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RAP é compromisso

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The Get Down – Baz Luhrmann – 2016 (Netflix)

O senso comum da periferia foi tomado de assalto. Não é de hoje que vemos grupelhos engajados falando em nome do povo, da periferia, dos nordestinos, dos negros. Não é de hoje que a classe artística – a expressão mais exata do “cretino fundamental”, de Nelson Rodrigues – lê a realidade da periferia a partir das lentes embaçadas de um marxismo tosco (desculpem o pleonasmo), e tenta, a todo custo, fazê-la caber dentro de sua minúscula visão de mundo: a ideologia do “mundo melhor”, mãe dos maiores genocídios da história humana.

Como procurei demonstrar num pequeno artigo recente (aqui), a periferia sempre foi dotada de um grande poder de percepção de sua própria realidade – que chamei, usando o termo do filósofo Eric Voegelin, de autointerpretação –, traduzido no apego ao trabalho, na valorização da família e na vigorosa cultura local. O crime e a violência, tão presentes nos rincões esquecidos pelo Poder Público, nunca retirou da gente simples a noção do certo e do errado, da Beleza, muito menos a sua capacidade de traduzir seu sofrimento em arte. A cultura da periferia fala de si para si, e sua crítica não é sociológica (no sentido acadêmico do termo), mas tão somente uma crônica de seu cotidiano. A periferia sabe que a salvação não está nas promessas imanentistas da ideologia; muito menos na política institucional. Sempre olhou com desconfiança para os políticos, e nunca lhes entregou o seu destino; pois sabe, desde há muito tempo, que o populismo é uma arma de manipulação que aprisiona e mata. A tão conhecida tensão que vive com a polícia — que os deveria proteger –, para dar um exemplo, é só um detalhe da maneira como a periferia vê o Governo e seus agentes.

Mas pareço divagar sobre o passado. Desde que a tradição periférica — baseada num conservadorismo difuso, entranhado nas mães e pais que batalhavam duro pelo futuro de seus filhos — foi substituída pela interpretação progressista dos intelectuais engajados (através de ONG’s, partidos políticos populistas e outros parasitas), tudo mudou. Crime, aborto, drogas, casamentos desfeitos por conta da liberação sexual, movimentos ideológicos de toda sorte, violência… todo tipo de bandeira revolucionária é testada, com relativo sucesso, nas periferias. E com isso, as vãs promessas de um futuro idílico, via reformas sociais radicais, aprisionou a mentalidade da periferia – sobretudo da geração atual – numa dependência irracional do Estado. A política invadiu a cultura. A resistência virou revolução. A arte virou ideologia.

E é por isso que The Get Down, a nova série original Netflix, criada pelo diretor Baz Luhrmann (do moderníssimo Romeu e Julieta, com Di Caprio, e de Moulin Rouge), deve ser vista. Mostrando, através de um grupo de jovens, o nascimento do Movimento Hip Hop, (RAP, Break e Grafite) no Bronx (EUA), a série, passada no final dos anos 1970, desbanca completamente a idéia de que o RAP nasceu como música de protesto. O RAP é a poesia de um povo e a expressão existencial de sua condição. Como eu disse: não é crítica social, é crônica do cotidiano; não é revolta, é reflexão. É uma expressão original da Cultura Pop.

Esses jovens levavam muito a sério a sua vocação, e a série mostra isso de maneira excepcional. A técnica do verso tônico (o “skeltonic”), criada pelo poeta inglês John Skelton, no séc. XV, foi elevada a graus inimagináveis nas mãos de grupos como Sugarhill Gang e Run DMC.

