Arquivo do mês: junho 2013

Mito e metáfora na música de Miguel Garcia

miguel

Mito e Metáfora na música de Miguel Garcia

Sei que não devemos confundir letra de música com poesia nem (muito menos!) poeta com profeta – ainda mais em tempos sombrios como os nossos. Entretanto, quando esses termos quase opostos se encontram, uma espécie de milagre acontece.

Bem nos avisou Bruno Tolentino:

[…] malgrado a grandiosidade dos negro spirituals, por exemplo, mantenho que só a poesia, a linguagem profunda de uma raça, tem a amplitude de meios capazes de dar à complexidade da condição humana aquela dimensão de verticalidade correspondente às grandes perplexidades da alma. […] Hofmannsthal, o maior poeta austríaco do século, era também o autor dos libretti para as óperas de Strauss, mas não as reuniu em suas Poesias Completas, pela óbvia razão de que a autonomia do poema é de outra ordem [1].

Manuel Bandeira também nos alertou para essa distinção:

Essa tarefa de escrever texto para melodia já composta, coisa que fiz duas vezes para Ovalle e muitas vezes para Villa-Lobos, é de amargar. Pode suceder que, depois de pronto o trabalho, o compositor ensaie a música e diga: “Ah, você tem que mudar esta rima em i, porque a nota é agudíssima e fica muito difícil emiti-la nessa vogal”. E lá se vai toda a igrejinha do poeta! Do poeta propriamente, não: nesse ofício costumo pôr a poesia de lado e a única coisa que procuro é achar as palavras que caiam bem no compasso e nos sentimento da melodia. Lidas independente da música, não valem nada, tanto que nunca pude aproveitar nenhuma delas.[2]

 

Poesia e profecia

Pushkin acreditava piamente no dom profético do poeta[3], e Andrei Tarkovski endossou a visão do grande poeta russo[4]. Porém, após a derrocada do verso – que teve entre seus principais algozes o Concretismo –, qualquer pretensão nesse sentido seria uma sandice completa.

Entretanto, peço licença aos nobres poetas para falar de Música. Não só de Música, mas, sim, do poético na Música; mais ainda, do profético na música – cuja herança moderna, o Negro Spiritual de que fala Tolentino, é representante quase absoluto. E essa é uma característica, sobretudo, da música religiosa, que, desde os tempos bíblicos (com os Salmos), ilustra e impulsiona a fé de um povo. Daí, onde a excelência, a sensibilidade, a experiência e, sobretudo, a vocação fazem morada, o espírito abre-se às maravilhas torturantes da clarividência.

É uma faca de dois gumes, pois ao vate é vetada a sobriedade; nele habitam o desvario, o gênio, o êxtase, a profecia e o sofrimento.

Vale lembrar que Northrop Frye nos mostrou, em sua obra “O Código dos Códigos”, a total dependência que a Cultura Ocidental tem da Bíblia, cujas características literárias serviram (ou servem) de modelo para praticamente tudo o que se produziu (ou produz) em termos de arte a oeste do Meridiano de Greenwich:

A Bíblia certamente é um elemento da maior grandeza em nossa tradição imaginativa, seja lá o que pensemos acreditar a seu respeito. Todo o tempo ela nos lança a pergunta: por que esse livro enorme, extenso, desajeitado, fica bem no meio de nosso legado cultural, como o “grande Boyg” ou a esfinge em Peer Gynt, impedindo nossos esforços de circundá-lo? Giambattista Vico, a quem devo voltar logo, elaborou uma sofisticada teoria da cultura baseando-se apenas na história secular, evitando de todo a Bíblia. Havia prudência nisso; mas hoje essa desculpa não se sustenta, em se tratando de eruditos que tratam de questões levantadas pela Bíblia e se comportam como se ela não existisse. Parece-me que alguém de fora do círculo de especialistas precisa chamar a atenção para a existência e relevância da Bíblia. Muitas de minhas sugestões podem se basear em nada mais do que uma falácia post hoc proper hoc*, mas até que se examinem os “post hocs” mais de perto, ninguém pode dizer que sejam apenas isso.[5]

 

O Músico

miguel3

Miguel Garcia

Miguel Garcia, músico que habita escondido no ABC Paulista e nos corações que o descobrem e admiram, é um portento. E como tal, jaz quase no anonimato. Não por um acaso, mas simplesmente por não suportar nada que não seja visceral. Sua música exala a perfeição do que é feito com extremo esmero, com aquilo que só o verdadeiro artista pode oferecer por sua arte: o sacrifício[6]. Guitarrista autodidata e genial, toca como quem serve aos mortais manjares celestes; e o melhor: com a simplicidade e o desprendimento de um asceta. Um compositor impecável, que brinca com as palavras como um demiurgo, selando-as numa música inspiradíssima e, admitamos, de difícil compreensão. Dificuldade essa que se esvai quando a música de Miguel se revela a nós, pois não é se trata de música para desleixados espirituais, mas para aqueles que buscam a Beleza escondida numa arte refinada. E não falo aqui de desperdício estético, mas de um virtuosismo genuíno[7].

 

A Música

Esclareço que meus conhecimentos quase nulos nos aspectos técnicos da Música me impedem de penetrar em meandros sobre acordes e arranjos. Porém, minha motivação é teológico-filosófico-linguística, pois pretende destacar elementos que fazem da letra e música (dupla indissociável, como diz Bandeira) de Miguel, poesia e profecia em seu mais alto grau. Para isso, limitar-me-ei a três canções de seu último trabalho: A Beija.

FOME E SEDE

O clima é de desolação. Os instrumentos parecem tocados por penitentes acorrentados. No entanto, onde há confissão, há Beleza. A letra é um clamor, uma visão do “vale de ossos secos” de Ezequiel 37. O profeta olha e vê:

Eu olhei e vi a terra agoniada

Vi ao leste do jardim

Uns querubins

Suas espadas

Vi brotarem os espinhos

E o manjar virou daninho.

