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HIMENEU ACORRENTADO

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Casamento Silencioso (Nunta Mută) – 2008

“Toda a tragédia do comunismo é simbolizada pela pretensão alucinante de uma minoria de encarnar uma elite cujos escopos utópicos  canonizem também os seus métodos mais bárbaros”. (Vladimir Tismăneanu)

Em 1953, a Romênia vivia sob o domínio soviético. O sanguinário Nicolae Ceaușescu, que ceausescu_14chegaria ao poder total somente na década de 1970, já era um rato a sorrateiramente conquistar espaço dentro da hierarquia comunista que dominava seu país. Porém, desde o fim da Segunda Guerra, quando o rei Mihai (Miguel) I se aliou aos stalinistas – para depois, em 1947, ser deposto e ter de se exilar no Ocidente –, o povo romeno agonizava sob a “intimidação soviética”. Nas palavras do cientista político Vladimir Tismăneanu:

Vladimir-TismaneanuAs formações comunistas locais seguiram um modelo de destruição sistemática dos
partidos não comunistas, de desintegração da sociedade civil e de ocupação do tipo monopolista do espaço público por intermédio dos rituais ideológicos controlados pelo estado com a ajuda das instituições repressivas dos novos regimes.[1]

E é, sobretudo, a respeito dessa “desintegração da sociedade civil” que trata o filme Casamento Silencioso (Nunta Mută), rodado em 2008, na Romênia, sob direção de Horaţiu Mălăele, veterano ator e diretor de teatro. Trata-se de uma grande crítica ao absolutismo comunista e sua sanha violenta pelo controle total da sociedade.

O filme se inicia nos dias atuais, com uma equipe de televisão que estuda fenômenos paranormais, indo às ruínas de um vilarejo onde se diz ocorrerem tais excentricidades. Gogonea, o prefeito local, é quem os conduz. Ao chegar, deparam-se com um lugar inóspito – que, como diz o prefeito em tom irônico, foi destruído pelos comunistas para a vilaconstrução de uma fábrica, mas que agora está sendo destruído pelos capitalistas para a construção de uma vila para ricos –  e encontram uma velha prostituta, Marinela, com quem têm uma conversa estranhamente animada. Mas, de repente surge um grupo de senhoras, de semblante sorumbático, vestidas de preto e carregando velas como num cortejo. O diretor fica bastante intrigado, e pergunta ao prefeito o que, de fato, ocorrera naquele lugar. Então o prefeito lhes conta.

Nesse momento somos remetidos a 1953, àquele pequeno vilarejo, que então exalava as cores e os aromas da primavera. Somos apresentados a um povo alegre e expansivo – nãocomunas obstante o “fantasma do comunismo”, que o assombra insistentemente. As referências iniciais ao regime stalinista são satíricas; o bom humor é um modo de resistência à invasão bárbara (voltaremos a isso). Numa das primeiras cenas, a alegria e a descontração dos jovens é contrastada com alguns tanques de guerra em treinamento e com um grupo de aspirantes comunistas, jovens também, pateticamente trajados, marchando e gritando palavras de ordem no meio da rua.tanques

No armazém, local da jogatina e bebedeira dos homens, Voicu Gogonea, membro do partido comunista local – e pai do prefeito que nos conta a história –, é ridicularizado pelos amigos. No entanto, o pomo da discórdia é o namoro entre Iancu Vrabie e Mara Aschie, vividos pelos jovens atores Alexandru Potocean e Meda Andreea Victor. O ardor de sua paixão vem deixando o pai de Mara, Grigore Aschie, de cabelo em pé – a ponto de quase levá-lo às vias de fato com o pai de Iancu, Haralamb Vrabie. A fama de galanteador do nunta-muta-679571lrapaz é conhecida (e reprovada) por todos no vilarejo.

Iancu chega ao armazém bem no meio da confusão entre seu pai e o pai de Mara, e promete casar com a moça. Imediatamente todos passam a comemorar e se abraçar como se nada tivesse acontecido! Os pais passam a se tratar como parentes e a programar o grande acontecimento. O grandalhão Grigore sugere o próximo domingo. Mas dois problemas se impõem: no próximo domingo o Circo chegará ao vilarejo, e no outro será a Quaresma. Então o pai de Iancu sugere a quinta-feira. Perfeito! Grigore aceita com um soco na mesa, o qual faz tremer todo o armazém.

Gogonea, que havia deixado o armazém, se encontra com outro comunista, Sandu Prastie, Instrutor Cultural Regional, que, exibindo um indefectível bigodinho de Hitler, diz estar programado, para o próximo sábado, a exibição de um filme – ou melhor, de propaganda comunista seguida de um filme. Gogonea diz que não há energia elétrica no vilarejo, mas recebe como resposta a típica truculência autoritária:

“Não é problema meu. Dê um jeito ou eu o denuncio por obstrução da iluminação cultural das massas”.

A cena da sessão de cinema é uma das mais engraçadas do filme. Mostra, ao mesmo tempo, a torpeza moral dos comunistas, bem como sua patética pretensão de serem levados a sério. O instrutor cultural chega numa moto toda arrebentada, trazendo Marinela no carro passageiro, cochichando libertinagens e recebendo o olhar reprovador das senhoras que aguardavam a projeção. Em seguida, durante a exibição de um daqueles
desfiles cívicos típicos do comunismo, Stálin surge na tela. Os comunistas levantam exaltados para o saudar, mas Gogonea, que estava sentado na ponta do banco, cai. Todos riem. Então o diretor Horaţiu Mălăele transforma esse pequeno desentendimento numa
cena de comédia pastelão do cinema mudo, com direito à imagem acelerada e preto-e-branco. Em seguida, o circo chega com todo o seu festival de cores, personagens bizarros e uma alegria maculada pela triste música de Alexandru Andrieş – aliás, a trilha sonora é belíssima!

Himeneu acorrentado

nunta-muta-177756lApós o misterioso assassinato de uma jovem envolvendo os comunistas, chega o dia do casamento. Quatro porcos, dois bezerros, ensopados, lingüiça recheada, charuto de couve, bolos, pães e muita bebida aguardam os convidados em casa de Grigore. Estes aparecem desfilando pelas ruas do vilarejo, no maior clima de festa, dançando e comemorando muito. De repente, a festa é interrompida pela chegada de Gogonea, acompanhado de dois oficiais comunistas de alta patente, muitíssimo mal-encarados. Gogonea diz:

“Bom dia, Camaradas! Este é o Camarada Pastaie Dumitru, da capital. O cavalheiro é o Capitão Vladimir Bezimienyi, oficial político da Quarta Divisão e representante do Estado Maior”.

Grigore ainda tenta descontrair:

“Gogonea, se veio para nos mostrar o quão é estúpido, isso nós já sabíamos. Se quiser beber com a gente, traga seus amigos e junte-se a nós”.

Mas o oficial o interrompe – traduzido do russo pelo outro:

comunas2“Talvez você não saiba, mas o nosso Pai, Iosif Vissarionovich Stálin, Josef Stálin, faleceu ontem à noite, de hemorragia cerebral. O Grande Conselho Soviético declarou
sete dias de Luto Internacional. Portanto, devido à demonstração de luto, todos os eventos populares estão estritamente proibidos. A bandeira nacional estará a meio-mastro. Aqueles que não cumprirem este decreto, serão acusados de alta traição”.

Grigore tenta explicar a difícil situação: em sete dias toda a comida estará estragada, e pede a compreensão dos oficiais, que lha negam categoricamente:

“Sem exceções! Qualquer manifestação que possa distrair o povo romeno da gratidão devida ao ‘Pai de Todos os Povos’ é estritamente proibida. Sem risos, sem jogos de futebol, sem casamentos, sem funerais”.

Gogonea novamente demonstra sua estupidez, dizendo:

“Como assim, sem funerais? O Camarada Stálin não terá um funeral?”

Toma na cara uma bofetada que o derruba, sangrando. Os comunistas vão embora; Gogonea os segue; e os convidados, perplexos, ainda não acreditam na ordem que acabaram de receber.

Mas a perplexidade dura pouco. Grigore os reúne e decide pela transgressão: farão uma festa secreta, um “casamento silencioso”. Música sem música, brinde sem brinde, alegria sem alegria. A sequência do casamento é poderosa! O riso se mistura ao drama, a comédia à tragédia, e o nonsense oferece sentido.

Alegrias difíceis

O filósofo Olavo de Carvalho notou, em sua brilhante introdução ao magnum opus de Constantin Noica – o maior filósofo romeno do séc. XX – As seis doenças do espírito contemporâneo­, que:

Não há povo talvez no universo que tenha mais que ele o senso da incongruência entre o exterior e o interior do homem, da impossibilidade de expressar a realidade nua e crua sem que ela acabe parecendo uma q8-dQ-hVfantasia alucinada. O dadaísmo, não convém esquecer, é invenção romena. Também o é o teatro do absurdo […] Esse povo tem o gênio da ambigüidade aparente a encobrir uma sinceridade profunda, que os brasileiros também têm, mas que nele se mescla a um toque de gravidade tragicômica que nos falta quase por completo. […] E é nessa faixa de indecisão e perplexidade que eles colocam o melhor, o mais profundo e o mais autêntico de uma visão romena do mundo.[2]

E Casamento Silencioso tem exatamente essa característica. Não é exatamente uma comédia, mas uma tragédia cujo absurdo só pode ser expressado pelo riso. Não é por acaso que o diretor mistura elementos misteriosos a situações que fogem à nossa compreensão. Como afirma Olavo:

[…] nenhum dos grandes escritores romenos dá o menor sinal de ser indiferente aos sofrimentos humanos ou de pretender defender-se deles mediante um artifício intelectual, seja o da ironia, seja qualquer outro. Ao contrário, eles não apenas assumem o sofrimento e o absurdo da vida com plena consciência da fatuidade desses artifícios, como também procuram expressá-lo da maneira mais franca, direta e literal. É precisamente desta franqueza que brota, quase paradoxalmente, o efeito cômico, quando o sofrimento descrito, chegando aos últimos limites da opressão e do nonsense, ultrapassa o dom das lágrimas e se converte em riso.[3]

A situação vivida pelas personagens de Casamento Silencioso parece absurda, mas não é – o filme é baseado em fatos reais. O comunismo mergulhou a Romênia em anos de 61512016obscuridade e terror tamanhos, que nenhum ocidental é capaz de compreender a não ser pelos recursos imaginativos que só a comédia pode oferecer. Nas palavras de Gabriel Liiceanu – editor, ex-discípulo de Noica e o mais destacado filósofo romeno da atualidade:

O tempo e o mundo que começaram depois da Segunda Guerra Mundial assemelharam-se, para os romenos, a um pesadelo. Um pesadelo é um cenário de vida em que entras sem que, de tua vida anterior, algo seja predito. A história cai por terra, pura e simplesmente, e, de um dia para o outro, nada mais se parece com o que foi.[4]

E sob esse pesadelo a Romênia viveu até 1989, quando Ceaușescu foi deposto e executado.

