancu Vrabie e Mara Aschie, vividos pelos jovens atores Alexandru Potocean e Meda Andreea Victor. O ardor de sua paixão vem deixando o pai de Mara, Grigore Aschie, de cabelo em pé – a ponto de quase levá-lo às vias de fato com o pai de Iancu, Haralamb Vrabie. A fama de galanteador do nunta-muta-679571lrapaz é conhecida (e reprovada) por todos no vilarejo.

Iancu chega ao armazém bem no meio da confusão entre seu pai e o pai de Mara, e promete casar com a moça. Imediatamente todos passam a comemorar e se abraçar como se nada tivesse acontecido! Os pais passam a se tratar como parentes e a programar o grande acontecimento. O grandalhão Grigore sugere o próximo domingo. Mas dois problemas se impõem: no próximo domingo o Circo chegará ao vilarejo, e no outro será a Quaresma. Então o pai de Iancu sugere a quinta-feira. Perfeito! Grigore aceita com um soco na mesa, o qual faz tremer todo o armazém.

Gogonea, que havia deixado o armazém, se encontra com outro comunista, Sandu Prastie, Instrutor Cultural Regional, que, exibindo um indefectível bigodinho de Hitler, diz estar programado, para o próximo sábado, a exibição de um filme – ou melhor, de propaganda comunista seguida de um filme. Gogonea diz que não há energia elétrica no vilarejo, mas recebe como resposta a típica truculência autoritária:

“Não é problema meu. Dê um jeito ou eu o denuncio por obstrução da iluminação cultural das massas”.

A cena da sessão de cinema é uma das mais engraçadas do filme. Mostra, ao mesmo tempo, a torpeza moral dos comunistas, bem como sua patética pretensão de serem levados a sério. O instrutor cultural chega numa moto toda arrebentada, trazendo Marinela no carro passageiro, cochichando libertinagens e recebendo o olhar reprovador das senhoras que aguardavam a projeção. Em seguida, durante a exibição de um daqueles
desfiles cívicos típicos do comunismo, Stálin surge na tela. Os comunistas levantam exaltados para o saudar, mas Gogonea, que estava sentado na ponta do banco, cai. Todos riem. Então o diretor Horaţiu Mălăele transforma esse pequeno desentendimento numa
cena de comédia pastelão do cinema mudo, com direito à imagem acelerada e preto-e-branco. Em seguida, o circo chega com todo o seu festival de cores, personagens bizarros e uma alegria maculada pela triste música de Alexandru Andrieş – aliás, a trilha sonora é belíssima!

Himeneu acorrentado

nunta-muta-177756lApós o misterioso assassinato de uma jovem envolvendo os comunistas, chega o dia do casamento. Quatro porcos, dois bezerros, ensopados, lingüiça recheada, charuto de couve, bolos, pães e muita bebida aguardam os convidados em casa de Grigore. Estes aparecem desfilando pelas ruas do vilarejo, no maior clima de festa, dançando e comemorando muito. De repente, a festa é interrompida pela chegada de Gogonea, acompanhado de dois oficiais comunistas de alta patente, muitíssimo mal-encarados. Gogonea diz:

“Bom dia, Camaradas! Este é o Camarada Pastaie Dumitru, da capital. O cavalheiro é o Capitão Vladimir Bezimienyi, oficial político da Quarta Divisão e representante do Estado Maior”.

Grigore ainda tenta descontrair:

“Gogonea, se veio para nos mostrar o quão é estúpido, isso nós já sabíamos. Se quiser beber com a gente, traga seus amigos e junte-se a nós”.

Mas o oficial o interrompe – traduzido do russo pelo outro:

comunas2“Talvez você não saiba, mas o nosso Pai, Iosif Vissarionovich Stálin, Josef Stálin, faleceu ontem à noite, de hemorragia cerebral. O Grande Conselho Soviético declarou
sete dias de Luto Internacional. Portanto, devido à demonstração de luto, todos os eventos populares estão estritamente proibidos. A bandeira nacional estará a meio-mastro. Aqueles que não cumprirem este decreto, serão acusados de alta traição”.

Grigore tenta explicar a difícil situação: em sete dias toda a comida estará estragada, e pede a compreensão dos oficiais, que lha negam categoricamente:

“Sem exceções! Qualquer manifestação que possa distrair o povo romeno da gratidão devida ao ‘Pai de Todos os Povos’ é estritamente proibida. Sem risos, sem jogos de futebol, sem casamentos, sem funerais”.

Gogonea novamente demonstra sua estupidez, dizendo:

“Como assim, sem funerais? O Camarada Stálin não terá um funeral?”

Toma na cara uma bofetada que o derruba, sangrando. Os comunistas vão embora; Gogonea os segue; e os convidados, perplexos, ainda não acreditam na ordem que acabaram de receber.

Mas a perplexidade dura pouco. Grigore os reúne e decide pela transgressão: farão uma festa secreta, um “casamento silencioso”. Música sem música, brinde sem brinde, alegria sem alegria. A sequência do casamento é poderosa! O riso se mistura ao drama, a comédia à tragédia, e o nonsense oferece sentido.

Alegrias difíceis

O filósofo Olavo de Carvalho notou, em sua brilhante introdução ao magnum opus de Constantin Noica – o maior filósofo romeno do séc. XX – As seis doenças do espírito contemporâneo­, que:

Não há povo talvez no universo que tenha mais que ele o senso da incongruência entre o exterior e o interior do homem, da impossibilidade de expressar a realidade nua e crua sem que ela acabe parecendo uma q8-dQ-hVfantasia alucinada. O dadaísmo, não convém esquecer, é invenção romena. Também o é o teatro do absurdo […] Esse povo tem o gênio da ambigüidade aparente a encobrir uma sinceridade profunda, que os brasileiros também têm, mas que nele se mescla a um toque de gravidade tragicômica que nos falta quase por completo. […] E é nessa faixa de indecisão e perplexidade que eles colocam o melhor, o mais profundo e o mais autêntico de uma visão romena do mundo.[2]

E Casamento Silencioso tem exatamente essa característica. Não é exatamente uma comédia, mas uma tragédia cujo absurdo só pode ser expressado pelo riso. Não é por acaso que o diretor mistura elementos misteriosos a situações que fogem à nossa compreensão. Como afirma Olavo:

[…] nenhum dos grandes escritores romenos dá o menor sinal de ser indiferente aos sofrimentos humanos ou de pretender defender-se deles mediante um artifício intelectual, seja o da ironia, seja qualquer outro. Ao contrário, eles não apenas assumem o sofrimento e o absurdo da vida com plena consciência da fatuidade desses artifícios, como também procuram expressá-lo da maneira mais franca, direta e literal. É precisamente desta franqueza que brota, quase paradoxalmente, o efeito cômico, quando o sofrimento descrito, chegando aos últimos limites da opressão e do nonsense, ultrapassa o dom das lágrimas e se converte em riso.[3]

A situação vivida pelas personagens de Casamento Silencioso parece absurda, mas não é – o filme é baseado em fatos reais. O comunismo mergulhou a Romênia em anos de 61512016obscuridade e terror tamanhos, que nenhum ocidental é capaz de compreender a não ser pelos recursos imaginativos que só a comédia pode oferecer. Nas palavras de Gabriel Liiceanu – editor, ex-discípulo de Noica e o mais destacado filósofo romeno da atualidade:

O tempo e o mundo que começaram depois da Segunda Guerra Mundial assemelharam-se, para os romenos, a um pesadelo. Um pesadelo é um cenário de vida em que entras sem que, de tua vida anterior, algo seja predito. A história cai por terra, pura e simplesmente, e, de um dia para o outro, nada mais se parece com o que foi.[4]

E sob esse pesadelo a Romênia viveu até 1989, quando Ceaușescu foi deposto e executado.

Sendo o casamento “ por excelência, a vocação que permite pôr Deus no que a vida tem aparentemente de mais comum e de mais banal” [Gustave Thibon], o comunismo (como habilmente é retratado no filme) é a retirada total de Deus não só daquilo que é comum e banal, mas da própria celebração da existência, da vida. É a morte que irrompe no silêncio. É o triunfo daquilo que, como nos demonstra Tismăneanu: é mnemófobo (contra a memória), é axiófobo (contra os valores) e é noofóbico (contra o espírito).[5] O comunismo foi a Noite Escura da alma romena – quiçá, do mundo.

Mas o romeno não se entrega facilmente e luta contra o próprio destino. E o faz com aquela

[…] paradoxal e inconfundivelmente romena propriedade de, justamente quando mais nos oprimem com a visão do intolerável, nos libertar de súbito, nos infundir uma luminosidade calma e soberana e nos elevar às portas de um reino angélico de contemplação e sabedoria. Eles celebram a vitória da linguagem sobre o mutismo ruidoso do mundo satânico. O jogo de excêntricos amalucados revela assim sua verdadeira natureza, a missão secreta desses anjos disfarçados em palhaços: é o divinum opus da cura pela palavra.[6]

Andrei Pleșu, na magistral conferência Da alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental – publicada em livro homônimo pela É Realizações –, nos apresenta essa estratégia de resistência do povo romeno – a mesma apresentada em Casamento Silencioso. É diante da total opressão e sufocamento da vida, que a vida mesma se apresenta, contrabandeada, oculta, travestida em tragédia, em alegrias mínimas e/ou proibidas. E Pleșu explica isso contrapondo a alegria “normal”, vivenciada por europeus do Ocidente, com as experiências de quem viveu diante dos horrores do comunismo:

A “normalidade” da Europa Ocidental consta de uma lista extensa de “obviedades”: é óbvio encontrares de comer; teres aquecimento em casa quando está frio lá fora; teres, sem interrupção, energia elétrica; passar o ônibus no horário; teres passaporte; encontrares-te com quem quiseres; creres no que quiseres; escreveres e publicares o que quiseres. É óbvio xingares o governo, vaiares as forças de ordem, veres filmes do Plesu-2mundo inteiro, leres qualquer autor, usares ou não barba e cabelos longos; teres quantos filhos quiseres; teres, em geral, direitos individuais que as instituições têm de respeitar. Nada disso era óbvio para o cidadão de um país comunista.[7]

Para descrever tal situação, Pleșu divide as alegrias possíveis ao povo romeno sob o comunismo, em Alegrias Mínimas, Negativas e Proibidas. Das alegrias mínimas, diz:

O regime totalitário não nos pôde tirar as grandes alegrias, as alegrias em que qualquer homem tem parte, indiferente da condição em que vive: a alegria do amor, da amizade, da criatividade. Mas, obrigando-nos a nos concentrar em alegrias mínimas, nos enviuvou das alegrias simples. Era-nos proibido em primeiro lugar não o luxo, mas o natural, o viver tranquilo, a nobreza calma do humano.[8]

E usa como exemplo um belo exercício de resistência pela organização de um mercado paralelo de alimentos:

Sabotamos o furor comunista de austeridade por um esforço gigantesco, organizado e solidário, cujo resultado foi a constituição de um mercado negro de alimentos, amplo e eficiente. Procurar, laboriosamente, o necessário, espreitar o momento (e o local) da distribuição fulgurante das mercadorias (de azeitonas, por exemplo), conservar o ritual doméstico da mesa e dos feriados, oferecer ao hóspede estrangeiro um almoço suficientemente bom que ele não mais entendesse nada do discurso acerca da pobreza do anfitrião – todas essas coisas (além das filas intermináveis e fervendo de subversão) foram formas de resistência muito mais disseminadas do que se crê.[9]

É curioso percebermos o quanto a escassez pode unir um povo; pode nutri-lo com uma coragem que só nasce no perigo iminente. E é também nessa total falta de perspectiva que aquela alegria improvável surge, quase imperceptível, como um portento. O testemunho de Pleșu merece citação:

[…] o primeiro grito de vitória que ouvi, a primeira alegria articulada, atestando a mudança radical dos tempos, veio da parte de uma vizinha boa gente, sem nenhum tipo de apetência revolucionária. Ela entrou impetuosa no quintal, passando, heroica, por entre balas, e proclamou, em benefício de todo o bairro: “No armazém da esquina há azeitonas! E não há fila!”. Senti imediatamente o aroma do futuro.[10]

Sim, pois a quem, no Ocidente, ocorreria não ter azeitonas no armazém? Mas, a exemplo do que está acontecendo na Venezuela dos dias atuais – cujo povo luta por papel higiênico –, não é nem um pouco estranho que os romenos, sob o mesmo comunismo, se espantassem de, ao entrarem numa padaria e perguntarem se havia pão, ouvirem um “sim” como resposta.[11] Essa era a situação real dos romenos sob o regime stalinista – e é a dos venezuelanos sob o chavismo de Nicolás Maduro, hoje.

