Arquivo do mês: maio 2012

Conhecimento como formação

O conhecimento como formação intelectual

Uma reflexão baseada no filme

The Great Debaters, de Denzel Washington

“Todos os homens , por natureza, tendem ao saber[1].” (Aristóteles. Metafísica, I)

A frase acima é de Aristóteles[2], filósofo grego e um dos mais importantes pensadores de todos os tempos. Esta é a primeira sentença da obra máxima de Aristóteles, a Metafísica­ – na verdade um conjunto de livros que tratam das questões que estavam além da física, do grego: tà metà tà physiká. Figura nesta obra o que Aristóteles considerava de maior relevância na investigação filosófica: a causa primeira de todas as coisas. Portanto, ter o conhecimento citado logo na primeira sentença de sua obra máxima nos dá uma idéia de sua extrema importância.

O que Aristóteles diz é que é da natureza do ser humano a tendência[3] para o conhecimento, para o saber como formação intelectual. E, se o levarmos realmente a sério, podemos dizer que todo aquele que se recusa à busca do conhecimento – e aqui acrescento, a excelência no saber – está contra sua própria natureza.

A epígrafe de Aristóteles não é fortuita. Suas idéias são a força motriz do filme The Great Debaters [O Grande Desafio], segundo longa dirigido por Denzel Washington – onde também atua como protagonista. Suas formulações na área da Lógica e da Retórica dão forma ao modelo de debates do filme.

“A Lógica é a arte do pensamento, e a Retórica é a arte de comunicar o pensamento de uma mente à outra, ou a adaptação da linguagem à circunstância”[4], escreve Irmã Miriam Joseph, autora de O Trivium (É Realizações, 2008). Estas duas “disciplinas”, somadas à Gramática, fazem parte da educação tradicional liberal da Idade Média (aprox. ano 800) conhecida como TRIVIUM[5]. O Trivium, juntamente com o Quadrivium (Aritmética, Geometria, Astronomia e Música), formava o conjunto das sete Artes Liberais[6], cujo intuito era fornecer uma educação sólida para um indivíduo.

Irmã Mirian Joseph (1898 – 1982), uma freira e professora norteamericana, recuperou o Trivium para ensiná-lo num colégio nos EUA na década de 1930, pois entendeu a diferença entre os saberes técnicos, utilitários e o conhecimento fornecido pelas Artes Liberais.[7]

O que vemos no filme são alunos selecionados entre os melhores e treinados na arte da persuasão (Retórica) e do pensar correto (Lógica). E mais, era preciso um preparo não só técnico, mas cultural, acima da mera instrução. Era preciso rigor científico de pesquisa, o que só um conhecimento integrado, “generalista”, oferece. E isso os permitiu quebrar os paradigmas sociais da época (herança dos muitos anos de escravidão) e ultrapassar a barreira racial que separava brancos e negros. Isso tudo por causa da inteligência, do conhecimento, da cultura. Foram desbravadores de uma experiência transformadora no mundo acadêmico da época, pois permaneceram invictos por dez anos e venceram uma das melhores faculdades “brancas” dos EUA (University of Southern California – no filme, retratada como a Harvard University).

Gustave Thibon (1903 – 2001), filósofo francês, dizia existir uma grande diferença entre a Instrução e a Cultura; e que, apesar das duas serem aquisição de conhecimentos, a Cultura exigia a participação vital, a vivência interior do sujeito[8]. Por isso, há um processo complexo no instruir-se, no educar-se.

Dora Ferreira da Silva (1918 – 2006), poeta brasileira, descreve em versos o sofrimento e o desabrochar do saber:

EDUCAR-SE

Educar-se na ausência

nas portas seladas

de maçanetas que giram sozinhas.

No mistério educar-se

ultrapassando horizontes

sem nada pedir:

a boca resolve-se

em silêncio.

Silêncio é esquecimento

do que passou tão depressa

para o passo da alma.

Tristeza desfez-se em brumas

alegria súbito acendeu-se

num raio oblíquo

e as estrelas vieram

definitivas. [9]

Uma vida intelectual consistente, que faça diferença na sociedade, exige muito esforço. A ideia equivocada do “hábito de leitura” não ajuda quem quer construir uma base sólida de conhecimentos, pois não se trata simplesmente de ler, mas o que ler e como ler. C. S. Lewis – professor acadêmico, crítico literário e poeta (famoso pela série As Crônicas de Nárnia) – escreveu que há uma grande diferença entre receber e usar uma obra de arte – em nosso caso, aqui, a Literatura[10]. Porém, essa exigência mínima para uma formação intelectual consistente gerará frutos não só naquele que estuda e se aplica, mas em todos à sua volta.