Sendo o casamento “ por excelência, a vocação que permite pôr Deus no que a vida tem aparentemente de mais comum e de mais banal” [Gustave Thibon], o comunismo (como habilmente é retratado no filme) é a retirada total de Deus não só daquilo que é comum e banal, mas da própria celebração da existência, da vida. É a morte que irrompe no silêncio. É o triunfo daquilo que, como nos demonstra Tismăneanu: é mnemófobo (contra a memória), é axiófobo (contra os valores) e é noofóbico (contra o espírito).[5] O comunismo foi a Noite Escura da alma romena – quiçá, do mundo.

Mas o romeno não se entrega facilmente e luta contra o próprio destino. E o faz com aquela

[…] paradoxal e inconfundivelmente romena propriedade de, justamente quando mais nos oprimem com a visão do intolerável, nos libertar de súbito, nos infundir uma luminosidade calma e soberana e nos elevar às portas de um reino angélico de contemplação e sabedoria. Eles celebram a vitória da linguagem sobre o mutismo ruidoso do mundo satânico. O jogo de excêntricos amalucados revela assim sua verdadeira natureza, a missão secreta desses anjos disfarçados em palhaços: é o divinum opus da cura pela palavra.[6]

Andrei Pleșu, na magistral conferência Da alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental – publicada em livro homônimo pela É Realizações –, nos apresenta essa estratégia de resistência do povo romeno – a mesma apresentada em Casamento Silencioso. É diante da total opressão e sufocamento da vida, que a vida mesma se apresenta, contrabandeada, oculta, travestida em tragédia, em alegrias mínimas e/ou proibidas. E Pleșu explica isso contrapondo a alegria “normal”, vivenciada por europeus do Ocidente, com as experiências de quem viveu diante dos horrores do comunismo:

A “normalidade” da Europa Ocidental consta de uma lista extensa de “obviedades”: é óbvio encontrares de comer; teres aquecimento em casa quando está frio lá fora; teres, sem interrupção, energia elétrica; passar o ônibus no horário; teres passaporte; encontrares-te com quem quiseres; creres no que quiseres; escreveres e publicares o que quiseres. É óbvio xingares o governo, vaiares as forças de ordem, veres filmes do Plesu-2mundo inteiro, leres qualquer autor, usares ou não barba e cabelos longos; teres quantos filhos quiseres; teres, em geral, direitos individuais que as instituições têm de respeitar. Nada disso era óbvio para o cidadão de um país comunista.[7]

Para descrever tal situação, Pleșu divide as alegrias possíveis ao povo romeno sob o comunismo, em Alegrias Mínimas, Negativas e Proibidas. Das alegrias mínimas, diz:

O regime totalitário não nos pôde tirar as grandes alegrias, as alegrias em que qualquer homem tem parte, indiferente da condição em que vive: a alegria do amor, da amizade, da criatividade. Mas, obrigando-nos a nos concentrar em alegrias mínimas, nos enviuvou das alegrias simples. Era-nos proibido em primeiro lugar não o luxo, mas o natural, o viver tranquilo, a nobreza calma do humano.[8]

E usa como exemplo um belo exercício de resistência pela organização de um mercado paralelo de alimentos:

Sabotamos o furor comunista de austeridade por um esforço gigantesco, organizado e solidário, cujo resultado foi a constituição de um mercado negro de alimentos, amplo e eficiente. Procurar, laboriosamente, o necessário, espreitar o momento (e o local) da distribuição fulgurante das mercadorias (de azeitonas, por exemplo), conservar o ritual doméstico da mesa e dos feriados, oferecer ao hóspede estrangeiro um almoço suficientemente bom que ele não mais entendesse nada do discurso acerca da pobreza do anfitrião – todas essas coisas (além das filas intermináveis e fervendo de subversão) foram formas de resistência muito mais disseminadas do que se crê.[9]

É curioso percebermos o quanto a escassez pode unir um povo; pode nutri-lo com uma coragem que só nasce no perigo iminente. E é também nessa total falta de perspectiva que aquela alegria improvável surge, quase imperceptível, como um portento. O testemunho de Pleșu merece citação:

[…] o primeiro grito de vitória que ouvi, a primeira alegria articulada, atestando a mudança radical dos tempos, veio da parte de uma vizinha boa gente, sem nenhum tipo de apetência revolucionária. Ela entrou impetuosa no quintal, passando, heroica, por entre balas, e proclamou, em benefício de todo o bairro: “No armazém da esquina há azeitonas! E não há fila!”. Senti imediatamente o aroma do futuro.[10]

Sim, pois a quem, no Ocidente, ocorreria não ter azeitonas no armazém? Mas, a exemplo do que está acontecendo na Venezuela dos dias atuais – cujo povo luta por papel higiênico –, não é nem um pouco estranho que os romenos, sob o mesmo comunismo, se espantassem de, ao entrarem numa padaria e perguntarem se havia pão, ouvirem um “sim” como resposta.[11] Essa era a situação real dos romenos sob o regime stalinista – e é a dos venezuelanos sob o chavismo de Nicolás Maduro, hoje.

Das alegrias negativas, Pleșu assevera:

As alegrias mínimas são a euforia do estritamente necessário. As alegrias negativas derivam não da satisfação de ter uma experiência agradável, mas da de não ter uma experiência ruim. As alegrias negativas exprimem-se perfeitamente no sintagma “poderia ter sido ainda pior”. Elas sobrevêm no horizonte de uma expectativa sombria e derivam da não realização dessa expectativa.[12]

Para Pleșu, tais alegrias, no Oriente, ganharam um contorno diferente do que se espera delas no Ocidente. Não é simplesmente ser poupado da anormalidade – como perder o emprego ou não adoecer –, mas, ao contrário, da “normalidade” comunista:

Alegra-se de não ter sido muito censurado um livro publicado por uma editora, de não lhe derrubarem a igreja ou a casa, de não ter sido dedurado à Securitate, ou que, embora dedurado, não era (ainda) apenado, interrogado ou preso, etc.[13]

E, por fim, diz das alegrias proibidas:

No Leste Europeu, a proibição era ilegítima, de maneira que a transgressão dela era um ato de coragem moral, uma forma pura de júbilo espiritual. Ler escondido um grande autor proibido, ter uma vida religiosa, escutar a “Europa Livre”, hospedar amigos do estrangeiro, fazer piadas à custa do governo totalitário, não declarar na polícia que tens uma máquina de escrever – eram tantas vitórias quantos pontos ganhos contra o abuso ditatorial. As alegrias proibidas são alegrias perigosas. O prazer é dobrado pela palpitação do risco.[14]

Nesse caso, a história do filme é um exemplo perfeito. A cena do casamento é, sem tirar nem pôr, um movimento de total subversão ao regime comunista, usando como arma de defesa a fartura e a festa. Enquanto os comunistas estavam de luto, os romenos festejavam. Celebravam a vida em plena morte. A quantidade de comida e bebida – com direito a um engraçadíssimo deboche flatulento do senhor Vrabie – é rebeldia pura.

E quando o filme retorna às ruínas do vilarejo, a equipe da Paramedia se rende à força dos eventos passados naquele local em 1953, e decide contar aquela história –  que não deixa de ser paranormal (à margem do normal) para os padrões atuais.

Casamento Silencioso é, sobretudo, uma lição de resistência altiva e coragem. E é evidente que, diante de um regime totalitário, às vezes o martírio é a única opção. Por isso, quando vemos, hoje, intelectuais defendendo o socialismo/comunismo como algo viável, é impossível não sentirmos repulsa por tamanha canalhice. Um regime que assassinou brutalmente milhões de pessoas, que espalhou o terror onde quer que tenha sido implantado, não pode triunfar novamente – ainda que travestido da tão famigerada e sedutora democracia. E nisso os romenos são os nossos mestres. Eles nos ensinam que todo projeto em direção a um “mundo melhor” não passa de delírio totalitário; que toda pretensão de democracia imposta por ideólogos leva ao genocídio.

Paulo Cruz, julho de 2016

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[1] TISMANEANU, Vladimir. Do Comunismo – O destino de uma religião política. Vide Editorial, 2015, p. 47. Tradução: Elpídio Fonseca.

[2] CARVALHO, Olavo de. In: NOICA, Constantin. As seis doenças do espírito contemporâneo. BestBolso, p. 14. Tradução: Fernando Klabin e Elena Sburlea.

[3] Idem, p. 15.

[4] LIICEANU, Gabriel. Do ódio. Vide Editorial, p. 101. Tradução: Elpídio Fonseca.

[5] Cf. TISMANEANU, Vladimir. Do Comunismo – O destino de uma religião política. Vide Editorial, 2015, Tradução: Elpídio Fonseca.

[6] CARVALHO, Olavo de. In: NOICA, Constantin. As seis doenças do espírito contemporâneo. BestBolso, p. 16. Tradução: Fernando Klabin e Elena Sburlea.

