Arquivo do mês: novembro 2012

Repensando o Dia da “Consciência Negra”

Repensando o Dia da “Consciência Negra”

Crítica e sugestões

Quando o mês de novembro desponta, além da espantosa sensação de que o Natal está chegando, minha caixa de e-mails é tomada por mensagens sobre o famigerado “Dia da Consciência Negra”. São programações e mais programações girando em torno do tema; todas repetindo mais e mais dos mesmos jargões; e todos os anos me faço a mesma pergunta: Consciência do quê? E se pensarmos por cinco minutos no assunto, outra pergunta rapidamente nos virá à mente – a não ser que uma alienação militante já nos tenha paralisado o pensamento: consciência tem cor?

A bem da verdade, essas questões de raça – uma invenção das mais funestas – já deveriam há muito ter sido superadas. Como dizia o velho Aristóteles:

 Dado que as coisas são em parte forma e em parte matéria, as contrariedades relativas à forma produzem diferença de espécie; enquanto as que existem só no composto material não a produzem.  Por isso nem a cor branca, nem a cor preta no homem produzem uma diferença de espécie e entre o homem branco e o homem preto não existe diferença de espécie; e não haveria diferença de espécie mesmo que déssemos um nome diferente a cada um. De fato, branco e preto só é o homem entendido como matéria, e a matéria não produz diferença: e por isso os homens individuais não são espécies do homem, ainda que a carne e os ossos dos quais é composto este homem particular sejam diferentes daquelas das quais é composto aquele outro homem particular: o composto concreto é diferente, mas não pela espécie, porque em sua forma não existe contrariedade, e a forma constitui o termo último indivisível. [1]

OK, mas para não perecer intolerante, aceito jogar o jogo, contanto que pensemos seriamente no assunto.

Não consigo entender como se pode falar em consciência, quando o que recebo em minha caixa de mensagens é, tão-somente, um festival de futilidades que não representam em nada algo a que possamos chamar desse nome.

O Dicionário de Filosofia de José Ferrater Mora dá a esse verbete nada mais, nada menos, que três páginas! Vejamos somente o início, para termos uma ideia do tamanho do problema:

 O termo ‘consciência’ tem pelo menos dois sentidos: 1) consideração ou reconhecimento de algo, seja de algo exterior, como um objeto, uma qualidade, uma situação etc., ou de algo interior, como as modificações experimentadas pelo próprio eu; 2) conhecimento do bem e do mal. […] O sentido 2) pode desdobrar-se em outros três sentidos: a) psicológico, b) epistemológico ou gnosiológico e c) o metafísico. No sentido a) a consciência é a percepção do eu por si mesmo, às vezes também denominada apercepção. […] No sentido b), a consciência é principalmente o sujeito do conhecimento, falando-se então da relação consciência-objeto consciente como se fosse a relação sujeito-objeto. No sentido c), a consciência é frequentemente denominada o Eu. [2]

Uma rápida olhada nos sites que falam no surgimento do nome “Consciência Negra” e temos a certeza de que a escolha não foi, absolutamente, baseada em nenhum dos sentidos ou critérios acima. Apesar de próxima do sentido psicológico, podemos dizer que a decisão teve caráter ideológico, onde a palavra assume uma função pura e simplesmente retórica. Isso me fez lembrar aquilo que Eric Voegelin chamou de Filosofia Humpty-Dumpty[3], em que “definir os sentidos de uma palavra é uma prerrogativa do intelectual que não pode ser submetida a críticas” [4].

Devo dizer que penso “consciência” no sentido “c” descrito por Ferrater Mora: Consciência é, antes de tudo, a experiência de participação – a metaxy platônica – do ser humano no Fundamento (Voegelin novamente). Mas não precisamos ir tão longe (Será?).