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Em The Get Down, os DJ’s Grandmaster Flash e Kool Herc, considerados os pais do Hip Hop, são retratados como mestres de um conhecimento gnóstico, um segredo capaz de levar os jovens ao êxtase em meio à diversão. O scratch e o back to back são os mantras desse thegetdown_s1e02_23976_1080_177ar_20a_en_prhq_20160317-00_03_10_14-still105culto; os DJ’s são os sacerdotes; e os rappers, os profetas. Dialogando com as tendências da época, eles, ao mesmo tempo, rejeitaram a Disco Music e “samplearam” muitos de seus hits, criando um som completamente original. O combo “duas pick-ups e um mixer” é o altar onde o DJ oferece seus sacrifícios. O palco é o local onde o MC profere seus vaticínios.

Enquanto Zeek (Ezequiel Figuero), um menino prodígio, constrói com esmero seus versos numa mesa apinhada de livros de poesia (chegando a citar o poeta persa Jalal Ad-Dim Rumi), e Shaolin Fantastic (fã de Bruce Lee e a quem Grandmaster Flash chama de “Gafanhoto”) passa as noites em claro buscando o segredo get-down4das pick-ups, a jovem corista Mylene Cruz tenta driblar o rigor de seu pai, um pastor pentecostal, para seguir seu sonho de cantar Disco Music. Cada um encarando a sua arte como um sacerdócio. Lembrando as palavras do cineasta Andrei Tarkóvski: “o poeta é um servidor, e está sempre tentando pagar pelo dom que, como que por um milagre, recebeu”.

Esses jovens não eram tolos, havia mais cultura entre eles do que se pode imaginar. Uma cultura integrada, não essa coisa segregada que querem hoje impor à periferia. Ainda não 22289_tupac-shakurhavia se disseminado a bobagem da Apropriação Cultural, e rappers como Tupac Shakur (2 Pac), puderam estudar ballet e representar peças de Shakespeare – como ele realmente o fez.

Em meio às questões familiares já conhecidas – o idealismo dos jovens e a preocupação conservadora dos pais –, e o cotidiano violento do Bronx, The Get Down nos faz mergulhar no universo musical riquíssimo do Hip Hop, mostrando que o desejo mais profundo daquela juventude era pura e simplesmente fazer ARTE — gostemos ou não. Há muita música e dança em The Get Down, muita diversão e alegria, mas também uma boa dose daquele drama tão comum na juventude: as escolhas individuais.

O RAP como crítica social surgiu somente quando os rappers começaram a se envolver diretamente com grupos políticos de esquerda – sobretudo as ervas daninhas marxistas – que lhes botou cabrestos ideológicos.

Por isso, mesmo que não gostemos de RAP, mesmo que The Get Down não seja uma série perfeita – como Downton Abbey é para um conservador – vale a pena conferir como surgiu uma das maiores expressões da Cultura Pop dos últimos 30 anos, e ver que a periferia não é – ou pelo menos não deveria ser – somente aquele celeiro de luta de classes que a intelligentsia quer nos enfiar goela abaixo.
Paulo Cruz.

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Mito e metáfora na música de Miguel Garcia

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Mito e Metáfora na música de Miguel Garcia

Sei que não devemos confundir letra de música com poesia nem (muito menos!) poeta com profeta – ainda mais em tempos sombrios como os nossos. Entretanto, quando esses termos quase opostos se encontram, uma espécie de milagre acontece.

Bem nos avisou Bruno Tolentino:

[…] malgrado a grandiosidade dos negro spirituals, por exemplo, mantenho que só a poesia, a linguagem profunda de uma raça, tem a amplitude de meios capazes de dar à complexidade da condição humana aquela dimensão de verticalidade correspondente às grandes perplexidades da alma. […] Hofmannsthal, o maior poeta austríaco do século, era também o autor dos libretti para as óperas de Strauss, mas não as reuniu em suas Poesias Completas, pela óbvia razão de que a autonomia do poema é de outra ordem [1].