Das alegrias negativas, Pleșu assevera:

As alegrias mínimas são a euforia do estritamente necessário. As alegrias negativas derivam não da satisfação de ter uma experiência agradável, mas da de não ter uma experiência ruim. As alegrias negativas exprimem-se perfeitamente no sintagma “poderia ter sido ainda pior”. Elas sobrevêm no horizonte de uma expectativa sombria e derivam da não realização dessa expectativa.[12]

Para Pleșu, tais alegrias, no Oriente, ganharam um contorno diferente do que se espera delas no Ocidente. Não é simplesmente ser poupado da anormalidade – como perder o emprego ou não adoecer –, mas, ao contrário, da “normalidade” comunista:

Alegra-se de não ter sido muito censurado um livro publicado por uma editora, de não lhe derrubarem a igreja ou a casa, de não ter sido dedurado à Securitate, ou que, embora dedurado, não era (ainda) apenado, interrogado ou preso, etc.[13]

E, por fim, diz das alegrias proibidas:

No Leste Europeu, a proibição era ilegítima, de maneira que a transgressão dela era um ato de coragem moral, uma forma pura de júbilo espiritual. Ler escondido um grande autor proibido, ter uma vida religiosa, escutar a “Europa Livre”, hospedar amigos do estrangeiro, fazer piadas à custa do governo totalitário, não declarar na polícia que tens uma máquina de escrever – eram tantas vitórias quantos pontos ganhos contra o abuso ditatorial. As alegrias proibidas são alegrias perigosas. O prazer é dobrado pela palpitação do risco.[14]

Nesse caso, a história do filme é um exemplo perfeito. A cena do casamento é, sem tirar nem pôr, um movimento de total subversão ao regime comunista, usando como arma de defesa a fartura e a festa. Enquanto os comunistas estavam de luto, os romenos festejavam. Celebravam a vida em plena morte. A quantidade de comida e bebida – com direito a um engraçadíssimo deboche flatulento do senhor Vrabie – é rebeldia pura.

E quando o filme retorna às ruínas do vilarejo, a equipe da Paramedia se rende à força dos eventos passados naquele local em 1953, e decide contar aquela história –  que não deixa de ser paranormal (à margem do normal) para os padrões atuais.

Casamento Silencioso é, sobretudo, uma lição de resistência altiva e coragem. E é evidente que, diante de um regime totalitário, às vezes o martírio é a única opção. Por isso, quando vemos, hoje, intelectuais defendendo o socialismo/comunismo como algo viável, é impossível não sentirmos repulsa por tamanha canalhice. Um regime que assassinou brutalmente milhões de pessoas, que espalhou o terror onde quer que tenha sido implantado, não pode triunfar novamente – ainda que travestido da tão famigerada e sedutora democracia. E nisso os romenos são os nossos mestres. Eles nos ensinam que todo projeto em direção a um “mundo melhor” não passa de delírio totalitário; que toda pretensão de democracia imposta por ideólogos leva ao genocídio.

Paulo Cruz, julho de 2016

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[1] TISMANEANU, Vladimir. Do Comunismo – O destino de uma religião política. Vide Editorial, 2015, p. 47. Tradução: Elpídio Fonseca.

[2] CARVALHO, Olavo de. In: NOICA, Constantin. As seis doenças do espírito contemporâneo. BestBolso, p. 14. Tradução: Fernando Klabin e Elena Sburlea.

[3] Idem, p. 15.

[4] LIICEANU, Gabriel. Do ódio. Vide Editorial, p. 101. Tradução: Elpídio Fonseca.

[5] Cf. TISMANEANU, Vladimir. Do Comunismo – O destino de uma religião política. Vide Editorial, 2015, Tradução: Elpídio Fonseca.

[6] CARVALHO, Olavo de. In: NOICA, Constantin. As seis doenças do espírito contemporâneo. BestBolso, p. 16. Tradução: Fernando Klabin e Elena Sburlea.

[7] Pleșu, Andrei. Da alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental. É Realizações, p. 23. Tradução: Elpídio Fonseca.

[8] Idem, p. 24.

[9] Idem, p. 25.

[10] Idem, p. 22.

[11] Cf.: Idem, p. 26.

[12] Idem, p. 28.

[13] Idem, p. 28.

[14] Idem, p. 29.


O turbante e a turba

Artigo publicado em 07 de outubro de 2015 no jornal Gazeta do Povo.

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“Quem construiu as pirâmides?, gritou o orador ismaelita. Um negro. Quem inventou a circulação do sangue? Um negro. […] Quem descobriu a América? […] Como tão nobremente escreveu o escritor negro Karl Marx, […] África para o trabalhador africano, Europa para o trabalhador africano, Ásia, Oceania, América, Ártico e Antártida para o trabalhador africano.”

O discurso acima poderia ter sido escrito por Cheikh Anta Diop – cheikh_anta_86antropólogo senegalês, coordenador da História Geral da África, da Unesco –, cuja tese era de que o Egito Antigo não só foi o berço da civilização, mas uma nação negra e influente, fonte, inclusive, da filosofia grega, de onde Platão e Aristóteles teriam roubado, dentre outras coisas, sua cosmogonia. Mas não: o excerto pertence ao romance Scoop, do satirista britânico Evelyn Waugh, e retrata muito bem o caráter megalômano da teoria de Diop.

A ideia pan-africanista busca uma identidade soberana negra, africana na diáspora, e ganhou força no início do século 20, com Marcus Garvey e W.E.B. Du Bois; demonstra o desejo de autoafirmação dos negros americanos após o fim da escravidão. Du Bois falava dos laços afetivos com a “mãe pátria”, e garantia que os negros tinham uma mensagem positiva para oferecer enquanto “raça negra”; e reacendeu o debate (eugenista e europeu) acerca do racismo biológico.

A tese de Du Bois é romântica, atraente, mas inconsistente. Primeiro, duboisporque o conceito de raças, no sentido biológico, é falso – e Du Bois não conseguiu desvencilhar-se dele. E, depois, porque tal unidade africana nunca existiu na África.

Recentemente, os teóricos afrocentristas embriagaram-se de fontes francesas (pode?) – principalmente Pierre Bourdieu e Michel Foucault, figuras onipresentes nas teses acadêmicas esquerdistas – e na ideologia do multiculturalismo, e termos como “apropriação cultural” e “poder simbólico” tornaram-se a chave-mestra do debate racial contemporâneo.

Daí que a investida mais recente do movimento negro é a apropriação cultural de teorias europeias para defender a exclusividade de uma cultura negra turban-Sophia-Lorencomo “símbolo de luta”. Assim, reivindicam o controle sobre o que as pessoas podem usar (e dizer) pela cor de sua pele; ou, pior ainda, por sua “identificação cultural” – veja o caso dos turbantes. Invertem o famigerado “Colored Only” da segregação americana, e assinam um atestado de incoerência. No Brasil, esse terrorismo ideológico cerceia a liberdade das pessoas e cria um falso separatismo num país majoritariamente miscigenado.

Paradoxalmente, o pan-africanista Du Bois, primeiro negro a obter um doutorado em Harvard, não era separatista. Culto, elegante e de escrita requintada – The Souls of Black Folk encantou o eminente filósofo William James, seu professor –, sabia o que era bom. Nas palavras do filósofo anglo-ganês Kwame Appiah:

“[Du Bois] era um homem de esquerda, mas um elitista e um dândi, que desenvolveu a noção de que a comunidade afroamericana deveria ser conduzida pelo que chamou de ‘Talented Tenth’ (algo como a Décima Parte Talentosa), uma elite intelectual negra que lutaria por seus direitos no campo das ideias, sem negar o que havia de melhor na cultura ocidental”.

Como ele mesmo disse: “além da linha do preconceito, caminho de braços dados com Balzac e Dumas […] Assim, casado com a Verdade, vivo por sobre o Véu”.

E nós, o que fizemos? Trocamos a Décima Parte Talentosa por uma turba de histéricos.

Paulo Cruz

 


“Preto parado é suspeito; correndo, é ladrão!”

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O racismo ideológico da esquerda

 

“Não há outra solução senão esperar melhoras com paciência e resignação”.

(André Rebouças, em 1898)

Creio que todos conheçam a frase que dá título a este texto. É antiga. Quando eu era pequeno ouvia muito isso, em casa mesmo, de troça. Mas trata-se de uma frase séria, criada com conotação claramente preconceituosa, dizendo que o negro vive na marginalidade auto-imposta, que gosta de malandragem, samba, cachaça e mulheres (sim, no plural).

Bem, infelizmente há um fundo de verdade nessa frase; pois, com o fim da escravidão os negros libertos foram empurrados para a marginalidade (para viverem à margem da sociedade) pelos republicanos e oligarcas que tomaram o poder  – tomo aqui como base a interpretação dos próprios abolicionistas, via André Rebouças. Com isso, restou ao negro aquele sentimento de que, de fato, a abolição nunca se concretizou. Tal constatação, feita pelos abolicionistas logo nos anos subseqüentes ao fatídico 13 de maio de 1888, fez com que estes ainda lutassem muito para conseguir alguma melhora na condição social da população negra. Porém, o sonho estava se esvaindo, a luta estava vencida. Os escravocratas, revoltados com o fim da escravidão e com a relutância do imperador em indenizá-los pela perda da mão de obra, juntaram-se aos republicanos e, proclamada a República, abandonaram os negros na condição onde muitos ainda hoje permanecem.

andre-reboucasTal desolação é relatada em várias cartas do grande abolicionista André Rebouças – que, com o fim da monarquia, devotado amigo que era da família real, com ela partiu para Portugal; depois foi para Cannes, Luanda e, por fim, suicidou-se melancolicamente na Ilha da Madeira, em 09 maio de 1898. Numa dessas missivas, endereçada ao caríssimo amigo Joaquim Nabuco, Rebouças diz (sobre o aniversário da Abolição):

“A 13 de maio de 1889 eu tive uma tristeza inexplicável. Lembra-se que foi necessário telegrama para tirar-me do meu isolamento de Petrópolis… Na tarde de 22 de agosto de 1888, quando voltávamos da faustosa e hipocrita recepção do Imperador, eu lhe disse ao ouvido: ‘agora posso dormir tranquilo…’ Parecia-me que, a todo o momento, os escravocratas assassinavam a princeza redentora e cubriam de sangue a página santa, que havíamos escrito durante oito longos anos…

“A 22 de agosto de 1888, ainda esperavam os celerados indenização e Chins… Foi quando Dom Pedro disse-lhes: ‘Não! Não… Mil vezes não!’ que eles foram para a república de mamelucos – bandeirantes e traficantes de escravos brancos e amarelos; porque a Inglaterra não permite que sejam Negros Africanos”.[1]

Ao lermos as cartas de Rebouças – negro, engenheiro competente, abolicionista e, sobretudo, amigo do grande D. Pedro II –, vemos com pesar o duro golpe que foi o apressar da abolição por interesses escusos, bem como o resultado, para os negros, do movimento revolucionário capitaneado pelos republicanos e escravocratas que depuseram a monarquia.

O fato é que, como foi realizada, a abolição lançou milhares de famílias, jovens, velhos e crianças em condições miseráveis, fazendo, com isso, que os crimes entre essa população aumentassem e ganhassem destaque; e também é grilhoesfato que ainda hoje essa situação não foi totalmente remediada, pois a maioria da população pobre do Brasil ainda é composta por negros (pretos e pardos).

Mas é preciso cautela para analisar os desdobramentos disso. A relação entre pobreza e criminalidade é absolutamente circunstancial, pois, no final da contas, criminoso é aquele que ESCOLHE praticar um crime. Essa história rousseauniana de que o criminoso é vítima da sociedade, que comete crime porque se vê à margem e vitimado pela “burguesia capitalista opressora”, só é aceita entre ideólogos revolucionários, sedentos e incansáveis por instaurar a famigerada Luta de Classes no país. Não há nenhuma relação direta entre uma coisa e outra, e os exemplos abundam!