Vê a Queda, estava lá, no ambiente mítico, e reconta a história. Dá novo sentido à preocupação imemorial, à dissolução da comunhão com Deus. “Reconta o mito e nos revela um mistério” (Eliade). Faz aquilo que as narrativas (músicas) profanas não conseguem. Como nos diz Northrop Frye:

[…] Mítico significa o contrário de “não exatamente verdade”: significa levar consigo uma seriedade e uma importância especiais. As estórias sagradas ilustram uma preocupação social específica; as estórias profanas têm uma relação muito mais distante com essa preocupação; até em alguns casos não tem nenhuma, pelo menos em sua origem [8].

Há espanto em suas palavras:

Eu olhei e vi a terra condenada

Onde estava a doce brisa?

O Senhor, Suas pegadas?

O Adão no esconderijo

Evas clamam por alívio!

E na simples menção de cidades bíblicas há uma carga poética tão profunda, que é quase impossível não associá-las aos recônditos mais afastados de nossa cidade, de nosso país, de nosso mundo, de nós:

Eu olhei, e vi a terra amargurada

Node, Ur, Neguebe, Admá

Belá, Sodoma e El-Parã

Savé, Hobá, Tamar e Hã

Zoar, Sidim, Gomorra, Cades

Aí, Damasco, Tibal, Mispate.

Quem somente lê as palavras, sem a música, não percebe a profundidade e dimensão que isso alcança. A voz de Miguel, agridoce, reclama os habitantes de cada uma dessas “localidades”. Os instrumentos o seguem, inconformados.

Agora, veja, caro leitor, não se trata de uma mera denúncia social. Não nos esqueçamos do ambiente onde a música está assentada: naquele espaço dos acontecimentos in illo tempore de que nos fala Mircea Eliade. Quem dá as cartas é o Mito, numa reivindicação sagrada dos acontecimentos[9].

Fome e Sede é o retrato da situação do homem sem Deus, solto no mundo, livre; é denúncia e confissão sobre a real necessidade de todos nós, declarando o objeto desta fome e desta sede: perdão.

Curiosamente, após a declaração “temos fome e sede de perdão”, a música parece se libertar, e ganha uma desenvoltura que só mestres – como Edmundo Cassis, Edu Martins, Cuca Teixeira, Wagner Rosa e, claro, Miguel Garcia, brilhando num solo de guitarra midi apoteótico – são capazes de produzir.

miguel1

A arte de Miguel

Ao final de quase 7 minutos, dizemos: “Sim, fomos perdoados… e abençoados”.

Ouça a música aqui!


ENTREABERTA

Na Ética a Nicômaco, Aristóteles escreveu um dos mais belos ensaios sobre a Amizade. Para o estagirita, a amizade é uma virtude nobre e “extremamente necessária à vida”[10], porque, evidentemente, ninguém deseja viver sem amigos, ainda que não precise deles. Ou seja, a amizade é – se me permitem o paradoxo – uma necessidade desnecessária[11].

Aristóteles também faz uma distinção entre tipos de amizade. Para ele, amizades constituídas pela utilidade ou pelo prazer não são verdadeiras, pois, esta busca somente um bem que pode receber do outro (vantagem), enquanto aquela faz com que busquemos somente a companhia dos que nos são agradáveis. A verdadeira amizade, portanto,

[…] é a existente entre pessoas boas e semelhantes em termos de excelência moral; neste caso, cada uma das pessoas quer bem a outra de maneira idêntica, porque a outra pessoa é boa, e elas são boas em si mesmas. Então, as pessoas que querem bem aos seus amigos por causa deles, são amigas no sentido mais amplo, pois querem bem por causa da própria natureza dos amigos, e não por acidente; logo, sua amizade durará enquanto essas pessoas forem boas, e ser bom é uma coisa duradoura.[12]

Entreaberta é uma canção que fala de amizade, de uma amizade, digamos, peculiar. Num ritmo agradabilíssimo (bossa nova?, jazz?), um convite é feito:

Pode entrar, Jesus!

Eu deixei minha porta entreaberta

Preparei um jantar para nós.

Venha ouvir um blues,

Tu chegaste na hora mais certa,

Pois assim ficaremos a sós.

Conforme somos informados no encarte do CD, trata-se de uma alusão ao que está escrito no livro bíblico de Apocalipse[13]. Tal convite, quem poderia recusar?

A gastronomia é uma das paixões de Miguel Garcia, e nada mais apropriado que oferecer a tão distinto convidado um pouco daquilo que mais amamos.

Vem provar, Jesus,

Arrisquei um tutu de feijão,

Tem banana empanada também.

Que eu faça jus

Minha mãe deu-me um curso tão bom

Culinária aqui em casa entretém.

Aliás, sendo a Amizade uma virtude das mais dignas, a Hospitalidade não fica por menos. É um conselho bíblico dos mais apropriados[14].

Entreaberta é uma canção belíssima – Edmundo Cassis dá um show à parte ao piano –, uma ode à amizade e à comensalidade; excelente para, como diz o poeta: destilar de nossos dias o fel.

Ouça a música aqui!

ECLESIASTES

Quando vemos o modo destemido como Natã fala a Davi[15], como Jeremias fala ao rei Zedequias[16] – sendo preso por diversas vezes até ser lançado num poço –, percebemos que a função dos profetas não era coisa fácil. Muito pelo contrário. Viviam quase sempre no ostracismo e, por seu dom de discernir os eventos, sofriam as dores de todo o povo. O eminente teólogo Gerhard von Rad nos explica:

Por quanto podemos saber, a vocação dos profetas do séc. VIII e VII (a.C.) se dava por uma palavra que Deus comunicava de forma pessoal e imediata, e essa palavra criava, para o respectivo ser humano envolvido, uma situação totalmente nova. Não somente era encarregado de uma missão limitada no tempo, mas lhe era confiado um ministério que não era considerado vitalício em todos os lugares, mas que, em todos casos, tirava essas pessoas por um tempo, no mínimo, bastante longo, de todos os relacionamentos que mantinham até então. Ser profeta significava manter-se em um estado que tinha profundas repercussões nas condições externas da vida. Não apenas a sua boca, mas toda a sua vida era posta a serviço de sua função […]. Ser profeta não era o resultado de uma escalada prodigiosa, nem de uma superação da existência religiosa anterior. Diante de Javé, nem a fé que anteriormente havia sido experimentada, nem qualquer aptidão pessoal criava de forma alguma uma predisposição preparatória para a vocação. Ainda que tivesse uma natureza pacífica, o profeta tinha que criticar e ameaçar, independente de isso lhe cortar o coração, como era o caso de Jeremias. E, ainda que, por acaso, tivesse inclinação para o rigor, tinha que indicar o caminho da salvação e do consolo, como era o caso de Ezequiel.  A ruptura que separa os profetas da sua vida anterior é tão profunda, que na nova vida nenhum dos antigos sociais subsiste.[17]

