Arquivo do mês: julho 2015

“Preto parado é suspeito; correndo, é ladrão!”

zé-pequeno

O racismo ideológico da esquerda

 

“Não há outra solução senão esperar melhoras com paciência e resignação”.

(André Rebouças, em 1898)

Creio que todos conheçam a frase que dá título a este texto. É antiga. Quando eu era pequeno ouvia muito isso, em casa mesmo, de troça. Mas trata-se de uma frase séria, criada com conotação claramente preconceituosa, dizendo que o negro vive na marginalidade auto-imposta, que gosta de malandragem, samba, cachaça e mulheres (sim, no plural).

Bem, infelizmente há um fundo de verdade nessa frase; pois, com o fim da escravidão os negros libertos foram empurrados para a marginalidade (para viverem à margem da sociedade) pelos republicanos e oligarcas que tomaram o poder  – tomo aqui como base a interpretação dos próprios abolicionistas, via André Rebouças. Com isso, restou ao negro aquele sentimento de que, de fato, a abolição nunca se concretizou. Tal constatação, feita pelos abolicionistas logo nos anos subseqüentes ao fatídico 13 de maio de 1888, fez com que estes ainda lutassem muito para conseguir alguma melhora na condição social da população negra. Porém, o sonho estava se esvaindo, a luta estava vencida. Os escravocratas, revoltados com o fim da escravidão e com a relutância do imperador em indenizá-los pela perda da mão de obra, juntaram-se aos republicanos e, proclamada a República, abandonaram os negros na condição onde muitos ainda hoje permanecem.

andre-reboucasTal desolação é relatada em várias cartas do grande abolicionista André Rebouças – que, com o fim da monarquia, devotado amigo que era da família real, com ela partiu para Portugal; depois foi para Cannes, Luanda e, por fim, suicidou-se melancolicamente na Ilha da Madeira, em 09 maio de 1898. Numa dessas missivas, endereçada ao caríssimo amigo Joaquim Nabuco, Rebouças diz (sobre o aniversário da Abolição):

“A 13 de maio de 1889 eu tive uma tristeza inexplicável. Lembra-se que foi necessário telegrama para tirar-me do meu isolamento de Petrópolis… Na tarde de 22 de agosto de 1888, quando voltávamos da faustosa e hipocrita recepção do Imperador, eu lhe disse ao ouvido: ‘agora posso dormir tranquilo…’ Parecia-me que, a todo o momento, os escravocratas assassinavam a princeza redentora e cubriam de sangue a página santa, que havíamos escrito durante oito longos anos…

“A 22 de agosto de 1888, ainda esperavam os celerados indenização e Chins… Foi quando Dom Pedro disse-lhes: ‘Não! Não… Mil vezes não!’ que eles foram para a república de mamelucos – bandeirantes e traficantes de escravos brancos e amarelos; porque a Inglaterra não permite que sejam Negros Africanos”.[1]

Ao lermos as cartas de Rebouças – negro, engenheiro competente, abolicionista e, sobretudo, amigo do grande D. Pedro II –, vemos com pesar o duro golpe que foi o apressar da abolição por interesses escusos, bem como o resultado, para os negros, do movimento revolucionário capitaneado pelos republicanos e escravocratas que depuseram a monarquia.

O fato é que, como foi realizada, a abolição lançou milhares de famílias, jovens, velhos e crianças em condições miseráveis, fazendo, com isso, que os crimes entre essa população aumentassem e ganhassem destaque; e também é grilhoesfato que ainda hoje essa situação não foi totalmente remediada, pois a maioria da população pobre do Brasil ainda é composta por negros (pretos e pardos).

Mas é preciso cautela para analisar os desdobramentos disso. A relação entre pobreza e criminalidade é absolutamente circunstancial, pois, no final da contas, criminoso é aquele que ESCOLHE praticar um crime. Essa história rousseauniana de que o criminoso é vítima da sociedade, que comete crime porque se vê à margem e vitimado pela “burguesia capitalista opressora”, só é aceita entre ideólogos revolucionários, sedentos e incansáveis por instaurar a famigerada Luta de Classes no país. Não há nenhuma relação direta entre uma coisa e outra, e os exemplos abundam!