[7] Pleșu, Andrei. Da alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental. É Realizações, p. 23. Tradução: Elpídio Fonseca.

[8] Idem, p. 24.

[9] Idem, p. 25.

[10] Idem, p. 22.

[11] Cf.: Idem, p. 26.

[12] Idem, p. 28.

[13] Idem, p. 28.

[14] Idem, p. 29.


O turbante e a turba

Artigo publicado em 07 de outubro de 2015 no jornal Gazeta do Povo.

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“Quem construiu as pirâmides?, gritou o orador ismaelita. Um negro. Quem inventou a circulação do sangue? Um negro. […] Quem descobriu a América? […] Como tão nobremente escreveu o escritor negro Karl Marx, […] África para o trabalhador africano, Europa para o trabalhador africano, Ásia, Oceania, América, Ártico e Antártida para o trabalhador africano.”

O discurso acima poderia ter sido escrito por Cheikh Anta Diop – cheikh_anta_86antropólogo senegalês, coordenador da História Geral da África, da Unesco –, cuja tese era de que o Egito Antigo não só foi o berço da civilização, mas uma nação negra e influente, fonte, inclusive, da filosofia grega, de onde Platão e Aristóteles teriam roubado, dentre outras coisas, sua cosmogonia. Mas não: o excerto pertence ao romance Scoop, do satirista britânico Evelyn Waugh, e retrata muito bem o caráter megalômano da teoria de Diop.

A ideia pan-africanista busca uma identidade soberana negra, africana na diáspora, e ganhou força no início do século 20, com Marcus Garvey e W.E.B. Du Bois; demonstra o desejo de autoafirmação dos negros americanos após o fim da escravidão. Du Bois falava dos laços afetivos com a “mãe pátria”, e garantia que os negros tinham uma mensagem positiva para oferecer enquanto “raça negra”; e reacendeu o debate (eugenista e europeu) acerca do racismo biológico.

A tese de Du Bois é romântica, atraente, mas inconsistente. Primeiro, duboisporque o conceito de raças, no sentido biológico, é falso – e Du Bois não conseguiu desvencilhar-se dele. E, depois, porque tal unidade africana nunca existiu na África.

Recentemente, os teóricos afrocentristas embriagaram-se de fontes francesas (pode?) – principalmente Pierre Bourdieu e Michel Foucault, figuras onipresentes nas teses acadêmicas esquerdistas – e na ideologia do multiculturalismo, e termos como “apropriação cultural” e “poder simbólico” tornaram-se a chave-mestra do debate racial contemporâneo.

Daí que a investida mais recente do movimento negro é a apropriação cultural de teorias europeias para defender a exclusividade de uma cultura negra turban-Sophia-Lorencomo “símbolo de luta”. Assim, reivindicam o controle sobre o que as pessoas podem usar (e dizer) pela cor de sua pele; ou, pior ainda, por sua “identificação cultural” – veja o caso dos turbantes. Invertem o famigerado “Colored Only” da segregação americana, e assinam um atestado de incoerência. No Brasil, esse terrorismo ideológico cerceia a liberdade das pessoas e cria um falso separatismo num país majoritariamente miscigenado.

Paradoxalmente, o pan-africanista Du Bois, primeiro negro a obter um doutorado em Harvard, não era separatista. Culto, elegante e de escrita requintada – The Souls of Black Folk encantou o eminente filósofo William James, seu professor –, sabia o que era bom. Nas palavras do filósofo anglo-ganês Kwame Appiah:

“[Du Bois] era um homem de esquerda, mas um elitista e um dândi, que desenvolveu a noção de que a comunidade afroamericana deveria ser conduzida pelo que chamou de ‘Talented Tenth’ (algo como a Décima Parte Talentosa), uma elite intelectual negra que lutaria por seus direitos no campo das ideias, sem negar o que havia de melhor na cultura ocidental”.

Como ele mesmo disse: “além da linha do preconceito, caminho de braços dados com Balzac e Dumas […] Assim, casado com a Verdade, vivo por sobre o Véu”.

E nós, o que fizemos? Trocamos a Décima Parte Talentosa por uma turba de histéricos.

Paulo Cruz

 


“Da Mentira”, de Gabriel Liiceanu, e o momento eleitoral brasileiro.

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Lançamento Vide Editorial

À Andrea Espírito Santo, pelo incentivo

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Gabriel Liiceanu

Gabriel Liiceanu é um filósofo singular. Romeno, nascido em 1942, formou-se em Filosofia (1965) e Letras Clássicas (1973) pela Universidade de Bucareste. Doutorou-se em Filosofia em 1976, pela mesma universidade, onde é professor. Mas Liiceanu foi, antes de tudo, discípulo dileto do grande Constantin Noica, mestre de toda uma geração de grandes pensadores romenos – dentre eles, Andrei Pleșu, autor de Da Alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental (É Realizações, 2013) –, que se reuniam num pequeno casebre em Păltiniș (região de Sibiu, na Transilvânia), para cursos sobre Platão, Aristóteles, Hegel etc., utilizando o método socrático. Também é proprietário da Humanitas, editora de grande prestígio na Romênia, que publica desde célebres traduções dos gregos até best-sellers da atualidade.

A Vide Editorial acaba de lançar – em tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca –, Da Mentira (“Despre minciună”), de Liiceanu.

Lançado originalmente em 2006, essa obra é, na verdade, o texto de uma palestra dada por Liiceanu nas “Conferências Microsoft”, em 2004, e trata-se de uma meditação sobre a mentira como instrumento político. Primeiro, como um recurso utilizado para se atingir o “bem comum” – chamado por ele de “moral de segunda instância”; depois, como instrumento do mal puro. Para esse último caso, utiliza como exemplo o Comunismo na Romênia. Diz Liiceanu no prólogo:

A mentira não pode ser de fato entendida senão como momento negativo da liberdade. Então tudo se torna claro: o mal, o crime, a política, ou seja, todas as coisas que são possíveis apenas pela escroqueria verbal que as precede. O fato de a língua, empregada do utilizador humano, poder dizer não apenas o que é, mas também o que “não é” — ou seja, o fato de que uma palavra pode dizer não apenas a verdade, mas também mentir — explica por que a história do homem é, em sua essência, uma corrente de desastres[1].

Para essa análise, Liiceanu “convida” três obras nas quais a mentira é tratada como forma de atingir o “bem comum”: a tragédia Filoctetes, de Sófocles; o diálogo Hípias Menor, de Platão; e, por fim, o moderno O Príncipe, de Nicolau Maquiavel. O resultado é invejável!

Na tragédia sofocleana, Odisseu (ou Ulisses) convence Neoptólemo, filho de Aquiles, a enganar o célebre arqueiro Filoctetes – picado por uma serpente no início da guerra e abandonado por Ulisses na ilha de Lemnos – e convencê-lo a voltar a Troia, pois, como o fim da guerra estava próximo, a habilidade de Filoctetes com o arco e flecha era indispensável.Neoptolemo Sagaz, Liiceanu, escreve:

O que pede Odisseu ao suave Neoptólemo? Aparentemente, uma bagatela: enganar Filoctetes, empregando palavras. Sófocles diz textualmente: ten Philocteton psychen logoisin ekklepseis. Al contrário de klepto, que significa “roubar uma coisa” (ver “cleptomania”), ekklepto significa “roubar uma pessoa”, ou seja, “raptar”. Odisseu pede a Neoptólemo que “roube”, valendo-se de palavras “a mente de Filoctetes”.[2]

Ou seja, a mentira de Neoptólemo seria utilizada para o bem (a vitória) dos gregos.

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Sócrates e Hípias

No capítulo II, Liiceanu analisa uma passagem do diálogo platônico Hípias Menor, escrito, provavelmente, cerca de 10 anos depois da tragédia de Sófocles, e cujo subtítulo é homônimo ao livro do próprio Liiceanu: “Da mentira”. Na passagem escolhida para a análise, Sócrates conversa com Hípias sobre a possibilidade de alguém cuja alma fosse boa, “amante da verdade” (ho alethes), dizer mentiras ou enganar. Platão (na pessoa de Sócrates) conduz o diálogo de forma magistral, chegando a uma conclusão devastadora. Diz Liiceanu:

O diálogo é, em substância, o desenvolvimento e a conclusão espantosa dele, no sentido de perplexidade. Parece atestar uma enormidade, já que contradiz, como veremos, uma verdade elementar, e, mais ainda, o próprio meio da doutrina socrático-platônica segundo a qual o sabedor da verdade e do bem é incapaz de fazer o mal.[3]

A conclusão é que, quanto mais virtuoso for um homem, tanto mais é capaz de enganar e mentir, pois o faz conscientemente. Nas palavras de Liiceanu: “O mais sabedor é o que pode mentir melhor”.[4]

O capítulo seguinte é chamado de Intermezzo, e Liiceanu reflete sobre o deinon (assombro) entre os gregos. Inclusive faz uma citação de O problema do sofrimento, de C. S. Lewis, no qual este fala sobre o numinoso. Faz isso porque Hípias, ao final do diálogo com Platão, afirma que seria assombroso que aquele que engana voluntariamente fosse melhor do que aquele que engana involuntariamente.

O próximo capítulo é dedicado ao famigerado O Príncipe, de Maquiavel. Segundo a análise de Liiceanu, nesta obra Maquiavel dá dimensão programática e pragmática ao pensamento político dos gregos, “justificando a essência do comportamento político como mentira, fraude, engano, violência, manipulação etc.”[5]. O príncipe pode, senão deve – valendo-se da “moral de segunda instância” – praticar o mal para atingir o bem:

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Maquiavel

O Príncipe de Maquiavel é o oposto de um tirano, ou seja, de alguém que comete o mal público porque almeja apenas o bem próprio e de sua família. A máxima de Maquiavel não é “sê mal!”, mas “recorre ao mau quando o bem deve ser salvo, defendido ou consolidado[6].