Em minha família, por exemplo, os únicos que entraram para a vida do crime (sim, eles existem), o fizeram não por falta de oportunidade – tiveram muitas! – mas por influência e, claro, por escolha. Ou seja, num lugar onde traficantes e criminosos são considerados heróis, entrar para o crime torna-se uma questão de influência. Às vezes acontece por causa das drogas (do uso ou do tráfico), às vezes, pela busca de status entre os amigos. Ou seja, na vida turbulenta de um jovem da periferia, como diz a letra do Rap: “ele se espelha em quem ta mais perto”.

Por outro lado, há centenas de famílias honradas, batalhadoras, cujos filhos estão lutando contra essa tendência, buscando exemplos dentro e fora de casa, mas sempre exemplos de superação, determinação e fé. Desviando do crime e escolhendo a “estrada menos viajada” [Robert Frost]. E temos, ao longo da história, muitos casos que merecem destaque, que poderiam servir de exemplo norteador da construção da identidade não só do negro, mas do Brasil. Exemplos notáveis como o dos abolicionistas (Nabuco, Rebouças, José do Patrocínio, Teodoro Sampaio et alii); de escritores/poetas como Machado de Assis, Cruz e Souza e Lima Barreto; de músicos como Pe. José Maurício Nunes Garcia e Carlos Gomes; de mestres como Ernesto Carneiro Ribeiro e tantos outros.

Tais exemplos, seguidos com afinco, nos ajudariam a criar, ainda que devagar, mas consistentemente, geração após geração, um Brasil menos preconceituoso e mais igualitário – primeiro no âmbito cultural (que é de onde tudo flui), depois no social. Uma conquista sólida e perene.

W. E. B. Du Bois[i], o primeiro negro a conseguir um título de Doutor em Harvard (ainda no séc. XIX), e grande precursor w.e.b.-duboisda causa pelos diretos dos negros nos EUA, disse bem:

“Repito, podemos subestimar o preconceito de cor do Sul e, no entanto, este continua a ser um fato ponderável. Tais desvios curiosos da mente humana existem e devem ser encarados com sobriedade. Eles não podem ser destruídos pela zombaria, não são sempre fáceis de atacar nem são simplesmente abolidos por decretos judiciais. E, contudo, não devem ser estimulados pela inércia. Devem ser reconhecidos como fatos, porém como fatos desagradáveis; coisas que entravam as vias da civilização, da religião, do sentimento de decência. Só podem ser enfrentados de uma maneira – pelo alargamento e pela expansão da razão humana, pela universalização do gosto e da cultura”[2].

E sobre a superação das dificuldades, assevera:

“O esforço de todos os homens honrados do séc. XX é, portanto, garantir que na futura competição das raças a sobrevivência dos mais aptos possa significar o triunfo do bom, do belo e do verdadeiro; que preservemos para a civilização do futuro tudo que é realmente bom, nobre e forte, e não continuemos a incentivar a ganância, a desfaçatez e a crueldade. Para fazer com que tal esperança frutifique, somos compelidos diariamente a empreender um estudo cada vez mais consciencioso dos fenômenos dos contatos entre as raças – um estudo franco e imparcial, não falsificado ou colorido por nossos desejos ou temores”[3].

Não é por mágica, nem por revolução e nem pelo Estado; é por esforço – de trabalho e de cultura. Essa é a única via.

E o mais curioso ainda é que Du Bois não tinha a mente fechada e tacanha dos negros “do movimento” de hoje, sequazes de doutrinas afrocentristas e segregadoras (racistas, portanto). Ele sabia a diferença entre uma cultura local, folclórica, e a Alta Cultura*, importante civilizadora do Ocidente onde, ao fim e ao cabo, vivia e fruto de séculos de tradição:

“Sento-me em companhia de Shakespeare, e ele não se retrai. Além da linha do preconceito, caminho de braços dados com Balzac e Dumas, onde homens sorridentes e mulheres acolhedoras deslizam entre dourados salões. Das cavernas da noite que oscilam entre a terra firme e o traçado das estrelas, chamo por Aristóteles e Marco Aurélio ou por qualquer outra alma que eu deseje e eles se aproximam graciosamente, sem escárnio ou condescendência. Assim, casado com a verdade, vivo por sobre o Véu. E esta a vida que você não quer nos dar, cavalheiresca América?”[4]

E o nosso Rebouças também da o exemplo. De seu exílio informa ao amigo ex-Imperador: “Continuo a educar o meu coração lendo Tolstoi e o Santo Homero”[5]

E não se trata de relegar a cultura ancestral (longe disso!), mas de se inteirar e ser alimentado pela cultura que orienta a vida intelectual e social do pais onde se nasce e vive. Só assim é possível progredir. Alimentar, no Ocidente, uma cultura afrocentrista, segrega em vez de agregar.

Esse é o verdadeiro Movimento Negro – os Negros em Movimento! Educando-se e buscando, incansavelmente, a superação das dificuldades.

Racismo e ideologia

Porém, o discurso ideológico da esquerda é nefasto e oportunista. Apropriou-se compulsoriamente da “Causa Negra”, e se fez porta-voz de toda uma população que buscava, com muita dificuldade, o seu espaço. Mas não só isso: igualou essa Causa a outras tantas, e todas a uma agenda revolucionária, fomentando toda sorte de ressentimentos, incitando brancos contra negros, ricos contra pobres, mulheres contra homens, homossexuais contra heterossexuais etc. Ou seja, instaurou a tensão social e o ódio de classes, raças, sexo etc..

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Mas esse não é um ódio qualquer, pois todo ser humano em sã consciência repudia tal sentimento. Esse é um ódio, como nos diz o filósofo romeno Gabriel Liiceanu – em seu apuradíssimo ensaio “Do Ódio” – “culto e cultivado”, e organizado intelectualmente como ideologia; e desse modo passa a ter “dignidade histórica e aura científica. E o crime que o acompanha é, a seu turno, enobrecido, porque a finalidade a que ele serve sonha com o bem para muitos e, no limite, para toda a humanidade”[6].

Outra característica desse ódio, como nos aponta Liiceanu, é a impessoalidade. De posse desse ódio o militante pode tudo. Diz:

“Já não se odeia uma pessoa isolada, odeia-se uma pessoa como agente de uma categoria. Odeia-se uma hipóstase englobadora, odeia-se um ‘como’ explicativo-categorial […] Odeia-se a alguém como; odeias alguém como burguês, como hebreu, como cigano, como intelectual, como islamita, como americano, como húngaro etc.

“Em conclusão, o ódio tornou-se impessoal à medida que nem o que odeia é uma pessoa isolada (mas membro de um grupo, de uma organização, de um partido, de um ‘movimento’ etc. Nem o que é odiado é isolado, mas pertence a uma categoria (de classe, de raça, de nação, de religião)”[7].

Portanto, meus caros, estamos à mercê de um ódio organizado, ideológico, que permite a essa corja militante odiar à vontade e, não raro, acusar aos outros de “discurso de ódio”, numa manipulação lingüística de fazer inveja.

Aliás, a linguagem metonímica é um dos grandes trunfos do discurso ideológico da esquerda. Diante de uma geração inteira educada por acadêmicos estruturalistas e filósofos da linguagem, essa turma consegue o efeito denunciado por Lewis Carroll em seu “[Alice] Do lado de dentro do espelho”, que é o de dar a uma palavra o sentido que se quer, não importando o sentido próprio que ela tenha[8].

A cor dessa cidade

O entrevero que tive com a cantora Daniela Mercury e seus seguidores (autodenominados “mercuryanos”) é um bom exemplo.

Ela escreveu um tuíte:

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Caros, não é preciso ser um lingüista para compreender o que essa frase significa. Se eu digo “a redução da maioridade penal exterminará pretos e pobres”, o que digo? Exatamente que os pretos e pobres são criminosos, ou potenciais criminosos. E isso é cristalino como água de uma fonte virgem.

Isso exigiu de mim uma resposta no mesmo tom com o qual essa gente costuma acusar os outros:

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E o restante da pequena discussão com a representante dos mercuryanos, segue abaixo:

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Claro que eu, ofendido, disparei como quem não quer se ver representado por esse discurso patético.

Agora, o que é a redução da maioridade penal? É uma alteração na legislação que visa a prender criminosos menores de 18 anos – aos 16, nesse caso – que cometem crimes hediondos. E o que isso tem que ver com pretos e pobres? Segundo Daniela Mercury, é o seguinte: pretos e pobres são marginalizados pela sociedade. Consequentemente são empurrados para a criminalidade e, consequentemente, são presos.

Mas qual o nexo causal disso? Absolutamente NENHUM! Porque há um salto malicioso entre marginalização e criminalidade. Ser colocado à margem não nos leva, automaticamente, a cometer crimes! Há inúmeros casos que provam o contrário disso. Muitos defensores dessa ideia absurda são prova contrária disso. E, curiosamente, quanto mais próximos da escravidão deitamos os nossos olhos, mais vemos negros célebres e reconhecidos pela sociedade.

Daí surge outra manipulação ideológica, que diz ser apenas uma minoria que consegue driblar esse, digamos, destino.

Ora essa, se uma minoria consegue, porque não pode influenciar a maioria? Respondo: porque o discurso ideológico, o vitimismo torpe, o ódio cultivado e a barreira imposta por ONG’s, políticos e ideólogos de toda sorte – muitas vezes, mais até que um traficante –, vivem a martelar na cabeça das pessoas que moram na periferia que seu esforço jamais será reconhecido pela chamada elite, que suas conquistas jamais valerão nada nesse mundo que os rejeita; e que a única forma de mudar essa situação é buscar ajuda do Governo e seus Programas Bem-Estar Social! E o Estado se torna a tábua de salvação dessas pessoas. E o truque fatal de um Estado Socialista totalitário é, justamente, manter essas pessoas cativas por Programas Sociais, para garantir o voto e  a perpetuação no Poder. E essa falsa resolução é gritada aos quatro ventos como a verdade absoluta (a única diante da relativização total). Por outras palavras, é pegar o negro livre e fazê-lo escravo do Estado. É fazer o cão tornar ao vômito[9].

E está fechado o ciclo. Uma turba inumerável de ressentidos doutrinada por ideólogos – na esfera acadêmica e cultural, das novelas aos estudos acadêmicos – e um Estado forte que sustenta toda essa desgraça, oferecendo migalhas sem nunca resolvê-la.

Como diz Antonio Gramsci – fundador do partido comunista italiano e pai do socialismo do séc. XX (pós-revolução russa): “Na fase da luta pela hegemonia, desenvolve-se a ciência política; na fase estatal, todas as superestruturas devem desenvolver-se, sob pena de dissolução do Estado”[10].

É urgente que os negros escapem dessa manipulação e percebam o valor que há no indivíduo, no esforço, na perseverança, nas determinações e decisões tomadas de acordo com a própria consciência. É um esforço e tanto, demandará muito sacrifício. Mas só assim será possível construir um futuro perene e de raízes profundas, não só para si, mas para seus filhos e netos. E, por fim, para o Brasil de todos os brasileiros.

Paulo Cruz

[1] REBOUÇAS, André. “Diários e Notas Autobiográficas”, José Olympio, p. 400.

[2] DU BOIS, W. E. B. “As almas da gente negra”. Lacerda Editores, p. 146. Tradução: Heloísa Toller Gomes

[3] DU BOIS, Ibid., p. 217.

[4] DU BOIS, Ibid., p. 162.

[5] REBOUÇAS, Op. Cit., p. 381.

[6] LIICEANU, Gabriel. “Do ódio”. Vide Editorial, p. 49. Tradução: Elpídio Mário Dantas Fonseca

[7] LIICEANU, Ibid., pp. 54-55.

[8] “— Quando uso uma palavra, replicou Osvaldo Oval — em tom de desdém —, o significado dela é aquele que quero que ela tenha — e não admito discussão.

— Isso é questão de saber se você pode atribuir o significado que quiser a uma palavra.

— Isso é uma questão de saber quem é que manda. E basta!” (CARROLL, Lewis. “Do lado de dentro do espelho”. Itatiaia, p. 237. Tradução: Eugênio Amado).

[9] “Como o cão torna ao seu vômito, assim o tolo repete a sua estultícia”. (Provérbios 26:11)

[10] GRAMSCI, Antonio. “Cadernos do Cárcere – Vol. I”. Civilização Brasileira, p. 210. Tradução: Carlos Nelson Coutinho.