Em minha família, por exemplo, os únicos que entraram para a vida do crime (sim, eles existem), o fizeram não por falta de oportunidade – tiveram muitas! – mas por influência e, claro, por escolha. Ou seja, num lugar onde traficantes e criminosos são considerados heróis, entrar para o crime torna-se uma questão de influência. Às vezes acontece por causa das drogas (do uso ou do tráfico), às vezes, pela busca de status entre os amigos. Ou seja, na vida turbulenta de um jovem da periferia, como diz a letra do Rap: “ele se espelha em quem ta mais perto”.

Por outro lado, há centenas de famílias honradas, batalhadoras, cujos filhos estão lutando contra essa tendência, buscando exemplos dentro e fora de casa, mas sempre exemplos de superação, determinação e fé. Desviando do crime e escolhendo a “estrada menos viajada” [Robert Frost]. E temos, ao longo da história, muitos casos que merecem destaque, que poderiam servir de exemplo norteador da construção da identidade não só do negro, mas do Brasil. Exemplos notáveis como o dos abolicionistas (Nabuco, Rebouças, José do Patrocínio, Teodoro Sampaio et alii); de escritores/poetas como Machado de Assis, Cruz e Souza e Lima Barreto; de músicos como Pe. José Maurício Nunes Garcia e Carlos Gomes; de mestres como Ernesto Carneiro Ribeiro e tantos outros.

Tais exemplos, seguidos com afinco, nos ajudariam a criar, ainda que devagar, mas consistentemente, geração após geração, um Brasil menos preconceituoso e mais igualitário – primeiro no âmbito cultural (que é de onde tudo flui), depois no social. Uma conquista sólida e perene.

W. E. B. Du Bois[i], o primeiro negro a conseguir um título de Doutor em Harvard (ainda no séc. XIX), e grande precursor w.e.b.-duboisda causa pelos diretos dos negros nos EUA, disse bem:

“Repito, podemos subestimar o preconceito de cor do Sul e, no entanto, este continua a ser um fato ponderável. Tais desvios curiosos da mente humana existem e devem ser encarados com sobriedade. Eles não podem ser destruídos pela zombaria, não são sempre fáceis de atacar nem são simplesmente abolidos por decretos judiciais. E, contudo, não devem ser estimulados pela inércia. Devem ser reconhecidos como fatos, porém como fatos desagradáveis; coisas que entravam as vias da civilização, da religião, do sentimento de decência. Só podem ser enfrentados de uma maneira – pelo alargamento e pela expansão da razão humana, pela universalização do gosto e da cultura”[2].

E sobre a superação das dificuldades, assevera:

“O esforço de todos os homens honrados do séc. XX é, portanto, garantir que na futura competição das raças a sobrevivência dos mais aptos possa significar o triunfo do bom, do belo e do verdadeiro; que preservemos para a civilização do futuro tudo que é realmente bom, nobre e forte, e não continuemos a incentivar a ganância, a desfaçatez e a crueldade. Para fazer com que tal esperança frutifique, somos compelidos diariamente a empreender um estudo cada vez mais consciencioso dos fenômenos dos contatos entre as raças – um estudo franco e imparcial, não falsificado ou colorido por nossos desejos ou temores”[3].

Não é por mágica, nem por revolução e nem pelo Estado; é por esforço – de trabalho e de cultura. Essa é a única via.