Se assumirmos o sentido mais simples, o psicológico, outra pergunta me vem à mente: Consciência para que? Qual a razão de tomarmos consciência de seja lá o que for (de refletir nosso valor ou nossa inserção na sociedade brasileira, por exemplo [5]) se isso não disser respeito diretamente à minha existência real? Se isso não for contrastado com minha condição concreta, de ser humano, de brasileiro, de cidadão, num país onde negros e brancos (ainda que não consigamos fazer essa distinção muito bem por aqui) devem conviver pacificamente; e trabalhar, estudar, formar família – ou seja, ser sujeito de direitos e deveres? Para que ser portador de uma “consciência”, se esta não nos impele a pensar nossa postura em relação aos problemas concretos que se apresentam? Se quando falo de consciência pareço não falar de realidade? Se não conseguimos pensar sem a ajuda partidária e ideológica que nos encabresta o pensamento? Qual é a finalidade – uma palavra importantíssima! – de um “Dia da Consciência”, se o que se oferece é somente uma agenda ideológica esquerdista, com shows de Rap e Pagode, festival de Congada e Capoeira, exposição de artesanato afro, discussão enviesada sobre Cotas, palestras sobre anemia falciforme etc.?

[Veja você mesmo, caro leitor, o calendário da programação no país todo e diga se estou falando bobagem:

Programação no G1 (2015)

Programação no DF (2015)

Meu Deus, o que isso tem a ver com Consciência?!

E ainda que pensemos consciência no sentido pueril de orgulho, teria eu orgulho por meus antepassados terem inventado a Congada ou a Capoeira? Por que eu teria orgulho de me darem a oportunidade de entrar numa faculdade sem precisar (ou ter condições de) disputar a vaga? Por que sentir orgulho de ter escapado à escravidão colonial se tudo o que faço é voltar a ela como um cão volta ao seu próprio vômito?

Motivo maior de orgulho seria explorar, a meu ver, as contribuições de alcance geral, irrestrito, no nível daquilo que se chama de Alta Cultura; não só essa coisa guetizada e guetizante, que, em vez de nos inserir, nos segrega; em vez de nos elevar, nos diminui.

Diante do exposto, ofereço aqui algumas sugestões para o “Dia da Consciência Negra”. Claro que só valerá para o(s) próximo(s) ano(s), pois este aqui já está recheado; até um tal “ato indígena” haverá (?!). Vamos lá:

1)      NEGRITUDE E IDEOLOGIA – Repensando o apadrinhamento das Esquerdas Políticas

Há uma noção errônea de que a mentalidade revolucionária das Esquerdas pode resolver o “problema” do negro. Instaurou-se uma dicotomia entre reacionários e progressistas, e o negro deve, necessariamente, aliar-se ao segundo grupo. Não por convicções próprias, mas por um apadrinhamento político-ideológico compulsório e cheio de segundas intenções. E há uma retroalimentação deste ambiente que, em vez de minimizar o problema buscando uma solução definitiva para essa falsa noção de raça, tenta institucionalizar o racismo brasileiro, criando mecanismos e organizações que são por si mesmos segregacionistas.

Guerreiro Ramos

Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982) foi um sociólogo que, apesar de sua orientação política de Esquerda e, de certa forma, também ideológica, ousou pensar o que chamou de “negócio da revolução”, um fenômeno nefasto que surgiu sob a égide falaciosa do marxismo-leninismo. O fato de ser negro não o levou a aceitar irrefletidamente tal apadrinhamento.

Em suas palavras:

 Sob o signo do drama de Ionesco, escrevi este livro. Nele trato da metafísica da revolução. No Brasil, a revolução corre o risco de tornar-se rinocerônica. Reajamos enquanto não é tarde. Reajamos contra os aparelhos que pretendem empolgar a liderança da revolução brasileira e que, impondo com bruta determinação os seus slogans, comandos e palavras de ordem, pretendem fazer passar as suas conveniências grupistas por conveniências gerais do povo brasileiro. Pela sua audácia, pois não hesitam em macular a honorabilidade política de legítimos patriotas, esses aparelhos são hoje, entre nós, absurdas e intoleráveis modalidades urbanas de cangaço e banditismo. […] Surgiu neste país o negócio da revolução. Surgiram aparelhos que decretam, arbitrariamente, quem é e quem não é revolucionário, e que tem, a seu serviço, radicais de estimação, cúmplices dóceis de seus propósitos mistificadores. […] Técnicos idôneos, política e moralmente, têm sido marginalizados como agentes do “imperialismo”, porque ousam resistir a essa impostura. [6]

 Minha proposta é: utilizar a obra Mito e Verdade da Revolução Brasileira – onde Guerreiro Ramos expõe as vísceras deste movimento –, para repensar a condição política do negro brasileiro, bem como esse apadrinhamento ideológico que, a meu ver, promove uma segregação institucionalizada, e nos torna massa de manobra para a realização plena de seu Plano de Poder totalitário.