No contexto do filme, não só os quatro alunos (Henry Lowe, Samantha Booke, James Farmer Jr. e Hamilton Burgess) merecem destaque, mas toda uma geração de negros americanos, citados no início do filme pelo professor Melvin Tolson (Washington), que iniciaram um movimento intelectual e cultural extremamente rico no Harlem, bairro negro dos EUA. Nomes como os poetas Gwendolyn Bennett, Countee Cullen e Langston Hughes, bem como W. E. B. Du Bois – o primeiro negro a graduar-se e doutorar-se (Ph.D.) em Harvard – influenciaram e transformaram a história não só dos negros americanos, mas de todos os EUA. O Harlem Renaissance, como este movimento ficou conhecido, foi o embrião de iniciativas importantíssimas, tais como o Movimento pelos Direitos Civis, de Martin Luther King Jr.

Mas vale também a ressalva de dizer que o conhecimento integra e segrega, pois, ao nos instruirmos com essa profundidade, saímos da camada comum, somos alçados a um nível de compreensão diferenciado da realidade e tornamo-nos mais críticos e seletos em nossas escolhas. Por outro lado, abre-se para nós um acesso cultural elevado, para apreciação de coisas que dificilmente teríamos condições de apreciar e vivenciar tendo uma instrução de nível, digamos, mediano.

Portanto, o que temos diante de nós não é só um incentivo à leitura e à instrução, mas um desafio a ser vencido; é uma porta que se abre para a formação intelectual sólida, para um conhecimento cultural profundo, capaz de transformar o indivíduo e – por que não? – a sociedade.

 Paulo Cruz


[1] ARISTÓTELES. Metafísica. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2005. Saber, aqui, vem do grego ειδω (eido), que tem como um dos significados: ser perito em, tomar forma (formar-se).

[2] Aristóteles: filósofo grego nascido em 384/383 a.C., em Estagira, na Macedônia. Foi aluno de Platão (outro grande filósofo e com quem forma a dupla de maior destaque do pensamento ocidental) e ficou em sua Escola, a Academia, durante vinte anos; saindo após a morte deste para fundar sua própria Escola, o Liceu, em 334.

[3] Tendência: n substantivo feminino

a.            aquilo que leva alguém a seguir um determinado caminho ou a agir de certa forma; predisposição, propensão

b.            disposição natural; inclinação, vocação

(Fonte: Dicionário Houaiss. Grifos meus.)

[4] JOSEPH, Irmã Miriam. O Trivium. São Paulo: É Realizações, 2008, p. 21.

[5] Trivium significa o cruzamento e a articulação de três ramos ou caminhos e tem a conotação de um “cruzamento de estradas” acessível a todos (Ibid. apud Catholic Encyclopedia, vol. 1, s.v., “The Seven Liberal Arts”)

[6] “A educação prospera mais quando se a procura livremente. Este é o sentido da palavra ‘liberal’(de líber, livre), nas Sete Artes Liberais da Idade Média, que eram ensinadas ao homem livre, em oposição às artes ‘iliberais’ presa, controlada por guildas (corporações de ofícios)”. José Monir Nasser, In: Ibid. p. 12.

[7] “As artes utilitárias ou servis permitem que alguém sirva a – outrem, ao estado, a uma corporação, a uma profissão – e que ganhe a vida. As artes liberais, em contraste, ensinam como viver; elas treinam uma pessoa a erguer-se acima de seu ambiente natural para viver uma vida intelectual e racional, e, portanto, a viver uma vida conquistando a verdade”. (Ibid, p. 20)

[8] “Uma pessoa pode ser muito culta sem ser muito instruída, e pode ser muita instruída sem ser culta. Mais precisamente, toda cultura implica um mínimo de instrução, mas a recíproca não é verdadeira: pode-se ter muita instrução e não ter cultura alguma. É possível ser erudito ou “sábio” de uma maneira puramente mecânica e por efeito de uma doutrinação puramente externa”. (THIBON, Gustave. Palestra proferida em Lausanne, em 18 de abril de 1965. Tradução: Fernando Marques.

