Ficção científica contra o cientificismo

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Uma análise de Além do Planeta Silencioso, de C. S. Lewis

Se vocês fossem súditos de Maleldil,

teriam paz. (Oyarsa de Malacandra)

 

Clive Staples Lewis (1898 – 1962) – C. S. Lewis – foi um dos mais importantes intelectuais do séc. XX. Teve sua formação profundamente influenciada pela literatura imaginativa de sua infância e juventude, fato reconhecido publicamente em carta à Milton Society of America, em 1954:

“[Em todos os meus livros] há um fio condutor. O homem imaginativo em mim é mais velho, mais continuamente operativo e, nesse sentido, mais básico que o escritor religioso ou o crítico.” [1].

Inclusive, foi essa mesma paixão que o encaminhou novamente ao Cristianismo. E mesmo em suas obras mais teóricas é possível notar essa marca pungente da imaginação. Tal 31om07lewismodo de encarar a fé o ligou, de maneira indelével, às figuras extraordinárias de seus mentores (tais como George MacDonald e G. K. Chesterton), e de seus amigos (como J. R. R. Tolkien e Dorothy L. Sayers), expoentes e defensores dos Contos de Fadas. Lewis, inclusive, diz que ainda nos tempos de ateísmo teve sua imaginação batizada pela leitura de MacDonald [2].

Além de autor de obras teológico-filosóficas importantes – tais como O problema do sofrimento e A abolição do Homem – foi um notável escritor de histórias de Fantasia, dentre as quais se destaca a série infanto-juvenil As Crônicas de Nárnia (escrita entre 1949 e 1954), sucesso absoluto do gênero, com mais de 100 milhões de cópias vendidas, e traduzida para mais de 40 idiomas.

No entanto, antes de escrever as Crônicas, Lewis se viu diante dos eventos que antecederam a Segunda Guerra Mundial. Após sua curta participação como soldado na Primeira Grande Guerra – fora ferido poucos meses depois de ser deslocado para a França, em Novembro de 1917 –, Lewis sabia muito bem quais horrores uma guerra poderia produzir. Mais do que isso, percebia que a influência muito sutil de certo Evolucionismo e Darwinismo Social começava a povoar o imaginário das pessoas comuns, e que esse fato, certamente, contribuía para dar crédito à aura cientificista que se iniciara na metade do séc. XIX, e encontrara seu correspondente literário nas obras de autores como H. G. Wells, Olaf Stapledon, Bernard Shaw etc., grandes homens da literatura de ficção científica daqueles tempos. Lewis fora leitor voraz de Wells em sua infância, e afirma que o fascínio por outros planetas exercia sobre ele um sentimento arrebatador semelhante à luxúria [3].

Cientificistas

Wells, Stapledon, Haldane e Shaw

Em 1937, ele e seu amigo J. R. R. Tolkien – autor da saga O Senhor dos Anéis – julgaram, numa conversa informal, haver muito pouco do que eles realmente gostavam nas histórias de ficção científica, e out-of-the-silent-planetdecidiram fazer uma aposta: cada um deveria tentar escrever uma história do gênero. Tolkien escreveria uma “viagem no tempo”, e Lewis uma “viagem ao espaço”. Dessa aposta surgiu  Além do Planeta Silencioso (Out of Silent Planet), primeiro volume daquela que seria conhecida como a Trilogia Cósmica (ou Trilogia Espacial ou Trilogia de Ransom), de Lewis. O livro de Tolkien – conhecido como A estrada perdida – nunca foi terminado [4]. A trilogia está dividida em: Além do Planeta Silencioso (Out of Silent Planet), Perelandra (Perelandra) e Uma força medonha (That hideous strength), publicados em 1938, 1943 e 1945, respectivamente. Lewis Perelandra-1nos conta que escrever esses livros foi um exercício não tanto de satisfação daquela sua arrebatadora curiosidade por “outros mundos” mas o seu exorcismo [5].That-Hideous-Strength

Costuma-se dividir a Trilogia por tema: Além do Planeta Silencioso como uma viagem cósmica, Perelandra como uma fantasia edênica, e Essa força medonha como uma sátira à Academia moderna [6]. E é exatamente em seu primeiro livro que se encontra a crítica mais contundente e direta ao cientificismo literário. Numa carta a seu amigo e biógrafo Roger Lancelyn Green, escreve:

“O que imediatamente me estimulou a escrever foi o livro Primeiros e Últimos Homens [1930], de  Olaf Stapledon , e o ensaio de J. B. S. Haldane chamado Mundos Possíveis [1927], os quais pareciam levar a sério a ideia desse tipo de viagem e ter a perspectiva desesperadamente imoral que eu tentei ridicularizar em Weston. Eu gosto de pensar toda ideia inter-planetária como uma mitologia e simplesmente queria trazer para o meu ponto de vista (cristão) o que, até agora, tem sido usado pelo lado oposto” [7].

Curiosamente, um dos amigos de Lewis em Oxford cunhou, para definir essa onda cientificista que assolava a Inglaterra de seus dias, um neologismo diretamente ligado a H. G. Wells:  Wellsianity. Em duas ocasiões [8] Lewis se refere a esse termo para falar da perspectiva científica darwinista de Wells e sua grande influência na imaginação dos leitores de suas obras.

Wells também era um conhecido membro da Sociedade Fabiana – um movimento socialista britânico nascido no final do século XIX, que tinha como proposta a elevação da classe operária para torná-la apta a assumir o controle dos meios de produção – e escreveu livros sobre a Nova Ordem Mundial, como o famoso The Open Conspiracy [9]. Lewis, em carta a seu amigo de infância Arthur Greeves, diz lamentar que “Wells tenha vendido sua primogenitura por um ‘prato de mensagem’” [10].

Em Além do Planeta Silencioso, Lewis faz, ao mesmo tempo, uma homenagem a Wells, pela grande influência que este exercera em sua imaginação juvenil, e fornece uma resposta crítica à sua visão de mundo, numa brilhante inversão de paradigma.  Há, inclusive, referências diretas ao livro Os primeiros homens da Lua (1901) [11]. A nota inicial do livro diz:

“Observações depreciativas a histórias anteriores desse gênero aparecem neste livro meramente para fins dramáticos. O autor lamentaria se algum leitor o imaginasse tolo demais para apreciar as fantasias do senhor H. G. Wells ou ingrato demais para não reconhecer tudo o que ele deve a elas” [12].

Além do Planeta Silencioso conta a história de Elwin Ransom – protagonista de toda a Trilogia –, um filólogo (em homenagem a Tolkien), e sua viagem ao planeta Malacandra. Ransom está fazendo uma viagem a pé quando encontra uma senhora e resolve perguntar-lhe sobre um local onde pudesse pernoitar. A mulher diz que não tinha nada por perto, mas aproveita para falar de seu filho Harry, que trabalhava numa fazenda próxima dali, mas ainda não voltara de lá – e isso a estava preocupando, pois já deveria estar em casa. Ransom, então, promete tentar descobrir o paradeiro do rapaz (e conseguir um local para descansar).

Chegando à propriedade, viu que o portão estava trancado e havia uma sebe que servia de muro. Decidiu, por conta da promessa feita à mulher, entrar por um vão embaixo do portão. Ao entrar, logo ouviu vozes, e, aproximando-se, viu que se tratava de uma briga entre três homens; um deles, visivelmente mais jovem, parecia ser Harry. Interveio na confusão com um tímido “Ei! Ora essa…” [13] e os homens tiveram um sobressalto. Irritado, um deles pergunta: “Posso perguntar quem é você e o que está fazendo aqui?” [14] Ransom se apresenta e é reconhecido por um dos homens, que fora seu colega de faculdade. O dono da propriedade chamava-se Edward Weston, um cientista; o outro chamava-se Dick Devine (o antigo colega de Ransom). Após uma conversa um tanto confusa, os dois resolvem soltar Harry, mas – numa atitude um tanto sinistra – convidam Ransom para ficar. Mesmo estranhando um pouco, ele entra. Oferecem-lhe uma bebida. Ransom bebe, sente-se tonto, desmaia e acorda no que descobre ser uma nave espacial (esférica, como a de Wells em Os primeiros homens da lua).

Neste ponto já é possível perceber a índole maldosa, diabólica, dos raptores de Ransom, característica que Lewis deixa transparecer nos vilões da Trilogia. Note-se que não se trata somente de uma maldade ética ou social, mas teológica. Tais personagens abusam das imprecações blasfematórias e revelam uma mentalidade claramente maligna. David Downing esclarece que:

“Essas personagens revelam em seu discurso um estado de espírito que demonstra que Screwtape [o demônio mais velho de Cartas de um diabo a seu aprendiz] os tem exatamente onde quer que estejam” [15].