Manuel Bandeira também nos alertou para essa distinção:

Essa tarefa de escrever texto para melodia já composta, coisa que fiz duas vezes para Ovalle e muitas vezes para Villa-Lobos, é de amargar. Pode suceder que, depois de pronto o trabalho, o compositor ensaie a música e diga: “Ah, você tem que mudar esta rima em i, porque a nota é agudíssima e fica muito difícil emiti-la nessa vogal”. E lá se vai toda a igrejinha do poeta! Do poeta propriamente, não: nesse ofício costumo pôr a poesia de lado e a única coisa que procuro é achar as palavras que caiam bem no compasso e nos sentimento da melodia. Lidas independente da música, não valem nada, tanto que nunca pude aproveitar nenhuma delas.[2]

 

Poesia e profecia

Pushkin acreditava piamente no dom profético do poeta[3], e Andrei Tarkovski endossou a visão do grande poeta russo[4]. Porém, após a derrocada do verso – que teve entre seus principais algozes o Concretismo –, qualquer pretensão nesse sentido seria uma sandice completa.

Entretanto, peço licença aos nobres poetas para falar de Música. Não só de Música, mas, sim, do poético na Música; mais ainda, do profético na música – cuja herança moderna, o Negro Spiritual de que fala Tolentino, é representante quase absoluto. E essa é uma característica, sobretudo, da música religiosa, que, desde os tempos bíblicos (com os Salmos), ilustra e impulsiona a fé de um povo. Daí, onde a excelência, a sensibilidade, a experiência e, sobretudo, a vocação fazem morada, o espírito abre-se às maravilhas torturantes da clarividência.

É uma faca de dois gumes, pois ao vate é vetada a sobriedade; nele habitam o desvario, o gênio, o êxtase, a profecia e o sofrimento.

Vale lembrar que Northrop Frye nos mostrou, em sua obra “O Código dos Códigos”, a total dependência que a Cultura Ocidental tem da Bíblia, cujas características literárias serviram (ou servem) de modelo para praticamente tudo o que se produziu (ou produz) em termos de arte a oeste do Meridiano de Greenwich:

A Bíblia certamente é um elemento da maior grandeza em nossa tradição imaginativa, seja lá o que pensemos acreditar a seu respeito. Todo o tempo ela nos lança a pergunta: por que esse livro enorme, extenso, desajeitado, fica bem no meio de nosso legado cultural, como o “grande Boyg” ou a esfinge em Peer Gynt, impedindo nossos esforços de circundá-lo? Giambattista Vico, a quem devo voltar logo, elaborou uma sofisticada teoria da cultura baseando-se apenas na história secular, evitando de todo a Bíblia. Havia prudência nisso; mas hoje essa desculpa não se sustenta, em se tratando de eruditos que tratam de questões levantadas pela Bíblia e se comportam como se ela não existisse. Parece-me que alguém de fora do círculo de especialistas precisa chamar a atenção para a existência e relevância da Bíblia. Muitas de minhas sugestões podem se basear em nada mais do que uma falácia post hoc proper hoc*, mas até que se examinem os “post hocs” mais de perto, ninguém pode dizer que sejam apenas isso.[5]

 

O Músico

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Miguel Garcia

Miguel Garcia, músico que habita escondido no ABC Paulista e nos corações que o descobrem e admiram, é um portento. E como tal, jaz quase no anonimato. Não por um acaso, mas simplesmente por não suportar nada que não seja visceral. Sua música exala a perfeição do que é feito com extremo esmero, com aquilo que só o verdadeiro artista pode oferecer por sua arte: o sacrifício[6]. Guitarrista autodidata e genial, toca como quem serve aos mortais manjares celestes; e o melhor: com a simplicidade e o desprendimento de um asceta. Um compositor impecável, que brinca com as palavras como um demiurgo, selando-as numa música inspiradíssima e, admitamos, de difícil compreensão. Dificuldade essa que se esvai quando a música de Miguel se revela a nós, pois não é se trata de música para desleixados espirituais, mas para aqueles que buscam a Beleza escondida numa arte refinada. E não falo aqui de desperdício estético, mas de um virtuosismo genuíno[7].