[9] SILVA, Dora Ferreira. Cartografia do Imaginário. São Paulo: TA Queiroz Editor, 2003, p. 120

[10] “Uma obra de arte tanto pode ser ‘recebida’ como usada. Quando é ‘recebida’, exercemos o nossos sentidos e imaginação, bem como vários outros poderes, de acordo com um padrão inventado pelo artista. Quando a ‘usamos’, tratamo-la como um [mero] auxílio para nossas próprias atividades (…) ‘Usar’ é inferior a ‘receber’, porque a arte, quando mais usada que recebida, limita-se a facilitar, abrilhantar, aliviar ou suavizar a nossa vida, mas sem nada lhe acrescentar”. (LEWIS, C. S. A experiência de ler. Lisboa: Elementos Sudoeste, 2003, p. 123, 124)


Bronson

Acabei de rever “Bronson” (2008), do dinamarquês Nicolas Winding Refn, com Tom Hardy ( de “A Origem”) no papel principal.

“Charles Bronson” é o apelido de Michael Gordon Peterson, conhecido como o prisioneiro mais violento da Inglaterra. Foi preso por várias vezes desde 1974, chegando a ficar 30 anos na solitária! Em 2000 recebeu a sentença de prisão perpétua e cumpre pena na Wakefield High-Security Prison. [http://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Bronson_(prisoner)]

“Bronson” é baseado na vida de Michael, se é que se pode chamar aquilo de vida. É um filme sensacional! Uma espécie de “Laranja Mecânica” da vida real; e, justamente por ser “real”, é mais seco, mais poderoso, mais dramático, mais tragicômico,… melhor (perdoem-me os kubrickianos)! É narrado pelo próprio Bronson (Hardy), paralelamente, para uma platéia de black-tie, numa espécie de stand-up. Essas intervenções acontecem de tempos em tempos, antecedendo ou comentando as cenas viscerais de ação violenta do filme. Há uma dessas intervenções que é simplesmente magnífica! Ele aparece com o rosto pintado (metade mulher, metade ele mesmo), fazendo dois papeis, girando freneticamente em 180º, criando um diálogo muito interessante.

Refn é um excelente diretor – assim como todos os diretores e atores dinamarqueses –, cria cenas marcantes e inesquecíveis.

Tom Hardy, que em Hollywood só faz papéis coadjuvantes, está perfeito! Segura o filme com maestria, transmitindo com imenso talento toda a carga (pesada, violenta e curiosamente cômica – há momentos de humor-negro engraçadíssimos, que, de certa forma, aplacam a extrema violência) que uma personagem como Charlie Bronson carrega, e quase o transforma num mito.

Se Bronson não estivesse vivo, seria difícil acreditar que um sujeito assim existiu.

Na ótima trilha sonora, nada mais, nada menos que a poderosa ópera Götterdammerung (O crepúsculo dos deuses), de Richard Wagner!

Vale a pena conferir!

Paulo Cruz


Jack Lewis e eu

A INFLUÊNCIA DE C. S. LEWIS EM MINHA VIDA CRISTÃ E INTELECTUAL


Confesso francamente todas as ambições idiotas do fim do século XIX. Como todos os outros menininhos pomposos, tentei colocar-me à frente de meu tempo; e descobri que estava 1800 anos atrás. Forcei minha voz com penoso exagero juvenil ao proferir minhas verdades. E fui punido da maneira mais adequada e engraçada, pois mantive as verdades: mas descobri, não que não eram verdades, mas simplesmente que não eram minhas. Quando imaginei que estava sozinho encontrei-me de fato na ridícula posição de receber o apoio de toda a cristandade. Deus me perdoe, mas talvez eu tenha tentado ser original; mas só consegui inventar por minha própria iniciativa uma cópia inferior das tradições existentes da religião civilizada. O navegador pensou ser o primeiro a descobrir a Inglaterra; eu julguei ser o primeiro a descobrir a Europa. Tentei fundar uma heresia só minha; e quando lhe dei o último acabamento descobri que era a ortodoxia. (CHESTERTON, G. K. Ortodoxia).

Não me lembro de uma influência tão marcante, depois do Senhor Jesus – creio que seja preciso dizer –, do que a impressa em mim pela leitura das obras de C. S. Lewis; isso logo nos primórdios de minha conversão ao cristianismo.