A canção Eclesiastes exala esse profetismo de forma sutil, mas contundente. A letra é uma homenagem a certo Pregador talentoso e mui eloquente. Paladino de retórica implacável, que arrasta multidões. Não um pregador qualquer, desses que pregam de chapéu de vaqueiro ou não conseguem pronunciar corretamente um simples plural. Não; suas palavras são precisas, seu carisma é avassalador, seu discurso é infalível:

Eclesiastes pregador,

Gladiador, suga o ar pra ferir;

Encantador. Quando a espada subir

E o seu brilho cegar,

Descerá como um raio, irá um contrário

Podar, suprimir (Varão chegador!)

Tem seu lugar na peleja Real.

É tão lindo de ver,

Luta pra gente ver, Eclesiastes!

A imagem é explícita: o Pregador é um guerreiro, preparado para derrotar seus inimigos. O que nos parece claro é que não se trata de inimigos metafísicos, espirituais. Seus desafetos são de carne e osso, opoentes intelectuais (?). A metáfora bélica é antiga. Frye analisa:

[…] A expressão central da energia humana é o trabalho criativo que transforma o mundo amorfo do meio ambiente natural no mundo de forma e significado humanos, que é pastoral, cultivado e civilizado. O outro lado desse esforço é a luta contra o inimigo, que tem dois aspectos. Primeiro, é o inimigo humano, encontrado na guerra; segundo, é o elemento caótico, amorfo, na natureza, em geral, simbolizado por um monstro, uma fera de rapina, e identificado com a seca, inundações e toda sorte de esterilidade natural[18].

 

Eclesiastes pregador, gladiador

Guerrear contra o mal

É seu labor. Sua sina, um sinal

De que o Amor quer lutar

Quer vencer seu rival, contender,

Trazer ordem ao caos.

[…]

Eclesiastes pregador,

Gladiador enfrentou a famintos leões…

Não obstante toda sua força retórica, o Eclesiastes está prestes a sucumbir àquilo que o verdadeiro Qohelet tanto abomina: a Vaidade[19]. É preciso refletir a respeito de seu ofício, revisar sua vocação. As recomendações do poeta-profeta são para que ele desperte a tempo.

Vai Eclesiastes,

Basta de cisões,

Sua vida vai mudar,

É momento de outro tipo de querer.

Nossas fragmentações vão doenças apinhar,

É momento de outro tipo de poder,

Alegrias vão chegar.

Enfim, como diz o último verso: fale, mas também ouça.

Virtuosismo

Enquanto o poeta canta, a música o acompanha, transmudando-se conforme os elogios vão tomando forma de exortação. É algo épico, sublime. Com um arranjo de apuro técnico impressionante, a canção vai, num crescendo, se transformando numa espécie de cavalgada musical, que parece conduzir o Pregador à sua peleja derradeira.

Um fato curioso é que os instrumentos se destacam de maneira individual em momentos específicos. O contrabaixo fretless – tocado de maneira hipnotizante por Edu Martins – é quem tem a proeminência na primeira execução completa da música. Em seguida, Bruno Cardoso improvisa ao piano com a delicadeza de um suspiro. Ao final, quando a bateria de Cuca Teixeira já se transformou numa marcha frenética (de extrema precisão, diga-se de passagem), temos o solo dionisíaco de Miguel Garcia.

Eclesiastes é puro arrebatamento!

Ouça a música aqui!

Há mais em Miguel Garcia, homem de múltiplas facetas. E qualquer semelhança com o valente arcanjo das Escrituras, não é mera coincidência.

Dê uma oportunidade à sua alma, e ouça A Beija, de Miguel Garcia.

Paulo Cruz – Junho 2013

miguel2


[1] TOLENTINO, Bruno. A Balada do Cárcere, Rio de Janeiro: Top Books, 1996, pp.9, 123.

[2] BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada. São Paulo: Global, p. 101.

[3] O PROFETA Num ermo, eu de âmago sedento/já me arrastava e, frente a mim,/surgiu com seis asas ao vento,/na encruzilhada, um serafim;/ele me abriu, com dedos vagos/qual sono, os olhos que, pressagos,/tudo abarcaram com presteza/que nem olhar de águia surpresa;/ele tocou-me cada ouvido/e ambos se encheram de alarido:/ouvi mover-se o firmamento,/anjos cruzando o céu, rasteiras/criaturas sob o mar e o lento/crescer, no vale, das videiras./Junto a meus lábios, rasgou minha/língua arrogante, que não tinha,/salvo enganar, qualquer intuito,/da boca fria onde, depois,/com mão sangrenta ele me pôs/um aguilhão de ofídio arguto./Vibrando o gládio com porfia,/tirou-me o coração do peito/e colocou carvão que ardia/dentro do meu tórax desfeito./Jazendo eu hirto no deserto,/o Senhor disse-me: “Olho aberto,/de pé, profeta e, com teu verbo,/cruzando as terras, os oceanos,/cheio do meu afã soberbo,/inflama os corações humanos!” (PUSHKIN, Aleksandr. A Dama de Espadas. São Paulo: Editora 34, p. 267. Tradução de Nelson Ascher).

[4] Cf. TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o Tempo, São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 38.

[5] FRYE, Northrop. O Código dos Códigos – a Bíblia e a literatura, 2.a ed. São Paulo: Boitempo, 2006, p. 18.

[6] O artista é sempre um servidor, e está eternamente tentando pagar pelo dom que, como que por milagre, lhe foi concedido. O homem moderno, porém, não quer fazer nenhum sacrifício, muito embora a verdadeira afirmação do eu só possa se expressar no sacrifício. Aos poucos, vamos nos esquecendo disso, e, inevitavelmente, perdemos ao mesmo tempo todo o sentido da nossa vocação humana. (TARKOVSKI, Op. Cit., p. 41).

* Post Hoc proper hoc: como se, constatada a existência de um fato, se passasse a defini-lo como causa de outros adjacentes simplesmente por sua precedência.