 

A Música

Esclareço que meus conhecimentos quase nulos nos aspectos técnicos da Música me impedem de penetrar em meandros sobre acordes e arranjos. Porém, minha motivação é teológico-filosófico-linguística, pois pretende destacar elementos que fazem da letra e música (dupla indissociável, como diz Bandeira) de Miguel, poesia e profecia em seu mais alto grau. Para isso, limitar-me-ei a três canções de seu último trabalho: A Beija.

FOME E SEDE

O clima é de desolação. Os instrumentos parecem tocados por penitentes acorrentados. No entanto, onde há confissão, há Beleza. A letra é um clamor, uma visão do “vale de ossos secos” de Ezequiel 37. O profeta olha e vê:

Eu olhei e vi a terra agoniada

Vi ao leste do jardim

Uns querubins

Suas espadas

Vi brotarem os espinhos

E o manjar virou daninho.

Vê a Queda, estava lá, no ambiente mítico, e reconta a história. Dá novo sentido à preocupação imemorial, à dissolução da comunhão com Deus. “Reconta o mito e nos revela um mistério” (Eliade). Faz aquilo que as narrativas (músicas) profanas não conseguem. Como nos diz Northrop Frye:

[…] Mítico significa o contrário de “não exatamente verdade”: significa levar consigo uma seriedade e uma importância especiais. As estórias sagradas ilustram uma preocupação social específica; as estórias profanas têm uma relação muito mais distante com essa preocupação; até em alguns casos não tem nenhuma, pelo menos em sua origem [8].

Há espanto em suas palavras:

Eu olhei e vi a terra condenada

Onde estava a doce brisa?

O Senhor, Suas pegadas?

O Adão no esconderijo

Evas clamam por alívio!

E na simples menção de cidades bíblicas há uma carga poética tão profunda, que é quase impossível não associá-las aos recônditos mais afastados de nossa cidade, de nosso país, de nosso mundo, de nós:

Eu olhei, e vi a terra amargurada

Node, Ur, Neguebe, Admá

Belá, Sodoma e El-Parã

Savé, Hobá, Tamar e Hã

Zoar, Sidim, Gomorra, Cades

Aí, Damasco, Tibal, Mispate.

Quem somente lê as palavras, sem a música, não percebe a profundidade e dimensão que isso alcança. A voz de Miguel, agridoce, reclama os habitantes de cada uma dessas “localidades”. Os instrumentos o seguem, inconformados.

Agora, veja, caro leitor, não se trata de uma mera denúncia social. Não nos esqueçamos do ambiente onde a música está assentada: naquele espaço dos acontecimentos in illo tempore de que nos fala Mircea Eliade. Quem dá as cartas é o Mito, numa reivindicação sagrada dos acontecimentos[9].

Fome e Sede é o retrato da situação do homem sem Deus, solto no mundo, livre; é denúncia e confissão sobre a real necessidade de todos nós, declarando o objeto desta fome e desta sede: perdão.

Curiosamente, após a declaração “temos fome e sede de perdão”, a música parece se libertar, e ganha uma desenvoltura que só mestres – como Edmundo Cassis, Edu Martins, Cuca Teixeira, Wagner Rosa e, claro, Miguel Garcia, brilhando num solo de guitarra midi apoteótico – são capazes de produzir.

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A arte de Miguel

Ao final de quase 7 minutos, dizemos: “Sim, fomos perdoados… e abençoados”.

Ouça a música aqui!


ENTREABERTA

Na Ética a Nicômaco, Aristóteles escreveu um dos mais belos ensaios sobre a Amizade. Para o estagirita, a amizade é uma virtude nobre e “extremamente necessária à vida”[10], porque, evidentemente, ninguém deseja viver sem amigos, ainda que não precise deles. Ou seja, a amizade é – se me permitem o paradoxo – uma necessidade desnecessária[11].