Weston revela a Ransom que eles estão a caminho de Malacandra – planeta cujo nome, diz a Ransom, descobriu pelos próprios habitantes, evidenciando que estivera lá anteriormente. Não diz qual o motivo da viagem, mas deixa claro que seus objetivos visam algo muito maior: “salvar a humanidade”. E diz, triunfalmente:

“Na realidade, admito que tivemos de infringir alguns direitos seus. Minha única defesa é que os fins justificam os meios. Ao que nos seja dado saber, estamos fazendo o que nunca foi feito na história do homem, talvez na história do universo. Aprendemos a saltar do cisco de matéria no qual nossa espécie surgiu. O infinito e, portanto, talvez a eternidade, está sendo posto nas mãos da espécie humana. Você pode ser tão mesquinho a ponto de pensar que os direitos ou a vida de um indivíduo ou de um milhão de indivíduos tenham a menor importância em comparação com isso” [16].

Tal aparente superioridade apregoada por Weston é, em Além do Planeta Silencioso, claramente, uma inversão na filosofia de H. G. Wells presente em outro de seus best-sellers: A Guerra dos Mundos. A começar pelo fato de serem os terráqueos a invadir um outro planeta, e não o contrário. O darwinismo social de Wells transmite uma ideia de progresso e evolução totalmente materialista e cientificista; é a Wellsianidade [Wellsianity] criticada por Lewis [17].

Outra curiosa inversão que Lewis faz na filosofia cientificista está no espanto que Ransom tem ao ver o Espaço, que, ao contrário do que sempre lera e imaginara, não era vazio e monótono, mas cheio de “vida” [18].

Vale lembrar que Lewis não era contra ciência em si, mas contra a sua supervalorização, como se tal perspectiva, baseada no culto à racionalidade, desenvolvimentista e reducionista, pudesse resolver todos os problemas da humanidade – pretensão que, em certo sentido, perdura até os dias de hoje. Essa exacerbação dos domínios da ciência será alvo de críticas de Lewis também em sua obra A abolição do homem (1943), um ensaio sobre Educação e Moral Natural que investe categoricamente contra a perspectiva racionalista do progresso com uma frase lapidar: “a conquista do Homem sobre a Natureza revela-se, no momento de sua consumação, a conquista da Natureza sobre o Homem” [19]. Como nos diz Alister McGrath:

“Lewis temia que os triunfos da ciência pudessem correr mais rápido do que os indispensáveis avanços éticos que forneciam o conhecimento, a disciplina e a virtude de que a ciência precisava” [20].

Ao chegarem em Malacandra – que posteriormente descobrirá se tratar do planeta Marte (a Terra era chamada por eles de Thulcandra, o Planeta Silencioso) –, Ransom consegue fugir de Weston e Devine em meio

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Sorn

a uma confusão entre os terráqueos e algumas criaturas malacandrianas que encontram, os sorns, mesmo sem saber ainda por qual motivo fora capturado. Depois de correr muito, Ransom  tem o primeiro deslumbramento de estar a milhões de quilômetros de casa: o planeta parece mais convidativo que amedrontador. Toma contato com a estranha

hross

Hross

vegetação do local, bebe água e come de um não menos estranho fruto, que o sacia imediatamente. Anda mais um pouco e encontra uma criatura,
parecida com uma doninha gigante, num pequeno barco: um hross. Consegue estabelecer contato, utilizando todos os seus dotes de filólogo, e percebe que a criatura é bastante amigável. É levado à aldeia dos hrossa e lá permanece por um longo tempo. Não só aprende o idioma daquelas estranhas e afetuosas criaturas, como se dá conta de que são portadoras de uma moralidade bastante elevada e de uma religião curiosíssima.

Quando revela aos hrossa que não estava só, que fora trazido por outros dois homens tortos (o equivalente a mau em malacandriano),

“[…] os hrossa acharam tudo isso muito difícil, mas por fim todos concordaram que ele deveria ir ver o Oyarsa. Oyarsa o protegeria. Ransom perguntou quem era Oyarsa. Devagar e com muitos erros de interpretação, ele extraiu a informação de que Oyarsa (1) morava em Meldilorn; (2) sabia tudo e governava todos; (3) sempre existiu; (4) não era um hross, nem era um dos séroni. E então Ransom, seguindo um palpite seu, perguntou se Oyarsa tinha criado o mundo. Os hrossa quase latiram com o fervor da negativa que deram. Os habitantes de Thulcandra não sabiam que Maleldil, o Jovem, criara e ainda governava o mundo? Até uma criança sabia isso” [21].

Surpreendeu-se ainda mais ao saber que existiam outros seres, de natureza sutil, chamados eldila, semelhante aos anjos do Cristianismo. E também os pfifltriggi, mineradores hábeis para trabalhar com o arbol hru, “sangue do Sol” – ouro, o que fez Ransom entender o interesse de Devine por Malacandra, já que o de Weston era “científico”.

Por fim Ransom descobre, para seu completo espanto, que essa variedade seres  de Malacandra – hrossa, sorns e pfifltriggi, cujo

pfifltriggi

Pfifiltriggi

coletivo era conhecido como hnau, que Ransom intuiu ser semelhante ao termo criatura (havia uma dúvida se os eldila eram hnau) – viviam em perfeita harmonia e paz, governadas por um Oyarsa, uma inteligência tutelar guardiã de todo o planeta. Eram hnau criados por Maleldil, e importava a eles permanecerem como este os criara. A prudência dos malacandrianos fica muito evidente numa conversa que Ransom tem com Hyoi, seu amigo hrossa, enquanto preparavam seu barco [22].

Na audiência posterior com o Oyarsa de Malacandra, descobre que o nosso mundo também possui um Oyarsa, mas este se tornou Torto e fora expulso da presença de Maleldil [23]. Depois, o Oyarsa malacandriano pede a Ransom que lhe conte mais especificamente sobre o que Maleldil fez a Thulcandra (aparentemente ele tinha apenas informações gerais). E após Ransom contar a história (que Lewis não narra, mas deixa entender que é a História da Redenção Cristã), o Grande Eldil  diz: “Você me revelou mais coisas assombrosas do que é conhecido em todos os céus” [24].

A semelhança com a doutrina cristã não é mera coincidência. Porém, não é uma semelhança, digamos, ortodoxa. A abordagem que Lewis faz é imaginativa, permitindo-se alterações para adequá-las à sua narrativa [25]. Não é exatamente uma alegoria, mas um modo de, como ele mesmo disse, “imaginar em voz alta […] o que Deus poderia ter feito em outros mundos” [26].

Quando ocorre o tão temido reencontro com Weston e Devine, Ransom está com Hyoi e este é assassinado por Weston, que lhe “jogou a morte de longe” – ou seja, atirou (as armas de fogo não eram conhecidas em Malacandra). Ransom foge e é orientado por outro hrossa a ir, imediatamente, ao encontro do Oyarsa. Já em presença do Grande Eldil, Ransom tem esclarecida sua ida a Malacandra: fora chamado. O Oyarsa tentara contato amigável com Weston e Devine quando estes estiveram pela primeira vez em Malacandra, e enviou alguns sorns ao encontro dos tortos. Sem sucesso, pediu aos sorns que lhes dissessem que não seria permitido pegar “sangue do Sol” (estavam pegando ouro onde quer que encontrassem) enquanto não trouxessem alguém com quem pudesse conversar. Ou seja, a ida de Ransom não foi propriamente um rapto, mas arquitetada pelo próprio Oyarsa de Malacandra [27].

Quando Ransom esclarece que Devine estava interessado em ouro, e Weston na dominação de Malacandra e extermínio dos hnau para a expansão dos domínios terrestres, a pergunta do Oyarsa é uma clara ironia à ideia de dominação interplanetária presente nos livros de H. G. Wells: “Eles têm alguma lesão no cérebro?” [28]. E toda a explicação de Ransom é recebida pelo Oyarsa com um misto de surpresa e desprezo.

Por fim, quando os dois tortos são trazidos à presença do Oyarsa, dá-se a cena mais irônica de Além do Planeta Silencioso. Primeiro porque Weston e Devine não entendem de onde sai a voz do Grande Eldil, pois não o veem; e como racionalistas ateus, duvidam de sua autenticidade:

– Por que vocês mataram os meus hnau?

Weston e Devine olharam ansiosos ao redor para identificar quem estava falando.