[i] Infelizmente, Du Bois, com a instauração das leis Jim Crow, e vendo que o grande sonho de Reconstrução da América não dava o espaço necessário aos negros, buscou refúgio no Socialismo, o que, evidentemente, não deu em nada. Beijou as mãos do genocida Mao Tsé-Tung, depois rumou para Gana e lá morreu no completo ostracismo.

* Sobre Alta Cultura, Ortega y Gasset explica:

“O império que sobre a vida pública hoje exerce a vulgaridade intelectual, é talvez o fator da presente situação mais novo, menos assimilável a nada do pretérito. Pelo menos na história européia até hoje, nunca o vulgo havia crido ter ‘idéias’ sobre as coisas. Tinha crenças, tradições, experiências, provérbios, hábitos mentais, mas não se imaginava de posse de opiniões teóricas sobre o que as coisas são ou devem ser – por exemplo, sobre política ou sobre literatura -. Parecia-lhe bem ou mal o que o político projetava e fazia; dava ou retirava sua adesão, mas sua atitude reduzia-se a repercutir, positiva ou negativamente, a ação criadora de outros. Nunca se lhe ocorreu opor às ‘idéias’ do político outras suas; nem sequer julgar as ‘idéias’ do político do tribunal de outras ‘idéias’ que cria possuir. A mesma coisa em arte e nas demais ordens da vida pública. Uma e inata consciência de sua limitação, de não estar qualificado para teorizar, vedava-o completamente. A conseqüência automática disto era que o vulgo não pensava, nem de longe, decidir em quase nenhuma das atividades públicas, que em sua maior parte são de índole teórica.
Hoje, pelo contrário, o homem médio tem as ‘idéias’ mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por isso perdeu o uso da audição. Para que ouvir, se já tem dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir, mas, pelo contrário, de julgar, de sentenciar, de decidir. Não há questão de vida pública em que não intervenha, cego e surdo como é, impondo suas ‘opiniões’.

“Mas não é isto uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massas tenham “idéias”, quer dizer, que sejam cultas? De maneira alguma. As “idéias” deste homem médio não são autenticamente idéias, nem sua posse é cultura. A idéia é um xeque-mate à verdade. Quem queira ter idéias necessita antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras do jogo que ela imponha. Não vale falar de idéias ou opiniões onde não se admite uma instância que a regula, uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. Estas normas são os princípios da cultura. Não me importa quais são. O que digo é que não há cultura onde não há normas. A que nossos próximos possam recorrer. Não há cultura onde não há princípios de legali5àde civil a que apelar. Não há cultura onde não há acatamento de certas últimas posições intelectuais a que referir-se na disputa (50). Não há cultura quando as relações econômicas não são presididas por um regime de tráfico sob o qual possam amparar-se. Não há cultura onde as polêmicas estéticas n o reconhecem a necessidade de justificar a obra de arte.
Quando faltam todas essas coisas, não há cultura; há, no sentido mais estrito da palavra, barbárie. E isto é, não tenhamos ilusões, o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas”.

(Ortega y Gasset, “A Rebelião das Massas”)


“Da Mentira”, de Gabriel Liiceanu, e o momento eleitoral brasileiro.

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Lançamento Vide Editorial

À Andrea Espírito Santo, pelo incentivo

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Gabriel Liiceanu

Gabriel Liiceanu é um filósofo singular. Romeno, nascido em 1942, formou-se em Filosofia (1965) e Letras Clássicas (1973) pela Universidade de Bucareste. Doutorou-se em Filosofia em 1976, pela mesma universidade, onde é professor. Mas Liiceanu foi, antes de tudo, discípulo dileto do grande Constantin Noica, mestre de toda uma geração de grandes pensadores romenos – dentre eles, Andrei Pleșu, autor de Da Alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental (É Realizações, 2013) –, que se reuniam num pequeno casebre em Păltiniș (região de Sibiu, na Transilvânia), para cursos sobre Platão, Aristóteles, Hegel etc., utilizando o método socrático. Também é proprietário da Humanitas, editora de grande prestígio na Romênia, que publica desde célebres traduções dos gregos até best-sellers da atualidade.

A Vide Editorial acaba de lançar – em tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca –, Da Mentira (“Despre minciună”), de Liiceanu.

Lançado originalmente em 2006, essa obra é, na verdade, o texto de uma palestra dada por Liiceanu nas “Conferências Microsoft”, em 2004, e trata-se de uma meditação sobre a mentira como instrumento político. Primeiro, como um recurso utilizado para se atingir o “bem comum” – chamado por ele de “moral de segunda instância”; depois, como instrumento do mal puro. Para esse último caso, utiliza como exemplo o Comunismo na Romênia. Diz Liiceanu no prólogo:

A mentira não pode ser de fato entendida senão como momento negativo da liberdade. Então tudo se torna claro: o mal, o crime, a política, ou seja, todas as coisas que são possíveis apenas pela escroqueria verbal que as precede. O fato de a língua, empregada do utilizador humano, poder dizer não apenas o que é, mas também o que “não é” — ou seja, o fato de que uma palavra pode dizer não apenas a verdade, mas também mentir — explica por que a história do homem é, em sua essência, uma corrente de desastres[1].

Para essa análise, Liiceanu “convida” três obras nas quais a mentira é tratada como forma de atingir o “bem comum”: a tragédia Filoctetes, de Sófocles; o diálogo Hípias Menor, de Platão; e, por fim, o moderno O Príncipe, de Nicolau Maquiavel. O resultado é invejável!

Na tragédia sofocleana, Odisseu (ou Ulisses) convence Neoptólemo, filho de Aquiles, a enganar o célebre arqueiro Filoctetes – picado por uma serpente no início da guerra e abandonado por Ulisses na ilha de Lemnos – e convencê-lo a voltar a Troia, pois, como o fim da guerra estava próximo, a habilidade de Filoctetes com o arco e flecha era indispensável.Neoptolemo Sagaz, Liiceanu, escreve:

O que pede Odisseu ao suave Neoptólemo? Aparentemente, uma bagatela: enganar Filoctetes, empregando palavras. Sófocles diz textualmente: ten Philocteton psychen logoisin ekklepseis. Al contrário de klepto, que significa “roubar uma coisa” (ver “cleptomania”), ekklepto significa “roubar uma pessoa”, ou seja, “raptar”. Odisseu pede a Neoptólemo que “roube”, valendo-se de palavras “a mente de Filoctetes”.[2]

Ou seja, a mentira de Neoptólemo seria utilizada para o bem (a vitória) dos gregos.

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Sócrates e Hípias

No capítulo II, Liiceanu analisa uma passagem do diálogo platônico Hípias Menor, escrito, provavelmente, cerca de 10 anos depois da tragédia de Sófocles, e cujo subtítulo é homônimo ao livro do próprio Liiceanu: “Da mentira”. Na passagem escolhida para a análise, Sócrates conversa com Hípias sobre a possibilidade de alguém cuja alma fosse boa, “amante da verdade” (ho alethes), dizer mentiras ou enganar. Platão (na pessoa de Sócrates) conduz o diálogo de forma magistral, chegando a uma conclusão devastadora. Diz Liiceanu:

O diálogo é, em substância, o desenvolvimento e a conclusão espantosa dele, no sentido de perplexidade. Parece atestar uma enormidade, já que contradiz, como veremos, uma verdade elementar, e, mais ainda, o próprio meio da doutrina socrático-platônica segundo a qual o sabedor da verdade e do bem é incapaz de fazer o mal.[3]

A conclusão é que, quanto mais virtuoso for um homem, tanto mais é capaz de enganar e mentir, pois o faz conscientemente. Nas palavras de Liiceanu: “O mais sabedor é o que pode mentir melhor”.[4]

O capítulo seguinte é chamado de Intermezzo, e Liiceanu reflete sobre o deinon (assombro) entre os gregos. Inclusive faz uma citação de O problema do sofrimento, de C. S. Lewis, no qual este fala sobre o numinoso. Faz isso porque Hípias, ao final do diálogo com Platão, afirma que seria assombroso que aquele que engana voluntariamente fosse melhor do que aquele que engana involuntariamente.

O próximo capítulo é dedicado ao famigerado O Príncipe, de Maquiavel. Segundo a análise de Liiceanu, nesta obra Maquiavel dá dimensão programática e pragmática ao pensamento político dos gregos, “justificando a essência do comportamento político como mentira, fraude, engano, violência, manipulação etc.”[5]. O príncipe pode, senão deve – valendo-se da “moral de segunda instância” – praticar o mal para atingir o bem:

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Maquiavel

O Príncipe de Maquiavel é o oposto de um tirano, ou seja, de alguém que comete o mal público porque almeja apenas o bem próprio e de sua família. A máxima de Maquiavel não é “sê mal!”, mas “recorre ao mau quando o bem deve ser salvo, defendido ou consolidado[6].

Nesse sentido, o príncipe maquiavélico é um virtuoso (movido pela virtu) que pratica o mal por um bem maior: o do povo.

O quarto e último capítulo é particularmente importante. Liiceanu faz uma crítica duríssima à situação da Romênia sob a égide do Comunismo. Não poupa palavras, pois ele mesmo foi vítima de espionagem sistemática. “Grampeado” de 4 de novembro de 1971 a 23 de dezembro de 1989, o que gerou gravações em fita e alguns milhares de páginas escritas a respeito de sua vida cotidiana – como descobriu, após a abertura dos arquivos da Securitate (a polícia secreta do governo assassino de Ceauşescu), em 1999 – sabe como ninguém o que é viver sob um regime onde a mentira é uma das armas principais:

O que aconteceu com o nosso país? O oposto do que aconteceu com a Alemanha, Itália ou Japão depois da guerra. Maquiavel fala de uma ditadura temporária (e esta foi a ditadura dos Aliados) destinada a reinstituir a liberdade nas sociedades antigas pelos tiranos. Apenas a nós, em lugar de um Douglas MacArthur [comandante militar norte-americano na II Guerra Mundial e filho do herói da Guerra de Secessão Arthur MacArthur] que eliminou os chefes do exercito japonês e impôs uma constituição democrática que fez que o Japão fosse hoje um dos países mais civilizados do mundo, veio Vîșinski [jurista e político soviético, membro do Partido Comunista], que, depois de eliminar Antonescu e os ministros do gabinete dele, em vez de uma democracia exportou para a Romênia um regime em que a mentira não era um ingrediente da moral de segunda instância, mas o cerne mesmo das maiores imoralidades públicas da história do homem. Em vez de um mal ser purgado pelo mal reparatório do castigo (a Nurembergue dos Aliados) e pelo restabelecimento das coisas no leito da democracia e do “bem comum”, entre nós o mal foi amplificado por uam tirania do totalitarismo que Maquiavel não conhecera e em que a mentira perde seu sentido odisséico e sofre uma transformação radical. […] Tal tirania não é uma síncope maléfica posta a serviço do bem, mas o mal puro, posto a serviço do mal puro.[7]

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Ceaucescu: assassino cruel

O Comunismo foi uma das maiores atrocidades da história da humanidade. No caso romeno, o regime foi liderado pelos dois líderes sanguinários Nicolae Ceauşescu – que implantou o terror absoluto no país durante vinte e quatro anos, e foi responsável por milhares de mortes – e Gheorghe Gheorghiu-Dej, responsável por perseguições e torturas cuja crueldade ultrapassa os limites do imaginável, chegando às raias do demoníaco (vide o terrível Experimento Piteşti).

Nesse capítulo, dividido em três partes – antes, durante e depois do Comunismo –, a mentira é tratada como instrumento do mal, a serviço do crime, do engano, da morte. Na última parte, Liiceanu faz um balanço do que se tornou a Romênia após a execução do casal Ceauşescu e a queda do regime comunista. E o quadro não é dos melhores:

A revolução, tanto quanto foi e pouco que se fez (em Timișoara, Bucareste, – Piaţa Universităţii [Praça da Universidade], Brașov, Cluj, Sibiu) soldou-se, nos termos de Maquiavel, com a morte do tirano. Este foi o começo do momento catártico, o purgante psíquico pelo qual uma comunidade se livra do ódio e os membros dela ficam satisfatti, diz Maquiavel. Apenas que este processo, uma vez iniciado, não continuou e não se consumou. Uma parte considerável da população romena viveu, em vez da purgação completa, um ato catártico interrompido e as toxinas psíquicas permaneceram, assim, não eliminadas. […] O desmoronamento de um regime corrupto abre portas, neste caso, para o aparecimento de uma corrupção ainda maior. O regime comunista na variante Ceauşescu chega hoje – coisa alucinante à primeira vista – a ser lastimado exatamente por causa da nova corrupção gerada e redobrada pelos filhotes deixados vivos que saíram, em coorte, do ventre do monstro assassino.[8]

A constatação de Liiceanu é aterradora, pois nos faz ver, com num espelho, a situação brasileira Pós-Regime Militar. Chegamos num ponto em que alguns já clamam, saudosos, a volta dos militares ao poder, tamanho o desespero em face ao mal absoluto que reina em nossa pseudo-democracia.