[7] A arte não raciocina em termos lógicos, nem formula uma lógica do comportamento; ela expressa o seu próprio postulado de fé. Se, na ciência, é possível confirmar a veracidade dos argumentos e comprová-los logicamente aos que a eles se opõem; na arte é impossível convencer qualquer pessoa de que você está certo, caso as imagens criadas a tenham deixado indiferente, e não tenham sido capazes de convencê-la a aceitar uma verdade recém-descoberta sobre o mundo e o homem, se, na verdade, a pessoa ficou apenas entediada ao deparar-se com a obra. (TARKOVSKI, Ibid., p. 44)

[8] FRYE, Northrop. Op. Cit., p. 59.

[9] O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do Tempo, ab initio. […] O mito é, pois, a história do que se passou in illo tempore. (ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. Lisboa: Livros do Brasil, 1956, p. 81).

[10] Cf. ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. Brasília: UNB, 1985, p. 153.

[11] A Amizade – num sentido nem um pouco depreciativo – é o menos natural dos os amores: o menos instintivo, o menos orgânico, o menos biológico, o menos gregário e o menos necessário. (LEWIS, C. S., Os Quatro Amores. São Paulo: Martins Fontes, p. 82).

[12] ARISTÓTELES, Op. Cit., p. 156

[13] Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo. (Ap 3:20).

[14] Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos. (Hb 13:2).

[15] 2º Samuel 12.

[16] Jeremias 38.

[17] RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Targumim, p. 496.

[18] FRYE, Northrop. Op. Cit., p. 224,225.

[19] “Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade”. (Ec 1:2)


Terrence Malick e o Fundamento

el-arbol-de-la-vida-the-tree-of-life

A Árvore da Vida (The Tree of Life) – 2011

Terrence Malick

“Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? […].

Quando as estrelas da alva juntas alegremente

cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam?”

(Jó 38:4-7)

the_tree_of_life_movie_poster_01

A Árvore da Vida

À guisa de introdução, o autor deste ensaio esclarece que a tarefa empreendida não visa, de modo algum, a eliminar o mistério que envolve a concepção de A Árvore da Vida, nem deslindar, por meio de psicologismos ou toda sorte de artimanhas divinatórias, a mente de seu diretor, Terrence Malick.

A intenção é abordar o filme em seu significado mais imediato, naquilo que há de mais concreto, belo e desconcertante, exibindo, com isso, os nexos que ligam os personagens do longa ao conceito de Fundamento[1]. Para tal, as valiosas observações de D. H. Lawrence – sobre seu desinteresse pelas Escrituras em seus tempos de menino – são um bom conselho:

d_h_-lawrence

D. H. Lawrence

Meus instintos ressentem-se da Bíblia. Agora vejo com clareza o motivo. Não apenas a Bíblia era despejada em porções em minha consciência de criança, dia após dia, ano após ano, por bem ou por mal, pudesse ou não a minha consciência assimilar aquilo, como também dia após dia, ano após ano, era-me explicada, de forma dogmática e sempre moralizante, fosse na Escola Dominical, em casa, ou na Band of Hope, ou na Christian Endeavour. A interpretação era sempre a mesma, fosse dada por um doutor em teologia de seu púlpito ou pelo ferreiro grandalhão que era meu professor na Escola Dominical. […] Um livro só existe enquanto não é decifrado. Uma vez decifrado, morre imediatamente. […] Ele só vive enquanto tem o poder de nos comover, e nos comover de modo diferente; enquanto nos parece diferente a cada vez que o lemos. Dada a abundância de livros superficiais que de fato se desgastam com uma única leitura, a mentalidade moderna tende a achar que todo livro é sempre o mesmo, e que termina após a leitura. Mas isso não é verdade. E gradualmente a mentalidade moderna voltará a perceber esse fato. O verdadeiro prazer da leitura é reler o mesmo livro vez após vez, achando-o sempre diferente, descobrindo nele um novo significado, um novo nível de significação. […] A Bíblia é um livro que temporariamente morreu para nós, ou para alguns de nós, porque seu significado foi arbitrariamente fixado. Já a conhecemos de modo tão completo, em seu significado superficial ou popular, que está morta, não nos diz mais nada.[2]

Lawrence fala de livros, mas com filmes se dá o mesmo: podemos dizer que a tentativa de imanentizar[3] algo que, em si, emana o (ou convida ao) transcendente é sempre frustrada e frustrante.

O filme de Malick é isto: um grande mistério, um objeto de mirandum, de theoria aristotélica[4]. É um daqueles eventos que, antes de buscarmos a compreensão, devemos admirar demoradamente, sorvendo sensorialmente o objeto a fim de que ele “se revele” a nós. Henri Nouwen (1932 – 1996), filósofo e teólogo americano, escreveu um magnífico livro-reflexão sobre a parábola bíblica do Filho Pródigo, após passar vários dias sentado em frente à obra de Rembrandt no museu Hermitage. O tempo e a persistência, nesses casos, são fundamentais. Por isso, a intenção é preservar ao máximo a integridade do filme de Malick, e não dissecá-lo como um cadáver nas mãos de Descartes.

Um Requiem americano

Estamos em Waco, uma pequena cidade do Texas (EUA), nos anos 50. A recém-constituída família O’Brien é uma típica representante de sua época. O marido, Sr. O’Brien – vivido por Brad Pitt –, é, ao que parece, um engenheiro militar reformado, que tenta negociar suas patentes sem muito sucesso. Um típico homem de ação, tentando vencer pela força do trabalho. Para isso, inclusive, deixara para trás uma carreira promissora de músico profissional.