Aristóteles também faz uma distinção entre tipos de amizade. Para ele, amizades constituídas pela utilidade ou pelo prazer não são verdadeiras, pois, esta busca somente um bem que pode receber do outro (vantagem), enquanto aquela faz com que busquemos somente a companhia dos que nos são agradáveis. A verdadeira amizade, portanto,

[…] é a existente entre pessoas boas e semelhantes em termos de excelência moral; neste caso, cada uma das pessoas quer bem a outra de maneira idêntica, porque a outra pessoa é boa, e elas são boas em si mesmas. Então, as pessoas que querem bem aos seus amigos por causa deles, são amigas no sentido mais amplo, pois querem bem por causa da própria natureza dos amigos, e não por acidente; logo, sua amizade durará enquanto essas pessoas forem boas, e ser bom é uma coisa duradoura.[12]

Entreaberta é uma canção que fala de amizade, de uma amizade, digamos, peculiar. Num ritmo agradabilíssimo (bossa nova?, jazz?), um convite é feito:

Pode entrar, Jesus!

Eu deixei minha porta entreaberta

Preparei um jantar para nós.

Venha ouvir um blues,

Tu chegaste na hora mais certa,

Pois assim ficaremos a sós.

Conforme somos informados no encarte do CD, trata-se de uma alusão ao que está escrito no livro bíblico de Apocalipse[13]. Tal convite, quem poderia recusar?

A gastronomia é uma das paixões de Miguel Garcia, e nada mais apropriado que oferecer a tão distinto convidado um pouco daquilo que mais amamos.

Vem provar, Jesus,

Arrisquei um tutu de feijão,

Tem banana empanada também.

Que eu faça jus

Minha mãe deu-me um curso tão bom

Culinária aqui em casa entretém.

Aliás, sendo a Amizade uma virtude das mais dignas, a Hospitalidade não fica por menos. É um conselho bíblico dos mais apropriados[14].

Entreaberta é uma canção belíssima – Edmundo Cassis dá um show à parte ao piano –, uma ode à amizade e à comensalidade; excelente para, como diz o poeta: destilar de nossos dias o fel.

Ouça a música aqui!

ECLESIASTES

Quando vemos o modo destemido como Natã fala a Davi[15], como Jeremias fala ao rei Zedequias[16] – sendo preso por diversas vezes até ser lançado num poço –, percebemos que a função dos profetas não era coisa fácil. Muito pelo contrário. Viviam quase sempre no ostracismo e, por seu dom de discernir os eventos, sofriam as dores de todo o povo. O eminente teólogo Gerhard von Rad nos explica:

Por quanto podemos saber, a vocação dos profetas do séc. VIII e VII (a.C.) se dava por uma palavra que Deus comunicava de forma pessoal e imediata, e essa palavra criava, para o respectivo ser humano envolvido, uma situação totalmente nova. Não somente era encarregado de uma missão limitada no tempo, mas lhe era confiado um ministério que não era considerado vitalício em todos os lugares, mas que, em todos casos, tirava essas pessoas por um tempo, no mínimo, bastante longo, de todos os relacionamentos que mantinham até então. Ser profeta significava manter-se em um estado que tinha profundas repercussões nas condições externas da vida. Não apenas a sua boca, mas toda a sua vida era posta a serviço de sua função […]. Ser profeta não era o resultado de uma escalada prodigiosa, nem de uma superação da existência religiosa anterior. Diante de Javé, nem a fé que anteriormente havia sido experimentada, nem qualquer aptidão pessoal criava de forma alguma uma predisposição preparatória para a vocação. Ainda que tivesse uma natureza pacífica, o profeta tinha que criticar e ameaçar, independente de isso lhe cortar o coração, como era o caso de Jeremias. E, ainda que, por acaso, tivesse inclinação para o rigor, tinha que indicar o caminho da salvação e do consolo, como era o caso de Ezequiel.  A ruptura que separa os profetas da sua vida anterior é tão profunda, que na nova vida nenhum dos antigos sociais subsiste.[17]