– Meu Deus! – exclamou Devine em inglês. – Não me diga que eles têm um alto-falante?

– Ventriloquia – retrucou Weston, num sussurro rouco. – Bastante comum entre selvagens. O feiticeiro ou curandeiro finge entrar em transe e lança a voz. O que temos que fazer é identificar o curandeiro e dirigir nossos comentários a ele, não importa de onde a voz pareça estar  vindo. Isso destrói sua coragem e mostra que você detectou a tramóia. Você está vendo algum selvagem em transe? Com mil demônios, já o vi! [29]

Outra curiosa ironia é a conversa entre os tortos e o Oyarsa, que tem de ser traduzida por Ransom, pois o conhecimento de  Weston da língua malacandriana era bastante  rudimentar (no texto, foi “traduzida” num inglês cheio de erros gramaticais por Lewis). Inclusive, o discurso arrogante e grandiloquente de Weston foi amenizado por Ransom:

– […] Você dar muito sangue do Sol para nós, nós voltar para o céu. Você nunca mais ver nós. Certo?

– Silêncio – disse Oyarsa. Houve uma alteração quase imperceptível na luz, se é que ela poderia ser chamada de luz, de onde a voz provinha. Devine se encolheu todo e caiu. Quando retomou sua posição, sentado, estava branco e ofegante.

– Prossiga – disse Oyarsa a Weston.

Mim, não… não… – começou Weston  em malacandriano e então desistiu de tentar. – Não consigo dizer o que quer nessa língua maldita – disse em inglês.

– Fale com Ransom e ele traduzirá para nossa língua – disse Oyarsa. [30]

O que se segue é absolutamente emblemático. Weston declara todo seu cientificismo prepotente e retrógrado – apesar de Malacandra ser um mundo aparentemente primitivo no que se referia à tecnologia, eram muito mais avançados moralmente:

– Para você posso parecer um ladrão vulgar, mas carrego nos ombros o destino da espécie humana. Sua vida tribal, com armas da Idade da Pedra e cabanas semelhantes a colmeias, seus barquinhos primitivos e sua estrutura social elementar, não têm nada que se compare com nossa civilização: com nossa ciência, nossa medicina e nosso Direito, nossos exércitos, nossa arquitetura, nosso comércio e nosso sistema de transporte, que está rapidamente ultrapassando os obstáculos de espaço e tempo. Nosso direito de sobrepujá-los é o direito do superior sobre o inferior. A vida… [31]

Então Ransom traduz para o malacandriano, fazendo as adequações necessárias e amenizando o tom de pretensa superioridade tanto quanto possível. Continua Weston:

– A vida é maior que qualquer sistema de moralidade. Suas exigências são absolutas. Não é com tabus tribais e máximas banais que ela seguiu seu curso implacável da ameba ao homem e do homem à civilização.

E depois de mais algumas declarações seu discurso termina, num tom claramente triunfalista:

– Posso cair, mas enquanto eu viver, não consentirei, com um chave dessas nas mãos, em fechar os portões do futuro para os da minha espécie. O que o futuro nos reserva, para além do nosso conhecimento atual, é inconcebível para a imaginação. Basta, para mim, que haja um Além”. [32]

A resposta de Oyarsa não poderia começar melhor: “– Foi bom ouvi-lo. Pois, embora sua mente seja mais fraca, sua vontade é menos torta do que eu pensava. Não é para si mesmo que você faria tudo isso”.[33]

E após alguma discussão sobre as motivações de Weston, Oyarsa declara:

– Agora vejo como o senhor do mundo silencioso modificou você. Existem leis conhecidas por todos os hnau, leis de piedade, justiça, vergonha etc., e uma destas é o amor aos seus semelhantes. Ele ensinou você a desobedecer a todas elas, exceto esta última, que não é uma das maiores. Ele deturpou-a de tal maneira que a transformou em loucura e tomou conta de seu cérebro onde governa tudo como se fosse um pequenino Oyarsa cego. Nada mais lhe resta senão obedecê-la; apesar disto, se lhe perguntarmos porque ela é uma lei, você não poderá dar uma razão diferente da que faz as outras serem leis; estas, no entanto, embora maiores que ela, são desobedecidas [34].

É evidente que Weston não acredita em nada do que ouve, mas ouve algo que o exaspera completamente:

– Você não pergunta por que meu povo, cujo mundo é velho, não foi para o seu e apoderou-se dele há muito tempo?

– Ho! Ho! – disse Weston. Vocês não saber como fazer.

– Você está errado – disse Oyarsa. Há milhares de anos atrás, quando ainda não existia vida em seu mundo, a morte gelada estava invadindo meu harandra. Neste tempo eu estava muito preocupado, não tanto com a morte dos meus hnau, pois Maleldil não lhes deu vida muito longa, mas com os pensamentos que o senhor do seu mundo, que ainda não estava preso, botara em suas cabeças. O Oyarsa Mau teria feito com que eles fossem como vocês são agora, bastante sábios para perceber a aproximação do fim de sua espécie, mas não para suportá-lo. Conselheiros errados teriam logo surgido entre eles. Eram perfeitamente capazes de construir naves de espaço. Maleldil, porém, fez com que parassem, através de minha pessoa. Curei alguns, desencarnei outros…

– Agora ver resultado! interrompeu Weston. Vocês muito poucos agora presos à handramit, logo morrer todos.

– Sim, disse Oyarsa, mas há uma coisa que abandonamos de vez na harandra: o medo. E com o medo, o assassinato e a rebelião. O mais fraco entre todo o meu povo não tem medo da morte. É o Espírito Mau de seu mundo que estraga suas vidas fazendo com que procurem fugir daquilo que no fim a todos alcançará. Se vocês fossem súditos de Maleldil, teriam paz[35].

O desfecho dessa audiência é a expulsão dos terráqueos. O Oyarsa mesmo se encarrega de enviá-los de volta à Terra em sua nave danificada. Faz uma proposta a Ransom de que ele poderia ficar se quisesse; o que ele, humildemente, nega.

Por fim, ao término do livro percebemos bem o que C. S. Lewis pretendia combater. Além do Planeta Silencioso é um livro escrito com muita delicadeza, e Lewis utiliza toda sua capacidade, bem como sua grande apreciação por histórias de ficção científica, para nos brindar com uma narrativa cuja criatividade só encontra paralelo n’O Senhor dos Anéis, de seu amigo Tolkien.

Paulo Cruz

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Referências bibliográficas

CARPENTER, Humphrey. A Cartas de J. R. R. Tolkien. São Paulo: Arte e Letra, 1981, Kindle Edition.

DOWNING, David. C. S. Lewis — o mais relutante dos convertidos. São Paulo: Vida, 2006.

Planets in peril — A critical study of C. S. Lewis’s Ransom trilogy. Massachusetts: University of Massachusetts, 1992.

LEWIS, C. S. A Abolição do Homem. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

Além do Planeta Silencioso. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

O Peso de Glória. São Paulo: Vida, 2010.

Surpreendido pela Alegria. São Paulo: Mundo Cristão, 1998.

MCGRATH, Alister. A vida de C. S. Lewis: do ateísmo às terras de Nárnia. São Paulo: Mundo Cristão, 2013.

 

SITES

Making the Poor Best of Dull Things: C. S. Lewis as Poet. in: http://cslewis.drzeus.net/papers/dullthings.html (acesso em 08/07/2014).

There is No Such Thing As Space. In: http://apilgriminnarnia.com/2012/06/20/space/ (Acesso em 10/07/2014).

The War of the Worldviews: H.G. Wells vs. C.S. Lewis. In: http://apilgriminnarnia.com/2012/08/28/warofworldviews1/

[1] Disponível em: http://cslewis.drzeus.net/papers/dullthings.html (tradução nossa. Acesso em 08/07/2014).

[2] “Na profundeza das minhas ignomínias, na então inabalável ignorância do meu intelecto, tudo isso me foi dado sem questionamento, sem consentimento até. Naquela noite minha imaginação foi, num certo sentido, batizada; o restante de mim, não sem razão, demorou mais tempo”. (LEWIS, 1998, p. 186).

[3] “A ideia de outros planetas exercia sobre mim uma atração peculiar e inebriante, bem diferente de quaisquer outros dos meus interesses literários. […] O interesse, quando me vinham as crises, era arrebatador, como a luxúria.” (Ibid., p. 42).

 [4] Cf.: CARPENTER, 1981, Kindle Edition, pos. 727.

 [5] Cf.: LEWIS, op. cit., p. 42.

[6] Cf.: DOWNING, 1992, pp. 5-6.

