A mística do desespero e da esperança

O Sacrifício (Offret) – 1986

Andrei Tarkovski

[…] Que eu possa

renunciar à minha vida por esta vida, à minha fala pelo inexpresso,

O desperto, lábios abertos, a esperança, os novos barcos.

(T. S. Eliot, “Marina”. Trad. Ivan Junqueira)

Desde a passagem dos créditos iniciais de O Sacrifício (Offret – 1986)– magnum opus do cineasta russo Andrei Tarkovski – percebemos que não se trata de um filme qualquer. A ária Erbarme Dich (veja aqui) [1], da cantata Paixão Segundo São Mateus, de Johann Sebastian Bach, vai penetrando nossa alma durante cinco minutos, convidando-nos à introspecção – como se tivéssemos entrado num espaço solene, de culto –, enquanto a imagem da pintura A Adoração dos Magos, de Leonardo Da Vinci, preenche a tela.

Após esse sublime prelúdio, abre-se o cenário bucólico da primeira e antológica cena, em que Alexander – personagem do talentosíssimo Erland Josephson, que fez muitos filmes com Ingmar Bergman – está, com a ajuda de seu filho, plantando uma árvore seca num terreno à beira do tranquilo mar Báltico. Ele conta uma história:

Alexander e o filho plantam a árvore seca

Há muito tempo um monge, de um mosteiro ortodoxo, o seu nome era Pamve, plantou uma árvore seca numa montanha. Assim como esta. Ele disse para o seu aluno, Ioann Kolov, regar a árvore todo dia até voltar à vida. Agora, coloque algumas pedras ali. E toda manhã, Ioann enchia um balde com água e subia a montanha, regava a árvore e retornava ao mosteiro só ao anoitecer. Assim ele continuou por três anos. Mas um dia, quando ele chegou, a árvore estava coberta de flores.

E passa a discorrer sobre a fé de uma maneira um tanto arreligiosa, somente como uma simples relação de causa e efeito:

Sabe, às vezes digo a mim mesmo: se você faz algo todo dia, à mesma hora, sempre o mesmo ato, como um ritual, sistematicamente, algum dia o mundo mudaria! Teria que mudar.

O carteiro Otto (Allan Edwall, outro excelente ator de Bergman) se aproxima de bicicleta, vem cumprimentar Alexander por seu aniversário. A conversa entre eles é filosófica. Deus, Nietzsche, esperança e estoicismo são os assuntos da pauta. Otto repreende Alexander por sua tristeza insistente, dizendo que ele “não deveria esperar nada”. Alexander nega esperar por algo, mas Otto replica:

Todos nós esperamos algo. Eu, por exemplo, por toda minha vida esperei por algo. Toda minha vida me senti como se estivesse numa estação ferroviária. E sempre me senti como… como se eu não tivesse vivido. Mas sempre esperando por uma vida… uma espera… algo real… algo importante!

O carteiro-filósofo vê o Eterno Retorno como um conceito ridículo. Diz que o samsara nietzscheano nos obrigaria a viver uma vida inteira em sofrimento e sem esperança; para depois ter de repetir tudo novamente, com as coisas um pouco modificadas, porém, ainda sem esperança.

O diálogo se encerra sem conclusões e Otto se vai, prometendo voltar com um presente para o amigo aniversariante.

Alexander conversa com Otto

A bem da verdade, Alexander é um homem melancólico e depressivo. Jornalista, ator e professor universitário, decidiu abandonar tudo para viver uma espécie de ascese, num lugar paradisíaco – uma ilha –, dedicando-se devotadamente ao filho mais novo. Faz deste pequenino um ouvinte quase exclusivo de seus monólogos. Sim, monólogos, pois o filho, que se recupera de uma cirurgia na garganta, não pode falar. E o pai brinca com a mudez do filho:

“No princípio era o Verbo”…, mas você está mudo, mudo como um peixe. Um pequeno salmão!

Caminham um pouco, depois se sentam encostados numa árvore. As lamentações continuam. Fala sobre os descaminhos do homem moderno e o avanço desordenado da técnica. Temas complexos para uma criança que mal compreende suas palavras; antes, brinca silenciosamente, enquanto o pai tagarela sem trégua:

O Homem sempre se defendeu de outros, da natureza, da qual faz parte e a violenta. O resultado é a civilização, construída à força, poder e dependência. Os “progressos técnicos” só nos deram conforto e instrumentos de violência para conservar o poder. Nós somos como selvagens. Usamos o microscópio como eles usam um pedaço de pau. Não, isto está errado! Os selvagens têm mais espiritualidade do que nós. Nós transformamos cada progresso científico em algo a serviço do mal.

Enquanto ele fala, o filho levanta-se e some de sua vista. Alexander o chama: Pojken min?! (meu menino?!). De repente, o filho pula em cima dele, mas se desequilibra e cai no chão, com o nariz sangrando. Alexander cambaleia, diz “O que está acontecendo comigo?” e desmaia. Neste momento ocorre a primeira das várias cenas oníricas do filme.