Mais informações sobre Guerreiro Ramos podem ser encontradas aqui.

2)      TÉCNICA OU INTELECTO: A controvérsia entre W. E. B. Du Bois e Booker T. Washington na emancipação negra americana.

W. E. B Du Bois (1868-1963) foi o primeiro negro a tornar-se Ph.D. nos EUA (ainda no séc. XIX), pela Universidade de Harvard. Estudou filosofia com William James e George Santayana e foi profundamente influenciado pelas ideias dos empiristas e pragmáticos de seu tempo.

Du Bois

Julgo que a controvérsia entre Du Bois e Washington seja fundamental para que pensemos a situação educacional e política do negro brasileiro. Washington defendia que os negros (americanos) deveriam aceitar todas as prerrogativas e sanções segregacionistas, contanto que tivessem apoio para a educação básica (e técnica) e incentivos econômicos; tudo em nome do Progresso. Du Bois discordava veementemente, dizendo que só haveria uma mudança efetiva da condição dos negros, mediante a consolidação de uma elite intelectual negra:

 Será possível e provável que nove milhões de homens possam efetivar um progresso real e termos econômicos, estando privados de direitos políticos, reduzidos a uma casta servil, tendo apenas uma oportunidade extremamente insignificante de desenvolver seus homens excepcionais? Se a História e a Razão derem uma resposta clara a tais perguntas esta será um enfático Não. [7]

Insistia que os negros deveriam conquistar seus direitos através do intelecto e da produção de um saber acadêmico consistente. Seus relatos sobre educação são comoventes, e neles podemos ver a preocupação de alguém que fora transformado por uma formação sólida e fez disso a mola propulsora ideal para seus irmãos.

Du Bois tinha lá suas controvérsias – tais como a admiração pelo marxismo e pelo nazismo; porém, dentro do contexto que estamos falando, não podemos deixar de apreciar e discutir sua obra, bem como admirar seu perfil intelectual. Seria salutar mirarmos o exemplo de um pensador cujas ideias não foram simplesmente produto de uma ideologia alienante, mas, antes, consolidadas de acordo com uma profunda Formação Acadêmica.

E, para mim, só haverá verdadeira inclusão quando não houver mais esse vitimismo barato e mendicante que o negro brasileiro aprendeu a adotar. Inclusive, a História nos mostra que, nos tempos mais difíceis de racismo pós-abolição, tivemos muito mais intelectuais negros no Brasil do que jamais tivemos. Creio que hoje, infelizmente, tenda a zero.

3)      COTAS – O outro lado

Como sabemos, sistema de Cotas Raciais adotado no Brasil não foi uma ideia original; foi uma adaptação – como toda militância negra brasileira – daquele que foi implantado nos EUA. Ou seja, os americanos são, ao mesmo tempo, o modelo absoluto dessa militância e seu desafeto ideológico imediato (os imperialistas!). Mas deixemos essa esquizofrenia de lado, o assunto aqui é outro.

Thomas Sowell (1930-), economista americano, é um negro contra o Sistema de Cotas. E sua posição não está baseada em ideologia alguma, mas em mais de trinta anos de estudo sério, empírico e estatístico. Em sua obra Ação afirmativa ao redor do mundo, Sowell analisa os efeitos das ações afirmativas em cinco países: Índia, Malásia, Sri Lanka, Nigéria e EUA. O resultado é sempre o mesmo: mais discriminação, uma pequena minoria dos menos pobres beneficiada, e os mais pobres e necessitados na mesma. As Cotas são, na verdade, um jogo político que beneficia, antes de tudo, aqueles que o implantam (políticos, partidos, Estado etc.). Sowell explica:

 A diferença impressionante entre o mito político e a realidade econômica tem muitas implicações. Entre elas, aquilo que deveria ser visto como conquista extraordinária dos negros americanos é, em vez disso, tido como exemplo de benemerência e liberalidade do governo – e prova de que a ação afirmativa é absolutamente necessária para o progresso dos negros. Os efeitos dessa interpretação equivocada incluem o ressentimento dos brancos e seu questionamento sobre por que não podem os negros progredir como quaisquer outros grupos, quando, de fato, é exatamente isso que os negros têm feito. [8]