 *Filósofo e escritor britânico.

** Biólogo e geneticista britânico.

[7] GREEN, HOOPER, 1975, p. 163, apud DOWNING, op. cit., pp. 36-37, tradução nossa.

[8] Cf.: LEWIS, C. S.. “Teologia é Poesia”. In:_____.O Peso de Glória. São Paulo: Vida, 2008; LEWIS, C. S.. “The Funeral of a Great Myth”. In: Christian Reflections. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1967.

[9] http://en.wikipedia.org/wiki/The_Open_Conspiracy (Acesso em 11/07/2014).

[10] Cf.: GREEN, HOOPER, 1975, p. 164, apud DOWNING, op. cit., p. 124).

[11] Lewis reconheceu seu débito para com Wells, e ao lermos Além do Planeta Silencioso, somos frequentemente atingidos por suas semelhanças com Primeiros Homens na Lua. Ambas as histórias retratam um físico determinado que constrói uma nave espacial esférica em seu quintal, acompanhado por um homem mais jovem em busca de ouro interplanetário; ambas as naves fazem uso de um enigmático dispositivo anti-gravidade; tanto um quanto outro mencionam o tilintar de meteoritos sobre o casco da nave e as venezianas de aço utilizadas para a luz do sol intensa; Ambos mostram terráqueos cheios de temores sobre mundos alienígenas que, numa audiência com o espírito guardião, descobrem que eles é que representam um perigo para as outras espécies. (DOWNING, op. cit., p. 124, tradução nossa).

[12] LEWIS, 2010, nota.

[13] Ibid., p. 08.

[14] Ibid., p. 08.

[15] DOWNING, op. cit., p. 85, tradução nossa.

[16] LEWIS, op. cit., p.30.

[17] Cf.: http://apilgriminnarnia.com/2012/06/20/space/ (Acesso em 10/07/2014).

[18] […] com a passagem do tempo, Ransom foi se conscientizando de outra causa mais espiritual para essa progressiva leveza e exultação do coração. Ele estava se livrando de um pesadelo, há muito tempo gerado na mente moderna pela mitologia  que segue na esteira da ciência. Ransom tinha lido sobre o “Espaço”: há anos, ocultava-se  no fundo do seu pensamento a lúgubre fantasia do vácuo negro e frio, da total ausência de vida, que supostamente separava os mundo. Até agora, não sabia  quanto essa ideia o afetava – agora que o próprio nome “Espaço” parecia uma blasfêmia caluniosa, diante do oceano empíreo de radiância no qual eles nadavam. Não poderia chamá-lo de “morto”; sentia que a vida se derramava do oceano para dentro dele a todo instante. (LEWIS, op. cit., p. 38).

[19] LEWIS, 2005, p. 64.

[20] McGRATH, 2013, p. 249.

[21] LEWIS, op. cit., p. 90.

[22] A natureza bélica dos preparativos sugeriu muitas perguntas a Ransom. Ele não conhecia uma palavra para “guerra”, mas conseguiu fazer com que Hyoi entendesse o que queria saber. Os séroni, os hrossa e os pfifltriggi saiam em expedições daquele tipo, uns contra os outros?

– Para que? – perguntou Hyoi.

Foi difícil explicar.

– Se duas espécies quisessem a mesma coisa, e nenhuma cedesse – disse Ransom –, uma delas não acabaria recorrendo à força, dizendo “tratem de nos dar ou mataremos vocês”?

– Que tipo de coisa?

– Bem, comida, talvez.

– Se outro hnau quisesse comida, por que nós não a daríamos? Com frequência é o que fazemos.

– Mas e se não tivéssemos o suficiente para nós mesmos?

– Mas Maleldil não para de fazer crescer as plantas. (LEWIS, Ibid., p. 96).

[23] No passado, nós conhecíamos o Oyarsa do seu mundo… ele era mais brilhante e maior do que eu… e naquela época não a chamávamos de Thulcandra. É a história mais longa e mais amarga de todas. Ele se tornou torto. Isso ocorreu antes que qualquer tipo de vida surgisse no seu mundo. Aqueles foram os Anos Tortos, dos quais ainda falamos nos céus, quando ele ainda não estava preso a Thulcandra, mas livre como nós. Sua intenção era estragar outros mundos além do seu. Ele atingiu sua lua com a mão esquerda e, com a direita, trouxe a morte pelo frio à minha harandra [montes] antes do tempo. Se por meu braço Maleldil não aberto as handramits [vales] e deixado fluir as fontes termais, meu mundo teria sido despovoado. Não o deixamos à solta  por muito tempo. Houve uma guerra tremenda, e nós o expulsamos  dos céus e o prendemos no ar de seu próprio mundo, como Maleldil nos ensinou. Lá ele sem dúvida permanece até agora, e nada mais sabemos daquele planeta: ele é silencioso. (LEWIS, Ibid, pp. 164-165).

[24] Cf.: LEWIS, Ibid., p. 194.

[25] Isso é certamente assunto de ficção científica. Também é teologia cristã, embora com um tom distintamente medieval. Em resposta a questionamentos sobre o simbolismo da Trilogia, Lewis explicou, sem rodeios, que Maleldil, o Velho e o Jovem representam o Pai e o Filho da teologia cristã, que os eldils representam os anjos e o Torto era Satanás (DOWNING, op. cit., pp. 40-41. Tradução nossa).

[26] Cf.: LEWIS, 1966, apud DOWNING, Ibid., pg. 41.

[27] Cf.: LEWIS, op. cit., pp. 166-167.

[28] Cf. LEWIS, Ibid., pp. 167-168.

[29] LEWIS, Ibid. p. 172.

[30] LEWIS, Ibid. pp. 183-184.

[31] LEWIS, Ibid. p. 184.

[32] LEWIS, Ibid. pp. 185, 187.

[33] LEWIS, Ibid. p. 188.

[34] LEWIS, Ibid. p. 189.

[35] LEWIS, Ibid. pp. 190-191 (Grifo nosso).

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O turbante e a turba

Artigo publicado em 07 de outubro de 2015 no jornal Gazeta do Povo.

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“Quem construiu as pirâmides?, gritou o orador ismaelita. Um negro. Quem inventou a circulação do sangue? Um negro. […] Quem descobriu a América? […] Como tão nobremente escreveu o escritor negro Karl Marx, […] África para o trabalhador africano, Europa para o trabalhador africano, Ásia, Oceania, América, Ártico e Antártida para o trabalhador africano.”

O discurso acima poderia ter sido escrito por Cheikh Anta Diop – cheikh_anta_86antropólogo senegalês, coordenador da História Geral da África, da Unesco –, cuja tese era de que o Egito Antigo não só foi o berço da civilização, mas uma nação negra e influente, fonte, inclusive, da filosofia grega, de onde Platão e Aristóteles teriam roubado, dentre outras coisas, sua cosmogonia. Mas não: o excerto pertence ao romance Scoop, do satirista britânico Evelyn Waugh, e retrata muito bem o caráter megalômano da teoria de Diop.

A ideia pan-africanista busca uma identidade soberana negra, africana na diáspora, e ganhou força no início do século 20, com Marcus Garvey e W.E.B. Du Bois; demonstra o desejo de autoafirmação dos negros americanos após o fim da escravidão. Du Bois falava dos laços afetivos com a “mãe pátria”, e garantia que os negros tinham uma mensagem positiva para oferecer enquanto “raça negra”; e reacendeu o debate (eugenista e europeu) acerca do racismo biológico.

A tese de Du Bois é romântica, atraente, mas inconsistente. Primeiro, duboisporque o conceito de raças, no sentido biológico, é falso – e Du Bois não conseguiu desvencilhar-se dele. E, depois, porque tal unidade africana nunca existiu na África.

Recentemente, os teóricos afrocentristas embriagaram-se de fontes francesas (pode?) – principalmente Pierre Bourdieu e Michel Foucault, figuras onipresentes nas teses acadêmicas esquerdistas – e na ideologia do multiculturalismo, e termos como “apropriação cultural” e “poder simbólico” tornaram-se a chave-mestra do debate racial contemporâneo.

Daí que a investida mais recente do movimento negro é a apropriação cultural de teorias europeias para defender a exclusividade de uma cultura negra turban-Sophia-Lorencomo “símbolo de luta”. Assim, reivindicam o controle sobre o que as pessoas podem usar (e dizer) pela cor de sua pele; ou, pior ainda, por sua “identificação cultural” – veja o caso dos turbantes. Invertem o famigerado “Colored Only” da segregação americana, e assinam um atestado de incoerência. No Brasil, esse terrorismo ideológico cerceia a liberdade das pessoas e cria um falso separatismo num país majoritariamente miscigenado.