E não é preciso ser um expert em Ciência Política para notar que, principalmente em nosso processo eleitoral, a mentira é utilizada de forma exaustiva, deslavada. Não como uma moral de segunda instância, para atingir o “bem comum” (como demonstrado por Liiceanu), mas pura e simplesmente para ocupar espaço e garantir, a cada postulante, o seu pedaço na corrupção generalizada.

Por isso considero a leitura deste assombroso Da Mentira fundamental para que entendamos em que abismo estamos nós, brasileiros.

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[1] LIICEANU, 2014, p. 10

[2] Ibid., pp. 16-17.

[3] Ibid. pp. 25-26.

[4] Ibid. p. 28.

[5] Ibid. p. 40.

[6] Ibid. p. 46.

[7] Ibid. pp. 53-54.

[8] Ibid. pp. 59-60, 61.


C. S. Lewis e a formação do imaginário

Die Chroniken von Narnia: Der König von Narnia

[…] Mas, quando amanheceu, caía uma chuva enjoada, tão grossa que, da janela, quase não se viam as montanhas, nem os bosques, nem sequer o riacho do quintal.

– Tinha certeza de que ia chover! – disse Edmundo.

Haviam acabado de tomar café com o professor e estavam na sala que lhes fora destinada, um aposento grande e sombrio, com quatro janelas.

– Não fique reclamando e resmungando o tempo todo – disse Susana para Edmundo. – Aposto que, daqui à uma hora, o tempo melhora. Enquanto isso, temos um rádio e livros à vontade.

– Isso não me interessa – disse Pedro. – Vou é explorar a casa.

Todos concordaram, e foi assim que começaram as aventuras. Era o tipo da casa que parece não ter fim, cheia de lugares surpreendentes. As primeiras portas que entreabriram davam para quartos desabitados, como, aliás, já esperavam. Mas não demoraram a encontrar um salão cheio de quadros, onde também acharam uma coleção de armaduras. Havia a seguir uma sala forrada de verde, com uma harpa encostada a um canto. Depois de terem descido três degraus e subido cinco, chegaram a um pequeno saguão com uma porta, que dava para uma varanda, e ainda para uma série de salas, todas cobertas de livros de alto a baixo. Os livros eram quase todos muito antigos e enormes. Pouco depois, espiavam uma sala onde só existia um imenso guarda-roupa, daqueles que têm um espelho na porta. Nada mais na sala, a não ser uma mosca morta no peitoril da janela.

– Aqui não tem nada! – disse Pedro, e saíram todos da sala.

Todos menos Lúcia. Para ela, valia a pena tentar abrir a porta do guarda-roupa, mesmo tendo quase certeza de que estava fechada à chave. Ficou assim muito admirada ao ver que se abriu facilmente, deixando cair duas bolinhas de naftalina. Lá dentro viu dependurados compridos casacos de peles. Lúcia gostava muito do cheiro e do contato das peles. Pulou para dentro e se meteu entre os casacos, deixando que eles lhe afagassem o rosto. Não fechou a porta, naturalmente: sabia muito bem que seria uma tolice fechar-se dentro de um guarda-roupa. Foi avançando cada vez mais e descobriu que havia uma segunda fila de casacos pendurada atrás da primeira. Ali já estava meio escuro, e ela estendia os braços, para não bater com a cara no fundo do móvel. Deu mais uns passos, esperando sempre tocar no fundo com as pontas dos dedos. Mas nada encontrava.

“Deve ser um guarda-roupa colossal!”, pensou Lúcia, avançando ainda mais. De repente notou que estava pisando qualquer coisa que se desfazia debaixo de seus pés. Seriam outras bolinhas de naftalina? Abaixou-se para examinar com as mãos. Em vez de achar o fundo liso e duro do guarda-roupa, encontrou uma coisa macia e fria, que se esfarelava nos dedos. “É muito estranho”, pensou, e deu mais um ou dois passos. O que agora lhe roçava o rosto e as mãos não eram mais as peles macias, mas algo duro, áspero e que espetava.

– Ora essa! Parecem ramos de árvores!

Só então viu que havia uma luz em frente, não a dois palmos do nariz, onde deveria estar o fundo do guarda-roupa, mas lá longe. Caía-lhe em cima uma coisa leve e macia. Um minuto depois, percebeu que estava num bosque, à noite, e que havia neve sob os seus pés, enquanto outros flocos tombavam do ar. Sentiu-se um pouco assustada, mas, ao mesmo tempo, excitada e cheia de curiosidade. Olhando para trás, lá no fundo, por entre os troncos sombrios das árvores, viu ainda a porta aberta do guarda-roupa e também distinguiu a sala vazia de onde havia saído. Naturalmente, deixara a porta aberta, porque bem sabia que é uma estupidez uma pessoa fechar-se num guarda-roupa[1].

O trecho acima é bastante significativo; faz parte da mais famosa obra de C. S. Lewis: O Leão, a Feiticeira e o guarda-roupas — um dos sete livros da série As Crônicas de Nárnia, sucesso absoluto do gênero, com mais de 100 milhões de cópias vendidas, e traduzido para mais de 40 idiomas.

As Crônicas… foram a grande investida de Lewis no gênero literário que, desde a sua infância, mais o fascinara. Mais do que isso, foi o gênero responsável por sua formação intelectual. Sua relação com os chamados Contos de Fadas foi duradoura a ponto de ocupar boa parte de sua vida acadêmica. Suas reflexões a esse respeito vão ao encontro das obras de outros grandes intelectuais que o influenciaram  influência profunda, que foi capaz de moldar a essência de seu pensamento. Ele mesmo nos diz:

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Lewis, um leitor voraz!

O homem imaginativo em mim é mais velho, mais continuamente operativo e, nesse sentido, mais básico que o escritor religioso ou o crítico. Foi ele quem, numa primeira tentativa (com pouco sucesso), me impulsionou a ser um poeta. Foi ele quem, em resposta à poesia dos outros, me fez um crítico, e, em defesa dessa faceta, por vezes um polemista crítico. Foi ele que, depois da minha conversão, levou-me a encarnar minha fé religiosa em formas simbólicas ou mitopoéticas, variando de Screwtape a uma espécie de teologia de ficção científica. E foi, naturalmente, aquele que me fez, nos últimos anos, escrever a série de histórias sobre Nárnia para crianças; não perguntando o que as crianças queriam e, em seguida, me esforçando para me adaptar (isso não foi necessário), mas porque o Conto de Fadas foi o gênero que melhor se ajustou ao que eu queria dizer.[2]

Oxford, Inklings e retorno ao Cristianismo

Clive Staples Lewis (ou Jack, como gostava de ser chamado) nasceu em Belfast, na Irlanda do Norte, em 1898, filho de um advogado e da filha de um pastor. Cresceu num ambiente de cristãos nominais e nada fervorosos. Perdeu a mãe aos nove anos de idade, experiência que o marcara profundamente[3].

Depois de passar por alguns professores particulares, recebeu uma bolsa de estudos em Oxford, e, após concluir seus estudos, conseguiu um cargo de instrutor no Magdalen College, de em Oxford, onde permaneceria por 29 anos!

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The Inklings

Em Oxford conheceu homens cuja grande amizade desfrutou até o final de sua vida, sobretudo J. R. R. Tolkien, Nevill Coghill, Hugo Dyson, Owen Barfileld e Charles Williams. Com estes (e outros) formaria os Inklings, uma espécie de confraria intelectual que se reunia para ler e debater seus temas favoritos. O grupo existiu formalmente de 1933 até meados de 1949; e, num Pub em Oxford chamado The Eagle and Child, ou no próprio escritório de Lewis no Magdalen College, foram gestadas e discutidas as grandes obras destes homens — com destaque para O Senhor dos Anéis, de Tolkien, e As Crônicas de Nárnia, de Lewis.

Foi também por influência dos Inklings que Lewis voltou ao cristianismo e se tornou um dos mais famosos apologistas cristãos do séc. XX.

 

Imaginação Moral

Toda a longa jornada intelectual e de fé de C. S. Lewis foi alimentada pela mitologia e pela imaginação.

Ele conta que uma de suas primeiras e mais marcantes experiências imaginativas ocorreu ao ler uma tradução que o poeta norte-americano Longfellow fez do poema Drapa, escrito pelo sueco Esaías Tegner, e cita um trecho:

I heard a voice, that cried,

“Balder the Beautiful

Is dead, is dead!”

[Ouvi uma voz, que chorava,

“Balder, o Belo,

Está morto, está morto!”][4]

Um biógrafo de Lewis, Colin Durez, “lê” o poema assim:

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“A Morte de Balder”, by Christoffer Wilhelm Eckersberg (1817)

O pálido cadáver do sol morto é carregado através do firmamento sententrional. Lufadas de Niffelheim erguem os lençóis de névoa ao seu redor quando ele passa. Balder está morto — Balder, o Belo, deus do sol de verão, mais bonito de todos os deuses! A luz irradia de sua fronte, há runas em sua língua, assim como na espada do guerreiro. Todas as coisas na terra e no ar estão obrigadas, por mágico feitiço, a jamais feri-lo; mesmo as plantas e pedras — todas, exceto o visco! Hoeder, velho deus cego e silencioso, inocentemente trespassa o brando peito de Balder com sua lança afiada, feita por artifício com o visco maldito![5]

Outro biógrafo, David Downing, relata:

Embora, na época, Lewis não tivesse a mínima ideia de quem era Balder, tais versos o preencheram com um tipo particular de alegria, que ele denominou “borealidade” (ou “nortidade”), uma visão austera e extática das coisas “frias, espaçosas, severas, pálidas e remotas”.

Uma pequena explicação: Balder, o Belo, é um deus da mitologia nórdica, filho de Odin e Friga. Após ter vários sonhos em que sua vida corria perigo, contou seus tormentos aos deuses e esses resolveram ajudá-lo. Então Friga, sua mãe, conseguiu que o Fogo, a Água, o Ferro e todos os outros metais, as Pedras, as Árvores, as Feras, as Aves, os Peixes e todos os animais que rastejam, jurassem não lhe fazer mal. Com isso, os deuses passaram a brincar com Balder, atirando-lhe coisas como num alvo. Porém, o astuto Loki, cevado de inveja, descobriu que uma planta chamada Visco poderia ferir o deus protegido. Colheu dessa planta, passou na ponta de uma lança e deu nas mãos de Hoeder, o deus cego que não participava da brincadeira por não enxergar o “alvo”. Loki direcionou as mãos de Hoeder, que feriu Balder e o matou.

A história de Balder, nos versos de Tegner/Longfellow, causou uma marca indelével no pequeno Jack, um garoto “produto de longos corredores, cômodos vazios e banhados de sol, silêncios no piso superior, sótãos explorados em solidão, ruídos distantes de caixas-d’água e tubos murmurantes, e o barulho do vento sobre as telhas. Além disso, de livros infindáveis”[6].

As óperas de Richard Wagner também marcaram a infância de Lewis, sobretudo a saga O Anel dos Nibelungos. Ele conta que gastava o dinheiro de sua mesada nas resenhas e discos de Wagner, fazendo a associação entre Siegfried — o herói da saga wagneriana — e Balder, o Belo deus[7].

Toda essa profunda Admiração[8] pelos dos mitos e pelos contos de fadas foi responsável pela formação de sua Imaginação Moral, termo do filósofo Edmund Burke para descrever aquela virtude “que o coração possui e o entendimento ratifica, como necessária para coibir os defeitos de nossa natureza nua e trêmula e para elevá-la à dignidade em nossa própria avaliação”[9].