Nesse sentido, o príncipe maquiavélico é um virtuoso (movido pela virtu) que pratica o mal por um bem maior: o do povo.

O quarto e último capítulo é particularmente importante. Liiceanu faz uma crítica duríssima à situação da Romênia sob a égide do Comunismo. Não poupa palavras, pois ele mesmo foi vítima de espionagem sistemática. “Grampeado” de 4 de novembro de 1971 a 23 de dezembro de 1989, o que gerou gravações em fita e alguns milhares de páginas escritas a respeito de sua vida cotidiana – como descobriu, após a abertura dos arquivos da Securitate (a polícia secreta do governo assassino de Ceauşescu), em 1999 – sabe como ninguém o que é viver sob um regime onde a mentira é uma das armas principais:

O que aconteceu com o nosso país? O oposto do que aconteceu com a Alemanha, Itália ou Japão depois da guerra. Maquiavel fala de uma ditadura temporária (e esta foi a ditadura dos Aliados) destinada a reinstituir a liberdade nas sociedades antigas pelos tiranos. Apenas a nós, em lugar de um Douglas MacArthur [comandante militar norte-americano na II Guerra Mundial e filho do herói da Guerra de Secessão Arthur MacArthur] que eliminou os chefes do exercito japonês e impôs uma constituição democrática que fez que o Japão fosse hoje um dos países mais civilizados do mundo, veio Vîșinski [jurista e político soviético, membro do Partido Comunista], que, depois de eliminar Antonescu e os ministros do gabinete dele, em vez de uma democracia exportou para a Romênia um regime em que a mentira não era um ingrediente da moral de segunda instância, mas o cerne mesmo das maiores imoralidades públicas da história do homem. Em vez de um mal ser purgado pelo mal reparatório do castigo (a Nurembergue dos Aliados) e pelo restabelecimento das coisas no leito da democracia e do “bem comum”, entre nós o mal foi amplificado por uam tirania do totalitarismo que Maquiavel não conhecera e em que a mentira perde seu sentido odisséico e sofre uma transformação radical. […] Tal tirania não é uma síncope maléfica posta a serviço do bem, mas o mal puro, posto a serviço do mal puro.[7]

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Ceaucescu: assassino cruel

O Comunismo foi uma das maiores atrocidades da história da humanidade. No caso romeno, o regime foi liderado pelos dois líderes sanguinários Nicolae Ceauşescu – que implantou o terror absoluto no país durante vinte e quatro anos, e foi responsável por milhares de mortes – e Gheorghe Gheorghiu-Dej, responsável por perseguições e torturas cuja crueldade ultrapassa os limites do imaginável, chegando às raias do demoníaco (vide o terrível Experimento Piteşti).

Nesse capítulo, dividido em três partes – antes, durante e depois do Comunismo –, a mentira é tratada como instrumento do mal, a serviço do crime, do engano, da morte. Na última parte, Liiceanu faz um balanço do que se tornou a Romênia após a execução do casal Ceauşescu e a queda do regime comunista. E o quadro não é dos melhores:

A revolução, tanto quanto foi e pouco que se fez (em Timișoara, Bucareste, – Piaţa Universităţii [Praça da Universidade], Brașov, Cluj, Sibiu) soldou-se, nos termos de Maquiavel, com a morte do tirano. Este foi o começo do momento catártico, o purgante psíquico pelo qual uma comunidade se livra do ódio e os membros dela ficam satisfatti, diz Maquiavel. Apenas que este processo, uma vez iniciado, não continuou e não se consumou. Uma parte considerável da população romena viveu, em vez da purgação completa, um ato catártico interrompido e as toxinas psíquicas permaneceram, assim, não eliminadas. […] O desmoronamento de um regime corrupto abre portas, neste caso, para o aparecimento de uma corrupção ainda maior. O regime comunista na variante Ceauşescu chega hoje – coisa alucinante à primeira vista – a ser lastimado exatamente por causa da nova corrupção gerada e redobrada pelos filhotes deixados vivos que saíram, em coorte, do ventre do monstro assassino.[8]

A constatação de Liiceanu é aterradora, pois nos faz ver, com num espelho, a situação brasileira Pós-Regime Militar. Chegamos num ponto em que alguns já clamam, saudosos, a volta dos militares ao poder, tamanho o desespero em face ao mal absoluto que reina em nossa pseudo-democracia.

E não é preciso ser um expert em Ciência Política para notar que, principalmente em nosso processo eleitoral, a mentira é utilizada de forma exaustiva, deslavada. Não como uma moral de segunda instância, para atingir o “bem comum” (como demonstrado por Liiceanu), mas pura e simplesmente para ocupar espaço e garantir, a cada postulante, o seu pedaço na corrupção generalizada.

Por isso considero a leitura deste assombroso Da Mentira fundamental para que entendamos em que abismo estamos nós, brasileiros.

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[1] LIICEANU, 2014, p. 10

[2] Ibid., pp. 16-17.

[3] Ibid. pp. 25-26.

[4] Ibid. p. 28.

[5] Ibid. p. 40.

[6] Ibid. p. 46.

[7] Ibid. pp. 53-54.

[8] Ibid. pp. 59-60, 61.


Terrence Malick e o Fundamento

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A Árvore da Vida (The Tree of Life) – 2011

Terrence Malick

“Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? […].

Quando as estrelas da alva juntas alegremente

cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam?”

(Jó 38:4-7)

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A Árvore da Vida

À guisa de introdução, o autor deste ensaio esclarece que a tarefa empreendida não visa, de modo algum, a eliminar o mistério que envolve a concepção de A Árvore da Vida, nem deslindar, por meio de psicologismos ou toda sorte de artimanhas divinatórias, a mente de seu diretor, Terrence Malick.

A intenção é abordar o filme em seu significado mais imediato, naquilo que há de mais concreto, belo e desconcertante, exibindo, com isso, os nexos que ligam os personagens do longa ao conceito de Fundamento[1]. Para tal, as valiosas observações de D. H. Lawrence – sobre seu desinteresse pelas Escrituras em seus tempos de menino – são um bom conselho:

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D. H. Lawrence

Meus instintos ressentem-se da Bíblia. Agora vejo com clareza o motivo. Não apenas a Bíblia era despejada em porções em minha consciência de criança, dia após dia, ano após ano, por bem ou por mal, pudesse ou não a minha consciência assimilar aquilo, como também dia após dia, ano após ano, era-me explicada, de forma dogmática e sempre moralizante, fosse na Escola Dominical, em casa, ou na Band of Hope, ou na Christian Endeavour. A interpretação era sempre a mesma, fosse dada por um doutor em teologia de seu púlpito ou pelo ferreiro grandalhão que era meu professor na Escola Dominical. […] Um livro só existe enquanto não é decifrado. Uma vez decifrado, morre imediatamente. […] Ele só vive enquanto tem o poder de nos comover, e nos comover de modo diferente; enquanto nos parece diferente a cada vez que o lemos. Dada a abundância de livros superficiais que de fato se desgastam com uma única leitura, a mentalidade moderna tende a achar que todo livro é sempre o mesmo, e que termina após a leitura. Mas isso não é verdade. E gradualmente a mentalidade moderna voltará a perceber esse fato. O verdadeiro prazer da leitura é reler o mesmo livro vez após vez, achando-o sempre diferente, descobrindo nele um novo significado, um novo nível de significação. […] A Bíblia é um livro que temporariamente morreu para nós, ou para alguns de nós, porque seu significado foi arbitrariamente fixado. Já a conhecemos de modo tão completo, em seu significado superficial ou popular, que está morta, não nos diz mais nada.[2]

Lawrence fala de livros, mas com filmes se dá o mesmo: podemos dizer que a tentativa de imanentizar[3] algo que, em si, emana o (ou convida ao) transcendente é sempre frustrada e frustrante.

O filme de Malick é isto: um grande mistério, um objeto de mirandum, de theoria aristotélica[4]. É um daqueles eventos que, antes de buscarmos a compreensão, devemos admirar demoradamente, sorvendo sensorialmente o objeto a fim de que ele “se revele” a nós. Henri Nouwen (1932 – 1996), filósofo e teólogo americano, escreveu um magnífico livro-reflexão sobre a parábola bíblica do Filho Pródigo, após passar vários dias sentado em frente à obra de Rembrandt no museu Hermitage. O tempo e a persistência, nesses casos, são fundamentais. Por isso, a intenção é preservar ao máximo a integridade do filme de Malick, e não dissecá-lo como um cadáver nas mãos de Descartes.

Um Requiem americano

Estamos em Waco, uma pequena cidade do Texas (EUA), nos anos 50. A recém-constituída família O’Brien é uma típica representante de sua época. O marido, Sr. O’Brien – vivido por Brad Pitt –, é, ao que parece, um engenheiro militar reformado, que tenta negociar suas patentes sem muito sucesso. Um típico homem de ação, tentando vencer pela força do trabalho. Para isso, inclusive, deixara para trás uma carreira promissora de músico profissional.

A esposa, Sra. O’Brien, é uma mulher dedicada e sóbria, cuja educação capacitou-a para uma compreensão da vida muito mais sensível e profunda que a de seu marido. E é no prólogo do filme – uma sequência deslumbrante – que isso se evidencia. A “etérea” personagem de Jessica Chastain profere um monólogo emblemático, que trata de delinear os papéis que ela e seu marido representam na trama. As imagens – da natureza, de animais e da própria Sra. O’Brien ainda criança – são oníricas e remetem a um tempo quase mítico. A música – Funeral Canticle (1996), do compositor britânico contemporâneo John Tavener – sacraliza a sequência. Sra. O’Brien diz:

O coração do homem tem dois caminhos a seguir na vida: o caminho da Natureza e o caminho da Graça. Você deve escolher qual dos dois seguir. A graça não tenta agradar a si mesma; ela aceita ser desprezada, esquecida, rejeitada; aceita insultos e machucados. A Natureza apenas tenta agradar a si própria; mas há outros para agradar também. Ela gosta do poder, de ter suas próprias escolhas. Encontra motivos para ser infeliz, enquanto todo o mundo brilha ao seu redor e o amor sorri para todas as coisas. Nos ensinaram que ninguém que ama o caminho da graça, tem um final infeliz.

