Dois pretos, duas medidas

Como o Governo e os Movimentos Sociais manipulam as estatísticas

Há um tempo atrás, pensando no método estatístico dos “justiceiros sociais” da esquerda, produzi um gráfico do tipo “preciso desenhar?”. Ei-lo:

Paleta

A proposição é muito simples:RappersMestiços

Se um sujeito mestiço claro (como alguns rappers famosos brasileiros), cresce na periferia, ouvindo rap e samba o dia inteiro, andando com negros a vida toda — pois é evidente que há mais negros na periferia –, qual a probabilidade de ele se definir como negro quando indagado a respeito de sua “raça”? Não precisa responder; apenas pense.
Agora pense num outro, com o mesmo tom de pele, crescendo na classe média alta, ouvindo Bach, frequentando museus e viajando para o exterior uma vez ao ano. Como este se definirá?

Não é possível saber com certeza, mas me parece que um mestiço que cresça na periferia tende muito mais a se autodeclarar negro do que aquele que não convive com negros; ainda mais se os seus ascendentes diretos (pai, mãe e avós) não forem negros.

O conceito de autodeclaração é extremamente subjetivo, para não dizer falso. Utilizar-se desse artifício espúrio para garantir cotas raciais (!) ou estimar a população carcerária, é uma falsificação da realidade brasileira. Os negros somam mais de 50% da população. O problema é que, destes, apenas 7,6 são pretos, e 43,1 são pardos. (Fonte: Censo 2010 no UOL)

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Entre os universitários também se dá o mesmo: em 2010, no grupo de pessoas de 15 a 24 anos que frequentava a universidade, 31,1estudantes-negros-universidades% eram brancos, 12,8% eram pretos e 13,4% pardos. Ou seja, somados, pretos e pardos são 26,2%, uma diferença muito menor do que fazem parecer os ideólogos. (Fonte: Censo 2010)

E entre a população carcerária também é a mesma coisa. Vejam o que diz o site Afropress:

Até junho de 2013 (os dados estão sendo divulgados com atraso de um ano, provavelmente por causa das eleições), o Brasil tinha 574.027 pessoas presas – a quarta maior população carcerária do mundo. Do total de pessoas presas 289.843 são pretas e pardas (86.311 pretas e 221.404 pardas). Os brancos são cerca de 176.137, os amarelos, 2.755, indígenas 763 e 11.527 são classificados como “outras”, ou seja, não se enquadram na terminologia adotada pelo IBGE, que define cinco categorias: preto, pardo, amarelo, indígena e branco (grifo meu).

Ou seja, a maioria da população carcerária é composta de pardos, e não de pretos.

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Quem é branco e quem é negro nessa foto?

O que se conclui? Que o Governo e os Movimentos Sociais manipulam os dados como querem — para não dizer que manipulam as pesquisas (mas isso não digo).

É sempre oportuno lembrar o que disse o velho Aristóteles, há milhares de anos, em sua Metafísica:

“Nem a cor branca, nem a cor preta no homem produzem uma diferença de espécie e entre o homem branco e o homem preto não existe diferença de espécie; e não haveria diferença de espécie mesmo que déssemos um nome diferente a cada um. De fato, branco e preto só é o homem entendido como matéria, e a matéria não produz diferença” (1058b).

Ou seja, falar em raça em termos biológicos é uma estupidez. Em termos culturais, é discriminação.

Outra coisa curiosa é a velha história, defendida pelo Movimento Negro, de que o conceito de Democracia Racial visa a embranquecer a população. Tudo bem que esse pensamento é uma reação amedrontada às ideias eugenistas e evolucionistas em voga no séc. XIX, defendidas por intelectuais como Sílvio Romero —  e inspiradas, sobretudo, nas teses estúpidas de Arthur de Gobineau. Porém, a realidade tem mostrado o contrário. Vejamos:

Em 2000, os brancos somavam 53,74% da população; em 2010 eram 47,33%. Já os pardos passaram de 38,45% para 43,13%, e os pretos de 6,21 % para 7,61%. Ou seja, o que está diminuindo é a população branca!