Paradoxalmente, o pan-africanista Du Bois, primeiro negro a obter um doutorado em Harvard, não era separatista. Culto, elegante e de escrita requintada – The Souls of Black Folk encantou o eminente filósofo William James, seu professor –, sabia o que era bom. Nas palavras do filósofo anglo-ganês Kwame Appiah:

“[Du Bois] era um homem de esquerda, mas um elitista e um dândi, que desenvolveu a noção de que a comunidade afroamericana deveria ser conduzida pelo que chamou de ‘Talented Tenth’ (algo como a Décima Parte Talentosa), uma elite intelectual negra que lutaria por seus direitos no campo das ideias, sem negar o que havia de melhor na cultura ocidental”.

Como ele mesmo disse: “além da linha do preconceito, caminho de braços dados com Balzac e Dumas […] Assim, casado com a Verdade, vivo por sobre o Véu”.

E nós, o que fizemos? Trocamos a Décima Parte Talentosa por uma turba de histéricos.

Paulo Cruz

 


Dois pretos, duas medidas

Como o Governo e os Movimentos Sociais manipulam as estatísticas

Há um tempo atrás, pensando no método estatístico dos “justiceiros sociais” da esquerda, produzi um gráfico do tipo “preciso desenhar?”. Ei-lo:

Paleta

A proposição é muito simples:RappersMestiços

Se um sujeito mestiço claro (como alguns rappers famosos brasileiros), cresce na periferia, ouvindo rap e samba o dia inteiro, andando com negros a vida toda — pois é evidente que há mais negros na periferia –, qual a probabilidade de ele se definir como negro quando indagado a respeito de sua “raça”? Não precisa responder; apenas pense.
Agora pense num outro, com o mesmo tom de pele, crescendo na classe média alta, ouvindo Bach, frequentando museus e viajando para o exterior uma vez ao ano. Como este se definirá?

Não é possível saber com certeza, mas me parece que um mestiço que cresça na periferia tende muito mais a se autodeclarar negro do que aquele que não convive com negros; ainda mais se os seus ascendentes diretos (pai, mãe e avós) não forem negros.

O conceito de autodeclaração é extremamente subjetivo, para não dizer falso. Utilizar-se desse artifício espúrio para garantir cotas raciais (!) ou estimar a população carcerária, é uma falsificação da realidade brasileira. Os negros somam mais de 50% da população. O problema é que, destes, apenas 7,6 são pretos, e 43,1 são pardos. (Fonte: Censo 2010 no UOL)

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Entre os universitários também se dá o mesmo: em 2010, no grupo de pessoas de 15 a 24 anos que frequentava a universidade, 31,1estudantes-negros-universidades% eram brancos, 12,8% eram pretos e 13,4% pardos. Ou seja, somados, pretos e pardos são 26,2%, uma diferença muito menor do que fazem parecer os ideólogos. (Fonte: Censo 2010)

E entre a população carcerária também é a mesma coisa. Vejam o que diz o site Afropress:

Até junho de 2013 (os dados estão sendo divulgados com atraso de um ano, provavelmente por causa das eleições), o Brasil tinha 574.027 pessoas presas – a quarta maior população carcerária do mundo. Do total de pessoas presas 289.843 são pretas e pardas (86.311 pretas e 221.404 pardas). Os brancos são cerca de 176.137, os amarelos, 2.755, indígenas 763 e 11.527 são classificados como “outras”, ou seja, não se enquadram na terminologia adotada pelo IBGE, que define cinco categorias: preto, pardo, amarelo, indígena e branco (grifo meu).

Ou seja, a maioria da população carcerária é composta de pardos, e não de pretos.

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Quem é branco e quem é negro nessa foto?

O que se conclui? Que o Governo e os Movimentos Sociais manipulam os dados como querem — para não dizer que manipulam as pesquisas (mas isso não digo).

É sempre oportuno lembrar o que disse o velho Aristóteles, há milhares de anos, em sua Metafísica:

“Nem a cor branca, nem a cor preta no homem produzem uma diferença de espécie e entre o homem branco e o homem preto não existe diferença de espécie; e não haveria diferença de espécie mesmo que déssemos um nome diferente a cada um. De fato, branco e preto só é o homem entendido como matéria, e a matéria não produz diferença” (1058b).

Ou seja, falar em raça em termos biológicos é uma estupidez. Em termos culturais, é discriminação.

Outra coisa curiosa é a velha história, defendida pelo Movimento Negro, de que o conceito de Democracia Racial visa a embranquecer a população. Tudo bem que esse pensamento é uma reação amedrontada às ideias eugenistas e evolucionistas em voga no séc. XIX, defendidas por intelectuais como Sílvio Romero —  e inspiradas, sobretudo, nas teses estúpidas de Arthur de Gobineau. Porém, a realidade tem mostrado o contrário. Vejamos:

Em 2000, os brancos somavam 53,74% da população; em 2010 eram 47,33%. Já os pardos passaram de 38,45% para 43,13%, e os pretos de 6,21 % para 7,61%. Ou seja, o que está diminuindo é a população branca!

E aqui, mais uma vez, o genial Gilberto Freyre (não obstante sua completa demonização pela esquerda acadêmica), tem razão: o Brasil é mestiço. Essa é a verdadeira riqueza da nação brasileira. E nenhum esperneio ou negacionismo mudará isso.

A cultura e a contribuição dos negros e seus ascendentes africanos jamais será apagada da história brasileira, e não importa o quão mais clara ou escura a pele de sua população se torne. E, convenhamos: são as afinidades eletivas — e o amor, evidentemente — que determinam os relacionamentos amorosos, não a ideologia de raças.

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“Operários”, de Tarsila do Amaral. Ou: quando os comunistas, num ato falho, enxergam a realidade.

Paulo Cruz


Demagogia Generalizada

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Artigo publicado no jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, em 16/08/2015.

Quando Marx afirmou que a história da humanidade é a história da luta de classes, repetia a ideia maluca de Rousseau, formulada quase 100 anos antes, de que o homem era naturalmente bom, mas se corrompeu pela instituição da sociedade e da propriedade privada. Desde então, a doutrina marxista ganhou ares axiomáticos e praticamente todo formador de opinião concorda com ela. Esse pensamento é reproduzido não só na academia, mas também na cultura: literatura, cinema, novelas, programas de tevê.

Dias atrás, assistindo a um famoso programa dominical, fui surpreendido por um quadro interessante. Quatro artistas – desses que fazem novelas – convidaram quatro crianças beneficiadas por um projeto social da emissora em parceria com a Unesco para terem contato com a profissão que desejam seguir. Foi lindo ver o olhar daquelas crianças, vislumbrando a possibilidade de fazer aquilo com que sonham. Uma delas, com 7 anos e um desejo impetuoso de ser médica, vibrou ao presenciar a realização de um ultrassom. Possibilitar esse contato muitas vezes é decisivo para um indivíduo. Mostrar aonde seu esforço pode levá-lo é um exercício de motivação incomparável. Parabéns aos envolvidos.

Porém, na semana seguinte, o programa convidou quatro crianças de condição social elevada para visitar projetos sociais. E o maniqueísmo ideológico estava formado.

O problema não foi a ação em si, mas o discurso implícito. Da boca dos artistas, essas crianças foram convidadas a “viver uma experiência nova”. Uma delas ouviu: “eu tenho certeza de que esse lugar vai mudar a sua vida”. E a outra disseram que teria contato com crianças que, como ela (?), “sonham com um futuro melhor”. Pensei: que mundo é esse onde crianças ricas não sabem mais o que são crianças pobres? Na minha infância isso era a coisa mais normal do mundo. Tive amigos ricos e amigos favelados.

Antes da falência do ensino público – bingo! – e do isolamento dos ricos por causa da violência – bingo! –, era comum ricos e pobres estudarem e brincarem juntos. Fato é que, apesar de as crianças de condições sociais muito díspares estarem cada vez mais separadas hoje, essa não é a realidade absoluta. Qualquer família que melhora um pouco sua renda coloca os filhos em escolas particulares, onde eles têm contato com crianças mais ricas (e com melhor ensino, claro). Eu mesmo, que sou negro, professor de escola pública e no programa fui curiosamente representado pelas crianças assistidas pelo projeto social, tenho filho em escola particular. E grande parte da população está dentro dessa média que o discurso ignora. Por que reforçá-lo, então?