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Natureza e Graça

Um pensamento tipicamente agostiniano que será retomado mais abaixo. E termina com uma afirmação desafiadora:

Eu Vos serei fiel, não importa o que acontecer.

É impossível ficar incólume a esse prólogo. E quem quer que se deixe envolver, durante esses primeiros quatro minutos de projeção, pela profundidade das palavras e pela beleza das imagens, não se arrepende.

Noite escura

Uma notícia bate à porta e o carteiro é o portador da desdita. Uma missiva sela o destino dos O’Brien. Aos poucos, nos damos conta de que perderam um filho na guerra do Vietnã. Seguem-se momentos de luto e dor comoventes. Os sentimentos da Sra. O’Brien se confundem; ela afirma sua fé e, ao mesmo tempo, questiona:

Não devo temer nenhum mal. Temer nenhum mal, porque estás comigo. [O que ganhaste?]

Sua mãe tenta consolá-la, inutilmente, confrontando a sua fé:

[…] Tu tens as lembranças dele… Ser forte agora é o que precisas, e… Sei que a dor passará com o tempo… agora pode parecer… É duro eu dizer isso, mas é a verdade. A vida continua, as pessoas se vão, nada fica igual. Tens ainda os outros dois. Deus dá e Deus tira. É assim que Ele é. Ele envia moscas à ferida que deveria curar.

E o marido lamenta: “Nunca tive a chance de lhe dizer o quanto me arrependi”. Há um corte para o futuro. Surge a personagem de Sean Penn, um arquiteto bem-sucedido, mas nitidamente melancólico, revelando (indiretamente) ser o primogênito dos O’Brien, Jack, irmão do jovem morto. Ele reflete:

Como chegaste a mim? Em qual forma? Em qual disfarce? Eu vejo a criança que eu fui. Vejo o meu irmão; verdadeiro, doce; ele morreu aos 19 anos.

As três perguntas de Jack são o início de sua anamnese[5], e parecem ser a base do roteiro de A Árvore da Vida. Aliás, grande parte do filme se passa “dentro da cabeça” de Jack O’Brien. Trata-se de uma história de reconciliação, de religação; de um homem fazendo perguntas e buscando respostas para a “Pergunta” feita no início do filme (esclarecimentos mais abaixo).

A voz da consciência

Nesse momento, já é possível notar que são as reflexões das personagens que dão o tom do roteiro. As falas em off são fundamentais para a compreensão do drama vivido pelos O’Brien – sobretudo a mãe e Jack. (Uma pequena observação: esse recurso também é amplamente utilizado em outra obra-prima de Malick: Além da Linha Vermelha, um clássico de guerra de 1998.)

Gênesis

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Big Bang (?)

A narrativa não é linear. Imagens do passado e do futuro se entrelaçam – e, inicialmente, até confundem um pouco. Vemos o surgimento de um triste Jack O’Brien adulto, em sua bela casa, com sua esposa igualmente bela – que aparece por poucos minutos, completamente transtornada pela situação do marido; e depois o assistimos a perambular entre os arranha-céus de seu local de trabalho, e em imagens oníricas num deserto; e, após uma deslumbrante “nuvem” de pássaros, cuja coreografia arrebatadora preenche um céu avermelhado pelo pôr-do-sol, o filme dá um salto. Mas não um salto qualquer; é um salto para trás, muito para trás, para trás e para o alto; desloca-se para nada mais, nada menos, que a Origem do Universo. E é nesse ponto em especial que o filme mais divide opiniões. É nesse momento que, no cinema, pessoas se levantaram e deixaram, indignadas, a sala de projeção. Sobre essa sequência foram publicados, na internet, comentários enfurecidos, chamando-a de programa da National Geographic, Discovery Channel, etc. Pessoas chamaram Terrence Malick de maluco e o filme de pretensioso. Mas o fato é: somos submetidos a quase 20 minutos de uma experiência sensorial de tamanha grandeza, que é praticamente impossível descrevê-la sem reduzi-la.

A beleza impressionante das imagens de explosões, do nascimento de constelações, estrelas e planetas, tudo isso ao som da trilha brilhantemente composta por Alexandre Desplat (de O curioso caso de Benjamim Button e A Rainha), uma Lacrimosa de arrancar suspiros. Imagens do fundo do mar, do surgimento da vida, de algas marinhas, águas vivas, raias gigantes e até um esquisito nudibrânquio. O surgimento da vegetação rasteira e até uma árvore imponentemente solitária (no centro do jardim?).

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“O nascimento da compaixão”

Da peculiar representação do surgimento dos dinossauros, vale comentar: o primeiro que surge é um gigantesco Plesiossauro, ferido, na praia; depois surgem dois Parassaurolofos e um Dromiceiomimo. Este último poupando um Parassaurolofos ferido à beira de um riacho. Tal cena foi chamada de “o nascimento da compaixão” [6].

Tudo isso apresentado com grande maestria e com a especial contribuição de Douglas Trumbull, supervisor de efeitos especiais do clássico 2001, Uma Odisséia no Espaço (de Stanley Kubrick), que havia 30 anos estava longe de Hollywood.

Extinção

Depois da sequência dos dinossauros, as cenas voltam para o espaço, ao som do estonteante trecho final do Offertorium, do Requiem de Hector Berlioz. A voz da Sra. O’Brien volta a ecoar:

Luz da minha vida, eu Vos procurei. Minha esperança. Meu filho.

Em seguida, em outra cena onírica, Jack, andando por um lugar ermo, reflete:

Falastes comigo através dela. Falastes comigo através do céu, das árvores. Antes que eu soubesse que Vos amava, que acreditava em Vós. Quando tocastes o meu coração pela primeira vez?

Neste momento, um asteróide atinge a Terra, e Malick reverbera a chamada teoria Extinção Cretáceo-Paleogeno (ou Extinção K-T), de que os dinossauros teriam sido extintos por causa dessa colisão, ocorrida há 65 milhões de anos, segundo a fértil imaginação dos cientistas.

 Idílio da infância

Ao término desse magnífico interlúdio, o filme segue mais linear. Voltamos ao casal O’Brien, recém-casado e feliz. E, ao som da canção Siciliana, da Suíte para Danças Antigas, de Ottorino Respighi, Jack O’Brien é concebido. Uma cena delicada, sem apelações e carregada de simbolismos. Jack nasce e recebe o olhar deslumbrado do pai, que segura carinhosamente os seus pezinhos – na cena que está estampada num dos cartazes do filme.

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Idílio da infância

Os próximos 11 minutos são, talvez, os mais bem realizados do filme. Jack cresce, os outros dois irmãos nascem, e aquela fase maravilhosa dos primeiros anos da infância passa vertiginosamente por nossos olhos, ao som de Hymn to Dionysus, de Gustav Holst, e do poema sinfônico Má Vlast, de Bedřich Smetana. Muito movimento e alegria.

 Natureza e Graça

Entramos no ambiente paradoxal da família O’Brien. O pai – o lado “Natureza” –, tenta, através de uma educação bastante austera e da dedicação irrestrita ao trabalho, mostrar aos filhos o que e como se deve fazer para “vencer na vida”. A mãe… bem, a mãe parece que já venceu. A Sra. O’Brien é a representante da Graça. Uma pessoa sensível, que tem uma relação muito particular com os animais e os elementos da natureza. Inclusive, numa cena muito interessante e bela, uma borboleta pousa em suas mãos, demonstrando sua ligação elevada – pura – com o natural (e desfazendo qualquer tentativa de maniqueísmo).

O sistema em casa é rígido: à mesa, nenhuma palavra; deve-se aparar a grama com perfeição; e os conselhos são carregados de um sentimento de virtude fracassada (ainda que com a intenção de livrar os filhos da mesma sorte). Tudo isso faz com que os garotos se ressintam do pai; especialmente Jack. R. L., o filho do meio (o que morre na guerra). Ele agrada ao Sr. O’Brien aprendendo a tocar violão, mas recusa suas aulas de defesa pessoal: “Bata em mim, vamos!”. Jack não suporta seus métodos – de, inclusive, os submeter a demonstrações forçadas de carinho: “Você ama seu pai?”.

Sr. O’Brien é um organista competente. Numa cena, toca a famosa Tocata e Fuga em ré menor, BWV 565, de Bach, enquanto os olhos de Jack, carregados de uma admiração ambígua, fitam demoradamente o pai.

Em seguida, uma cena na igreja e uma homilia sobre Jó:

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Jó e seus amigos

Jó imaginou que poderia construir seu ninho no alto. Que a integridade de seu comportamento o protegeria contra o infortúnio. E seus amigos pensaram, equivocadamente, que o Senhor só o teria punido porque secretamente teria feito algo errado. Mas não. O infortúnio acomete os bons também. Não podemos proteger-nos contra isso. Não podemos proteger nossos filhos. Não podemos dizer a nós mesmos: “mesmo que eu não esteja feliz, me certificarei que ele esteja”. Corremos com o vento, e achamos que ele nos levará para sempre. Não levará. Desaparecemos como uma nuvem; murchamos como a grama de outono. […] Ninguém sabe quando a tristeza pode visitar a sua casa mais do que Jó sabia. No momento em que tudo foi tirado de Jó, ele soube que foi o Senhor que havia tirado. Então parou de se preocupar com as coisas passageiras e procurou aquilo que é eterno. Será que ele só vê as mãos de Deus no que Ele nos dá. Ou não, também vê as mãos de Deus quanto Ele tira. Ele só vê Deus quando Deus se vira para ele? Não, Ele vê Deus quando Deus lhe vira as costas.