Para Russell Kirk, filósofo, historiador e crítico literário norte-americano, a Imaginação Moral trata de ideias que “inferidas dos séculos de experiência humana, […] são novamente expressas de uma era para a outra”[10]. E para G. K. Chesterton — que escreveu com brilhantismo sobre o assunto em seu Ortodoxia —, a Ética da Terra dos Elfos é o fruto da mais pura moralidade ancestral e origem de sua filosofia particular. Vale citá-lo:

Minha primeira e última filosofia, aquela na qual acredito com certeza absoluta, eu a aprendi na creche. Geralmente a aprendi de uma babá; isto é, daquela solene sacerdotisa ao mesmo tempo da democracia e da tradição, indicada pelos astros. Aquilo em que eu mais acreditava naquela época, aquilo em que mais acredito atualmente, são coisas que chamamos de contos de fadas. Eles me parecem inteiramente razoáveis. Não são fantasias: comparadas com eles, outras coisas são fantásticas. Comparados com eles, a religião e o racionalismo são ambos anormais, embora a religião esteja anormalmente certa e o racionalismo anormalmente errado. O país das fadas nada mais é do que o país ensolarado do senso comum. Não é a terra que julga o céu, mas o céu que julga a terra; assim, para mim pelo menos, não era a terra que criticava a Terra dos Elfos, mas a Terra dos Elfos que criticava a terra. Conheci o pé de feijão mágico antes de provar feijão; tive certeza sobre o homem na Lua antes de ter certeza sobre a Lua […] As antigas babás não falavam às crianças sobre a relva, mas sobre fadas que dançam sobre a relva; e os antigos gregos não conseguiam ver as árvores devido às dríades. […] Mas não estou preocupado com nenhum dos estatutos da Terra dos Elfos em separado, mas sim com o espírito total de sua lei, que aprendi antes de saber falar e hei de reter quando não mais puder escrever. Estou preocupado com certo modo de olhar para a vida, que foi criado em mim pelos contos de fada, mas foi, desde àquela época, humildemente ratificado pelos simples fatos.[11].

Lewis, absorvendo e continuando o legado intelectual dessa tradição, associou essa ideia ao que chamou de Tao, conceito emprestado da sabedoria oriental e desenvolvido em sua obra A Abolição do Homem:

[…] é a realidade além de todos os atributos, o abismo que era antes do Próprio Criador. Ele é a Natureza, é a Via, o Caminho. É a Via pela qual o universo prossegue, a Via da qual tudo eternamente emerge, imóvel e tranqüilamente, para o espaço e o tempo. É também a Via que todos os homens deveriam trilhar, imitando essa progressão cósmica e supracósmica, amoldando todas as atividades a esse grande modelo. “No ritual”, dizem os Analectos, “é a harmonia com a Natureza que é louvada”. Os antigos judeus igualmente louvavam a Lei como “verdadeira” […] É a doutrina do valor objetivo, a convicção de que certas posturas são realmente verdadeiras, e outras realmente falsas a respeito do que é o universo e do que somos nós.[12]

Tal realidade está impressa nos contos de fadas de uma maneira muito particular e profunda. E para Lewis, uma característica marcante desse tipo de história é

[…] a presença de seres não-humanos que, não obstante, comportam-se, em diversos graus, como seres humanos: gigantes, anões e animais falantes. A meu ver, eles são, no mínimo (pois é possível que tenham muitas outras fontes de poder e beleza), um hieróglifo admirável que veicula uma psicologia, uma tipologia de caráter, de modo muito mais sucinto que o romance, e aos leitores, que um romance ainda não poderia atingir”[13].

Escrever (somente?) para crianças

Num ensaio intitulado Três maneiras de escrever para crianças, Lewis expõe sua motivação e seu “método” para escrever histórias de fantasia. Defendendo-se daqueles que diziam que as histórias infantis eram um departamento especial, cuja função era entreter e entregar às crianças aquilo que elas “queriam”, diz que os contos de fadas eram “a melhor forma artística de expressar algo que você quer dizer”[14]. E, evidentemente, isso não se restringia – ou restringe – às crianças, pois “uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim”[15]. E completa:

O conto de fadas é acusado de dar às crianças uma falsa impressão do mundo em que vivem. Na minha opinião, porém, nenhum outro tipo de literatura que a crianças poderiam ler lhes daria uma impressão tão verdadeira. As histórias infantis que se pretendem “realistas” tendem muito mais a enganar as crianças.[16]

Lewis tinha plena consciência dos limites da Fantasia, sua função e apreciação pelas crianças. Inclusive, fez uma distinção do termo entre o devaneio irresponsável e a imaginação criativa de onde nascem as histórias. Sobre isso, discorreu brilhantemente em seu A Experiência de Ler (ou Um Experimento em Crítica Literária, Pt-Br), chamando o devaneio de Castelos-no-Ar-Doentios e a imaginação criativa de Castelos-no-Ar-Normais[17].

É curioso perceber como Lewis espalha os conceitos em suas histórias! A citação inicial deste ensaio termina com o narrador dizendo que Lúcia ao entrar em Nárnia deixou a porta aberta, pois “sabia que é uma estupidez uma pessoa fechar-se num guarda-roupa”. É muito bom entrar, mas é preciso sair.

Ainda sobre seu método, esclarece:

Essa forma me permite, ou obriga, a deixar de fora certas coisas que eu queria mesmo deixar de fora: obriga-me a concentrar toda a força do livro nas palavras e atos dos personagens. Ela coíbe o que um crítico generoso, mas perspicaz, chamou de “o demônio expositivo” que vive em mim, e também impõe certas restrições muito frutíferas ao tamanho da obra[18].

Em seu texto, Lewis cita outro importante ensaio, escrito por seu amigo J. R. R. Tolkien, e diz que “talvez seja a contribuição mais importante que alguém já tenha dado a esse tema”[19]. O ensaio de Tolkien é mesmo monumental! Discorrendo sobre as origens e características daquilo que ele chama de histórias do Belo Reino (Faërie), nos apresenta um vislumbre muito preciso e precioso do mundo das fadas.

Recuperação, Escape e Consolo

Segundo Tolkien, os contos de fadas afetam o ser humano de três maneiras: Recuperação, Escape e Consolo.

A Recuperação é um modo de readquirirmos o deslumbramento, a admiração pelas coisas que se tornaram corriqueiras em nossos dias, coisas com as quais não nos importamos mais, mas que carregam em si mesmas o mistério da vida. Como diz Tolkien:

Precisamos olhar o verde outra vez, e nos surpreendermos de novo (mas sem sermos cegados) com o azul, o amarelo e o vermelho. Precisamos encontrar o centauro e o dragão, e depois, talvez, contemplar de repente, como os antigos pastores, os carneiros, os cães, os cavalos e os lobos. As histórias de fadas nos ajudam a realizar essa recuperação. […] A recuperação (que inclui o retorno e a renovação da saúde) é uma re-tomada — a retomada de uma visão clara. Não digo “ver as coisas como elas são”, porque assim me envolveria com os filósofos, porém posso arriscar-me a dizer “ver as coisas como nós devemos (ou deveríamos) vê-las” — como coisas à parte de nós mesmos[20].

Temos um exemplo singular do que diz Tolkien na história O sobrinho do mago, das Crônicas de Lewis. Nesse conto há uma cena sublime, da criação de Nárnia. O garoto Digory, de posse dos anéis mágicos de seu tio, transportou a todos, do meio de uma confusão causada pela feiticeira Jadis, para o Bosque Entre Dois Mundos e, de lá, para um mundo de completa escuridão. Quando, de repente:

No escuro, finalmente, alguma coisa começava a acontecer. Uma voz cantava. Muito longe. Nem mesmo era possível precisar a direção de onde vinha. Parecia vir de todas as direções, e Digory chegou a pensar que vinha do fundo da terra. Certas notas pareciam a voz da própria terra. O canto não tinha palavras. Nem chegava a ser um canto. De qualquer forma, era o mais belo som que ele já ouvira. Tão bonito que chegava a ser quase insuportável. O cavalo também parecia estar gostando muito, pois relinchou como faria um cavalo de carga se, depois de anos e anos de duro trabalho, se encontrasse livre na mesma campina onde correra quando jovem e, de repente, visse um velho amigo cruzando a relva e trazendo-lhe um torrão de açúcar.

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O Sobrinho do Mago

E duas coisas maravilhosas aconteceram ao mesmo tempo. Uma: outras vozes reuniram-se à primeira, e era impossível contá-las. Vozes harmonizadas à primeira, mais agudas, vibrantes, argênteas. Outra: a escuridão em cima cintilava de estrelas. Elas não chegaram devagar, uma por uma, como fazem nas noites de verão. Um momento antes, nada havia lá em cima, só a escuridão; num segundo, milhares e milhares de pontos de luz saltaram, estrelas isoladas, constelações, planetas, muito mais reluzentes e maiores do que em nosso mundo. Não havia nuvens. As novas estrelas e as novas vozes surgiram exatamente ao mesmo tempo. Se você tivesse visto e ouvido aquilo, tal como Digory, teria tido a certeza de que eram as estrelas que estavam cantando e que fora a Primeira Voz, a voz profunda, que as fizera aparecer e cantar.

– Louvado seja! – disse o cocheiro. – Se eu soubesse que existiam coisas assim, teria sido um homem muito melhor[21].

A narrativa se segue até o completo surgimento da belíssima Nárnia, sob o canto de Aslam, o Grande Leão.

Esse é o tipo de recuperação de que fala Tolkien. A maravilha de perceber, por meio dos contos de fadas, aquilo que Chesterton diz tão bem-humoradamente: “Eu sempre acreditava que o mundo envolvia uma mágica: agora achava que talvez ele envolvesse um mágico”[22].

O Escape envolve uma ligeira sutileza. Escape não é a mesma coisa que escapismo. Com essa distinção Tolkien quer dizer que não se pode confundir “o escape do prisioneiro com a fuga do desertor”[23]. Sua concepção de escape trata do desejo de ultrapassar o ordinário e, muitas vezes, aterrador cotidiano.

Outro exemplo pode ser retirado das Crônicas de Lewis. Na história O Cavalo e seu menino, acompanhamos a história de um garoto chamado Shasta, que vive infeliz com um homem cruel e sagaz que diz ser o seu pai; mas ele, em seu íntimo, sente que não é seu filho. Quando descobre, de fato, que não é filho de Arriche (o homem cruel) — e descobre por conta de uma negociação que seu padrasto faz para vendê-lo a um tarcaã (senhor de alta linhagem) —, pensa: “Quem sabe não serei filho de algum tarcaã… ou filho até do Tisroc — que ele viva para sempre! —, ou filho de um deus?”[24]

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O Cavalo e seu Menino

E então Shasta foge, em companhia de um cavalo falante — de nome Bri —, para uma grande aventura em Nárnia, terra que sempre sonhou conhecer. E nós, ao lermos a história de Shasta, participamos de sua aventura e fazemos de seu escape o nosso!

Por fim, Tolkien fala do Consolo, mais precisamente o Consolo do Final Feliz. Tolkien diz que, assim como a Tragédia é verdadeira forma do Drama, o Consolo do Final Feliz é a verdadeira forma das histórias de fadas. Para isso criou um termo: Eucatástrofe. Eucatástrofe é um contrário da Discatástrofe, ou seja:

[…] a repentina “virada” jubilosa (porque não há um final verdadeiro em qualquer conto de fadas), essa alegria que é uma das coisas que as histórias de fadas conseguem produzir supremamente bem não é essencialmente “escapista” nem “fugitiva”. Em seu ambiente de contos de fadas — ou de outro mundo — ela é uma graça repentina e milagrosa: nunca se pode confiar que ocorra outra vez. Ela não nega a existência da discatástrofe, do pesar e do fracasso. Ela nega (em face de muitas evidências, por assim dizer) a derrota final universal, e nessa medida é evangelium, dando um vislumbre fugaz da Alegria, Alegria além das muralhas do mundo, pungente como o pesar […] Na eucatástrofe enxergamos, numa breve visão, que a resposta pode ser maior pode ser um lampejo longínquo ou um eco do evangelium no mundo real[25].

E arremata:

Eu me arriscaria dizer que, abordando a História Cristã nessa direção, por muito tempo tive a sensação de que Deus redimiu as corruptas criaturas-criadoras, os homens, de maneira adequada a esse aspecto de sua estranha natureza, e também a outros. Os Evangelhos contém uma história de fadas, ou uma narrativa maior que engloba toda a essência delas. Contém muitas maravilhas peculiarmente artísticas, belas e emocionantes: “míticas” no seu significado perfeito e encerrado em si mesmo e entre as maravilhas está a maior e mais completa eucatástrofe concebível. […] O Evangelium não ab-rogou as lendas, ele as consagrou; em especial o “final feliz”[26].