A esposa, Sra. O’Brien, é uma mulher dedicada e sóbria, cuja educação capacitou-a para uma compreensão da vida muito mais sensível e profunda que a de seu marido. E é no prólogo do filme – uma sequência deslumbrante – que isso se evidencia. A “etérea” personagem de Jessica Chastain profere um monólogo emblemático, que trata de delinear os papéis que ela e seu marido representam na trama. As imagens – da natureza, de animais e da própria Sra. O’Brien ainda criança – são oníricas e remetem a um tempo quase mítico. A música – Funeral Canticle (1996), do compositor britânico contemporâneo John Tavener – sacraliza a sequência. Sra. O’Brien diz:

O coração do homem tem dois caminhos a seguir na vida: o caminho da Natureza e o caminho da Graça. Você deve escolher qual dos dois seguir. A graça não tenta agradar a si mesma; ela aceita ser desprezada, esquecida, rejeitada; aceita insultos e machucados. A Natureza apenas tenta agradar a si própria; mas há outros para agradar também. Ela gosta do poder, de ter suas próprias escolhas. Encontra motivos para ser infeliz, enquanto todo o mundo brilha ao seu redor e o amor sorri para todas as coisas. Nos ensinaram que ninguém que ama o caminho da graça, tem um final infeliz.

Tree of Life 10

Natureza e Graça

Um pensamento tipicamente agostiniano que será retomado mais abaixo. E termina com uma afirmação desafiadora:

Eu Vos serei fiel, não importa o que acontecer.

É impossível ficar incólume a esse prólogo. E quem quer que se deixe envolver, durante esses primeiros quatro minutos de projeção, pela profundidade das palavras e pela beleza das imagens, não se arrepende.

Noite escura

Uma notícia bate à porta e o carteiro é o portador da desdita. Uma missiva sela o destino dos O’Brien. Aos poucos, nos damos conta de que perderam um filho na guerra do Vietnã. Seguem-se momentos de luto e dor comoventes. Os sentimentos da Sra. O’Brien se confundem; ela afirma sua fé e, ao mesmo tempo, questiona:

Não devo temer nenhum mal. Temer nenhum mal, porque estás comigo. [O que ganhaste?]

Sua mãe tenta consolá-la, inutilmente, confrontando a sua fé:

[…] Tu tens as lembranças dele… Ser forte agora é o que precisas, e… Sei que a dor passará com o tempo… agora pode parecer… É duro eu dizer isso, mas é a verdade. A vida continua, as pessoas se vão, nada fica igual. Tens ainda os outros dois. Deus dá e Deus tira. É assim que Ele é. Ele envia moscas à ferida que deveria curar.

E o marido lamenta: “Nunca tive a chance de lhe dizer o quanto me arrependi”. Há um corte para o futuro. Surge a personagem de Sean Penn, um arquiteto bem-sucedido, mas nitidamente melancólico, revelando (indiretamente) ser o primogênito dos O’Brien, Jack, irmão do jovem morto. Ele reflete:

Como chegaste a mim? Em qual forma? Em qual disfarce? Eu vejo a criança que eu fui. Vejo o meu irmão; verdadeiro, doce; ele morreu aos 19 anos.

As três perguntas de Jack são o início de sua anamnese[5], e parecem ser a base do roteiro de A Árvore da Vida. Aliás, grande parte do filme se passa “dentro da cabeça” de Jack O’Brien. Trata-se de uma história de reconciliação, de religação; de um homem fazendo perguntas e buscando respostas para a “Pergunta” feita no início do filme (esclarecimentos mais abaixo).

A voz da consciência

Nesse momento, já é possível notar que são as reflexões das personagens que dão o tom do roteiro. As falas em off são fundamentais para a compreensão do drama vivido pelos O’Brien – sobretudo a mãe e Jack. (Uma pequena observação: esse recurso também é amplamente utilizado em outra obra-prima de Malick: Além da Linha Vermelha, um clássico de guerra de 1998.)

Gênesis

tree-of-life1

Big Bang (?)

A narrativa não é linear. Imagens do passado e do futuro se entrelaçam – e, inicialmente, até confundem um pouco. Vemos o surgimento de um triste Jack O’Brien adulto, em sua bela casa, com sua esposa igualmente bela – que aparece por poucos minutos, completamente transtornada pela situação do marido; e depois o assistimos a perambular entre os arranha-céus de seu local de trabalho, e em imagens oníricas num deserto; e, após uma deslumbrante “nuvem” de pássaros, cuja coreografia arrebatadora preenche um céu avermelhado pelo pôr-do-sol, o filme dá um salto. Mas não um salto qualquer; é um salto para trás, muito para trás, para trás e para o alto; desloca-se para nada mais, nada menos, que a Origem do Universo. E é nesse ponto em especial que o filme mais divide opiniões. É nesse momento que, no cinema, pessoas se levantaram e deixaram, indignadas, a sala de projeção. Sobre essa sequência foram publicados, na internet, comentários enfurecidos, chamando-a de programa da National Geographic, Discovery Channel, etc. Pessoas chamaram Terrence Malick de maluco e o filme de pretensioso. Mas o fato é: somos submetidos a quase 20 minutos de uma experiência sensorial de tamanha grandeza, que é praticamente impossível descrevê-la sem reduzi-la.

A beleza impressionante das imagens de explosões, do nascimento de constelações, estrelas e planetas, tudo isso ao som da trilha brilhantemente composta por Alexandre Desplat (de O curioso caso de Benjamim Button e A Rainha), uma Lacrimosa de arrancar suspiros. Imagens do fundo do mar, do surgimento da vida, de algas marinhas, águas vivas, raias gigantes e até um esquisito nudibrânquio. O surgimento da vegetação rasteira e até uma árvore imponentemente solitária (no centro do jardim?).

thetreeoflife-dinosaur

“O nascimento da compaixão”

Da peculiar representação do surgimento dos dinossauros, vale comentar: o primeiro que surge é um gigantesco Plesiossauro, ferido, na praia; depois surgem dois Parassaurolofos e um Dromiceiomimo. Este último poupando um Parassaurolofos ferido à beira de um riacho. Tal cena foi chamada de “o nascimento da compaixão” [6].

Tudo isso apresentado com grande maestria e com a especial contribuição de Douglas Trumbull, supervisor de efeitos especiais do clássico 2001, Uma Odisséia no Espaço (de Stanley Kubrick), que havia 30 anos estava longe de Hollywood.

Extinção

Depois da sequência dos dinossauros, as cenas voltam para o espaço, ao som do estonteante trecho final do Offertorium, do Requiem de Hector Berlioz. A voz da Sra. O’Brien volta a ecoar:

Luz da minha vida, eu Vos procurei. Minha esperança. Meu filho.

Em seguida, em outra cena onírica, Jack, andando por um lugar ermo, reflete:

Falastes comigo através dela. Falastes comigo através do céu, das árvores. Antes que eu soubesse que Vos amava, que acreditava em Vós. Quando tocastes o meu coração pela primeira vez?