Dietrich Bonhoeffer também foi fundamental, mas posterior e de maneira diferente.

Lewis é um tipo fascinante. Acho que, principalmente, por ter sido a criança que não fui. Não que eu não goste da criança que fui, mas porque, de certa maneira, foi ele, e não eu, que entrou em contato com as óperas de Richard Wagner – uma paixão mais que tardia, em meu caso – ainda na infância. Alguém que pode, nessa mesma infância, vislumbrar os versos arrebatadores de Longfellow, em sua tradução do poema Drapa, de Isaías Tegner:

I heard a voice, that cried,

“Balder the Beautiful

Is dead, is dead!”

[Ouvi uma voz, que chorava,

“Bálder, o Belo,

Está morto, está morto!”][1]

e ser fisgado, como um peixe, pelo que chamou de Alegria, a “Flor Azul” de Novalis.

Também foi ele, e não eu, um “produto de longos corredores, cômodos vazios e banhados de sol, silêncios no piso superior, sótãos explorados em solidão, ruídos distantes de caixas-d’água e tubos murmurantes, e o barulho do vento sobre as telhas. Além disso, de livros infindáveis”[2].

Veja, caro leitor, não falo isso com inveja; digo mais por causa de minha fascinação por elementos biográficos formadores, do que por qualquer outra coisa. Tenho os meus, é certo, mas descobrir os de outros – principalmente daqueles que admiro – provocam em mim uma espécie de nostalgia por quem não fui.

Lembro-me de ter lido avidamente a biografia de Thomas Merton – o famoso monge (e poeta) trapista americano – e entrado em crise. Os elementos formadores vividos em seu período universitário são descritos de maneira fascinante! E também de ter lido a autobiografia de Eric Voegelin – tema de meu TCC em Filosofia, dada a paixão imediata – numa única noite, completamente extasiado.

O anseio incontido – quase desesperado – de Lewis pela Alegria, de certa forma, se parece com o meu. Mas eu nunca consegui denominá-lo, ou sequer percebê-lo, até minha própria conversão. Acho que ele também; mas registrou isso num livro, e eu não (risos).

A Alegria, para Lewis, é “uma espécie particular de infelicidade ou pesar. Só que do tipo que queremos”. Uma ânsia pelo inatingível, só comparada ao anseio por Deus. Com isso, quero concordar com o que disse o cineasta Andrei Tarkovski: “A arte nasce e se afirma onde quer que exista uma ânsia eterna e insaciável pelo espiritual, pelo ideal”; e completa dizendo que “o artista é sempre um servidor, e está eternamente tentando pagar pelo dom que, como que por milagre, lhe foi concedido” [3]. Todo artista é, de fato, um “refém” da Alegria.

A imaginação artística que se apoderou de Lewis na infância só chegou a mim, com a devida intensidade, perto dos trinta anos. Se bem que, a primeira experiência de deslumbramento artístico que tive foi com a leitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis, nos tempos de Ginásio (hoje Fundamental II). A dúvida “Capitu-traiu-ou-não-traiu” me foi avassaladora! Não consegui parar de ler, mesmo depois de passado o dia da prova (vê-se o interesse no livro per se). E não obstante todo o absurdo de ter-se que ler livros para ser avaliado – o que causava ojeriza em qualquer garoto propenso a não estudar – terminei a leitura de Dom Casmurro, digamos, realizado. E fim, esse foi o único livro que li na infância.

Só voltei a ler na adolescência, por alguma influência que ignoro. Mas se continuei – e melhorei o nível, passando de Paulo Coelho a Tolstói – foi por influência direta de meu pai, um ávido leitor.

Voltando a Lewis.

Clive Staples Lewis (Jack, como gostava de ser chamado) nasceu em Belfast, na Irlanda do Norte, em 1898, filho de um advogado e da filha de um pastor. Cresceu num ambiente de cristãos nominais e nada fervorosos. Perdeu a mãe aos nove anos de idade, uma experiência que o marcara profundamente[4].

Lewis relata três bênçãos fundamentais de sua infância: (1) “bons pais, boa comida e um jardim (que então parecia grande) onde brincar”; (2) a babá Lizzie Endicott, “na qual mesmo a exigente memória da infância não consegue apontar falhas”; e (3) seu irmão Warren (Warnie) Lewis, um companheiro durante toda a vida[5].