E o mais curioso ainda é que Du Bois não tinha a mente fechada e tacanha dos negros “do movimento” de hoje, sequazes de doutrinas afrocentristas e segregadoras (racistas, portanto). Ele sabia a diferença entre uma cultura local, folclórica, e a Alta Cultura*, importante civilizadora do Ocidente onde, ao fim e ao cabo, vivia e fruto de séculos de tradição:

“Sento-me em companhia de Shakespeare, e ele não se retrai. Além da linha do preconceito, caminho de braços dados com Balzac e Dumas, onde homens sorridentes e mulheres acolhedoras deslizam entre dourados salões. Das cavernas da noite que oscilam entre a terra firme e o traçado das estrelas, chamo por Aristóteles e Marco Aurélio ou por qualquer outra alma que eu deseje e eles se aproximam graciosamente, sem escárnio ou condescendência. Assim, casado com a verdade, vivo por sobre o Véu. E esta a vida que você não quer nos dar, cavalheiresca América?”[4]

E o nosso Rebouças também da o exemplo. De seu exílio informa ao amigo ex-Imperador: “Continuo a educar o meu coração lendo Tolstoi e o Santo Homero”[5]

E não se trata de relegar a cultura ancestral (longe disso!), mas de se inteirar e ser alimentado pela cultura que orienta a vida intelectual e social do pais onde se nasce e vive. Só assim é possível progredir. Alimentar, no Ocidente, uma cultura afrocentrista, segrega em vez de agregar.

Esse é o verdadeiro Movimento Negro – os Negros em Movimento! Educando-se e buscando, incansavelmente, a superação das dificuldades.

Racismo e ideologia

Porém, o discurso ideológico da esquerda é nefasto e oportunista. Apropriou-se compulsoriamente da “Causa Negra”, e se fez porta-voz de toda uma população que buscava, com muita dificuldade, o seu espaço. Mas não só isso: igualou essa Causa a outras tantas, e todas a uma agenda revolucionária, fomentando toda sorte de ressentimentos, incitando brancos contra negros, ricos contra pobres, mulheres contra homens, homossexuais contra heterossexuais etc. Ou seja, instaurou a tensão social e o ódio de classes, raças, sexo etc..

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Mas esse não é um ódio qualquer, pois todo ser humano em sã consciência repudia tal sentimento. Esse é um ódio, como nos diz o filósofo romeno Gabriel Liiceanu – em seu apuradíssimo ensaio “Do Ódio” – “culto e cultivado”, e organizado intelectualmente como ideologia; e desse modo passa a ter “dignidade histórica e aura científica. E o crime que o acompanha é, a seu turno, enobrecido, porque a finalidade a que ele serve sonha com o bem para muitos e, no limite, para toda a humanidade”[6].

Outra característica desse ódio, como nos aponta Liiceanu, é a impessoalidade. De posse desse ódio o militante pode tudo. Diz:

“Já não se odeia uma pessoa isolada, odeia-se uma pessoa como agente de uma categoria. Odeia-se uma hipóstase englobadora, odeia-se um ‘como’ explicativo-categorial […] Odeia-se a alguém como; odeias alguém como burguês, como hebreu, como cigano, como intelectual, como islamita, como americano, como húngaro etc.

“Em conclusão, o ódio tornou-se impessoal à medida que nem o que odeia é uma pessoa isolada (mas membro de um grupo, de uma organização, de um partido, de um ‘movimento’ etc. Nem o que é odiado é isolado, mas pertence a uma categoria (de classe, de raça, de nação, de religião)”[7].

Portanto, meus caros, estamos à mercê de um ódio organizado, ideológico, que permite a essa corja militante odiar à vontade e, não raro, acusar aos outros de “discurso de ódio”, numa manipulação lingüística de fazer inveja.

Aliás, a linguagem metonímica é um dos grandes trunfos do discurso ideológico da esquerda. Diante de uma geração inteira educada por acadêmicos estruturalistas e filósofos da linguagem, essa turma consegue o efeito denunciado por Lewis Carroll em seu “[Alice] Do lado de dentro do espelho”, que é o de dar a uma palavra o sentido que se quer, não importando o sentido próprio que ela tenha[8].

A cor dessa cidade

O entrevero que tive com a cantora Daniela Mercury e seus seguidores (autodenominados “mercuryanos”) é um bom exemplo.