Neste momento, um asteróide atinge a Terra, e Malick reverbera a chamada teoria Extinção Cretáceo-Paleogeno (ou Extinção K-T), de que os dinossauros teriam sido extintos por causa dessa colisão, ocorrida há 65 milhões de anos, segundo a fértil imaginação dos cientistas.

 Idílio da infância

Ao término desse magnífico interlúdio, o filme segue mais linear. Voltamos ao casal O’Brien, recém-casado e feliz. E, ao som da canção Siciliana, da Suíte para Danças Antigas, de Ottorino Respighi, Jack O’Brien é concebido. Uma cena delicada, sem apelações e carregada de simbolismos. Jack nasce e recebe o olhar deslumbrado do pai, que segura carinhosamente os seus pezinhos – na cena que está estampada num dos cartazes do filme.

treeoflife21

Idílio da infância

Os próximos 11 minutos são, talvez, os mais bem realizados do filme. Jack cresce, os outros dois irmãos nascem, e aquela fase maravilhosa dos primeiros anos da infância passa vertiginosamente por nossos olhos, ao som de Hymn to Dionysus, de Gustav Holst, e do poema sinfônico Má Vlast, de Bedřich Smetana. Muito movimento e alegria.

 Natureza e Graça

Entramos no ambiente paradoxal da família O’Brien. O pai – o lado “Natureza” –, tenta, através de uma educação bastante austera e da dedicação irrestrita ao trabalho, mostrar aos filhos o que e como se deve fazer para “vencer na vida”. A mãe… bem, a mãe parece que já venceu. A Sra. O’Brien é a representante da Graça. Uma pessoa sensível, que tem uma relação muito particular com os animais e os elementos da natureza. Inclusive, numa cena muito interessante e bela, uma borboleta pousa em suas mãos, demonstrando sua ligação elevada – pura – com o natural (e desfazendo qualquer tentativa de maniqueísmo).

O sistema em casa é rígido: à mesa, nenhuma palavra; deve-se aparar a grama com perfeição; e os conselhos são carregados de um sentimento de virtude fracassada (ainda que com a intenção de livrar os filhos da mesma sorte). Tudo isso faz com que os garotos se ressintam do pai; especialmente Jack. R. L., o filho do meio (o que morre na guerra). Ele agrada ao Sr. O’Brien aprendendo a tocar violão, mas recusa suas aulas de defesa pessoal: “Bata em mim, vamos!”. Jack não suporta seus métodos – de, inclusive, os submeter a demonstrações forçadas de carinho: “Você ama seu pai?”.

Sr. O’Brien é um organista competente. Numa cena, toca a famosa Tocata e Fuga em ré menor, BWV 565, de Bach, enquanto os olhos de Jack, carregados de uma admiração ambígua, fitam demoradamente o pai.

Em seguida, uma cena na igreja e uma homilia sobre Jó:

Job-and-his-Friends

Jó e seus amigos

Jó imaginou que poderia construir seu ninho no alto. Que a integridade de seu comportamento o protegeria contra o infortúnio. E seus amigos pensaram, equivocadamente, que o Senhor só o teria punido porque secretamente teria feito algo errado. Mas não. O infortúnio acomete os bons também. Não podemos proteger-nos contra isso. Não podemos proteger nossos filhos. Não podemos dizer a nós mesmos: “mesmo que eu não esteja feliz, me certificarei que ele esteja”. Corremos com o vento, e achamos que ele nos levará para sempre. Não levará. Desaparecemos como uma nuvem; murchamos como a grama de outono. […] Ninguém sabe quando a tristeza pode visitar a sua casa mais do que Jó sabia. No momento em que tudo foi tirado de Jó, ele soube que foi o Senhor que havia tirado. Então parou de se preocupar com as coisas passageiras e procurou aquilo que é eterno. Será que ele só vê as mãos de Deus no que Ele nos dá. Ou não, também vê as mãos de Deus quanto Ele tira. Ele só vê Deus quando Deus se vira para ele? Não, Ele vê Deus quando Deus lhe vira as costas.

Um sermão de alerta e consolação, que se coaduna com as palavras de Jesus no Evangelho de Mateus: “Porque [Deus] faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos”. (Mateus 5:45).

tree_of_life_2-650x320

Jack

À medida que Jack cresce, também crescem suas idiossincrasias, suas dúvidas, sua rebeldia. E não há um motivo específico para isso. Os eventos, sua personalidade, o tratamento que recebe dos pais, dos irmãos… Tudo e nada disso é motivo para o seu crescente isolamento. Passa a invejar R. L., cujo talento artístico agrada ao pai. E, como sói acontecer aos meninos de sua idade, apaixona-se por uma mulher mais velha e casada, a ponto invadir sua casa em sua ausência e roubar-lhe uma camisola.

Redenção

Em determinado momento, o Sr. O’Brien viaja. Surge a Graça. Passe livre para brincadeiras, pulos na cama, correrias, risadas, piqueniques e muito carinho. Jack, inclusive, tem liberdade para satirizar a rigidez do pai. E a Graça ecoa:

Ajudai-vos uns aos outros. Amai a todos. Cada folha, cada raio de luz. Perdoai.

Mas Jack parece estar num caminho sem volta. Pratica maldades que nenhum dos amigos tem coragem – tal como, numa cena de evidente contrariedade com os demais garotos, quebrar os vidros da janela de uma casa por pura travessura. Agride os irmãos, os ameaça, derrama água na pintura de R. L., afronta a mãe com gritos. Mas também se arrepende, pede perdão, se angustia.

Voltando de viagem, o Sr. O’Brien perde a segurança que o emprego lhe dava, tendo que se sujeitar a ser transferido para um local indesejado. O fracasso lhe bate à porta. Isso o faz ter, constrangido, um surto de humildade. Em off (mais uma vez), ele confessa:

Eu queria ser amado por ser importante. Um grande homem. Eu não sou nada. Olhai a glória ao nosso redor. Árvores e pássaros. Eu vivia em vergonha. Desonrei tudo, e não reparei na glória. Um homem tolo.

A família O’Brien se muda, para longe. E, mais uma vez, o Requiem de Berlioz marca o final de tudo.