Em seu livro Os intelectuais e a sociedade, o economista americano Thomas Sowell lembra-nos de que, em geral, os formadores de opinião favorecem-se de “crenças abstratas que são comuns entre os intelectuais, os quais podem ter pouco ou nenhum conhecimento de primeira mão sobre os indivíduos, as organizações ou as circunstâncias concretas
envolvidas”. E que, “além do mais, tais atitudes não são somente disseminadas para muito além das fileiras da intelligentsia, mas se tornam base de políticas, leis e decisões judiciais”. Bingo! Esse discurso favorece a própria intelligentsia e o governo, que dele se aproveita para criar seus programas sociais que, apesar de não resolverem os problemas, lhe geram o bom e velho capital eleitoral.

Paulo Cruz

Link: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/demagogia-generalizada-dc1gnjmckcj0dzkmf2aef07ja


“Preto parado é suspeito; correndo, é ladrão!”

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O racismo ideológico da esquerda

 

“Não há outra solução senão esperar melhoras com paciência e resignação”.

(André Rebouças, em 1898)

Creio que todos conheçam a frase que dá título a este texto. É antiga. Quando eu era pequeno ouvia muito isso, em casa mesmo, de troça. Mas trata-se de uma frase séria, criada com conotação claramente preconceituosa, dizendo que o negro vive na marginalidade auto-imposta, que gosta de malandragem, samba, cachaça e mulheres (sim, no plural).

Bem, infelizmente há um fundo de verdade nessa frase; pois, com o fim da escravidão os negros libertos foram empurrados para a marginalidade (para viverem à margem da sociedade) pelos republicanos e oligarcas que tomaram o poder  – tomo aqui como base a interpretação dos próprios abolicionistas, via André Rebouças. Com isso, restou ao negro aquele sentimento de que, de fato, a abolição nunca se concretizou. Tal constatação, feita pelos abolicionistas logo nos anos subseqüentes ao fatídico 13 de maio de 1888, fez com que estes ainda lutassem muito para conseguir alguma melhora na condição social da população negra. Porém, o sonho estava se esvaindo, a luta estava vencida. Os escravocratas, revoltados com o fim da escravidão e com a relutância do imperador em indenizá-los pela perda da mão de obra, juntaram-se aos republicanos e, proclamada a República, abandonaram os negros na condição onde muitos ainda hoje permanecem.

andre-reboucasTal desolação é relatada em várias cartas do grande abolicionista André Rebouças – que, com o fim da monarquia, devotado amigo que era da família real, com ela partiu para Portugal; depois foi para Cannes, Luanda e, por fim, suicidou-se melancolicamente na Ilha da Madeira, em 09 maio de 1898. Numa dessas missivas, endereçada ao caríssimo amigo Joaquim Nabuco, Rebouças diz (sobre o aniversário da Abolição):

“A 13 de maio de 1889 eu tive uma tristeza inexplicável. Lembra-se que foi necessário telegrama para tirar-me do meu isolamento de Petrópolis… Na tarde de 22 de agosto de 1888, quando voltávamos da faustosa e hipocrita recepção do Imperador, eu lhe disse ao ouvido: ‘agora posso dormir tranquilo…’ Parecia-me que, a todo o momento, os escravocratas assassinavam a princeza redentora e cubriam de sangue a página santa, que havíamos escrito durante oito longos anos…

“A 22 de agosto de 1888, ainda esperavam os celerados indenização e Chins… Foi quando Dom Pedro disse-lhes: ‘Não! Não… Mil vezes não!’ que eles foram para a república de mamelucos – bandeirantes e traficantes de escravos brancos e amarelos; porque a Inglaterra não permite que sejam Negros Africanos”.[1]

Ao lermos as cartas de Rebouças – negro, engenheiro competente, abolicionista e, sobretudo, amigo do grande D. Pedro II –, vemos com pesar o duro golpe que foi o apressar da abolição por interesses escusos, bem como o resultado, para os negros, do movimento revolucionário capitaneado pelos republicanos e escravocratas que depuseram a monarquia.

O fato é que, como foi realizada, a abolição lançou milhares de famílias, jovens, velhos e crianças em condições miseráveis, fazendo, com isso, que os crimes entre essa população aumentassem e ganhassem destaque; e também é grilhoesfato que ainda hoje essa situação não foi totalmente remediada, pois a maioria da população pobre do Brasil ainda é composta por negros (pretos e pardos).

Mas é preciso cautela para analisar os desdobramentos disso. A relação entre pobreza e criminalidade é absolutamente circunstancial, pois, no final da contas, criminoso é aquele que ESCOLHE praticar um crime. Essa história rousseauniana de que o criminoso é vítima da sociedade, que comete crime porque se vê à margem e vitimado pela “burguesia capitalista opressora”, só é aceita entre ideólogos revolucionários, sedentos e incansáveis por instaurar a famigerada Luta de Classes no país. Não há nenhuma relação direta entre uma coisa e outra, e os exemplos abundam!

Em minha família, por exemplo, os únicos que entraram para a vida do crime (sim, eles existem), o fizeram não por falta de oportunidade – tiveram muitas! – mas por influência e, claro, por escolha. Ou seja, num lugar onde traficantes e criminosos são considerados heróis, entrar para o crime torna-se uma questão de influência. Às vezes acontece por causa das drogas (do uso ou do tráfico), às vezes, pela busca de status entre os amigos. Ou seja, na vida turbulenta de um jovem da periferia, como diz a letra do Rap: “ele se espelha em quem ta mais perto”.

Por outro lado, há centenas de famílias honradas, batalhadoras, cujos filhos estão lutando contra essa tendência, buscando exemplos dentro e fora de casa, mas sempre exemplos de superação, determinação e fé. Desviando do crime e escolhendo a “estrada menos viajada” [Robert Frost]. E temos, ao longo da história, muitos casos que merecem destaque, que poderiam servir de exemplo norteador da construção da identidade não só do negro, mas do Brasil. Exemplos notáveis como o dos abolicionistas (Nabuco, Rebouças, José do Patrocínio, Teodoro Sampaio et alii); de escritores/poetas como Machado de Assis, Cruz e Souza e Lima Barreto; de músicos como Pe. José Maurício Nunes Garcia e Carlos Gomes; de mestres como Ernesto Carneiro Ribeiro e tantos outros.

Tais exemplos, seguidos com afinco, nos ajudariam a criar, ainda que devagar, mas consistentemente, geração após geração, um Brasil menos preconceituoso e mais igualitário – primeiro no âmbito cultural (que é de onde tudo flui), depois no social. Uma conquista sólida e perene.

W. E. B. Du Bois[i], o primeiro negro a conseguir um título de Doutor em Harvard (ainda no séc. XIX), e grande precursor w.e.b.-duboisda causa pelos diretos dos negros nos EUA, disse bem:

“Repito, podemos subestimar o preconceito de cor do Sul e, no entanto, este continua a ser um fato ponderável. Tais desvios curiosos da mente humana existem e devem ser encarados com sobriedade. Eles não podem ser destruídos pela zombaria, não são sempre fáceis de atacar nem são simplesmente abolidos por decretos judiciais. E, contudo, não devem ser estimulados pela inércia. Devem ser reconhecidos como fatos, porém como fatos desagradáveis; coisas que entravam as vias da civilização, da religião, do sentimento de decência. Só podem ser enfrentados de uma maneira – pelo alargamento e pela expansão da razão humana, pela universalização do gosto e da cultura”[2].

E sobre a superação das dificuldades, assevera:

“O esforço de todos os homens honrados do séc. XX é, portanto, garantir que na futura competição das raças a sobrevivência dos mais aptos possa significar o triunfo do bom, do belo e do verdadeiro; que preservemos para a civilização do futuro tudo que é realmente bom, nobre e forte, e não continuemos a incentivar a ganância, a desfaçatez e a crueldade. Para fazer com que tal esperança frutifique, somos compelidos diariamente a empreender um estudo cada vez mais consciencioso dos fenômenos dos contatos entre as raças – um estudo franco e imparcial, não falsificado ou colorido por nossos desejos ou temores”[3].

Não é por mágica, nem por revolução e nem pelo Estado; é por esforço – de trabalho e de cultura. Essa é a única via.