Um sermão de alerta e consolação, que se coaduna com as palavras de Jesus no Evangelho de Mateus: “Porque [Deus] faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos”. (Mateus 5:45).

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Jack

À medida que Jack cresce, também crescem suas idiossincrasias, suas dúvidas, sua rebeldia. E não há um motivo específico para isso. Os eventos, sua personalidade, o tratamento que recebe dos pais, dos irmãos… Tudo e nada disso é motivo para o seu crescente isolamento. Passa a invejar R. L., cujo talento artístico agrada ao pai. E, como sói acontecer aos meninos de sua idade, apaixona-se por uma mulher mais velha e casada, a ponto invadir sua casa em sua ausência e roubar-lhe uma camisola.

Redenção

Em determinado momento, o Sr. O’Brien viaja. Surge a Graça. Passe livre para brincadeiras, pulos na cama, correrias, risadas, piqueniques e muito carinho. Jack, inclusive, tem liberdade para satirizar a rigidez do pai. E a Graça ecoa:

Ajudai-vos uns aos outros. Amai a todos. Cada folha, cada raio de luz. Perdoai.

Mas Jack parece estar num caminho sem volta. Pratica maldades que nenhum dos amigos tem coragem – tal como, numa cena de evidente contrariedade com os demais garotos, quebrar os vidros da janela de uma casa por pura travessura. Agride os irmãos, os ameaça, derrama água na pintura de R. L., afronta a mãe com gritos. Mas também se arrepende, pede perdão, se angustia.

Voltando de viagem, o Sr. O’Brien perde a segurança que o emprego lhe dava, tendo que se sujeitar a ser transferido para um local indesejado. O fracasso lhe bate à porta. Isso o faz ter, constrangido, um surto de humildade. Em off (mais uma vez), ele confessa:

Eu queria ser amado por ser importante. Um grande homem. Eu não sou nada. Olhai a glória ao nosso redor. Árvores e pássaros. Eu vivia em vergonha. Desonrei tudo, e não reparei na glória. Um homem tolo.

A família O’Brien se muda, para longe. E, mais uma vez, o Requiem de Berlioz marca o final de tudo.

A única maneira de ser feliz é amar. A menos que ames, tua vida passará como num flash. Faças o bem a eles. Maravilha. Esperança.

São as palavras da Graça (Sra. O’Brien).

Seguem-se muitas explosões, e a Terra torna-se uma Estrela Fria.

Mas isso não é o fim.

A voz de R. L. (em off novamente) diz: Sigam-me. E, ao som arrebatador da Agnus Dei, ainda do Requiem de Berlioz, todos – pai, mãe, irmãos e uma multidão – se encontram, numa praia paradisíaca, caminhando entre mulheres que parecem ser anjos. A Sra. O’Brien abraça R. L. demoradamente, chora. Abre uma porta e o deixa sair, para o infinito. E, num emocionante movimento de entrega, diz: Eu Vos entrego. Entrego-vos meu filho.

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Entrega

Todos se abraçam, se reconciliam, se alegram; o sol brilha. O dia termina, nasce outro e o gozo continua. Jack, R. L. e os pais estão felizes. O sofrimento acabou. E o coro do Requiem diz por várias vezes: Amém.

O filme volta ao presente. Jack adulto aparece e esboça um sorriso no rosto em meio aos arranha-céus. Está consumado.

Incompreensão

Uma crítica na internet dizia:

Porque se há algo inegável em A Árvore da Vida é a opressiva ausência de Deus: constantemente questionado e clamado pelos personagens, o “criador” surge apenas em representações religiosas como vitrais que sobem em espiral (o que não deixa de remeter ao DNA à sua própria maneira) ou uma igreja vista ao longe – e equilibrada no quadro por uma árvore em primeiro plano, mais uma vez remetendo ao “natural” [7].

Este ensaio acaba de demonstrar exatamente o inverso: que, na visão de Malick, Deus está em tudo, permeando tudo, os bons e os maus eventos, o surgimento e extinção da Terra, do Universo, o Big Bang, a redenção eterna, a Graça e a Natureza que lutam dentro de Jack O’Brien. Numa entrevista ao jornal The Guardian, Brad Pitt diz:

Terry and I, we have our areas where we meet and we have our respectful disagreements. He sees God in science and science in God, and I respect that. But this idea of an all-powerful, watching being that’s controlling our moves and giving us a chance to say he’s the greatest so we get into some eternal heaven – that just doesn’t work for me, man. I got a real problem with it. I see the value of religion and what it offers to people as a cushion and I don’t want to step on that. On the other hand, I’ve seen where I grew up how it becomes separatist, and I get quite aggravated and antagonistic. I see religion more as a truck stop on your way to figuring out who you are. [8]

[Terry e eu temos nossos pontos de encontro e nossas discordâncias respeitosas. Ele vê Deus na ciência e a ciência em Deus, e eu respeito isso. Mas essa ideia de um vigia todo-poderoso que controla nossos movimentos e nos dá uma chance de dizer que ele é o maioral, e assim conseguimos o paraíso eterno… isso não funciona para mim, cara. Eu realmente tenho um problema com essa ideia. Vejo o valor da religião e o que ela oferece para as pessoas como uma espécie conforto e não quero espezinhar sobre ela. Por outro lado, tenho visto o lugar onde cresci se tornar separatista, e fico muito irritado e contrariado. Vejo a religião como uma parada na estrada que te leva a descobrir quem você é] (Grifo nosso).

Ou seja, Malick é um homem religioso, que pretende nos expor, em A Árvore da Vida, o modo como Deus age nos mínimos detalhes; na (e por meio da) Beleza, nos elementos da natureza, na alegria e, sobretudo, na tristeza. Como diz Pitt: Malick vê Deus em tudo. Pode-se, então, dizer que o filme é como um “retorno ao lar” de Jack O’Brien, que, a exemplo de C. S. Lewis e sua conversão, se dá sem nenhum alarde emocional; mas, antes, se manifesta numa impossibilidade de seguir por outro caminho[9]. Neste exercício de anamnese, o primogênito dos O’Brien revisita seu passado mais remoto a fim de se reconciliar com ele e, através dele, com sua família e com Deus.

Um Jó contemporâneo

Quem quer que tenha atentado para a epígrafe do filme – a citação do livro bíblico de Jó, reproduzida no início deste ensaio – percebe que se trata de um leitmotiv, e não de uma simples citação. Ao que me parece, a pergunta feita por Deus a Jó é uma resposta antecipada a todas as indagações em off das personagens de A Árvore da Vida. As perguntas de Deus no capítulo 38 deixam, como diz Chesterton,

Jó repentinamente satisfeito com a mera apresentação de algo impenetrável. Literalmente, os enigmas de Jeová parecem mais obscuros e desolados que os enigmas de Jó; mesmo assim, Jó estava desconsolado antes do discurso de Jeová e mais confortado depois dele. A ele não foi dito nada, mas ele sente a terrível e assustadora atmosfera de algo que é excessivamente bom para ser verbalizado. A recusa de Deus em explicar seu projeto é, em si, uma flamejante alusão ao Seu projeto. Os enigmas de Deus são mais satisfatórios que as soluções do homem.[10]

E a escolha entre a Natureza e Graça pode ser feita por meio da esperança de que Deus está no controle de todas as coisas. O filósofo Luiz Felipe Pondé percebeu bem os conceitos marcadamente agostinianos do filme [11]. Santo Agostinho escreveu uma obra – A Natureza e a Graça (415 d.C.) – em resposta ao monge Pelágio, procurando desfazer o equívoco pelagiano de dizer que a Natureza é e continua em si mesma boa. Agostinho diz que não, nossa natureza está adoecida pelo pecado e necessita da Graça de Deus para ser curada:

A natureza do homem foi criada no princípio sem culpa e sem nenhum vício. Mas a atual natureza, com a qual todos vêm ao mundo, como descendentes de Adão, tem agora necessidade de médico, devido a não gozar de saúde. […] A alma morta inclina-se à pratica de obras mortas até que, pela graça de Cristo recebe a vida.[12]

Agostinho ainda diz mais, que, ao optar pelo caminho da Natureza,

Deus às vezes te abandona no que te provoca a soberba, para te convenceres de que não és autônomo, mas Dele dependente, e assim aprenderás a vencer a soberba.

E há uma afirmação categórica de C. S. Lewis, em O Problema do Sofrimento, que corrobora perfeitamente com o que diz Agostinho:

Podemos repousar satisfeitos em nossos pecados e estupidez; e quem quer que tenha observado os glutões engolindo os alimentos mais delicados como se não soubessem o que comiam, irá admitir que podemos ignorar até mesmo o prazer. Mas o sofrimento insiste em ser notado. Deus sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas grita em nosso sofrimento: ele é o seu megafone para despertar um mundo surdo.[13]

Quem pode negar que parece ser esse o retrato de Jack e seu pai? Quem nega que foram as escolhas que os levaram a uma vida pesada em sofrimentos? Se há nas entrelinhas pretensões mais profundas e simbólicas em A Árvore da Vida, não são essas que, num primeiro momento, devem chamar a nossa atenção. Antes, porém, a capacidade que o diretor teve para construir, corajosamente, uma história ousada, profunda e fundamentada em conceitos teológicos de alto nível, sem o menor escrúpulo ou medo de ser criticado – e no mundo de hoje, principalmente entre os intelectuais, é mais do que comum esse surto de laicismo fora de hora, apadrinhado por um neo-ateísmo militante piegas.

2012 Fun Fun Fun Fest - Day 1

Terrence Malick

Malick não teve receio de trazer à tona novamente um assunto tão caro a gênios da estirpe de Andrei Tarkovski, Ingmar Bergman e Robert Bresson, em cujas obras Deus se revela em suas três formas existencialmente mais significativas: como (1) o terrível despótes veterotestamentário; ou o (2) Emanuel do Novo Testamento; ou, ainda, como (3) o Deus absconditus dos medievais. Manifestações distintas Daquele cuja graça “sem a qual nem as crianças nem os adultos podem ser salvos, não é dada em consideração aos merecimentos, mas gratuitamente, o que caracteriza a concessão como graça. Justificados gratuitamente pelo seu sangue”[14].