A única maneira de ser feliz é amar. A menos que ames, tua vida passará como num flash. Faças o bem a eles. Maravilha. Esperança.

São as palavras da Graça (Sra. O’Brien).

Seguem-se muitas explosões, e a Terra torna-se uma Estrela Fria.

Mas isso não é o fim.

A voz de R. L. (em off novamente) diz: Sigam-me. E, ao som arrebatador da Agnus Dei, ainda do Requiem de Berlioz, todos – pai, mãe, irmãos e uma multidão – se encontram, numa praia paradisíaca, caminhando entre mulheres que parecem ser anjos. A Sra. O’Brien abraça R. L. demoradamente, chora. Abre uma porta e o deixa sair, para o infinito. E, num emocionante movimento de entrega, diz: Eu Vos entrego. Entrego-vos meu filho.

Tree of Life 13

Entrega

Todos se abraçam, se reconciliam, se alegram; o sol brilha. O dia termina, nasce outro e o gozo continua. Jack, R. L. e os pais estão felizes. O sofrimento acabou. E o coro do Requiem diz por várias vezes: Amém.

O filme volta ao presente. Jack adulto aparece e esboça um sorriso no rosto em meio aos arranha-céus. Está consumado.

Incompreensão

Uma crítica na internet dizia:

Porque se há algo inegável em A Árvore da Vida é a opressiva ausência de Deus: constantemente questionado e clamado pelos personagens, o “criador” surge apenas em representações religiosas como vitrais que sobem em espiral (o que não deixa de remeter ao DNA à sua própria maneira) ou uma igreja vista ao longe – e equilibrada no quadro por uma árvore em primeiro plano, mais uma vez remetendo ao “natural” [7].

Este ensaio acaba de demonstrar exatamente o inverso: que, na visão de Malick, Deus está em tudo, permeando tudo, os bons e os maus eventos, o surgimento e extinção da Terra, do Universo, o Big Bang, a redenção eterna, a Graça e a Natureza que lutam dentro de Jack O’Brien. Numa entrevista ao jornal The Guardian, Brad Pitt diz:

Terry and I, we have our areas where we meet and we have our respectful disagreements. He sees God in science and science in God, and I respect that. But this idea of an all-powerful, watching being that’s controlling our moves and giving us a chance to say he’s the greatest so we get into some eternal heaven – that just doesn’t work for me, man. I got a real problem with it. I see the value of religion and what it offers to people as a cushion and I don’t want to step on that. On the other hand, I’ve seen where I grew up how it becomes separatist, and I get quite aggravated and antagonistic. I see religion more as a truck stop on your way to figuring out who you are. [8]

[Terry e eu temos nossos pontos de encontro e nossas discordâncias respeitosas. Ele vê Deus na ciência e a ciência em Deus, e eu respeito isso. Mas essa ideia de um vigia todo-poderoso que controla nossos movimentos e nos dá uma chance de dizer que ele é o maioral, e assim conseguimos o paraíso eterno… isso não funciona para mim, cara. Eu realmente tenho um problema com essa ideia. Vejo o valor da religião e o que ela oferece para as pessoas como uma espécie conforto e não quero espezinhar sobre ela. Por outro lado, tenho visto o lugar onde cresci se tornar separatista, e fico muito irritado e contrariado. Vejo a religião como uma parada na estrada que te leva a descobrir quem você é] (Grifo nosso).

Ou seja, Malick é um homem religioso, que pretende nos expor, em A Árvore da Vida, o modo como Deus age nos mínimos detalhes; na (e por meio da) Beleza, nos elementos da natureza, na alegria e, sobretudo, na tristeza. Como diz Pitt: Malick vê Deus em tudo. Pode-se, então, dizer que o filme é como um “retorno ao lar” de Jack O’Brien, que, a exemplo de C. S. Lewis e sua conversão, se dá sem nenhum alarde emocional; mas, antes, se manifesta numa impossibilidade de seguir por outro caminho[9]. Neste exercício de anamnese, o primogênito dos O’Brien revisita seu passado mais remoto a fim de se reconciliar com ele e, através dele, com sua família e com Deus.

Um Jó contemporâneo

Quem quer que tenha atentado para a epígrafe do filme – a citação do livro bíblico de Jó, reproduzida no início deste ensaio – percebe que se trata de um leitmotiv, e não de uma simples citação. Ao que me parece, a pergunta feita por Deus a Jó é uma resposta antecipada a todas as indagações em off das personagens de A Árvore da Vida. As perguntas de Deus no capítulo 38 deixam, como diz Chesterton,

Jó repentinamente satisfeito com a mera apresentação de algo impenetrável. Literalmente, os enigmas de Jeová parecem mais obscuros e desolados que os enigmas de Jó; mesmo assim, Jó estava desconsolado antes do discurso de Jeová e mais confortado depois dele. A ele não foi dito nada, mas ele sente a terrível e assustadora atmosfera de algo que é excessivamente bom para ser verbalizado. A recusa de Deus em explicar seu projeto é, em si, uma flamejante alusão ao Seu projeto. Os enigmas de Deus são mais satisfatórios que as soluções do homem.[10]

E a escolha entre a Natureza e Graça pode ser feita por meio da esperança de que Deus está no controle de todas as coisas. O filósofo Luiz Felipe Pondé percebeu bem os conceitos marcadamente agostinianos do filme [11]. Santo Agostinho escreveu uma obra – A Natureza e a Graça (415 d.C.) – em resposta ao monge Pelágio, procurando desfazer o equívoco pelagiano de dizer que a Natureza é e continua em si mesma boa. Agostinho diz que não, nossa natureza está adoecida pelo pecado e necessita da Graça de Deus para ser curada:

A natureza do homem foi criada no princípio sem culpa e sem nenhum vício. Mas a atual natureza, com a qual todos vêm ao mundo, como descendentes de Adão, tem agora necessidade de médico, devido a não gozar de saúde. […] A alma morta inclina-se à pratica de obras mortas até que, pela graça de Cristo recebe a vida.[12]

Agostinho ainda diz mais, que, ao optar pelo caminho da Natureza,

Deus às vezes te abandona no que te provoca a soberba, para te convenceres de que não és autônomo, mas Dele dependente, e assim aprenderás a vencer a soberba.

