O Egípcio

“O Egípcio”, de Mika Waltari

O poder transformador da leitura.

O primeiro livro que li inteiro foi “Dom Casmurro”. Porém, o primeiro que me arrebatou foi “O Egípcio”.

Leitura incentivada no início da década de 1990, por meu amado e saudoso pai, Antônio da Cruz (05/04/1940 – 09/11/2012). Lembro-me até hoje de sua insistência – o livro é um catatau com mais de 600 páginas e eu era apenas um adolescente em ebulição. Eu dizia: “pai, esse livro é muito grosso!”. E ele respondia: “se você ler três páginas deste livro, não conseguirá parar mais!”. Dito e feito!

Na época, eu chegava da escola, almoçava e ia para seu escritório, trabalhar. Ele me passava o serviço – em geral, serviços de fórum e prefeituras – e eu ia, “Egípcio” debaixo do braço, lendo vorazmente onde quer que encontrasse um tempo: ônibus, metrô, filas.

Obs.: conheci toda a cidade de SP assim, trabalhando (iniciei aos 14 anos). Ele me dizia: “tem de ir ao fórum da Lapa”. Eu dizia: “como faz pra ir?”. E ele: “não sei, só sei ir de carro” – e me lembrava do “Mensagem a Garcia”. E eu saía perguntando; e sempre chegava ao destino.

Voltando ao “Egípcio”. Meu pai nunca perdia a oportunidade de ler para mim o último parágrafo do livro (em negrito, ao final). Fazia sempre que o tinha à mão; e emocionado, dizia: “não é maravilhoso?!”

Pois é! E curiosamente, após sua morte, essa história se tornou profeticamente emblemática para mim: meu pai é o meu Sinuhe.

Descanse em paz, Dr. Antônio.

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“Eu, SINUHE, filho de Senmut e de sua mulher Kipa escrevo isto. Não o escrevo para a glória dos deuses da terra de Kan, porque estou cansado de deuses, nem para a glória dos faraós, porque estou cansado de seus feitos. Tampouco escrevo por medo ou por qualquer esperança  no futuro; escrevo para mim, apenas. O que vi, conheci e perdi durante a minha vida, foi coisa demasiada para que me domine um vão temor; e, quanto a algum desejo de imortalidade, estou tão exausto disso quanto dos deuses e dos reis. É apenas por minha causa que escrevo, por tal motivo e essência diferindo eu de todos os escritores passados e vindouros.

[…]

“Isto tudo eu, Sinuhe, o egípcio, escrevi; e apenas para mim. Não escrevi para os deuses nem para os homens; e nem para imortalizar o meu nome. Apenas para dar paz ao meu coração cuja cota está agora servida de vez. Sei que logo depois da minha morte os guardas destruiriam, se pudessem, tudo quanto escrevi. Sim, pois, por ordem de Horemheb porão abaixo as paredes da minha casa. Aliás, creio que tudo isso tanto se me dá. Seja como for, a verdade é que estou conservando cuidadosamente estes livros que escrevi, e Muti trançou uma rija cobertura de fibra para cada um deles. Guardo estes livros assim protegidos dentro de uma caixa de prata, e a caixa de prata está dentro de uma caixa de madeira grossa que por sua vez se acha dentro de uma outra, de cobre, tal qual foram protegidos outrora os livros divinos de Toth e depois descidos ao leito do rio. Se os meus livros não caírem em poder dos guardas e se Muti os esconder  na minha sepultura, não sei. E nem me importo muito com isso.

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Eu leio porque ele lia

“Sim, pois eu, Sinuhe, sou um ser humano. Vivi em todos aqueles que viveram antes de mim, e viverei nos que vierem depois de mim. Viverei nas lágrimas e nos risos humanos, no medo e na mágoa humana, na bondade e na torpeza humana, na justiça e no erro, na fraqueza e na força. Não desejo oferendas na minha sepultura e nem imortalidade para meu nome. Isto foi escrito por Sinuhe, o egípcio, que viveu sozinho todos os dias de sua vida”.

(Trecho inicial e final do livro “O Egípcio”, obra monumental do finlandês Mika Waltari)

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