A história dos O’Brien nos toca não porque é contada de maneira pretensiosa por Terrence Malick, mas porque pode ser (e é) a história de cada um de nós.

 Paulo Cruz


[1] Termo retirado de um ensaio de Eric Voegelin publicado em Anamnese (1972, publicado no Brasil em 2009 pela editora É Realizações); porém, o conceito permeia toda a sua obra: Tanto o chamado erotismo platônico da busca (zetesís) quanto a atitude aporética de Aristóteles, intelectualmente mais agressiva, reconhecem no “homem questionante” o homem movido por Deus a pôr as questões que o conduziram à causa do ser (arché). A própria busca é a evidência da inquietação existencial; no ato de questionar, a experiência humana de tensão (tasís) para o fundamento divino irrompe na palavra da interrogação como uma oração pelo Verbo da resposta. Questões e respostas estão intimamente relacionadas; a busca move-se no que Platão designou por metaxy, a realidade interina da pobreza e da riqueza, do humano e do divino; a questão é conhecimento, mas este conhecimento é ainda o tremor de uma questão que pode ou não alcançar a verdadeira resposta. (VOEGELIN, Eric. Evangelho e Cultura. Disponível em: <http://christianrocha.files.wordpress.com/2009/05/eric-voegelin-evangelho-e-cultura.pdf>.)

[2] LAWRENCE, D. H. Apocalipse, seguido de O Homem que morreu. São Paulo: Cia das Letras, 1990, pp. 14, 15.

[3] Se a consciência da ligação cósmica do ser, que jaz no fundo de todo pensamento filosófico, diminui, então surgem os bem conhecidos perigos de um mundo sem deus e de um deus sem um mundo, de um mundo reduzido apenas a um nexo de relações entre coisas existentes, de tal maneira que já não é um mundo, e de um deus reduzido a mera existência, de tal maneira que já não é um deus. (VOEGELIN, Eric. Anamnese, São Paulo: É Realizações, 2009, p. 207. Tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca).

[4] Mas se a felicidade (eudaimonia) consista na atividade conforme a excelência (areten), é razoável que ela seja uma atividade conforme à mais alta de todas as formas de excelência, e esta será a excelência da melhor parte de cada um de nós. Se esta parte melhor é o intelecto, ou qualquer outra parte considerada naturalmente dominante em nós e que nos dirige e tem o conhecimento das coisas nobilitantes e divinas, se ela mesma é divina ou somente a parte mais divina existente em nós, então sua atividade conforme à espécie de excelência que lhe é pertinente será a felicidade perfeita. Já dissemos que essa atividade é contemplativa (theoretike). (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, Brasília: UNB, 1985, p. 201; 1177a10-19. Tradução de Mário da Gama Kury).

[5] Uma filosofia da ordem é o processo através do qual encontramos a ordem de nossa existência como seres humanos na ordem da consciência. Platão deixou esta filosofia ser dominada pelo símbolo da Anamnese, recordação. Recordado, no entanto, será o que foi esquecido, e recordamos o esquecido – algumas vezes com dor considerável – porque ele não deve permanecer esquecido. O esquecido culpavelmente será trazido à presença do conhecimento através da recordação, e na tensão para o conhecimento, da agnoia no sentido platônico. O conhecimento e o não-conhecimento são estados de ordem e desordem existencial. O que foi esquecido, entretanto, pode ser lembrado apenas porque é um conhecimento à maneira de oblívio, que através de sua presença no oblívio, provoca o desassossego existencial, que forçará seu crescimento à maneira de conhecimento. (VOEGELIN, Op. Cit., pp. 47-48).

[9] Aquilo que eu temia tanto pairava afinal sobre mim. Cedi, enfim, no período do ano letivo subsequente à Páscoa de 1929, admitindo que Deus era Deus, e ajoelhai-me e orei: talvez, naquela noite, o mais deprimido e relutante converso de toda a Inglaterra. (LEWIS, C. S. Surpreendido pela Alegria. São Paulo: Mundo Cristão, 1998, p. 232).

[12] AGOSTINHO, A Natureza e a Graça. São Paulo: Paulus, 1999, p. 136.

[13] LEWIS, C. S., O problema do sofrimento, São Paulo: Vida, 2006, pp. 105, 106.

[14] AGOSTINHO, Ibid., p. 115.


Eric Voegelin e o Cristianismo

ERIC VOEGELIN E O CRISTIANISMO


 O encontro turbulento e redentor com o Deus Desconhecido, que se tornou o Deus Conhecido por sua presença em Cristo; eis a novidade absoluta do cristianismo perante os mitos, as filosofias e as religiões da Antiguidade. (Eric Voegelin)

Este artigo visa a apresentar um pequeno panorama das relações fundamentais entre a filosofia de Eric Voegelin e o cristianismo.

Perfil biográfico

Erich Hermann Wilhelm Voegelin nasceu em Colônia, na Alemanha, em 03 de janeiro de 1901, e faleceu em Stanford, na Califórnia (EUA), em 19 de janeiro de 1985. Douturou-se na Universidade de Viena em 1922 (foi aluno de Othmar Spann e Hans Kelsen; este último, jurista e redator da constituição de Viena; o primeiro, cientista social), e lá mesmo tornou-se professor associado de Ciência Política, na Faculdade de Direito, em 1929. Em 1938 foi demitido pelo governo nazista, por sua frontal oposição ao regime nacional-socialista e a Hitler. Suas quatro obras publicadas entre 1933 e 1938, onde, dentre outras coisas, denuncia a total falácia do conceito de raças[1], colocaram a Gestapo em seu encalço.

Foge para Suíça com sua esposa, Lissy Voegelin (1906 – 1996), e, de lá, para os Estados Unidos. Passa um ano lecionando no departamento de Ciência Política em Harvard e depois na Universidade do Alabama.

Em 1942, ingressa no corpo docente da Universidade Estadual da Louisiana, permanecendo até 1958, quando recebeu o convite para retornar à Alemanha e fundar o Instituto de Ciência Política da Ludwig-Maximilians-Universität, em Munique, ocupando a cadeira que um dia fora de Max Weber.

Em 1969 retorna definitivamente para os EUA, para o Instituto Hoover para o Estudo da Guerra, Revolução e Paz da Universidade de Stanford, lá permanecendo até sua morte, em 1985.

História e Realidade

Eric Voegelin afirma que o objetivo de sua obra é o que chamou de Filosofia da História, e tem suas origens na situação política que viveu [2]. Uma de suas principais reflexões dá-se no campo da linguagem. Afirma que, por influência das ideologias, a linguagem perverteu-se de tal forma, que é impossível ser usada para expressar a verdade da existência. Sendo assim, é necessário que o filósofo rompa com o círculo intelectual ideológico dominante e saia em busca de recuperar o sentido da realidade; e a melhor maneira de efetivar a retomada deste sentido é o contato com os pensadores do passado que ainda não o tinham perdido, ou que estavam preocupados em recuperá-lo. Tal façanha exige um trabalho árduo, de reconstrução das categorias fundamentais da existência, da experiência, da consciência e da realidade [3].

Segundo Voegelin, dentre as supressões da realidade operadas pelas ideologias – com o intuito de erigir falsos sistemas –, um item sempre excluído é a “experiência de tensão do homem em direção ao plano divino de sua existência” [4], e afirma que este comportamento é denunciado desde a filosofia antiga [5].

 

Ordem e História

Os volumes de “Ordem e História”, publicados pela Ed. Loyola

Ordem[6] é um termo recorrente na obra de Voegelin. Para ele, as experiências de ordem e desordem remontam ao mundo pré-histórico, e utiliza o termo alienação (αλλοτρίωσις), criado pelos estóicos – um estado de retirada do próprio eu [7] –, para retratar a desordem de nosso tempo. Se existir filosoficamente é ter consciência da humanidade do homem, a alienação é um afastamento dessa consciência.

Ordem e História é seu magnum opus, em cinco volumes, escrito com a finalidade de estudar os símbolos das experiências históricas do ser humano, desde o mundo antigo até a atualidade, e buscar a restauração da ordem da existência. O volume I trata das experiências de revelação no Oriente Próximo – do salto no ser dos antigos hebreus –, e do período dos profetas. Os volumes II e III tratam do período helenístico, e o volume III é dedicado, exclusivamente, a Platão e Aristóteles. Nos volumes IV e V, Voegelin rompe com o projeto

Em “Anamnese”, publicado pela É Realizações, encontramos o desenvolvimento da Filosofia da Consciência de Voegelin.

original e procura construir uma Filosofia da Consciência (e não mais uma Filosofia da História), pois passa a acreditar que o problema da ordem é um problema da consciência. No volume IV há uma interessante exegese cristã, a partir da análise da teologia do apóstolo Paulo.

Voegelin e o Cristianismo

O ponto culminante da pesquisa de Voegelin é sua exegese do cristianismo. Retomando a tradição filosófica desde Platão e Aristóteles, passando por teólogos patrísticos como Clemente de Alexandria e Irineu de Lião; visitando a escolástica de Tomás de Aquino até aportar na exegese histórico-crítica dos teólogos protestantes alemães, Voegelin afirma que o advento de Cristo é a realização dos mitos, das filosofias e das religiões antigas [8].

Na década de 1970, Voegelin proferiu uma palestra denominada Evangelho e Cultura, onde expõe suas ideias a respeito do tema de maneira singular. Inicia afirmando que se a “comunidade do evangelho (a εκκλησία του θεου) não se tivesse penetrado na cultura do tempo ao entrar em sua ‘vida da razão’, teria permanecido uma seita obscura e provavelmente desapareceria da história” [9]. Analisando, então, o que chama de realidade interina [10] – a μεταξύ de Platão –, afirma que a existência não é um fato, mas sim movimento perturbante da realidade interina em direção ao fundamento divino do ser.