A canção Eclesiastes exala esse profetismo de forma sutil, mas contundente. A letra é uma homenagem a certo Pregador talentoso e mui eloquente. Paladino de retórica implacável, que arrasta multidões. Não um pregador qualquer, desses que pregam de chapéu de vaqueiro ou não conseguem pronunciar corretamente um simples plural. Não; suas palavras são precisas, seu carisma é avassalador, seu discurso é infalível:

Eclesiastes pregador,

Gladiador, suga o ar pra ferir;

Encantador. Quando a espada subir

E o seu brilho cegar,

Descerá como um raio, irá um contrário

Podar, suprimir (Varão chegador!)

Tem seu lugar na peleja Real.

É tão lindo de ver,

Luta pra gente ver, Eclesiastes!

A imagem é explícita: o Pregador é um guerreiro, preparado para derrotar seus inimigos. O que nos parece claro é que não se trata de inimigos metafísicos, espirituais. Seus desafetos são de carne e osso, opoentes intelectuais (?). A metáfora bélica é antiga. Frye analisa:

[…] A expressão central da energia humana é o trabalho criativo que transforma o mundo amorfo do meio ambiente natural no mundo de forma e significado humanos, que é pastoral, cultivado e civilizado. O outro lado desse esforço é a luta contra o inimigo, que tem dois aspectos. Primeiro, é o inimigo humano, encontrado na guerra; segundo, é o elemento caótico, amorfo, na natureza, em geral, simbolizado por um monstro, uma fera de rapina, e identificado com a seca, inundações e toda sorte de esterilidade natural[18].

 

Eclesiastes pregador, gladiador

Guerrear contra o mal

É seu labor. Sua sina, um sinal

De que o Amor quer lutar

Quer vencer seu rival, contender,

Trazer ordem ao caos.

[…]

Eclesiastes pregador,

Gladiador enfrentou a famintos leões…

Não obstante toda sua força retórica, o Eclesiastes está prestes a sucumbir àquilo que o verdadeiro Qohelet tanto abomina: a Vaidade[19]. É preciso refletir a respeito de seu ofício, revisar sua vocação. As recomendações do poeta-profeta são para que ele desperte a tempo.

Vai Eclesiastes,

Basta de cisões,

Sua vida vai mudar,

É momento de outro tipo de querer.

Nossas fragmentações vão doenças apinhar,

É momento de outro tipo de poder,

Alegrias vão chegar.

Enfim, como diz o último verso: fale, mas também ouça.

Virtuosismo

Enquanto o poeta canta, a música o acompanha, transmudando-se conforme os elogios vão tomando forma de exortação. É algo épico, sublime. Com um arranjo de apuro técnico impressionante, a canção vai, num crescendo, se transformando numa espécie de cavalgada musical, que parece conduzir o Pregador à sua peleja derradeira.

Um fato curioso é que os instrumentos se destacam de maneira individual em momentos específicos. O contrabaixo fretless – tocado de maneira hipnotizante por Edu Martins – é quem tem a proeminência na primeira execução completa da música. Em seguida, Bruno Cardoso improvisa ao piano com a delicadeza de um suspiro. Ao final, quando a bateria de Cuca Teixeira já se transformou numa marcha frenética (de extrema precisão, diga-se de passagem), temos o solo dionisíaco de Miguel Garcia.

Eclesiastes é puro arrebatamento!

Ouça a música aqui!

Há mais em Miguel Garcia, homem de múltiplas facetas. E qualquer semelhança com o valente arcanjo das Escrituras, não é mera coincidência.

Dê uma oportunidade à sua alma, e ouça A Beija, de Miguel Garcia.