Thomas Sowell

Vejamos um dado curioso:

 A percentagem de famílias negras com renda abaixo da linha oficial de pobreza caiu de 87% em 1940 para 47% por volta de 1960 – tudo isso antes da legislação sobre os direitos civis da década de 60 e muito antes da política de ações afirmativas da década de 70. Entre 1960 e 1970, a taxa de pobreza entre as famílias negras caiu mais 17 pontos percentuais e, depois da década de 70, na qual foram adotadas as cotas, essa taxa decresceu apenas um ponto percentual. [9]

Creio piamente que o exemplo de outros países seja um convite à reflexão do caso brasileiro em particular.

Proponho, portanto, um debate sério sobre a obra de Thomas Sowell, munidos de profunda honestidade intelectual, a fim de passar a limpo o Sistema de Cotas implantado no Brasil.

Um pequeno exemplo do que nos diz Thomas Sowell pode ser visto aqui.

4)      CONTRIBUIÇÕES CULTURAIS

Outro tema bastante rico é a contribuição de negros e/ou mestiços na Alta Cultura. Seguem alguns exemplos que podem ser explorados e debatidos.

a)      Os negros na música clássica

Pelo menos três nomes me vêm à mente quando penso na contribuição dos negros na música erudita. Vamos a eles:

a.1) George Augustus Polgreem Bridgetower (1780-1860)

George Bridgetower

Beethoven o admirava tanto que escreveu em sua homenagem uma de suas mais famosas sonatas para violino e piano. Primeiramente chamada de Sonata Mulattica ou Sonata per un mulattico lunatico, a famosa e intensa Sonata n.o 9 (Op. 47), a Sonata a Kreutzer­ – como ficou conhecida – foi dedicada ao amigo que Beethoven conhecera em Viena, em 1803. Executada pela primeira vez por Beethoven e Bridgetower – um violinista extremamente virtuoso –, gerou um fato curioso:

 Aos 25 anos, em licença, George chega a Viena, onde Beethoven, com 33, já pontificava. A amizade parece ter sido imediata, informal e entusiástica: Beethoven retoma alguns esboços, e em uma semana conclui a nona e mais importante das suas sonatas para violino e piano. Vão estreá-la juntos em 25/05/1803, com Bridgetower – acreditem ou não – tocando boa parte à primeira vista, e ainda lendo por sobre o ombro do compositor, pois nem tinha havido tempo para copiar a parte do violino. Mas o melhor da história vem no segundo movimento, quando o piano representava sozinho uma ideia exposta antes pelo violino – e Bridgetower ousou improvisar comentários uma oitava acima em vez de aguardar. Beethoven teria saltado do piano e… ao contrário do que se poderia esperar do seu gênio, teria abraçado o violinista com palavras que se traduzem perfeitamente por “Mais uma vez, meu caro!” [10]

 

Mas, por causa de uma briga – muito provavelmente por causa de um comentário feito por Bridgetower a respeito de uma mulher que Beethoven conhecia – a amizade que acabara de iniciar se acabou, e a Sonata foi re-dedicada a Rudolphe Kreutzer, o mais conhecido violinista da época, que, curiosamente, nunca a tocou.

Ouça a Sonata a Kreutzer aqui, com execução de Anne Sophie Mutter (violino) e  Lambert Orkis Zohari (piano).

a.2) Joseph Boulogne Saint-George (1745-1799)

Chevalier de Saint-George

Foi um dos mais proeminentes compositores da metade do século XVIII. Nascido no Caribe, filho de um francês nobre e de uma escrava, foi, além de violinista virtuoso e compositor, um esgrimista notável. Aos 45 anos juntou-se, apesar de sua origem nobre, a um exército de negros e mestiços na Revolução Francesa, sendo preso sob ameaça de guilhotina. Foi solto, mas, com sua saúde debilitada, morreu aos 53 anos.

Semelhanças estilísticas e temáticas entre Saint-George e Mozart têm sido notadas (e celebradas), pois este último esteve na França em 1777, onde Saint-George já era aclamado.

Ouça uma peça belíssima de Sant-George aqui.

a.3) Padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830)

Pe. Nunes Garcia

Deixei este por último por considerá-lo um pequeno milagre!