Numa passagem magistral, Voegelin fala do momento preciso onde a filosofia grega e o Evangelho se encontraram na história, onde houve a canalização do processo de busca pelo fundamento divino do ser: é na passagem do evangelho de João, capítulo 12, quando um grupo de gregos se aproxima dos apóstolos Filipe e André (nomes gregos!) com o desejo de ver Jesus, ao que Jesus responde que esta é a hora do Filho do Homem ser glorificado [11]. Noutra passagem descreve (de maneira poética) o processo de tensão paradoxal entre o deus mítico da filosofia grega e o Deus cristão [12].

Por fim, Voegelin critica os danos que os caminhos que a própria teologia cristã e seu dogmatismo causaram a essa visão do movimento de busca e de interinidade das realidades humanas, dizendo que, quando a teologia viu na revelação algo pretensa e completamente novo, negligenciou (e contestou) a experiência do homem antigo [13], e que era preciso, como Tomás de Aquino, restabelecer a perspectiva de que o Cristo não é só o Cabeça da Igreja, mas sim, de toda humanidade.

Fazendo ligações e correlações entre a filosofia grega e a mensagem cristã, e afirmando categoricamente não só essa ligação, mas o cumprimento de uma pela outra, é que Voegelin pretende nos mostrar que, tendo o mesmo cerne noético do evangelho, a filosofia deve intervir nas experiências de teofania, a fim de entender e resgatar a realidade da existência em direção ao fundamento do ser.

Ainda há algo a considerar: Voegelin foi muito criticado por alguns contemporâneos seus, pelo fato de não ter manifestado, em nenhum momento, sua fé cristã. Muito pelo contrário, sua exegese ignora alguns dogmas cristãos tradicionais – como a ressurreição de Cristo, a parusia –, bem como o sentido de salvação, fundamental e imprescindível na teologia cristã. Porém, temos de compreender que a intenção de Voegelin não era dogmática; ele não pretendia criar uma doutrina cristã, mas, simplesmente, enquadrar sua análise do cristianismo no contexto de sua filosofia da ordem; e, de fato, para ele, o cristianismo é a culminância do processo de diferenciação[14] da revelação da realidade em direção ao Fundamento. No entanto, acusa a doutrina cristã de ter-se distanciado do drama histórico da revelação, descarrilando no gnosticismo[15], dando origem a ideologias revolucionárias – inclusive dentro do próprio seio do cristianismo.

O debate acerca dessas questões não está encerrado, e, também, o próprio Voegelin nunca se pretendeu unânime. Mas não podemos negar que estamos diante de um grande filósofo, e suas análises – bem como as de outros pensadores ao longo da História (alguns citados neste artigo) – das patologias existenciais de nosso tempo, nos fornecem elementos suficientes para que busquemos um caminho para a restauração da ordem do homem e da sociedade.

Paulo Cruz


Notas:

[1] O movimento nacional-socialista estava em franca ascensão, e, embora ainda não fosse possível antever sua chegada ao poder, o debate sobre as raças, o problema dos judeus e outras questões afins estavam muito presentes. O material se oferecia naturalmente à análise, e daí surgiram meus dois volumes sobre a questão da raça. A esse volumes incorporei também conhecimentos recém-adquiridos, e agora aprimorados, de teoria biológica. (VOEGELIN, Eric. 2008, p. 69, 70).

[2] “As motivações de minha obra, que culmina em uma filosofia da história, são simples. Elas têm origem na situação política. Qualquer pessoa bem informada e inteligente que, como eu, tenha testemunhado a história do século XX desde o fim da Primeira Guerra Mundial, se vê cercada, e mesmo asfixiada, pela maré montante da linguagem ideológica. (…) Por ser impossível reconhecer como debatedores os que se valem da um linguagem ideológica, é preciso torná-los objeto de investigação.” (Ibid., p. 139)

[3] Ibid., p. 143

[4] Ibid., p. 146

[5] “Renunciar ao plano divino significa recusar-se a reconhecer que sua existência é constitutiva da realidade do homem. Essa renúncia deliberada à experiência fundamental da realidade foi diagnosticada pelos estóicos como uma doença do espírito”. (Ibid., p. 148)

[6] “Ordem é a estrutura da realidade como experienciada pelo homem, bem como a sintonia entre o homem e uma ordem não fabricada por ele; isto é, a ordem cósmica.” (Ibid., p. 117)

[7] “Na psicopatologia estóica, allotriosis é um estado de retirada do próprio eu, o qual se constitui pela tensão entre o homem e o plano divino da existência. Uma vez que, tanto na filosofia clássica quanto na estóica, o plano divino da existência é o logos, ou fonte de ordem neste mundo, a retirada do eu, constituído por essa força ordenadora, é um recuo da razão na existência”. (Ibid., p. 118)

[8] “O encontro turbulento e redentor com o Deus Desconhecido que se tornou o Deus Conhecido pela sua presença em Cristo, eis a novidade absoluta do cristianismo perante os mitos, as filosofias e as religiões da Antiguidade”. (HENRIQUES, Mendo Castro. 2010, p. 180)

[9] VOEGELIN, Eric. 1988.

[10] “Tanto o chamado erotismo platônico da busca (zetesís) quanto a atitude aporética de Aristóteles, intelectualmente mais agressiva, reconhecem no “homem questionante” o homem movido por Deus a pôr as questões que o conduziram à causa do ser (arché).  A própria busca é a evidência da inquietação existencial; no ato de questionar, a experiência humana de tensão (tasís) para o fundamento divino irrompe na palavra da interrogação como uma oração pelo Verbo da resposta.  Questões e respostas estão intimamente relacionadas; a busca move-se no que Platão designou por metaxy, a realidade interina da pobreza e da riqueza, do humano e do divino; a questão é conhecimento, mas este conhecimento é ainda o tremor de uma questão que pode ou não alcançar a verdadeira resposta”. (Ibid., 1988).

[11] “Ora, havia alguns gregos, entre os que tinham subido a adorar no dia da festa.

Estes, pois, dirigiram-se a Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e rogaram-lhe, dizendo: Senhor, queríamos ver a Jesus.

Filipe foi dizê-lo a André, e então André e Filipe o disseram a Jesus.

E Jesus lhes respondeu, dizendo: É chegada a hora em que o Filho do homem há de ser glorificado”. (Jo 12: 20-23)

[12] “O Deus que brinca com o homem como um fantoche não é o Deus que se torna homem para salvar a vida, sofrendo a morte. O que gerou a narrativa salvífica da encarnação, morte e ressurreição divinas em resposta à questão da vida e da morte, é consideravelmente mais complexo do que a filosofia clássica; é mais rico devido ao fervor missionário do seu universalismo espiritual; é mais pobre pela sua negligência do controle noético; é mais amplo pelo seu apelo à humanidade inarticulada no homem comum, mais restrito devido à tendência contra a sabedoria articulada dos sábios; mais imponente através do seu tom imperial de autoridade divina; mais desequilibrado devido à sua ferocidade apocalíptica que conduz ao conflito com as condições da existência humana em sociedade; mais compacto devido à sua generosa absorção de extratos anteriores de imaginação mítica, especialmente devido à recepção da historiogênese israelita e à exuberância dos milagres operados; mais diferenciado através da experiência intensamente articulada da ação amoroso-divina na iluminação da existência pela verdade.” (Op. Cit., 1988)

[13] “Uma vez que a revelação (a diferenciação da consciência pneumática) tinha de ser algo completamente novo, que marcasse uma nova época na história, a presença, de forma compactada, do estrato pneumático no pensamento do homem primitivo foi negligenciada e mesmo contestada”. (Op. Cit. 2008, p. 160, 161)

[14] DIFERENCIAÇÃO: Processo pelo qual a verdade da existência é compreendida e articulada de um modo mais completo e profundo. Platão, por exemplo, diferencia a realidade transcendente como uma presença na alma denotada por termos como “noûs” e “helkein”. A compreensão mais compacta de transcendência nas sociedades cosmológicas compreendia o universal como um poder no cosmos. (FEDERICI, Michael P. 2011, p. 194)

[15] GNOSTICISMO: Ideologia que afirma o conhecimento absoluto da realidade. Segundo Voegelin, caracteriza o mundo moderno. É engendrado pela insatisfação com a estrutura da existência como ela é, pela crença de que uma nova ordem pode ser criada pela execução de um plano revolucionário de ação, baseado na gnose. A nova ordem representa uma transformação da natureza humana e da própria estrutura da existência. (Ibid., pp. 199, 200).

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Bibliografia:

FEDERICI, Michael P. Eric Voegelin – A restauração da ordem. São Paulo: É Realizações, 2011. Tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca.

HENRIQUES, Mendo Castro. A filosofia civil de Eric Voegelin. São Paulo: É Realizações, 2010.

PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Tradução de Anna Lia Amaral de Almeida Prado.

SANDOZ, Ellis. A revolução voegeliniana. São Paulo: É Realizações, 2010. Tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca.

VOEGELIN, Eric. Anamnese. São Paulo: É Realizações, 2009. Tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca.

VOEGELIN, Eric. Reflexões autobiográficas. São Paulo: É Realizações, 2008.  Tradução de Maria Inês de Carvalho.

VOEGELIN, Eric. Ordem e História (vols. I, II, III, IV, V). São Paulo: Loyola, 2010. Tradução:  Cecília Camargo Bartolotti (I, III), Luciana Pudenzi (II, V) e Edson Bini (IV).

VOEGELIN, Eric. Evangelho e Cultura. 1988. Disponível em: <https://christianrocha.files.wordpress.com/2009/05/eric-voegelin-evangelho-e-cultura.pdf&gt;. Acesso em 05 de janeiro de 2015. Tradução de Mendo Castro Henriques.