Arquivo do mês: fevereiro 2016

E O OSCAR VAI PARA…

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Lars von Trier, o controverso cineasta dinamarquês, em 2005 produziu um filme curioso: Manderlay – continuação do premiado Dogville (2003) e parte de uma trilogia inacabada, USA: Land of Opportunities. Tais películas ficaram famosas pela inovação nas filmagens, 9fev2014---lars-von-trier-ironiza-o-apelido-que-recebeu-no-festival-de-cannes-com-a-declaracao-persona-non-grata-estampada-na-camiseta-1391956641941_956x500realizadas num galpão escuro, com iluminação precária e praticamente sem cenários – apenas demarcando o chão com fita branca.

Mas não é por isso que Manderlay chama a atenção. Enquanto em Dogville a personagem Grace está fugindo de seu pai gangster, em Manderlay ela o está acompanhando. Os carros estão parados em uma estrada e os dois estão discutindo. De repente, uma mulher negra sai de um portão e pede ajuda, dizendo que um homem está na iminência de ser chicoteado por seus senhores. A mulher saíra de Manderlay – uma fazenda de algodão que vive um sistema escravista. O problema é que já tinham passado 70 anos da abolição! Grace se espanta e resolve intervir.

Entram em Manderlay e impedem o castigo, mas são confrontados pela Senhora, a dona doManderlay_movie_poster local, e seus filhos. Os capangas de Grace ameaçam, a Senhora tem um mal súbito e morre, deixando, curiosamente, aqueles escravos completamente desnorteados. Wilhelm, que é o negro mais velho daquele grupo, chora ajoelhado à beira da cama da Senhora, o que deixa Grace confusa. Ela se aproxima e oferece um consolo sem palavra, mas o homem quebra o silêncio: “Tenho medo”. Grace diz: “Não há o que temer, levaremos todas as armas da família”. Mas ele responde: “Não. Tenho medo do que acontecerá agora. Temo não estarmos preparados para uma vida totalmente nova. Em Manderlay, os escravos jantam às 19h. A que horas jantam as pessoas livres?”.

Ou seja, aqueles negros não tinham a menor ideia de como viver sem que alguém comandasse e/ou aprovasse suas atividades mais rotineiras. Eram totalmente dependentes do arbítrio alheio. Então Grace manderlay-vertdecide ficar para ajudá-los nessa caminhada rumo à liberdade. O problema é que isso não ocorre, pois o tempo passa e os libertos continuam subservientes, indolentes e sem perspectiva. Talvez tenham percebido que a liberdade cobra um alto preço e optado por permanecer escravos.

O filme tem um tom irônico, e a escravidão é só um gancho para outros temas abordados indiretamente. No entanto, sempre me lembro dele quando vejo negros comportando-se como se a escravidão fosse um sistema ainda vigente, a subtrair direitos e cercear liberdades. Como se o racismo, produto imoral de tal sistema, ainda merecesse uma reação
à altura dos tempos da Casa Grande e da Senzala.

Por falar em cinema, o Oscar 2016 é um exemplo notório dessa mentalidade. A falta de negros indicados, pelo segundo ano consecutivo, fez o diretor Spike Lee propor, juntamente com o casal Will e Jada Pinkett Smith, um boicote à premiação. Ou seja, ao mesmo tempo que criticam um sistema, desejam que ele os reconheça; não pelo mérito, 1164289_630x354mas pela cor. Como se ainda precisassem ouvir da Senhora: “muito bem, meu filho”.

O que essas pessoas não percebem é que ser livre é, também, ser preterido, e cobrar reparação perene é voltar à escravidão. Ainda que a uma escravidão ideológica.

Disse bem o rapper Ice Cube sobre esse assunto em uma entrevista recente: “não fazemos filmes para a indústria, fazemos para os fãs […]. Isso é ridículo”. Mas os eternos escravos de Hollywood só querem mesmo é o reconhecimento dos senhores.

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Artigo publicado no jornal Gazeta do Povo em 30/01/2016:

http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/e-o-oscar-vai-para-4bxrtca53hy53yro6ceij0hrk

Paulo Cruz é professor de Filosofia e mestrando em Ciências da Religião.

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