Termino citando um exemplo espetacular de eucatástrofe que está em A última batalha, última história das Crônicas. Para não tirar-vos o gosto da leitura — que vos advirto a fazer —, cito somente um pequeno trecho, onde o professor Kirke (ou Lorde Digory), descobre que há outra Nárnia, mais Bela, Perfeita e Verdadeira que aquela que os quatro irmãos conheceram no início de suas aventuras.

— Ouça, Pedro [disse Lorde Digory]. Quando Aslam disse que vocês nunca mais poderiam voltar a Nárnia, ele se referia à Nárnia em que vocês estavam pensando. Aquela, porém, não era a verdadeira Nárnia. Ela teve um começo e um fim. Era apenas uma sombra, uma cópia da verdadeira Nárnia que sempre existiu e sempre existirá aqui, da mesma forma que o nosso mundo é apenas uma sombra ou uma cópia de algo do verdadeiro mundo de Aslam. Lúcia, você não precisa prantear Nárnia. Todas as criaturas queridas, tudo o que importava da velha Nárnia foi trazido aqui para a verdadeira Nárnia, através daquela Porta. Tudo é diferente, sim; tão diferente quanto uma coisa real difere de sua sombra, ou como a vida real difere de um sonho.

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A Última Batalha

Enquanto ele falava essas palavras, sua voz fez todo mundo estremecer como ao som de uma trombeta. Mas quando ele acrescentou: — Está tudo em Platão, tudo em Platão… Caramba! Gostaria de saber o que essas crianças aprendem na escola! —, os mais velhos desataram a rir. Era exatamente isso que ele costumava dizer muito tempo atrás, naquele outro mundo, onde sua barba era grisalha em vez de dourada”[27].

Resta-me dizer que a leitura dAs Crônicas de Nárnia certamente será, para as crianças e jovens, um excelente exercício de formação do imaginário. E para os adultos, um resgate mais que necessário.

Boa leitura!

Paulo Cruz

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 Referências bibliográficas

BULLFINCH, Thomas.  O livro de ouro da mitologia. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

BURKE, Edmund. Reflexões sobre a revolução na França. 2012. Rio de Janeiro: Top Books, 2012.

CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2007.

DOWNING, David. C. S. Lewis – o mais relutante dos convertidos. São Paulo: Vida, 2006.

DURIEZ, Colin. Tolkien e C. S. Lewis – O dom da amizade. São Paulo: Nova Fronteira, 2006.

KIRK, Russel. T. S. Eliot, a imaginação moral do século XX. São Paulo: É Realizações, 2011.

LEWIS, C. S. A experiência de ler. Lisboa: Porto, 2003.

LEWIS, C. S. A Abolição do Homem. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

LEWIS, C. S. As crônicas de Nárnia – Volume Único. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

LEWIS, C. S. Surpreendido pela Alegria. São Paulo: Mundo Cristão, 1998.

TOLKIEN, J. R. R. Sobre histórias de fadas. São Paulo: Conrad, 2006.


[1] LEWIS, C. S.. O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupas, pp. 13-15.

[2] http://www.discovery.org/a/518 (tradução minha).

[3] Com a morte de minha mãe, toda a felicidade serena, tudo o que era tranquilo e confiável, desapareceu de minha vida. Estava por vir muita diversão, muitos prazeres, muitas punhaladas da Alegria; mas nada da velha segurança. Agora era mar e ilhas; o grande continente afundara como Atlântida. (LEWIS, 1998, p. 28).

[4] LEWIS, 1998, p. 24.

[5] DURIEZ, 2006, p. 91.

[6] LEWIS, Op. Cit., 1998, p. 18.

[7] Cf. LEWIS, 1998, pp. 78-81.

[8] Thaumazein (Gr.) ou Mirandum (Lt.), segundo Aristóteles, o que também deu origem à Filosofia.

[9] BURKE, Edmund, 2012, p. 245.

[10] KIRK, 2011, p. 140.

[11] CHESTERTON, 2007, pp. 82,83.

[12] LEWIS, 2005, pp. 16,17.

[13] LEWIS, 2010, pp. 745.

[14] LEWIS, Ibid., pp. 742.

[15] LEWIS, Ibid., 743.

[16] LEWIS, Ibid., 746.

[17] Cf. LEWIS, 2003, pp. 73-81.

[18] LEWIS, Ibid. 746.

[19] LEWIS, Ibid. 745.

[20] TOLKIEN, 2006, p. 65.

[21] LEWIS, 2010, p. 56, 57.

[22] CHESTERTON, op. Cit., p. 101.

[23] TOLKIEN, Op. Cit., p. 69.

[24] LEWIS, 2010, p. 196.

[25] TOLKIEN, Op. Cit., p. 77, 79.

[26] TOLKIEN, Ibid., p. 81.

[27] LEWIS, 2010, pp. 729,730.


Mito e metáfora na música de Miguel Garcia

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Mito e Metáfora na música de Miguel Garcia

Sei que não devemos confundir letra de música com poesia nem (muito menos!) poeta com profeta – ainda mais em tempos sombrios como os nossos. Entretanto, quando esses termos quase opostos se encontram, uma espécie de milagre acontece.

Bem nos avisou Bruno Tolentino:

[…] malgrado a grandiosidade dos negro spirituals, por exemplo, mantenho que só a poesia, a linguagem profunda de uma raça, tem a amplitude de meios capazes de dar à complexidade da condição humana aquela dimensão de verticalidade correspondente às grandes perplexidades da alma. […] Hofmannsthal, o maior poeta austríaco do século, era também o autor dos libretti para as óperas de Strauss, mas não as reuniu em suas Poesias Completas, pela óbvia razão de que a autonomia do poema é de outra ordem [1].

Manuel Bandeira também nos alertou para essa distinção:

Essa tarefa de escrever texto para melodia já composta, coisa que fiz duas vezes para Ovalle e muitas vezes para Villa-Lobos, é de amargar. Pode suceder que, depois de pronto o trabalho, o compositor ensaie a música e diga: “Ah, você tem que mudar esta rima em i, porque a nota é agudíssima e fica muito difícil emiti-la nessa vogal”. E lá se vai toda a igrejinha do poeta! Do poeta propriamente, não: nesse ofício costumo pôr a poesia de lado e a única coisa que procuro é achar as palavras que caiam bem no compasso e nos sentimento da melodia. Lidas independente da música, não valem nada, tanto que nunca pude aproveitar nenhuma delas.[2]

 

Poesia e profecia

Pushkin acreditava piamente no dom profético do poeta[3], e Andrei Tarkovski endossou a visão do grande poeta russo[4]. Porém, após a derrocada do verso – que teve entre seus principais algozes o Concretismo –, qualquer pretensão nesse sentido seria uma sandice completa.

Entretanto, peço licença aos nobres poetas para falar de Música. Não só de Música, mas, sim, do poético na Música; mais ainda, do profético na música – cuja herança moderna, o Negro Spiritual de que fala Tolentino, é representante quase absoluto. E essa é uma característica, sobretudo, da música religiosa, que, desde os tempos bíblicos (com os Salmos), ilustra e impulsiona a fé de um povo. Daí, onde a excelência, a sensibilidade, a experiência e, sobretudo, a vocação fazem morada, o espírito abre-se às maravilhas torturantes da clarividência.

É uma faca de dois gumes, pois ao vate é vetada a sobriedade; nele habitam o desvario, o gênio, o êxtase, a profecia e o sofrimento.

Vale lembrar que Northrop Frye nos mostrou, em sua obra “O Código dos Códigos”, a total dependência que a Cultura Ocidental tem da Bíblia, cujas características literárias serviram (ou servem) de modelo para praticamente tudo o que se produziu (ou produz) em termos de arte a oeste do Meridiano de Greenwich:

A Bíblia certamente é um elemento da maior grandeza em nossa tradição imaginativa, seja lá o que pensemos acreditar a seu respeito. Todo o tempo ela nos lança a pergunta: por que esse livro enorme, extenso, desajeitado, fica bem no meio de nosso legado cultural, como o “grande Boyg” ou a esfinge em Peer Gynt, impedindo nossos esforços de circundá-lo? Giambattista Vico, a quem devo voltar logo, elaborou uma sofisticada teoria da cultura baseando-se apenas na história secular, evitando de todo a Bíblia. Havia prudência nisso; mas hoje essa desculpa não se sustenta, em se tratando de eruditos que tratam de questões levantadas pela Bíblia e se comportam como se ela não existisse. Parece-me que alguém de fora do círculo de especialistas precisa chamar a atenção para a existência e relevância da Bíblia. Muitas de minhas sugestões podem se basear em nada mais do que uma falácia post hoc proper hoc*, mas até que se examinem os “post hocs” mais de perto, ninguém pode dizer que sejam apenas isso.[5]

 

O Músico

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Miguel Garcia

Miguel Garcia, músico que habita escondido no ABC Paulista e nos corações que o descobrem e admiram, é um portento. E como tal, jaz quase no anonimato. Não por um acaso, mas simplesmente por não suportar nada que não seja visceral. Sua música exala a perfeição do que é feito com extremo esmero, com aquilo que só o verdadeiro artista pode oferecer por sua arte: o sacrifício[6]. Guitarrista autodidata e genial, toca como quem serve aos mortais manjares celestes; e o melhor: com a simplicidade e o desprendimento de um asceta. Um compositor impecável, que brinca com as palavras como um demiurgo, selando-as numa música inspiradíssima e, admitamos, de difícil compreensão. Dificuldade essa que se esvai quando a música de Miguel se revela a nós, pois não é se trata de música para desleixados espirituais, mas para aqueles que buscam a Beleza escondida numa arte refinada. E não falo aqui de desperdício estético, mas de um virtuosismo genuíno[7].

 

A Música

Esclareço que meus conhecimentos quase nulos nos aspectos técnicos da Música me impedem de penetrar em meandros sobre acordes e arranjos. Porém, minha motivação é teológico-filosófico-linguística, pois pretende destacar elementos que fazem da letra e música (dupla indissociável, como diz Bandeira) de Miguel, poesia e profecia em seu mais alto grau. Para isso, limitar-me-ei a três canções de seu último trabalho: A Beija.

FOME E SEDE

O clima é de desolação. Os instrumentos parecem tocados por penitentes acorrentados. No entanto, onde há confissão, há Beleza. A letra é um clamor, uma visão do “vale de ossos secos” de Ezequiel 37. O profeta olha e vê:

Eu olhei e vi a terra agoniada

Vi ao leste do jardim

Uns querubins

Suas espadas

Vi brotarem os espinhos

E o manjar virou daninho.

Vê a Queda, estava lá, no ambiente mítico, e reconta a história. Dá novo sentido à preocupação imemorial, à dissolução da comunhão com Deus. “Reconta o mito e nos revela um mistério” (Eliade). Faz aquilo que as narrativas (músicas) profanas não conseguem. Como nos diz Northrop Frye:

[…] Mítico significa o contrário de “não exatamente verdade”: significa levar consigo uma seriedade e uma importância especiais. As estórias sagradas ilustram uma preocupação social específica; as estórias profanas têm uma relação muito mais distante com essa preocupação; até em alguns casos não tem nenhuma, pelo menos em sua origem [8].

Há espanto em suas palavras:

Eu olhei e vi a terra condenada

Onde estava a doce brisa?

O Senhor, Suas pegadas?

O Adão no esconderijo

Evas clamam por alívio!

E na simples menção de cidades bíblicas há uma carga poética tão profunda, que é quase impossível não associá-las aos recônditos mais afastados de nossa cidade, de nosso país, de nosso mundo, de nós:

Eu olhei, e vi a terra amargurada

Node, Ur, Neguebe, Admá

Belá, Sodoma e El-Parã

Savé, Hobá, Tamar e Hã

Zoar, Sidim, Gomorra, Cades

Aí, Damasco, Tibal, Mispate.

Quem somente lê as palavras, sem a música, não percebe a profundidade e dimensão que isso alcança. A voz de Miguel, agridoce, reclama os habitantes de cada uma dessas “localidades”. Os instrumentos o seguem, inconformados.

Agora, veja, caro leitor, não se trata de uma mera denúncia social. Não nos esqueçamos do ambiente onde a música está assentada: naquele espaço dos acontecimentos in illo tempore de que nos fala Mircea Eliade. Quem dá as cartas é o Mito, numa reivindicação sagrada dos acontecimentos[9].