E o mais curioso ainda é que Du Bois não tinha a mente fechada e tacanha dos negros “do movimento” de hoje, sequazes de doutrinas afrocentristas e segregadoras (racistas, portanto). Ele sabia a diferença entre uma cultura local, folclórica, e a Alta Cultura*, importante civilizadora do Ocidente onde, ao fim e ao cabo, vivia e fruto de séculos de tradição:

“Sento-me em companhia de Shakespeare, e ele não se retrai. Além da linha do preconceito, caminho de braços dados com Balzac e Dumas, onde homens sorridentes e mulheres acolhedoras deslizam entre dourados salões. Das cavernas da noite que oscilam entre a terra firme e o traçado das estrelas, chamo por Aristóteles e Marco Aurélio ou por qualquer outra alma que eu deseje e eles se aproximam graciosamente, sem escárnio ou condescendência. Assim, casado com a verdade, vivo por sobre o Véu. E esta a vida que você não quer nos dar, cavalheiresca América?”[4]

E o nosso Rebouças também da o exemplo. De seu exílio informa ao amigo ex-Imperador: “Continuo a educar o meu coração lendo Tolstoi e o Santo Homero”[5]

E não se trata de relegar a cultura ancestral (longe disso!), mas de se inteirar e ser alimentado pela cultura que orienta a vida intelectual e social do pais onde se nasce e vive. Só assim é possível progredir. Alimentar, no Ocidente, uma cultura afrocentrista, segrega em vez de agregar.

Esse é o verdadeiro Movimento Negro – os Negros em Movimento! Educando-se e buscando, incansavelmente, a superação das dificuldades.

Racismo e ideologia

Porém, o discurso ideológico da esquerda é nefasto e oportunista. Apropriou-se compulsoriamente da “Causa Negra”, e se fez porta-voz de toda uma população que buscava, com muita dificuldade, o seu espaço. Mas não só isso: igualou essa Causa a outras tantas, e todas a uma agenda revolucionária, fomentando toda sorte de ressentimentos, incitando brancos contra negros, ricos contra pobres, mulheres contra homens, homossexuais contra heterossexuais etc. Ou seja, instaurou a tensão social e o ódio de classes, raças, sexo etc..

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Mas esse não é um ódio qualquer, pois todo ser humano em sã consciência repudia tal sentimento. Esse é um ódio, como nos diz o filósofo romeno Gabriel Liiceanu – em seu apuradíssimo ensaio “Do Ódio” – “culto e cultivado”, e organizado intelectualmente como ideologia; e desse modo passa a ter “dignidade histórica e aura científica. E o crime que o acompanha é, a seu turno, enobrecido, porque a finalidade a que ele serve sonha com o bem para muitos e, no limite, para toda a humanidade”[6].

Outra característica desse ódio, como nos aponta Liiceanu, é a impessoalidade. De posse desse ódio o militante pode tudo. Diz:

“Já não se odeia uma pessoa isolada, odeia-se uma pessoa como agente de uma categoria. Odeia-se uma hipóstase englobadora, odeia-se um ‘como’ explicativo-categorial […] Odeia-se a alguém como; odeias alguém como burguês, como hebreu, como cigano, como intelectual, como islamita, como americano, como húngaro etc.

“Em conclusão, o ódio tornou-se impessoal à medida que nem o que odeia é uma pessoa isolada (mas membro de um grupo, de uma organização, de um partido, de um ‘movimento’ etc. Nem o que é odiado é isolado, mas pertence a uma categoria (de classe, de raça, de nação, de religião)”[7].

Portanto, meus caros, estamos à mercê de um ódio organizado, ideológico, que permite a essa corja militante odiar à vontade e, não raro, acusar aos outros de “discurso de ódio”, numa manipulação lingüística de fazer inveja.

Aliás, a linguagem metonímica é um dos grandes trunfos do discurso ideológico da esquerda. Diante de uma geração inteira educada por acadêmicos estruturalistas e filósofos da linguagem, essa turma consegue o efeito denunciado por Lewis Carroll em seu “[Alice] Do lado de dentro do espelho”, que é o de dar a uma palavra o sentido que se quer, não importando o sentido próprio que ela tenha[8].

A cor dessa cidade

O entrevero que tive com a cantora Daniela Mercury e seus seguidores (autodenominados “mercuryanos”) é um bom exemplo.

Ela escreveu um tuíte:

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Caros, não é preciso ser um lingüista para compreender o que essa frase significa. Se eu digo “a redução da maioridade penal exterminará pretos e pobres”, o que digo? Exatamente que os pretos e pobres são criminosos, ou potenciais criminosos. E isso é cristalino como água de uma fonte virgem.

Isso exigiu de mim uma resposta no mesmo tom com o qual essa gente costuma acusar os outros:

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E o restante da pequena discussão com a representante dos mercuryanos, segue abaixo:

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Claro que eu, ofendido, disparei como quem não quer se ver representado por esse discurso patético.

Agora, o que é a redução da maioridade penal? É uma alteração na legislação que visa a prender criminosos menores de 18 anos – aos 16, nesse caso – que cometem crimes hediondos. E o que isso tem que ver com pretos e pobres? Segundo Daniela Mercury, é o seguinte: pretos e pobres são marginalizados pela sociedade. Consequentemente são empurrados para a criminalidade e, consequentemente, são presos.

Mas qual o nexo causal disso? Absolutamente NENHUM! Porque há um salto malicioso entre marginalização e criminalidade. Ser colocado à margem não nos leva, automaticamente, a cometer crimes! Há inúmeros casos que provam o contrário disso. Muitos defensores dessa ideia absurda são prova contrária disso. E, curiosamente, quanto mais próximos da escravidão deitamos os nossos olhos, mais vemos negros célebres e reconhecidos pela sociedade.

Daí surge outra manipulação ideológica, que diz ser apenas uma minoria que consegue driblar esse, digamos, destino.

Ora essa, se uma minoria consegue, porque não pode influenciar a maioria? Respondo: porque o discurso ideológico, o vitimismo torpe, o ódio cultivado e a barreira imposta por ONG’s, políticos e ideólogos de toda sorte – muitas vezes, mais até que um traficante –, vivem a martelar na cabeça das pessoas que moram na periferia que seu esforço jamais será reconhecido pela chamada elite, que suas conquistas jamais valerão nada nesse mundo que os rejeita; e que a única forma de mudar essa situação é buscar ajuda do Governo e seus Programas Bem-Estar Social! E o Estado se torna a tábua de salvação dessas pessoas. E o truque fatal de um Estado Socialista totalitário é, justamente, manter essas pessoas cativas por Programas Sociais, para garantir o voto e  a perpetuação no Poder. E essa falsa resolução é gritada aos quatro ventos como a verdade absoluta (a única diante da relativização total). Por outras palavras, é pegar o negro livre e fazê-lo escravo do Estado. É fazer o cão tornar ao vômito[9].

E está fechado o ciclo. Uma turba inumerável de ressentidos doutrinada por ideólogos – na esfera acadêmica e cultural, das novelas aos estudos acadêmicos – e um Estado forte que sustenta toda essa desgraça, oferecendo migalhas sem nunca resolvê-la.

Como diz Antonio Gramsci – fundador do partido comunista italiano e pai do socialismo do séc. XX (pós-revolução russa): “Na fase da luta pela hegemonia, desenvolve-se a ciência política; na fase estatal, todas as superestruturas devem desenvolver-se, sob pena de dissolução do Estado”[10].

É urgente que os negros escapem dessa manipulação e percebam o valor que há no indivíduo, no esforço, na perseverança, nas determinações e decisões tomadas de acordo com a própria consciência. É um esforço e tanto, demandará muito sacrifício. Mas só assim será possível construir um futuro perene e de raízes profundas, não só para si, mas para seus filhos e netos. E, por fim, para o Brasil de todos os brasileiros.

Paulo Cruz

[1] REBOUÇAS, André. “Diários e Notas Autobiográficas”, José Olympio, p. 400.

[2] DU BOIS, W. E. B. “As almas da gente negra”. Lacerda Editores, p. 146. Tradução: Heloísa Toller Gomes

[3] DU BOIS, Ibid., p. 217.

[4] DU BOIS, Ibid., p. 162.

[5] REBOUÇAS, Op. Cit., p. 381.

[6] LIICEANU, Gabriel. “Do ódio”. Vide Editorial, p. 49. Tradução: Elpídio Mário Dantas Fonseca

[7] LIICEANU, Ibid., pp. 54-55.

[8] “— Quando uso uma palavra, replicou Osvaldo Oval — em tom de desdém —, o significado dela é aquele que quero que ela tenha — e não admito discussão.

— Isso é questão de saber se você pode atribuir o significado que quiser a uma palavra.

— Isso é uma questão de saber quem é que manda. E basta!” (CARROLL, Lewis. “Do lado de dentro do espelho”. Itatiaia, p. 237. Tradução: Eugênio Amado).