Em casa, a família aguarda Alexander para o almoço, é a comemoração de seu aniversário. No primeiro encontro com Otto, recebera uma carta de seus antigos amigos de teatro, que assinaram como Ricardianos e Idiotas – menção a Shakespeare e Dostoiévski, em cujas montagens (Ricardo III e O Idiota) ele próprio atuara. Seu genro Victor lhe trouxe um belo livro, com reproduções da iconografia ortodoxa. Ao folheá-lo, Alexander faz uma observação interessante:

Profundo e inocente ao mesmo tempo. Incrível! É como uma prece. E tudo isso perdido. Nem rezar sabemos mais.

O clima é de uma falsa descontração. Victor fala de desilusão profissional; Adelaide, a esposa, reclama por Alexander ter deixado o teatro; Marta, a filha, deixa transparecer a tristeza pelas observações do marido. Mas Otto chega e dissipa um pouco a tensão; traz um mapa (emoldurado, tamanho grande) da Europa no séc. XVII para o amigo; todos se admiram da beleza do quadro. Em seguida, Otto inicia um diálogo com Victor, sobre como

Maria

chegou à ilha; ao que Maria, uma das empregadas, entra e Otto a cumprimenta de uma modo ligeiramente espantado. Diz baixinho a Victor, com um ar misterioso: “Nós somos vizinhos. Nós nos familiarizamos. Ela chegou da Islândia há alguns anos”. E Alexander arremata: “Ela é realmente estranha”.

A falta do filho faz com que Alexander saia a procurá-lo.

Victor pergunta ao carteiro sobre seus interesses afora o trabalho entregando missivas; Otto diz ser um “colecionador de eventos inexplicáveis”, e conta uma história curiosíssima sobre uma mãe, que tirou uma foto com o filho antes de este ir à guerra. O filho morre em combate, a mãe perde a foto para reencontrá-la vinte anos depois. Na imagem desgastada, ela tem a aparência atual, enquanto o filho, a aparência de quando a foto foi tirada vinte anos antes. Otto diz ter provas e outros 284 casos similares: “Nós somos simplesmente cegos – diz –, não enxergamos nada”. Ao andar pela sala, de repente fica apreensivo e, como se algo invisível o tocasse, dá um rodopio e estatela-se no chão, desmaiado. Todos se assustam. Ele se levanta, senta-se numa cadeira e diz – com ar mais misterioso ainda: “O que vocês acham que foi isso?” E ele mesmo responde: “Foi um anjo mau que me tocou”. Victor protesta: “O senhor está brincando conosco, sr. Carteiro”. Ao que Otto responde, muito sério: “Não se brinca com isto, doutor. Não há nada para se brincar aqui”.

Lá fora, num clima frio, úmido e esbranquiçado pela espessa névoa, se desenrola uma cena insólita (sonho?). Alexander encontra uma maquete idêntica de sua casa no chão de terra molhada. “Qual de vocês fez isso? Os deuses?”, diz num sussurro. Encontra Maria e pergunta quem fez a maquete. Ela responde que foi o menino, com a ajuda de Otto.

Alexander encontra Maria em cena onírica

Ao mesmo tempo, dentro da casa, as taças começam a tremer e tilintar; um som estrondoso se aproxima, aumentando, até se revelar o barulho de um avião caça, que passa num voo rasante. Toda a mobília treme com o deslocamento das ondas sonoras; um recipiente com leite, que estava no armário, quebra-se no chão, produzindo uma imagem aterrorizante.

[…]

O menino dorme. Alexander, já em seu quarto, começa a ouvir uma transmissão de televisão; desce e encontra a família (e Otto); todos sentados, imóveis, ouvindo o pronunciamento, que diz:

… estão sendo organizados em todos os lugares. E é a responsabilidade dos oficiais do exército. Cada cidadão responsável deve ter coragem e calma, ajudando o exército a manter a calma, a ordem e a disciplina. Nosso pior inimigo agora é o pânico; é contagioso e não deixa o bom senso prevalecer. Ordem e organização; nada mais, meus cidadãos. Manter a ordem. Ordem contra todo esse caos. Eu imploro, humildemente, para serem corajosos e manterem o espírito do bom senso. Infelizmente, também em nosso país há uma base com quatro ogivas e, provavelmente, estas ogivas serão bastante trágicas. Serão usadas contra nós. A comunicação pode ser interrompida a qualquer momento, mas já falei o mais importante, meus concidadãos. Todos devem permanecer em seus lugares. Não há nenhum lugar seguro na Europa. Desta maneira estamos todos forçados a permanecer na mesma situação. Todos os distritos estão sob controle militar.

A família ouve a notícia sobre a guerra nuclear.

O desespero toma conta de todos, principalmente de Adelaide, que é acometida por uma crise histérica que só ameniza quando Victor lhe aplica um tranquilizante. Alexander, atordoado com o que acabou de ouvir, diz:

Toda a minha vida eu esperei por esse momento. Praticamente durante toda a minha vida.

