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“Da Mentira”, de Gabriel Liiceanu, e o momento eleitoral brasileiro.

DaMentira

Lançamento Vide Editorial

À Andrea Espírito Santo, pelo incentivo

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Gabriel Liiceanu

Gabriel Liiceanu é um filósofo singular. Romeno, nascido em 1942, formou-se em Filosofia (1965) e Letras Clássicas (1973) pela Universidade de Bucareste. Doutorou-se em Filosofia em 1976, pela mesma universidade, onde é professor. Mas Liiceanu foi, antes de tudo, discípulo dileto do grande Constantin Noica, mestre de toda uma geração de grandes pensadores romenos – dentre eles, Andrei Pleșu, autor de Da Alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental (É Realizações, 2013) –, que se reuniam num pequeno casebre em Păltiniș (região de Sibiu, na Transilvânia), para cursos sobre Platão, Aristóteles, Hegel etc., utilizando o método socrático. Também é proprietário da Humanitas, editora de grande prestígio na Romênia, que publica desde célebres traduções dos gregos até best-sellers da atualidade.

A Vide Editorial acaba de lançar – em tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca –, Da Mentira (“Despre minciună”), de Liiceanu.

Lançado originalmente em 2006, essa obra é, na verdade, o texto de uma palestra dada por Liiceanu nas “Conferências Microsoft”, em 2004, e trata-se de uma meditação sobre a mentira como instrumento político. Primeiro, como um recurso utilizado para se atingir o “bem comum” – chamado por ele de “moral de segunda instância”; depois, como instrumento do mal puro. Para esse último caso, utiliza como exemplo o Comunismo na Romênia. Diz Liiceanu no prólogo:

A mentira não pode ser de fato entendida senão como momento negativo da liberdade. Então tudo se torna claro: o mal, o crime, a política, ou seja, todas as coisas que são possíveis apenas pela escroqueria verbal que as precede. O fato de a língua, empregada do utilizador humano, poder dizer não apenas o que é, mas também o que “não é” — ou seja, o fato de que uma palavra pode dizer não apenas a verdade, mas também mentir — explica por que a história do homem é, em sua essência, uma corrente de desastres[1].

Para essa análise, Liiceanu “convida” três obras nas quais a mentira é tratada como forma de atingir o “bem comum”: a tragédia Filoctetes, de Sófocles; o diálogo Hípias Menor, de Platão; e, por fim, o moderno O Príncipe, de Nicolau Maquiavel. O resultado é invejável!

Na tragédia sofocleana, Odisseu (ou Ulisses) convence Neoptólemo, filho de Aquiles, a enganar o célebre arqueiro Filoctetes – picado por uma serpente no início da guerra e abandonado por Ulisses na ilha de Lemnos – e convencê-lo a voltar a Troia, pois, como o fim da guerra estava próximo, a habilidade de Filoctetes com o arco e flecha era indispensável.Neoptolemo Sagaz, Liiceanu, escreve:

O que pede Odisseu ao suave Neoptólemo? Aparentemente, uma bagatela: enganar Filoctetes, empregando palavras. Sófocles diz textualmente: ten Philocteton psychen logoisin ekklepseis. Al contrário de klepto, que significa “roubar uma coisa” (ver “cleptomania”), ekklepto significa “roubar uma pessoa”, ou seja, “raptar”. Odisseu pede a Neoptólemo que “roube”, valendo-se de palavras “a mente de Filoctetes”.[2]

Ou seja, a mentira de Neoptólemo seria utilizada para o bem (a vitória) dos gregos.

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Sócrates e Hípias

No capítulo II, Liiceanu analisa uma passagem do diálogo platônico Hípias Menor, escrito, provavelmente, cerca de 10 anos depois da tragédia de Sófocles, e cujo subtítulo é homônimo ao livro do próprio Liiceanu: “Da mentira”. Na passagem escolhida para a análise, Sócrates conversa com Hípias sobre a possibilidade de alguém cuja alma fosse boa, “amante da verdade” (ho alethes), dizer mentiras ou enganar. Platão (na pessoa de Sócrates) conduz o diálogo de forma magistral, chegando a uma conclusão devastadora. Diz Liiceanu:

O diálogo é, em substância, o desenvolvimento e a conclusão espantosa dele, no sentido de perplexidade. Parece atestar uma enormidade, já que contradiz, como veremos, uma verdade elementar, e, mais ainda, o próprio meio da doutrina socrático-platônica segundo a qual o sabedor da verdade e do bem é incapaz de fazer o mal.[3]

A conclusão é que, quanto mais virtuoso for um homem, tanto mais é capaz de enganar e mentir, pois o faz conscientemente. Nas palavras de Liiceanu: “O mais sabedor é o que pode mentir melhor”.[4]

O capítulo seguinte é chamado de Intermezzo, e Liiceanu reflete sobre o deinon (assombro) entre os gregos. Inclusive faz uma citação de O problema do sofrimento, de C. S. Lewis, no qual este fala sobre o numinoso. Faz isso porque Hípias, ao final do diálogo com Platão, afirma que seria assombroso que aquele que engana voluntariamente fosse melhor do que aquele que engana involuntariamente.

O próximo capítulo é dedicado ao famigerado O Príncipe, de Maquiavel. Segundo a análise de Liiceanu, nesta obra Maquiavel dá dimensão programática e pragmática ao pensamento político dos gregos, “justificando a essência do comportamento político como mentira, fraude, engano, violência, manipulação etc.”[5]. O príncipe pode, senão deve – valendo-se da “moral de segunda instância” – praticar o mal para atingir o bem:

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O Príncipe de Maquiavel é o oposto de um tirano, ou seja, de alguém que comete o mal público porque almeja apenas o bem próprio e de sua família. A máxima de Maquiavel não é “sê mal!”, mas “recorre ao mau quando o bem deve ser salvo, defendido ou consolidado[6].