Ela escreveu um tuíte:

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Caros, não é preciso ser um lingüista para compreender o que essa frase significa. Se eu digo “a redução da maioridade penal exterminará pretos e pobres”, o que digo? Exatamente que os pretos e pobres são criminosos, ou potenciais criminosos. E isso é cristalino como água de uma fonte virgem.

Isso exigiu de mim uma resposta no mesmo tom com o qual essa gente costuma acusar os outros:

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E o restante da pequena discussão com a representante dos mercuryanos, segue abaixo:

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Claro que eu, ofendido, disparei como quem não quer se ver representado por esse discurso patético.

Agora, o que é a redução da maioridade penal? É uma alteração na legislação que visa a prender criminosos menores de 18 anos – aos 16, nesse caso – que cometem crimes hediondos. E o que isso tem que ver com pretos e pobres? Segundo Daniela Mercury, é o seguinte: pretos e pobres são marginalizados pela sociedade. Consequentemente são empurrados para a criminalidade e, consequentemente, são presos.

Mas qual o nexo causal disso? Absolutamente NENHUM! Porque há um salto malicioso entre marginalização e criminalidade. Ser colocado à margem não nos leva, automaticamente, a cometer crimes! Há inúmeros casos que provam o contrário disso. Muitos defensores dessa ideia absurda são prova contrária disso. E, curiosamente, quanto mais próximos da escravidão deitamos os nossos olhos, mais vemos negros célebres e reconhecidos pela sociedade.

Daí surge outra manipulação ideológica, que diz ser apenas uma minoria que consegue driblar esse, digamos, destino.

Ora essa, se uma minoria consegue, porque não pode influenciar a maioria? Respondo: porque o discurso ideológico, o vitimismo torpe, o ódio cultivado e a barreira imposta por ONG’s, políticos e ideólogos de toda sorte – muitas vezes, mais até que um traficante –, vivem a martelar na cabeça das pessoas que moram na periferia que seu esforço jamais será reconhecido pela chamada elite, que suas conquistas jamais valerão nada nesse mundo que os rejeita; e que a única forma de mudar essa situação é buscar ajuda do Governo e seus Programas Bem-Estar Social! E o Estado se torna a tábua de salvação dessas pessoas. E o truque fatal de um Estado Socialista totalitário é, justamente, manter essas pessoas cativas por Programas Sociais, para garantir o voto e  a perpetuação no Poder. E essa falsa resolução é gritada aos quatro ventos como a verdade absoluta (a única diante da relativização total). Por outras palavras, é pegar o negro livre e fazê-lo escravo do Estado. É fazer o cão tornar ao vômito[9].

E está fechado o ciclo. Uma turba inumerável de ressentidos doutrinada por ideólogos – na esfera acadêmica e cultural, das novelas aos estudos acadêmicos – e um Estado forte que sustenta toda essa desgraça, oferecendo migalhas sem nunca resolvê-la.

Como diz Antonio Gramsci – fundador do partido comunista italiano e pai do socialismo do séc. XX (pós-revolução russa): “Na fase da luta pela hegemonia, desenvolve-se a ciência política; na fase estatal, todas as superestruturas devem desenvolver-se, sob pena de dissolução do Estado”[10].

É urgente que os negros escapem dessa manipulação e percebam o valor que há no indivíduo, no esforço, na perseverança, nas determinações e decisões tomadas de acordo com a própria consciência. É um esforço e tanto, demandará muito sacrifício. Mas só assim será possível construir um futuro perene e de raízes profundas, não só para si, mas para seus filhos e netos. E, por fim, para o Brasil de todos os brasileiros.

Paulo Cruz

[1] REBOUÇAS, André. “Diários e Notas Autobiográficas”, José Olympio, p. 400.

[2] DU BOIS, W. E. B. “As almas da gente negra”. Lacerda Editores, p. 146. Tradução: Heloísa Toller Gomes

[3] DU BOIS, Ibid., p. 217.

[4] DU BOIS, Ibid., p. 162.

[5] REBOUÇAS, Op. Cit., p. 381.