E aqui, mais uma vez, o genial Gilberto Freyre (não obstante sua completa demonização pela esquerda acadêmica), tem razão: o Brasil é mestiço. Essa é a verdadeira riqueza da nação brasileira. E nenhum esperneio ou negacionismo mudará isso.

A cultura e a contribuição dos negros e seus ascendentes africanos jamais será apagada da história brasileira, e não importa o quão mais clara ou escura a pele de sua população se torne. E, convenhamos: são as afinidades eletivas — e o amor, evidentemente — que determinam os relacionamentos amorosos, não a ideologia de raças.

tarsila

“Operários”, de Tarsila do Amaral. Ou: quando os comunistas, num ato falho, enxergam a realidade.

Paulo Cruz

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Sobre esperandoasmusas


31 respostas para “Dois pretos, duas medidas

  • Elpídio Fonseca

    Caríssimo em Cristo Paulo,

    “Deste no vinte”, como se dizia antigamente em português para uma situação em que a pessoa resolve com precisão um problema que vinha afligindo a outra.

    Essa paleta de cores encerra o assunto.

    Parabéns, meu caro, por mais um texto lúcido, que ilumina a quem quer que não queira viver na segunda realidade.

    Abraço,

    Elpídio

  • Rodrigo Bento

    Parabéns pela constatação que – mesmo que óbvia – é tão difícil de entender para alguns.

    Texto simples e didático, sem muitos floreios, quem lê e não entende, não sei se há mais como ajudar.

  • Jaqueline

    Excelente, tenho um livro pra recomendar `a vc

      • Jaqueline

        Gostaria de traduzir esse livro, comecei a ler agora, mas vc pode conhecer o autor online.
        Ele se chama KEVIN JACKSON e o livro dele (há outros) se chama Race Pimping.
        Ele está no twitter, vou mostrar a vc lá mesmo no twitter ok?
        Foi através do twitter que cheguei ao seu artigo aqui.
        O livro do Kevin aborda muito do que vc trata nesse artigo: o conceito de vitimização que a esquerda força nas minorias (minorias em quantidade) para que se sintam sempre em desvantagem, se apropriando disso para obter sempre favores como se houvesse uma dívida histórica a ser paga simplesmente pelo fato de serem de diferente nível social, gênero, cor da pele, etc.

  • Eduardo Maia

    Grande Paulo,
    Parabéns pelo texto e pelo Blog também!
    Saudades dos tempos das aulas de filosofia em 2009 …
    Abç
    Eduardo e Mônica

  • Rogério

    Segundo a Biologia, os fenótipos branco, negro e mulato têm as seguintes probabilidades: p(branco) = 1/16; p(negro) = 1/16; p(mulato) = 14/16. Como se vê o mulato ou mestiço, como queiram, continua a prevalecer.

  • Marcelo Assiz

    Parabéns, Paulo! Seu artigo é muito elucidativo e didático.

  • Marcus Vinícius Azambuja

    Parabéns!

    Texto didaticamente simples, de forma que aquele que se furte de entender estará denunciando a própria capacidade de interpretação.

    Há uns meses eu havia escrito um texto com uma linha de raciocínio semelhante em https://beforespeak.wordpress.com/2015/06/22/as-estatisticas-ja-sao-dominadas-por-conceitos-e-metodos-esquerdistas/, caso lhe interesse.

    Abraço.

  • Marcia Pinho

    Olá Paulo, seus textos tem sido esclarecedores quando o assunto é racismo. O movimento negro em nosso país ignora a cor parda, deixando apenas “brancos X negros”, mas é claro que eles também ignoram as pesquisas, o interesse é apenas a luta de classes, ops, de “raças”.
    Obrigada por ser uma voz elucidativa nesse mar de militância.