Nesse sentido, o príncipe maquiavélico é um virtuoso (movido pela virtu) que pratica o mal por um bem maior: o do povo.

O quarto e último capítulo é particularmente importante. Liiceanu faz uma crítica duríssima à situação da Romênia sob a égide do Comunismo. Não poupa palavras, pois ele mesmo foi vítima de espionagem sistemática. “Grampeado” de 4 de novembro de 1971 a 23 de dezembro de 1989, o que gerou gravações em fita e alguns milhares de páginas escritas a respeito de sua vida cotidiana – como descobriu, após a abertura dos arquivos da Securitate (a polícia secreta do governo assassino de Ceauşescu), em 1999 – sabe como ninguém o que é viver sob um regime onde a mentira é uma das armas principais:

O que aconteceu com o nosso país? O oposto do que aconteceu com a Alemanha, Itália ou Japão depois da guerra. Maquiavel fala de uma ditadura temporária (e esta foi a ditadura dos Aliados) destinada a reinstituir a liberdade nas sociedades antigas pelos tiranos. Apenas a nós, em lugar de um Douglas MacArthur [comandante militar norte-americano na II Guerra Mundial e filho do herói da Guerra de Secessão Arthur MacArthur] que eliminou os chefes do exercito japonês e impôs uma constituição democrática que fez que o Japão fosse hoje um dos países mais civilizados do mundo, veio Vîșinski [jurista e político soviético, membro do Partido Comunista], que, depois de eliminar Antonescu e os ministros do gabinete dele, em vez de uma democracia exportou para a Romênia um regime em que a mentira não era um ingrediente da moral de segunda instância, mas o cerne mesmo das maiores imoralidades públicas da história do homem. Em vez de um mal ser purgado pelo mal reparatório do castigo (a Nurembergue dos Aliados) e pelo restabelecimento das coisas no leito da democracia e do “bem comum”, entre nós o mal foi amplificado por uam tirania do totalitarismo que Maquiavel não conhecera e em que a mentira perde seu sentido odisséico e sofre uma transformação radical. […] Tal tirania não é uma síncope maléfica posta a serviço do bem, mas o mal puro, posto a serviço do mal puro.[7]

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Ceaucescu: assassino cruel

O Comunismo foi uma das maiores atrocidades da história da humanidade. No caso romeno, o regime foi liderado pelos dois líderes sanguinários Nicolae Ceauşescu – que implantou o terror absoluto no país durante vinte e quatro anos, e foi responsável por milhares de mortes – e Gheorghe Gheorghiu-Dej, responsável por perseguições e torturas cuja crueldade ultrapassa os limites do imaginável, chegando às raias do demoníaco (vide o terrível Experimento Piteşti).

Nesse capítulo, dividido em três partes – antes, durante e depois do Comunismo –, a mentira é tratada como instrumento do mal, a serviço do crime, do engano, da morte. Na última parte, Liiceanu faz um balanço do que se tornou a Romênia após a execução do casal Ceauşescu e a queda do regime comunista. E o quadro não é dos melhores:

A revolução, tanto quanto foi e pouco que se fez (em Timișoara, Bucareste, – Piaţa Universităţii [Praça da Universidade], Brașov, Cluj, Sibiu) soldou-se, nos termos de Maquiavel, com a morte do tirano. Este foi o começo do momento catártico, o purgante psíquico pelo qual uma comunidade se livra do ódio e os membros dela ficam satisfatti, diz Maquiavel. Apenas que este processo, uma vez iniciado, não continuou e não se consumou. Uma parte considerável da população romena viveu, em vez da purgação completa, um ato catártico interrompido e as toxinas psíquicas permaneceram, assim, não eliminadas. […] O desmoronamento de um regime corrupto abre portas, neste caso, para o aparecimento de uma corrupção ainda maior. O regime comunista na variante Ceauşescu chega hoje – coisa alucinante à primeira vista – a ser lastimado exatamente por causa da nova corrupção gerada e redobrada pelos filhotes deixados vivos que saíram, em coorte, do ventre do monstro assassino.[8]

A constatação de Liiceanu é aterradora, pois nos faz ver, com num espelho, a situação brasileira Pós-Regime Militar. Chegamos num ponto em que alguns já clamam, saudosos, a volta dos militares ao poder, tamanho o desespero em face ao mal absoluto que reina em nossa pseudo-democracia.

E não é preciso ser um expert em Ciência Política para notar que, principalmente em nosso processo eleitoral, a mentira é utilizada de forma exaustiva, deslavada. Não como uma moral de segunda instância, para atingir o “bem comum” (como demonstrado por Liiceanu), mas pura e simplesmente para ocupar espaço e garantir, a cada postulante, o seu pedaço na corrupção generalizada.

Por isso considero a leitura deste assombroso Da Mentira fundamental para que entendamos em que abismo estamos nós, brasileiros.

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[1] LIICEANU, 2014, p. 10

[2] Ibid., pp. 16-17.

[3] Ibid. pp. 25-26.

[4] Ibid. p. 28.

[5] Ibid. p. 40.

[6] Ibid. p. 46.

[7] Ibid. pp. 53-54.

[8] Ibid. pp. 59-60, 61.

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