[6] LIICEANU, Gabriel. “Do ódio”. Vide Editorial, p. 49. Tradução: Elpídio Mário Dantas Fonseca

[7] LIICEANU, Ibid., pp. 54-55.

[8] “— Quando uso uma palavra, replicou Osvaldo Oval — em tom de desdém —, o significado dela é aquele que quero que ela tenha — e não admito discussão.

— Isso é questão de saber se você pode atribuir o significado que quiser a uma palavra.

— Isso é uma questão de saber quem é que manda. E basta!” (CARROLL, Lewis. “Do lado de dentro do espelho”. Itatiaia, p. 237. Tradução: Eugênio Amado).

[9] “Como o cão torna ao seu vômito, assim o tolo repete a sua estultícia”. (Provérbios 26:11)

[10] GRAMSCI, Antonio. “Cadernos do Cárcere – Vol. I”. Civilização Brasileira, p. 210. Tradução: Carlos Nelson Coutinho.

[i] Infelizmente, Du Bois, com a instauração das leis Jim Crow, e vendo que o grande sonho de Reconstrução da América não dava o espaço necessário aos negros, buscou refúgio no Socialismo, o que, evidentemente, não deu em nada. Beijou as mãos do genocida Mao Tsé-Tung, depois rumou para Gana e lá morreu no completo ostracismo.

* Sobre Alta Cultura, Ortega y Gasset explica:

“O império que sobre a vida pública hoje exerce a vulgaridade intelectual, é talvez o fator da presente situação mais novo, menos assimilável a nada do pretérito. Pelo menos na história européia até hoje, nunca o vulgo havia crido ter ‘idéias’ sobre as coisas. Tinha crenças, tradições, experiências, provérbios, hábitos mentais, mas não se imaginava de posse de opiniões teóricas sobre o que as coisas são ou devem ser – por exemplo, sobre política ou sobre literatura -. Parecia-lhe bem ou mal o que o político projetava e fazia; dava ou retirava sua adesão, mas sua atitude reduzia-se a repercutir, positiva ou negativamente, a ação criadora de outros. Nunca se lhe ocorreu opor às ‘idéias’ do político outras suas; nem sequer julgar as ‘idéias’ do político do tribunal de outras ‘idéias’ que cria possuir. A mesma coisa em arte e nas demais ordens da vida pública. Uma e inata consciência de sua limitação, de não estar qualificado para teorizar, vedava-o completamente. A conseqüência automática disto era que o vulgo não pensava, nem de longe, decidir em quase nenhuma das atividades públicas, que em sua maior parte são de índole teórica.
Hoje, pelo contrário, o homem médio tem as ‘idéias’ mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por isso perdeu o uso da audição. Para que ouvir, se já tem dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir, mas, pelo contrário, de julgar, de sentenciar, de decidir. Não há questão de vida pública em que não intervenha, cego e surdo como é, impondo suas ‘opiniões’.

“Mas não é isto uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massas tenham “idéias”, quer dizer, que sejam cultas? De maneira alguma. As “idéias” deste homem médio não são autenticamente idéias, nem sua posse é cultura. A idéia é um xeque-mate à verdade. Quem queira ter idéias necessita antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras do jogo que ela imponha. Não vale falar de idéias ou opiniões onde não se admite uma instância que a regula, uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. Estas normas são os princípios da cultura. Não me importa quais são. O que digo é que não há cultura onde não há normas. A que nossos próximos possam recorrer. Não há cultura onde não há princípios de legali5àde civil a que apelar. Não há cultura onde não há acatamento de certas últimas posições intelectuais a que referir-se na disputa (50). Não há cultura quando as relações econômicas não são presididas por um regime de tráfico sob o qual possam amparar-se. Não há cultura onde as polêmicas estéticas n o reconhecem a necessidade de justificar a obra de arte.
Quando faltam todas essas coisas, não há cultura; há, no sentido mais estrito da palavra, barbárie. E isto é, não tenhamos ilusões, o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas”.

(Ortega y Gasset, “A Rebelião das Massas”)