  • Livia

    Seu texto é muito bom. O ruim é fazer um pesquisa no site do IBGE, eles põem pretos e pardos misturados nas estatística. E o número de pessoas tem quem curso superior é muito baixa, em torno de 12,5 milhões. http://www.ibge.gov.br/apps/snig/v1/?loc=0&cat=-1,-2,3,4,-13,48,128&ind=4698

  • Vinícius D'Avila

    Leitura fundamental sobre o tema:

    “Uma gota de sangue: história do pensamento racial”, de Demétrio Magnoli.

    O próprio fato de classificarem qualquer mestiço (o que inclui miscigenação entre europeus e ameríndios, por exemplo) como “negro” faz parte da estratégia da esquerda. Grande parte da população brasileira se define como “morena”, “queimado de sol”, entre outros termos, e depois é enquadrada pelos burocratas segundo críterios de motivação ideológica.

    Abraços.

  • Míghian Danae Ferreira Nunes

    Este texto é facilmente contestável com estudos antigos de professor Hasenbalg e Valle Silva, para não citar mais alguns. A discussão sobre a agregação de pretos e pardos não é recente, tem fundamento e não seria ‘aniquilada’ – e nem ‘elucidada’ segundo os comentários – por este post. Suas considerações são de alguém que está iniciando o debate nas questões raciais, me parece. Ah, queria saber também como você se define racialmente

    • esperandoasmusas

      Professora Míghian, a simples existência de estudos acadêmicos a respeito de um tema não atestam a relevância — muito menos a existência — do objeto. O tema “relações raciais” parte do princípio que raças existem. Se, do meu ponto de vista, raça é um construto ideológico (no sentido de não representar a realidade, mas o desejo se seus formuladores), todo o objeto deixa de ter importância. A Academia deve refletir a realidade, e não tentar criá-la (característica cada vez mais marcante no mundo acadêmico atual). Se a premissa é falsa, tudo o que se segue também o é.
      Mas, se a senhora é especialista no assunto, certamente deve ter lido “Race and State” e “The History of race idea: from Ray to Carus”, de Eric Voegelin. Leu? Gilberto Freyre, aquele que a Academia costuma ignorar, leu na década de 1930. Se não leu, acho que seriam boas obras para iniciar esse debate da perspectiva adequeada.

      Eu iniciei nesse assunto, digamos, quando nasci.

      Um abraço e obrigado pelos comentários,
      Paulo Cruz.

      • Míghian Danae Ferreira Nunes

        Paulo, eu não disse que estudos acadêmicos comprovam nada, eu apenas disse que os argumentos que você usa são primários – no sentido de que já foram bastante detonados por teóricos/as das relações raciais – para discorrer sobre a tese de que raças – utilizadas aqui e pelos teóricos/as descritos como uma categoria de análise das relações sociais – não existem. Se você estuda ‘desde que nasceu’ saberá disso mais cedo ou mais tarde e deverá incrementar suas análises com ideias mais recentes que, se continuam com lacunas, ao menos ultrapassam a visão inicial de que as raças não existem porque ‘raça, só a raça humana’ ou por ser um construto ideológico, como você diz.
        Mas… tu não fizestes filosofia? Acaso a filosofia não discute problemas, não pondera sobre questões ideológicas, para usar o mesmo termo que usastes? Não entendi.
        Não sei porque achas que a academia ignora Freyre. Ele é bastante lido, pelo menos em todas as universidades em que passei. E os livros que ele leu, sinceramente, acho que já estão um tanto quanto velhos para dar conta da demanda sobre a discussão das relações raciais (ora, mas foi você mesmo quem disse que é um construto ideológico e portanto, sem valia para o mundo real, mas está a me indicar livros? Também não entendi), ainda mais por serem estadunidenses e assim não darem conta das especificidades de questões nacionais.
        Enfim, é um debate que pode sempre continuar… mas eu acho que você e eu já colocamos nossas opiniões. Você acha que relações raciais, como objeto ‘inventado’, não tem razão de existir. Eu acredito que mesmo que tivesse sido ‘inventado’, nenhum ‘objeto de estudo’ ‘nasce’ apenas da livre criação da cabeça de pessoas, visto que elas estão num contexto, dentro de uma sociedade. Suas produções refletem isso.
        Desse modo, para continuar o debate, mas por mais lenha na fogueira, tenho duas perguntas:
        1. O que você acha do racismo? Ele também não existe e é ‘inventado’?
        2. Vi que você não me respondeu se é negro ou não. De todo modo, li que se considera um indivíduo, ou seja, considera-se homem, pelo que entendi na flexão do gênero. Acreditas também que o gênero é um construto ideológico e sem sentido no mundo real? Como fazes então para usar este marcador?