José Maurício Nunes Garcia nasceu no Rio de Janeiro, filho de dois “pardos forros” (filhos livres de escravos). Tinha seis anos de idade quando o pai morreu; foi criado pela mãe e por uma tia, que, notando o grande interesse do menino pela música, trabalhavam dobrado a fim de lhe pagarem aulas particulares. Já consciente de seu dom, viu na vida religiosa a única maneira de exercer sua carreira de músico, e buscou, aos 25 anos, a ordenação e tornou-se padre. Em 1798 torna-se mestre-de-capela da Catedral da Sé do RJ.

Aluno do poeta mestiço Silva Alvarenga – um dos fundadores da Sociedade Literária, que difundia as ideias do Iluminismo –, Nunes Garcia teve uma formação sólida e é considerado o maior compositor das Américas de seu tempo. Com sua produção voltada à música sacra, suas composições chegam a 240 obras, dentre estas cerca de 26 Missas, quatro missas de Requiem, Responsórios, Matinas, Vésperas, um Miserere, um Stabat Mater, um Te Deum, Hinos, modinhas e pequenas peças profanas.

Ouça uma peça de Nunes Garcia aqui

Por que não celebrar desta maneira: promovendo concertos – não no Capão Redondo ou na Favela da Rocinha; não com a Orquestra do Heliópolis! – na Sala São Paulo ou no Municipal, com nossas melhores orquestras e cantores? Poderiam essas apresentações, inclusive, serem precedidas de palestras introdutórias sobre os músicos/compositores. Não seria esse um motivo real de orgulho?!

b)     Outras Contribuições

Trabalhos de tradução na área de literatura (sobretudo do movimento conhecido como Harlem Renaissance) e da filosofia produzida na África Subsaariana também enriqueceriam o debate e, certamente, ajudariam na formação de uma massa crítica negra brasileira capaz de pensar seu próprio contexto e destino.

Langston Hughes, poeta do Renascimento do Harlem

Enfim, acredito que o momento de emancipação deste apadrinhamento ideológico a que os negros foram submetidos passou da hora de acontecer. Pois com a ascensão de partidos totalitários ao poder, dando passos largos para a realização de seu Projeto Ideológico, ocupando todos os espaços políticos, usando a máquina do Estado em benefício próprio, há uma tendência e necessidade cada vez maiores de utilizar os setores ressentidos da sociedade (criados e alimentados por essa mesma ideologia) para garantir a consolidação de seus objetivos. Nesse caso, a experiência nos mostra que a própria (tão sonhada) Democracia é sua primeira vítima.

Termino com as palavras precisas de Thomas Sowell:

Caso nos esforcemos para definir a Esquerda, segundo seus objetivos proclamados, torna-se evidente que objetivos muito semelhantes foram proclamados por pessoas que a esquerda repudiou e anatematizou, chamando-as de fascistas e nazistas. Portanto, em vez de definir a esquerda segundo seus objetivos proclamados, podemos defini-los pelos seus mecanismos institucionais específicos e pelas políticas que executam ou defendem a fim de alcançar seus objetivos. Mais especificamente, esses grupos podem ser definidos a partir dos mecanismos institucionais que buscam impor, no intuito de controlar as decisões mais significativas sobre a sociedade em geral. [11]

Paulo Cruz, Nov/2012

[1] ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola, 2005, p. 473 (1058b 1-10).

[2] FERRATER MORA, José. Dicionário de Filosofia – Vol. I. São Paulo: Loyola, 2004, p. 550.

[3] Personagem de Alice através do Espelho, de Lewis Carroll, que dizia poder dar às palavras o sentido que quisesse.

[4] VOEGELIN, Eric. Reflexões autobiográficas. São Paulo: É Realizações, 2008, p. 144.

[6] RAMOS, Alberto Guerreiro. Mito e verdade da revolução brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1963, pp. 13, 14

[7] DU BOIS, W. E. B. As almas da gente negra. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1999, p. 108.

[8] SOWELL, Thomas. Ação afirmativa ao redor do mundo. Rio de Janeiro: UniverCidade, 2004, p. 21.

[9] Ibid., p. 21.

[10] http://palidopontobranco.blogspot.com.br/2012/10/a-sonata-mulattica.html (com uma pequena alteração, feita por mim, na frase dita por Beethoven).