Paulo Cruz – Junho 2013

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[1] TOLENTINO, Bruno. A Balada do Cárcere, Rio de Janeiro: Top Books, 1996, pp.9, 123.

[2] BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada. São Paulo: Global, p. 101.

[3] O PROFETA Num ermo, eu de âmago sedento/já me arrastava e, frente a mim,/surgiu com seis asas ao vento,/na encruzilhada, um serafim;/ele me abriu, com dedos vagos/qual sono, os olhos que, pressagos,/tudo abarcaram com presteza/que nem olhar de águia surpresa;/ele tocou-me cada ouvido/e ambos se encheram de alarido:/ouvi mover-se o firmamento,/anjos cruzando o céu, rasteiras/criaturas sob o mar e o lento/crescer, no vale, das videiras./Junto a meus lábios, rasgou minha/língua arrogante, que não tinha,/salvo enganar, qualquer intuito,/da boca fria onde, depois,/com mão sangrenta ele me pôs/um aguilhão de ofídio arguto./Vibrando o gládio com porfia,/tirou-me o coração do peito/e colocou carvão que ardia/dentro do meu tórax desfeito./Jazendo eu hirto no deserto,/o Senhor disse-me: “Olho aberto,/de pé, profeta e, com teu verbo,/cruzando as terras, os oceanos,/cheio do meu afã soberbo,/inflama os corações humanos!” (PUSHKIN, Aleksandr. A Dama de Espadas. São Paulo: Editora 34, p. 267. Tradução de Nelson Ascher).

[4] Cf. TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o Tempo, São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 38.

[5] FRYE, Northrop. O Código dos Códigos – a Bíblia e a literatura, 2.a ed. São Paulo: Boitempo, 2006, p. 18.

[6] O artista é sempre um servidor, e está eternamente tentando pagar pelo dom que, como que por milagre, lhe foi concedido. O homem moderno, porém, não quer fazer nenhum sacrifício, muito embora a verdadeira afirmação do eu só possa se expressar no sacrifício. Aos poucos, vamos nos esquecendo disso, e, inevitavelmente, perdemos ao mesmo tempo todo o sentido da nossa vocação humana. (TARKOVSKI, Op. Cit., p. 41).

* Post Hoc proper hoc: como se, constatada a existência de um fato, se passasse a defini-lo como causa de outros adjacentes simplesmente por sua precedência.

[7] A arte não raciocina em termos lógicos, nem formula uma lógica do comportamento; ela expressa o seu próprio postulado de fé. Se, na ciência, é possível confirmar a veracidade dos argumentos e comprová-los logicamente aos que a eles se opõem; na arte é impossível convencer qualquer pessoa de que você está certo, caso as imagens criadas a tenham deixado indiferente, e não tenham sido capazes de convencê-la a aceitar uma verdade recém-descoberta sobre o mundo e o homem, se, na verdade, a pessoa ficou apenas entediada ao deparar-se com a obra. (TARKOVSKI, Ibid., p. 44)

[8] FRYE, Northrop. Op. Cit., p. 59.

[9] O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do Tempo, ab initio. […] O mito é, pois, a história do que se passou in illo tempore. (ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. Lisboa: Livros do Brasil, 1956, p. 81).

[10] Cf. ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. Brasília: UNB, 1985, p. 153.

[11] A Amizade – num sentido nem um pouco depreciativo – é o menos natural dos os amores: o menos instintivo, o menos orgânico, o menos biológico, o menos gregário e o menos necessário. (LEWIS, C. S., Os Quatro Amores. São Paulo: Martins Fontes, p. 82).

[12] ARISTÓTELES, Op. Cit., p. 156

[13] Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo. (Ap 3:20).

[14] Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos. (Hb 13:2).

[15] 2º Samuel 12.

[16] Jeremias 38.

[17] RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Targumim, p. 496.

[18] FRYE, Northrop. Op. Cit., p. 224,225.

[19] “Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade”. (Ec 1:2)