      • esperandoasmusas

        Olá, professora. Mil perdões pela demora para responder! Tua respeitosa persistência me comove. Obrigado.

        Veja, às vezes é preciso voltar às questões primárias para validar um argumento que se deseja consistente apenas pela quantidade. Eu não disse que tu disseste, mas que a quantidade de estudos acadêmicos não são garantia de um objeto real. E isso é um fato. Uma enormidade de lucubrações abstratas infestam nossa Academia sem qualquer utilidade ou validade real. Não preciso fornecer exemplos, pois conheces melhor do que eu tal realidade.

        A classificação de seres humanos em raças, para além da ciência natural, foi obra de eugenistas; isso, quero crer, concordamos. Se hoje o conceito se cristalizou na cultura, é um desdobramento que deve ser relativizado, uma vez que é que uma espécie de metonímia, e não um conceito concreto. Podemos até falar de uma “cultura negra”, como uma herança daquilo que foi trazido de África e transfigurou-se em tudo o que conhecemos e amamos, mas isso é, sim, uma construção.

        A Filosofia não pondera sobre questões ideológicas – não, pelo menos, no sentido que dou à palavra ideologia. Penso ideologia não no sentido marxista, mas no sentido dado por pensadores como Raymond Aron, Eric Voegelin, Russell Kirk etc. Ideologia como um pseudo-conceito, que toma a parte pelo todo e, principalmente, promete resolver todos os problemas da humanidade via análise social. Nesse sentido, a Filosofia é completamente anti-ideologia.

        Freyre pode não ser ignorado, mas a maioria dos estudos que tratam de sua obra o fazem para criticar; sua grandeza foi soterrada pelos pensadores marxistas.

        Indiquei-te Eric Voegelin porque é um filósofo importante para a compreensão da natureza do conceito de raças. E ele não é estadunidense, é um alemão que fugiu para a América justamente por ter escrito esses dois livros, que desmontam, filosoficamente, com bastante profundidade, o conceito de raças utilizado pelos nazistas contra os judeus. Foi um dos poucos pensadores, à época, que percebeu o absurdo das teses raciais nazistas. Os nomes que te dei são das traduções americanas. E não é, absolutamente, um estudo ultrapassado.

        Eu acho que as “relações raciais” passaram a existir quando o conceito de raças foi aceito por todos, para o bem e para o mal. E também, no caso específico do Brasil, quando uma “raça brasileira”, nascida da profunda miscigenação ocorrida aqui – tese de Freyre, certo? – foi absolutamente rejeitada pelo sociólogos marxistas. Temos de conviver com isso até que amadureçamos. O que é uma pena.

        O preconceito de cor existe e é nefasto. E com isso respondo à tua segunda pergunta: sim, sou negro. Negro de negros, que ama ser negro, que é casado com uma negra, que ama toda a música que deriva dos negros (gospel, soul, jazz, blues, rock, rap, samba, chorinho etc.); enfim, amo todo o universo cultural que se criou em torno do negro e o considero minha herança. Mas essa é uma herança, nas palavras de Aristóteles, acidental, e não essencial. Sou homem, não na “flexão de gênero” (que nem sei o que é), mas no sexo.

        Recebas o meu afetuoso abraço.

      • Míghian

        Como vistes, não sei nada sobre Eric. De todo modo, apesar de não concordarmos, acho que nosso papo pode encerrar por aqui, porque já escrevestes as coisas com as quais eu gostaria de ter me deparado desde o começo. Saudações, abraços!

      • esperandoasmusas

        Volte sempre, professora Míghian (belo nome, a propósito)! Foi um prazer. Saudações.

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