[11] SOWELL, Thomas. Os intelectuais e a sociedade. São Paulo: É Realizações, 2012, p. 154.


O Egípcio

“O Egípcio”, de Mika Waltari

O poder transformador da leitura.

O primeiro livro que li inteiro foi “Dom Casmurro”. Porém, o primeiro que me arrebatou foi “O Egípcio”.

Leitura incentivada no início da década de 1990, por meu amado e saudoso pai, Antônio da Cruz (05/04/1940 – 09/11/2012). Lembro-me até hoje de sua insistência – o livro é um catatau com mais de 600 páginas e eu era apenas um adolescente em ebulição. Eu dizia: “pai, esse livro é muito grosso!”. E ele respondia: “se você ler três páginas deste livro, não conseguirá parar mais!”. Dito e feito!

Na época, eu chegava da escola, almoçava e ia para seu escritório, trabalhar. Ele me passava o serviço – em geral, serviços de fórum e prefeituras – e eu ia, “Egípcio” debaixo do braço, lendo vorazmente onde quer que encontrasse um tempo: ônibus, metrô, filas.

Obs.: conheci toda a cidade de SP assim, trabalhando (iniciei aos 14 anos). Ele me dizia: “tem de ir ao fórum da Lapa”. Eu dizia: “como faz pra ir?”. E ele: “não sei, só sei ir de carro” – e me lembrava do “Mensagem a Garcia”. E eu saía perguntando; e sempre chegava ao destino.

Voltando ao “Egípcio”. Meu pai nunca perdia a oportunidade de ler para mim o último parágrafo do livro (em negrito, ao final). Fazia sempre que o tinha à mão; e emocionado, dizia: “não é maravilhoso?!”

Pois é! E curiosamente, após sua morte, essa história se tornou profeticamente emblemática para mim: meu pai é o meu Sinuhe.

Descanse em paz, Dr. Antônio.

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“Eu, SINUHE, filho de Senmut e de sua mulher Kipa escrevo isto. Não o escrevo para a glória dos deuses da terra de Kan, porque estou cansado de deuses, nem para a glória dos faraós, porque estou cansado de seus feitos. Tampouco escrevo por medo ou por qualquer esperança  no futuro; escrevo para mim, apenas. O que vi, conheci e perdi durante a minha vida, foi coisa demasiada para que me domine um vão temor; e, quanto a algum desejo de imortalidade, estou tão exausto disso quanto dos deuses e dos reis. É apenas por minha causa que escrevo, por tal motivo e essência diferindo eu de todos os escritores passados e vindouros.

[…]

“Isto tudo eu, Sinuhe, o egípcio, escrevi; e apenas para mim. Não escrevi para os deuses nem para os homens; e nem para imortalizar o meu nome. Apenas para dar paz ao meu coração cuja cota está agora servida de vez. Sei que logo depois da minha morte os guardas destruiriam, se pudessem, tudo quanto escrevi. Sim, pois, por ordem de Horemheb porão abaixo as paredes da minha casa. Aliás, creio que tudo isso tanto se me dá. Seja como for, a verdade é que estou conservando cuidadosamente estes livros que escrevi, e Muti trançou uma rija cobertura de fibra para cada um deles. Guardo estes livros assim protegidos dentro de uma caixa de prata, e a caixa de prata está dentro de uma caixa de madeira grossa que por sua vez se acha dentro de uma outra, de cobre, tal qual foram protegidos outrora os livros divinos de Toth e depois descidos ao leito do rio. Se os meus livros não caírem em poder dos guardas e se Muti os esconder  na minha sepultura, não sei. E nem me importo muito com isso.

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Eu leio porque ele lia

“Sim, pois eu, Sinuhe, sou um ser humano. Vivi em todos aqueles que viveram antes de mim, e viverei nos que vierem depois de mim. Viverei nas lágrimas e nos risos humanos, no medo e na mágoa humana, na bondade e na torpeza humana, na justiça e no erro, na fraqueza e na força. Não desejo oferendas na minha sepultura e nem imortalidade para meu nome. Isto foi escrito por Sinuhe, o egípcio, que viveu sozinho todos os dias de sua vida”.

(Trecho inicial e final do livro “O Egípcio”, obra monumental do finlandês Mika Waltari)