Fome e Sede é o retrato da situação do homem sem Deus, solto no mundo, livre; é denúncia e confissão sobre a real necessidade de todos nós, declarando o objeto desta fome e desta sede: perdão.

Curiosamente, após a declaração “temos fome e sede de perdão”, a música parece se libertar, e ganha uma desenvoltura que só mestres – como Edmundo Cassis, Edu Martins, Cuca Teixeira, Wagner Rosa e, claro, Miguel Garcia, brilhando num solo de guitarra midi apoteótico – são capazes de produzir.

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A arte de Miguel

Ao final de quase 7 minutos, dizemos: “Sim, fomos perdoados… e abençoados”.

Ouça a música aqui!


ENTREABERTA

Na Ética a Nicômaco, Aristóteles escreveu um dos mais belos ensaios sobre a Amizade. Para o estagirita, a amizade é uma virtude nobre e “extremamente necessária à vida”[10], porque, evidentemente, ninguém deseja viver sem amigos, ainda que não precise deles. Ou seja, a amizade é – se me permitem o paradoxo – uma necessidade desnecessária[11].

Aristóteles também faz uma distinção entre tipos de amizade. Para ele, amizades constituídas pela utilidade ou pelo prazer não são verdadeiras, pois, esta busca somente um bem que pode receber do outro (vantagem), enquanto aquela faz com que busquemos somente a companhia dos que nos são agradáveis. A verdadeira amizade, portanto,

[…] é a existente entre pessoas boas e semelhantes em termos de excelência moral; neste caso, cada uma das pessoas quer bem a outra de maneira idêntica, porque a outra pessoa é boa, e elas são boas em si mesmas. Então, as pessoas que querem bem aos seus amigos por causa deles, são amigas no sentido mais amplo, pois querem bem por causa da própria natureza dos amigos, e não por acidente; logo, sua amizade durará enquanto essas pessoas forem boas, e ser bom é uma coisa duradoura.[12]

Entreaberta é uma canção que fala de amizade, de uma amizade, digamos, peculiar. Num ritmo agradabilíssimo (bossa nova?, jazz?), um convite é feito:

Pode entrar, Jesus!

Eu deixei minha porta entreaberta

Preparei um jantar para nós.

Venha ouvir um blues,

Tu chegaste na hora mais certa,

Pois assim ficaremos a sós.

Conforme somos informados no encarte do CD, trata-se de uma alusão ao que está escrito no livro bíblico de Apocalipse[13]. Tal convite, quem poderia recusar?

A gastronomia é uma das paixões de Miguel Garcia, e nada mais apropriado que oferecer a tão distinto convidado um pouco daquilo que mais amamos.

Vem provar, Jesus,

Arrisquei um tutu de feijão,

Tem banana empanada também.

Que eu faça jus

Minha mãe deu-me um curso tão bom

Culinária aqui em casa entretém.

Aliás, sendo a Amizade uma virtude das mais dignas, a Hospitalidade não fica por menos. É um conselho bíblico dos mais apropriados[14].

Entreaberta é uma canção belíssima – Edmundo Cassis dá um show à parte ao piano –, uma ode à amizade e à comensalidade; excelente para, como diz o poeta: destilar de nossos dias o fel.

Ouça a música aqui!

ECLESIASTES

Quando vemos o modo destemido como Natã fala a Davi[15], como Jeremias fala ao rei Zedequias[16] – sendo preso por diversas vezes até ser lançado num poço –, percebemos que a função dos profetas não era coisa fácil. Muito pelo contrário. Viviam quase sempre no ostracismo e, por seu dom de discernir os eventos, sofriam as dores de todo o povo. O eminente teólogo Gerhard von Rad nos explica:

Por quanto podemos saber, a vocação dos profetas do séc. VIII e VII (a.C.) se dava por uma palavra que Deus comunicava de forma pessoal e imediata, e essa palavra criava, para o respectivo ser humano envolvido, uma situação totalmente nova. Não somente era encarregado de uma missão limitada no tempo, mas lhe era confiado um ministério que não era considerado vitalício em todos os lugares, mas que, em todos casos, tirava essas pessoas por um tempo, no mínimo, bastante longo, de todos os relacionamentos que mantinham até então. Ser profeta significava manter-se em um estado que tinha profundas repercussões nas condições externas da vida. Não apenas a sua boca, mas toda a sua vida era posta a serviço de sua função […]. Ser profeta não era o resultado de uma escalada prodigiosa, nem de uma superação da existência religiosa anterior. Diante de Javé, nem a fé que anteriormente havia sido experimentada, nem qualquer aptidão pessoal criava de forma alguma uma predisposição preparatória para a vocação. Ainda que tivesse uma natureza pacífica, o profeta tinha que criticar e ameaçar, independente de isso lhe cortar o coração, como era o caso de Jeremias. E, ainda que, por acaso, tivesse inclinação para o rigor, tinha que indicar o caminho da salvação e do consolo, como era o caso de Ezequiel.  A ruptura que separa os profetas da sua vida anterior é tão profunda, que na nova vida nenhum dos antigos sociais subsiste.[17]

A canção Eclesiastes exala esse profetismo de forma sutil, mas contundente. A letra é uma homenagem a certo Pregador talentoso e mui eloquente. Paladino de retórica implacável, que arrasta multidões. Não um pregador qualquer, desses que pregam de chapéu de vaqueiro ou não conseguem pronunciar corretamente um simples plural. Não; suas palavras são precisas, seu carisma é avassalador, seu discurso é infalível:

Eclesiastes pregador,

Gladiador, suga o ar pra ferir;

Encantador. Quando a espada subir

E o seu brilho cegar,

Descerá como um raio, irá um contrário

Podar, suprimir (Varão chegador!)

Tem seu lugar na peleja Real.

É tão lindo de ver,

Luta pra gente ver, Eclesiastes!

A imagem é explícita: o Pregador é um guerreiro, preparado para derrotar seus inimigos. O que nos parece claro é que não se trata de inimigos metafísicos, espirituais. Seus desafetos são de carne e osso, opoentes intelectuais (?). A metáfora bélica é antiga. Frye analisa:

[…] A expressão central da energia humana é o trabalho criativo que transforma o mundo amorfo do meio ambiente natural no mundo de forma e significado humanos, que é pastoral, cultivado e civilizado. O outro lado desse esforço é a luta contra o inimigo, que tem dois aspectos. Primeiro, é o inimigo humano, encontrado na guerra; segundo, é o elemento caótico, amorfo, na natureza, em geral, simbolizado por um monstro, uma fera de rapina, e identificado com a seca, inundações e toda sorte de esterilidade natural[18].

 

Eclesiastes pregador, gladiador

Guerrear contra o mal

É seu labor. Sua sina, um sinal

De que o Amor quer lutar

Quer vencer seu rival, contender,

Trazer ordem ao caos.

[…]

Eclesiastes pregador,

Gladiador enfrentou a famintos leões…

Não obstante toda sua força retórica, o Eclesiastes está prestes a sucumbir àquilo que o verdadeiro Qohelet tanto abomina: a Vaidade[19]. É preciso refletir a respeito de seu ofício, revisar sua vocação. As recomendações do poeta-profeta são para que ele desperte a tempo.

Vai Eclesiastes,

Basta de cisões,

Sua vida vai mudar,

É momento de outro tipo de querer.

Nossas fragmentações vão doenças apinhar,

É momento de outro tipo de poder,

Alegrias vão chegar.

Enfim, como diz o último verso: fale, mas também ouça.

Virtuosismo

Enquanto o poeta canta, a música o acompanha, transmudando-se conforme os elogios vão tomando forma de exortação. É algo épico, sublime. Com um arranjo de apuro técnico impressionante, a canção vai, num crescendo, se transformando numa espécie de cavalgada musical, que parece conduzir o Pregador à sua peleja derradeira.

Um fato curioso é que os instrumentos se destacam de maneira individual em momentos específicos. O contrabaixo fretless – tocado de maneira hipnotizante por Edu Martins – é quem tem a proeminência na primeira execução completa da música. Em seguida, Bruno Cardoso improvisa ao piano com a delicadeza de um suspiro. Ao final, quando a bateria de Cuca Teixeira já se transformou numa marcha frenética (de extrema precisão, diga-se de passagem), temos o solo dionisíaco de Miguel Garcia.

Eclesiastes é puro arrebatamento!

Ouça a música aqui!

Há mais em Miguel Garcia, homem de múltiplas facetas. E qualquer semelhança com o valente arcanjo das Escrituras, não é mera coincidência.

Dê uma oportunidade à sua alma, e ouça A Beija, de Miguel Garcia.

Paulo Cruz – Junho 2013

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[1] TOLENTINO, Bruno. A Balada do Cárcere, Rio de Janeiro: Top Books, 1996, pp.9, 123.

[2] BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada. São Paulo: Global, p. 101.

[3] O PROFETA Num ermo, eu de âmago sedento/já me arrastava e, frente a mim,/surgiu com seis asas ao vento,/na encruzilhada, um serafim;/ele me abriu, com dedos vagos/qual sono, os olhos que, pressagos,/tudo abarcaram com presteza/que nem olhar de águia surpresa;/ele tocou-me cada ouvido/e ambos se encheram de alarido:/ouvi mover-se o firmamento,/anjos cruzando o céu, rasteiras/criaturas sob o mar e o lento/crescer, no vale, das videiras./Junto a meus lábios, rasgou minha/língua arrogante, que não tinha,/salvo enganar, qualquer intuito,/da boca fria onde, depois,/com mão sangrenta ele me pôs/um aguilhão de ofídio arguto./Vibrando o gládio com porfia,/tirou-me o coração do peito/e colocou carvão que ardia/dentro do meu tórax desfeito./Jazendo eu hirto no deserto,/o Senhor disse-me: “Olho aberto,/de pé, profeta e, com teu verbo,/cruzando as terras, os oceanos,/cheio do meu afã soberbo,/inflama os corações humanos!” (PUSHKIN, Aleksandr. A Dama de Espadas. São Paulo: Editora 34, p. 267. Tradução de Nelson Ascher).

[4] Cf. TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o Tempo, São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 38.

[5] FRYE, Northrop. O Código dos Códigos – a Bíblia e a literatura, 2.a ed. São Paulo: Boitempo, 2006, p. 18.

[6] O artista é sempre um servidor, e está eternamente tentando pagar pelo dom que, como que por milagre, lhe foi concedido. O homem moderno, porém, não quer fazer nenhum sacrifício, muito embora a verdadeira afirmação do eu só possa se expressar no sacrifício. Aos poucos, vamos nos esquecendo disso, e, inevitavelmente, perdemos ao mesmo tempo todo o sentido da nossa vocação humana. (TARKOVSKI, Op. Cit., p. 41).

* Post Hoc proper hoc: como se, constatada a existência de um fato, se passasse a defini-lo como causa de outros adjacentes simplesmente por sua precedência.

[7] A arte não raciocina em termos lógicos, nem formula uma lógica do comportamento; ela expressa o seu próprio postulado de fé. Se, na ciência, é possível confirmar a veracidade dos argumentos e comprová-los logicamente aos que a eles se opõem; na arte é impossível convencer qualquer pessoa de que você está certo, caso as imagens criadas a tenham deixado indiferente, e não tenham sido capazes de convencê-la a aceitar uma verdade recém-descoberta sobre o mundo e o homem, se, na verdade, a pessoa ficou apenas entediada ao deparar-se com a obra. (TARKOVSKI, Ibid., p. 44)

[8] FRYE, Northrop. Op. Cit., p. 59.

[9] O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do Tempo, ab initio. […] O mito é, pois, a história do que se passou in illo tempore. (ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. Lisboa: Livros do Brasil, 1956, p. 81).

[10] Cf. ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. Brasília: UNB, 1985, p. 153.

[11] A Amizade – num sentido nem um pouco depreciativo – é o menos natural dos os amores: o menos instintivo, o menos orgânico, o menos biológico, o menos gregário e o menos necessário. (LEWIS, C. S., Os Quatro Amores. São Paulo: Martins Fontes, p. 82).

[12] ARISTÓTELES, Op. Cit., p. 156

[13] Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo. (Ap 3:20).

[14] Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos. (Hb 13:2).

[15] 2º Samuel 12.

[16] Jeremias 38.

[17] RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Targumim, p. 496.

[18] FRYE, Northrop. Op. Cit., p. 224,225.

[19] “Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade”. (Ec 1:2)