[9] “Como o cão torna ao seu vômito, assim o tolo repete a sua estultícia”. (Provérbios 26:11)

[10] GRAMSCI, Antonio. “Cadernos do Cárcere – Vol. I”. Civilização Brasileira, p. 210. Tradução: Carlos Nelson Coutinho.

[i] Infelizmente, Du Bois, com a instauração das leis Jim Crow, e vendo que o grande sonho de Reconstrução da América não dava o espaço necessário aos negros, buscou refúgio no Socialismo, o que, evidentemente, não deu em nada. Beijou as mãos do genocida Mao Tsé-Tung, depois rumou para Gana e lá morreu no completo ostracismo.

* Sobre Alta Cultura, Ortega y Gasset explica:

“O império que sobre a vida pública hoje exerce a vulgaridade intelectual, é talvez o fator da presente situação mais novo, menos assimilável a nada do pretérito. Pelo menos na história européia até hoje, nunca o vulgo havia crido ter ‘idéias’ sobre as coisas. Tinha crenças, tradições, experiências, provérbios, hábitos mentais, mas não se imaginava de posse de opiniões teóricas sobre o que as coisas são ou devem ser – por exemplo, sobre política ou sobre literatura -. Parecia-lhe bem ou mal o que o político projetava e fazia; dava ou retirava sua adesão, mas sua atitude reduzia-se a repercutir, positiva ou negativamente, a ação criadora de outros. Nunca se lhe ocorreu opor às ‘idéias’ do político outras suas; nem sequer julgar as ‘idéias’ do político do tribunal de outras ‘idéias’ que cria possuir. A mesma coisa em arte e nas demais ordens da vida pública. Uma e inata consciência de sua limitação, de não estar qualificado para teorizar, vedava-o completamente. A conseqüência automática disto era que o vulgo não pensava, nem de longe, decidir em quase nenhuma das atividades públicas, que em sua maior parte são de índole teórica.
Hoje, pelo contrário, o homem médio tem as ‘idéias’ mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por isso perdeu o uso da audição. Para que ouvir, se já tem dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir, mas, pelo contrário, de julgar, de sentenciar, de decidir. Não há questão de vida pública em que não intervenha, cego e surdo como é, impondo suas ‘opiniões’.

“Mas não é isto uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massas tenham “idéias”, quer dizer, que sejam cultas? De maneira alguma. As “idéias” deste homem médio não são autenticamente idéias, nem sua posse é cultura. A idéia é um xeque-mate à verdade. Quem queira ter idéias necessita antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras do jogo que ela imponha. Não vale falar de idéias ou opiniões onde não se admite uma instância que a regula, uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. Estas normas são os princípios da cultura. Não me importa quais são. O que digo é que não há cultura onde não há normas. A que nossos próximos possam recorrer. Não há cultura onde não há princípios de legali5àde civil a que apelar. Não há cultura onde não há acatamento de certas últimas posições intelectuais a que referir-se na disputa (50). Não há cultura quando as relações econômicas não são presididas por um regime de tráfico sob o qual possam amparar-se. Não há cultura onde as polêmicas estéticas n o reconhecem a necessidade de justificar a obra de arte.
Quando faltam todas essas coisas, não há cultura; há, no sentido mais estrito da palavra, barbárie. E isto é, não tenhamos ilusões, o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas”.

(Ortega y Gasset, “A Rebelião das Massas”)


“Homo homini lupus”

Leviatan

Leviatã (Leviathan) – Rússia/2014

Dir.: Andrey Zvyagintsev

“Poderás tirar com anzol o leviatã, ou ligarás a sua língua com uma corda?
Podes pôr um anzol no seu nariz, ou com um gancho furar a sua queixada?
Porventura multiplicará as súplicas para contigo, ou brandamente falará?
Fará ele aliança contigo, ou o tomarás tu por servo para sempre?
Brincarás com ele, como se fora um passarinho, ou o prenderás para tuas meninas?
Os teus companheiros farão dele um banquete, ou o repartirão entre os negociantes?
Encherás a sua pele de ganchos, ou a sua cabeça com arpões de pescadores?
Põe a tua mão sobre ele, lembra-te da peleja, e nunca mais tal intentarás.
Eis que é vã a esperança de apanhá-lo; pois não será o homem derrubado só ao vê-lo?”
(Jó, 41:1-9)

Meu saudoso pai, quando da ocasião de sua morte, andava deveras angustiado por conta de um processo que movera contra uma grande Rede de Hospitais, para qual ele havia prestado serviços por mais de 5 anos, e sido dispensado sem nenhum motivo e com uma enorme quantia em honorários por receber.

Dr. Antônio da Cruz, advogado desde 1979, mesmo tendo toda a lei e a justiça a seu favor, perdeu em praticamente TODAS as instâncias por onde o processo tramitou – em Guarulhos, onde os proprietários da Rede têm ligações políticas gigantescas –, faltando somente a instância Federal. O problema é que seus algozes intentavam ferozmente penhorar a casa de minha mãe (único bem de família), que, inclusive, já tinha recebido visita de um oficial de justiça e estava igualmente desesperada. Era uma corrida contra o tempo.

Por fim, o processo foi arquivado, pois, em março de 2012, Dr. Antônio foi diagnosticado com um câncer de pulmão que, em menos de 8 meses, o levou à sepultura.

Tenho para mim que o câncer que vitimou meu pai fora nele alimentado por essa angústia. Foi esse processo judicial que lhe tirou o riso dos lábios, a sabedoria da mente e o fôlego de vida.

O filme Leviatã é isso: a história de um homem contra uma avassaladora máquina de corrupção.

Kolya é um mecânico cuja propriedade – numa paradisíaca península do Mar de Barents, no Ártico – está envolvida num processo de desapropriação movido pelo prefeito (Vadim), a personificação da corrupção e da decadência humanas.

Um exemplo da generalização dessa barbárie é um diálogo do padre ortodoxo local com o prefeito, no qual fica bastante evidente que não é só a lei dos homens que está sendo subvertida, a Lei de Deus também:

– Controle-se, Vadim. E não se preocupe. Está fazendo o trabalho de Deus. Dizem que as boas obras são feitas com calma e alegria, mas não se esqueça que o inimigo está sempre pronto e não dorme.

– Esse é o problema. Você sabe… Parece que tudo está dando errado. Estou inseguro. O que acontece é…

– Não me diga nada. Não está no confessionário. Você e eu trabalhamos pela mesma causa. Você tem seu território, eu tenho o meu.

– Eu entendo. Só sinto que não é fácil…

– Eu lhe disse há poucos dias, e vou lhe dizer novamente: Todo poder vem de Deus. Onde há poder, há força. Se você tem poder, resolva seus problemas usando sua força. Não busque ajuda, ou seu inimigo vai pensar que você é fraco. Honestamente, tenho que te dar conselhos como a uma criança.

É contra isso que Kolya, um homem comum já quase esgotado por problemas familiares, terá de lutar. E não será fácil; para não dizer impossível!

A cena de uma carcaça de baleia na praia é o exemplo de que, na terra dos Homens Ocos, nem mesmo o “monstro marinho” resiste.

Com alusões críticas bastante claras ao governo Putin e ao Comunismo, Leviatã é um filme denso e inebriante como a vodka (aliás, consumida em quantidades alarmantes no desenrolar da história). A fotografia é estonteante, as atuações fazem jus ao drama dos protagonistas, e a direção de Andrey Zvyagintsev é bastante competente. A trilha sonora de Philip Glass dispensa comentários!

[…]
Sua alma se estendeu cruzando os céus
Que se estiolam por detrás dos edifícios,
Ou a pisotearam insistentes pés
Às quatro e às cinco e às seis horas da tarde;
E curtos dedos firmes a encher cachimbos,
E jornais vespertinos, e olhos
Convictos de certas certezas,
A consciÊncia de uma rua enegrecida
Impaciente por se apoderar do mundo.
[…]

(T. S. Eliot, “Prelúdios”. Poesia Completa, ARX. Tradução de Ivan Junqueira)


A instrumentação ideológica do racismo

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Após um lamentável episódio na USP, no qual integrantes do Movimento Negro invadem uma aula para falar sobre Cotas, gerando uma confusão absolutamente desnecessária e vergonhosa, o Instituto Mises Brasil — sempre atento às causas que ferem as liberdades individuais –, na pessoa de meu amigo Bruno Garschagen, me convidou a dar uma entrevista para o seu prestigiado Podcast, após minha reação ao caso no Facebook.

Ouçam!

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http://www.mises.org.br/FileUp.aspx?id=374