Depois de passar por alguns professores particulares e por internatos – e aqui vale destacar a figura marcante de W. T. Kirkpatrick, professor que Lewis comparava a uma “entidade puramente lógica”, ocupando um capítulo inteiro de sua autobiografia e cuja importância foi ter lhe ensinado a pensar – recebe uma bolsa de estudos em Oxford. No mesmo ano, ingressa em um batalhão do Exército para servir na Primeira Guerra, de onde voltaria, ferido, quase dois anos depois.

Depois de concluídos seus estudos, consegue um cargo de instrutor no Magdalen College, em Oxford, onde permaneceu por 29 anos!

Em Oxford conheceu homens cuja grande amizade desfrutaria por toda a vida, sobretudo: J. R. R Tolkien, Nevill Coghill, Hugo Dyson, Owen Barfileld e Charles Williams. Com estes (e outros) formaria os Inklings, espécie de confraria intelectual, que se reunia para ler e debater seus temas favoritos. O grupo existiu formalmente de 1933 até meados de 1949. Num Pub, em Oxford, chamado The Eagle and Child ou no próprio escritório de Lewis no Magdalen College, foram gestadas e discutidas as grandes obras destes homens; com destaque para O Senhor dos Anéis, de Tolkien – cujo encorajamento de Lewis foi fundamental, e sem o qual, disse Tolkien, ele nunca teria terminado e publicado – e também As Crônicas de Nárnia, de Lewis, obra influenciada por Tolkien, e também duramente criticada por este, por causa de seu tom excessivamente alegórico.

Foi também por influência dos Inklings que Lewis voltou ao cristianismo.

Após longos anos de ateísmo materialista e pessimismo, Lewis toma contato com as obras de George MacDonald e G. K. Chesterton. O choque ao ler Phantastes, de MacDonald, com “suas jornadas pelas matas, os inimigos fantasmagóricos, as damas boas e más da narrativa” o extasiaram. Diz ele: “pela primeira vez o canto das sereias soava como a voz da minha mãe ou da minha babá”[6]. Quando ferido, num hospital na França, teve o primeiro contato com um volume de ensaio de Chesterton. Lewis relata: “Talvez fosse de se esperar que meu pessimismo, ateísmo e ódio do sentimentalismo fizessem dele para mim o menos atraente de todos os escritores. Parece até que a Providência, ou alguma ‘causa segunda’, de uma espécie bem obscura, supere nossas inclinações anteriores quando decide aproximar duas mentes”[7].

Daqui para frente Lewis estaria a um passo da crença. E diz ainda: “Na leitura de Chesterton, como na de MacDonald, eu não sabia aquilo em que estava me enredando. O jovem que deseja se conservar ateu ortodoxo não pode ser seletivo demais nas leituras. A ciladas estão em toda parte – Bíblias abertas, milhões de surpresas, como diz [George] Herbert – ‘finas malhas e armadilhas’”[8].

Ainda vale a pena citar um trecho sobre Chesterton e MacDonald, descrevendo a reação de Lewis aos dois antes de sua conversão:

“George MacDonald fizera mais por mim que qualquer outro escritor; logicamente, era uma pena ter ele aquela espécie de obsessão com o cristianismo. Ele era bom, apesar disso. Chesterton era mais sensato que todos os outros modernos juntos; salvo, é claro, seu cristianismo. […] O desfecho de tudo pode praticamente ser expresso pela corruptela do grande verso de Roland, na Chanson: ‘os cristãos estão errados, mas todos os outros são chatos’”[9].

Dali,  então, passou a considerar alguma forma de idealismo, mas sem relação alguma com qualquer tipo de divindade. Porém, quando percebeu, por onde olhava via cristãos, ou religiosos; e se viu exposto. Relata, num tom ligeiramente cômico:

“A raposa fora expulsa da Floresta Hegeliana e agora corria em campo aberto, ‘com toda a angustia do mundo’, desgrenhada e exausta, os cães já no seu encalço. E quase todos agora (de uma forma ou de outra) faziam parte da matilha: Platão, Dante, MacDonald, Herbert, Barfield, Tolkien, Dyson, a própria Alegria. Tudo e todos se haviam unido do outro lado”[10].