E há uma afirmação categórica de C. S. Lewis, em O Problema do Sofrimento, que corrobora perfeitamente com o que diz Agostinho:

Podemos repousar satisfeitos em nossos pecados e estupidez; e quem quer que tenha observado os glutões engolindo os alimentos mais delicados como se não soubessem o que comiam, irá admitir que podemos ignorar até mesmo o prazer. Mas o sofrimento insiste em ser notado. Deus sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas grita em nosso sofrimento: ele é o seu megafone para despertar um mundo surdo.[13]

Quem pode negar que parece ser esse o retrato de Jack e seu pai? Quem nega que foram as escolhas que os levaram a uma vida pesada em sofrimentos? Se há nas entrelinhas pretensões mais profundas e simbólicas em A Árvore da Vida, não são essas que, num primeiro momento, devem chamar a nossa atenção. Antes, porém, a capacidade que o diretor teve para construir, corajosamente, uma história ousada, profunda e fundamentada em conceitos teológicos de alto nível, sem o menor escrúpulo ou medo de ser criticado – e no mundo de hoje, principalmente entre os intelectuais, é mais do que comum esse surto de laicismo fora de hora, apadrinhado por um neo-ateísmo militante piegas.

2012 Fun Fun Fun Fest - Day 1

Terrence Malick

Malick não teve receio de trazer à tona novamente um assunto tão caro a gênios da estirpe de Andrei Tarkovski, Ingmar Bergman e Robert Bresson, em cujas obras Deus se revela em suas três formas existencialmente mais significativas: como (1) o terrível despótes veterotestamentário; ou o (2) Emanuel do Novo Testamento; ou, ainda, como (3) o Deus absconditus dos medievais. Manifestações distintas Daquele cuja graça “sem a qual nem as crianças nem os adultos podem ser salvos, não é dada em consideração aos merecimentos, mas gratuitamente, o que caracteriza a concessão como graça. Justificados gratuitamente pelo seu sangue”[14].

A história dos O’Brien nos toca não porque é contada de maneira pretensiosa por Terrence Malick, mas porque pode ser (e é) a história de cada um de nós.

 Paulo Cruz


[1] Termo retirado de um ensaio de Eric Voegelin publicado em Anamnese (1972, publicado no Brasil em 2009 pela editora É Realizações); porém, o conceito permeia toda a sua obra: Tanto o chamado erotismo platônico da busca (zetesís) quanto a atitude aporética de Aristóteles, intelectualmente mais agressiva, reconhecem no “homem questionante” o homem movido por Deus a pôr as questões que o conduziram à causa do ser (arché). A própria busca é a evidência da inquietação existencial; no ato de questionar, a experiência humana de tensão (tasís) para o fundamento divino irrompe na palavra da interrogação como uma oração pelo Verbo da resposta. Questões e respostas estão intimamente relacionadas; a busca move-se no que Platão designou por metaxy, a realidade interina da pobreza e da riqueza, do humano e do divino; a questão é conhecimento, mas este conhecimento é ainda o tremor de uma questão que pode ou não alcançar a verdadeira resposta. (VOEGELIN, Eric. Evangelho e Cultura. Disponível em: <http://christianrocha.files.wordpress.com/2009/05/eric-voegelin-evangelho-e-cultura.pdf>.)

[2] LAWRENCE, D. H. Apocalipse, seguido de O Homem que morreu. São Paulo: Cia das Letras, 1990, pp. 14, 15.

[3] Se a consciência da ligação cósmica do ser, que jaz no fundo de todo pensamento filosófico, diminui, então surgem os bem conhecidos perigos de um mundo sem deus e de um deus sem um mundo, de um mundo reduzido apenas a um nexo de relações entre coisas existentes, de tal maneira que já não é um mundo, e de um deus reduzido a mera existência, de tal maneira que já não é um deus. (VOEGELIN, Eric. Anamnese, São Paulo: É Realizações, 2009, p. 207. Tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca).

[4] Mas se a felicidade (eudaimonia) consista na atividade conforme a excelência (areten), é razoável que ela seja uma atividade conforme à mais alta de todas as formas de excelência, e esta será a excelência da melhor parte de cada um de nós. Se esta parte melhor é o intelecto, ou qualquer outra parte considerada naturalmente dominante em nós e que nos dirige e tem o conhecimento das coisas nobilitantes e divinas, se ela mesma é divina ou somente a parte mais divina existente em nós, então sua atividade conforme à espécie de excelência que lhe é pertinente será a felicidade perfeita. Já dissemos que essa atividade é contemplativa (theoretike). (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, Brasília: UNB, 1985, p. 201; 1177a10-19. Tradução de Mário da Gama Kury).

[5] Uma filosofia da ordem é o processo através do qual encontramos a ordem de nossa existência como seres humanos na ordem da consciência. Platão deixou esta filosofia ser dominada pelo símbolo da Anamnese, recordação. Recordado, no entanto, será o que foi esquecido, e recordamos o esquecido – algumas vezes com dor considerável – porque ele não deve permanecer esquecido. O esquecido culpavelmente será trazido à presença do conhecimento através da recordação, e na tensão para o conhecimento, da agnoia no sentido platônico. O conhecimento e o não-conhecimento são estados de ordem e desordem existencial. O que foi esquecido, entretanto, pode ser lembrado apenas porque é um conhecimento à maneira de oblívio, que através de sua presença no oblívio, provoca o desassossego existencial, que forçará seu crescimento à maneira de conhecimento. (VOEGELIN, Op. Cit., pp. 47-48).

[9] Aquilo que eu temia tanto pairava afinal sobre mim. Cedi, enfim, no período do ano letivo subsequente à Páscoa de 1929, admitindo que Deus era Deus, e ajoelhai-me e orei: talvez, naquela noite, o mais deprimido e relutante converso de toda a Inglaterra. (LEWIS, C. S. Surpreendido pela Alegria. São Paulo: Mundo Cristão, 1998, p. 232).

[12] AGOSTINHO, A Natureza e a Graça. São Paulo: Paulus, 1999, p. 136.

[13] LEWIS, C. S., O problema do sofrimento, São Paulo: Vida, 2006, pp. 105, 106.

[14] AGOSTINHO, Ibid., p. 115.