E quando menos esperava…:

“Aquilo que eu temia tanto pairava afinal sobre mim. Cedi, enfim, no período do ano letivo subsequente à Páscoa de 1929, admitindo que Deus era Deus, e ajoelhai-me e orei: talvez, naquela noite, o mais deprimido e relutante converso de toda a Inglaterra”[11].

No entanto, é importante salientar que até então Lewis só se convertera a uma espécie de teísmo, sem ainda admitir a obra de Jesus Cristo. Mas aqui, toda sua longa vivência como um estudioso e amante da Imaginação e dos Mitos o ajudou, e muito. Numa conversa com Tolkien e Dyson sobre mitos, ele finalmente começou a compreender a Encarnação. A esse respeito, quem escreve é seu biógrafo David Downing:

“No dia 1º de outubro de 1931, chegou a palavra definitiva, quando Jack escreveu a Arthur [Greeves]: ‘Acabo de passar do crer em Deus ao crer definitivamente em Cristo – no cristianismo’, acrescentando que ‘seu longo passeio noturno com Dyson e Tolkien estava diretamente relacionado a isso’. Jack descrevera seu longo passeio com J. R. R. Tolkien e Hugo Dyson numa carta a Arthur na semana anterior, dizendo que os três haviam começado a falar sobre metáfora e mito logo após o jantar, continuando a conversa enquanto caminhavam ao longo do Addison’s Walk perto do alojamento de Jack no Magdalen College e só foram dormir às quatro da manhã. […] De modo específico, proporcionou-lhe um modo de entender a encarnação como o cumprimento histórico dos mitos do Deus-que-morre encontrados em muitas culturas”[12].

Uma semana depois – e antes da carta enviada a Greeves -, num passeio de moto com seu irmão até o zoológico, Lewis diz:

“Sei muito bem quando se deu o passo final, embora me escape como. Fui levado até Whipsnade numa manhã ensolarada. Quando partimos, eu não acreditava que Jesus Cristo é o Filho de Deus, e quando chegamos ao zoológico, já cria”[13].

Muito se poderia dizer ainda sobre a vida de C. S. Lewis: seu casamento com Joy Davidman, suas riquíssimas e comoventes trocas de cartas, suas doações generosas, o abrigo de crianças na guerra etc; mas foi essa história, de uma conversão incomum e sem grandes arroubos emocionais – como a minha – que fez de Lewis uma de minhas maiores influências. Inspiram-me, sobretudo, o grande escritor religioso e defensor da fé que Lewis se tornou depois que encontrou a Cristo – não obstante os constantes protestos (e até certo afastamento) de seu grande amigo J. R. R. Tolkien, para quem a Teologia deveria ser assunto para “profissionais”. Produziu obras magistrais como Cristianismo Puro e Simples[14], O Problema do Sofrimento, Os Quatro Amores, A Abolição do Homem e As Crônicas de Nárnia, e que o transformaram, notoriamente, num gênio a serviço do Reino de Deus.

Paulo Cruz

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Referências bibliográficas

CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2007.

DOWNING, David. C. S. Lewis – o mais relutante dos convertidos. São Paulo: Vida, 2006.

DURIEZ, Colin. Tolkien e C. S. Lewis – O dom da amizade. São Paulo: Nova Fronteira, 2006.

LEWIS, C. S. Supreendido pela Alegria. São Paulo: Mundo Cristão, 1998.


[1] LEWIS, 1998, p. 24.

[2] Ibid. p. 18.

[3] TARKOVSKI, 2002, p. 40.

[4] Com a morte de minha mãe, toda a felicidade serena, tudo o que era tranquilo e confiável, desapareceu de minha vida. Estava por vir muita diversão, muitos prazeres, muitas punhaladas da Alegria; mas nada da velha segurança. Agora era mar e ilhas; o grande continente afundara como Atlântida. (LEWIS, 1998, p. 28).

[5] LEWIS, 1998, pp. 13, 14.

[6] LEWIS, 1998, p. 184.

[7] Ibid., p. 194.

[8] Ibid., p. 196.

[9] Ibid., pp. 218, 219.

[10] Ibid., p. 229.

[11] Ibid. p. 232.

[12] DOWNING, 2006, p. 156.

[13] LEWIS, 1998, p. 242.

[14] Transcrição de uma série de programas que Lewis apresentou na Rádio BBC no tempo da 2ª Guerra, a pedido dos próprios combatentes.