Dopada, Adelaide tem um surto de consciência. Fala de suas escolhas, de seus enganos, das vicissitudes de sua vida. Enquanto isso, Alexander sobe as escadas e vai ao quarto do filho; dá uma olhada nele, que finge dormir. Entra vagarosamente em seu próprio quarto, ajoelha-se desajeitadamente (meio sentado), olha para cima e diz:

Pai Nosso … Pai nosso que estás no céu,

santificado seja o teu nome,

Venha a nós … o teu reino,

… céu …

O pão nosso de cada dia…

… mas livra-nos do mal.

Porque teu é o reino, o poder e a glória para sempre.

Amém.[2]

Após esse Pai Nosso entrecortado, envergonhado até, ele continua, num sussurro desesperado:

A oração de Alexander

Oh, Deus! Salvai-nos neste terrível momento. Não deixeis Vossas crianças morrerem, nem os meus amigos, minha esposa, Victor; todos que amam a Vós, todos que em Vós acreditam; todos que em Vós não acreditam porque são cegos; todos que, simplesmente, não Vos deram atenção porque até hoje nunca sofreram. Todos que, neste momento, perderam suas esperanças, seus futuros, suas vidas e a possibilidade de seguir Vossos pensamentos. Aqueles apavorados, sentindo o fim chegar; sentindo o pavor, não por si, mas pelo próximo. Para aqueles que não têm ninguém além de Vós para proteger… Porque esta guerra é a última… uma guerra horrível. E após, não haverá vitoriosos e nem perdedores; nem cidades e nem vilarejos; nem pasto e nem árvores, nem água nos poços, nem pássaros no céu. Dar-vos-ei tudo que tenho, abandonarei a minha família que amo. Destruirei minha casa, desistirei do meu filho. Ficarei mudo, nunca mais falarei com ninguém. Eu desistirei de tudo que me une à vida, se Vós fizerdes tudo voltar como era antes; como era nesta manhã, como era ontem. E livrai-me deste mortífero, nojento e animalesco pavor. Sim, disso tudo, Deus! Ajudai-me! Farei tudo o que prometi!

Arrasta-se até o sofá, deita-se e dorme.

E uma cena onírica, de beleza singular, antecede momento derradeiro do filme.

[…]

Alexander acorda, com Otto batendo na janela de seu quarto.

Otto está cauteloso e apreensivo; diz (ainda do lado de fora, pelo vidro da janela): “Ainda há uma esperança!”. Alexander não compreende. O carteiro revela: “Maria pode!” Alexander, assustado, o convida a entrar e tomar um conhaque. O diálogo entre os dois é intrigante (e definitivo):

— …você tem que ir até a Maria.

— Por quê?

— Você não quer que tudo isto acabe?

— Acabar? O que? O que você está dizendo?

— Tudo. Toda esta sina!

— Meu Deus, Otto.

— Espere, há um jeito de acabar com tudo isto.

— Otto!

— Sim, você tem que ir até a Maria e dormir com ela.

— Como?

— Estou dizendo que você tem que dormir com a Maria!

— Como, dormir com a Maria?

— É muito simples. Ela mora só. E se neste momento você só tem um desejo: que tudo isso termine. E não haverá mais nada!

— Isto é loucura, Otto! Meu Deus, Otto!

Há uma esperança!

— Você não entende de nada. É verdade, é verdade. É uma verdade sagrada. Ela tem poderes especiais. Eu sei, ela é uma feiticeira.

— Em que sentido?

— No bom sentido.

— Está brincando comigo? Está continuando com suas piadas de Nietzsche?

— Há alguma outra saída? Não há alternativa! Não há.

Daqui em diante entramos no ponto alto do testamento cinematográfico de Andrei Arsenievich Tarkovski.

Com o salto da fé, a resolução radical e, consequentemente (?), o fim do perigo, Alexander, transfigurado, cumpre sua promessa e rompe com o mundo; decidido a considerar indigno “tudo que não seja uma necessidade vital”[3].

O sacrifício de Alexander

A casa de madeira arde em chamas; a família, desesperada, corre ao seu encontro. Mas Alexander resiste-lhes e foge, como um louco, para os braços de Maria, que olha como quem compreende tudo. Cambaleia, emudece, imola-se.

É levado por uma ambulância, para sofrer em paz sua mudez.

Enquanto isso o filho caminha, carregando alternadamente dois baldes com água, a fim de regar a árvore seca. Deita-se confortavelmente e diz:

No princípio era o verbo. Por que, papai?

Uma elegia redentora

No Evangelho Segundo Mateus, encontramos as seguintes palavras:

Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á (Mt 16:25).

E, no cinema, Andrei Tarkovski foi quem melhor incorporou esse ideal e fez dele o seu testemunho, o seu martírio. E o fez com uma arte requintadíssima, cuja beleza e espiritualidade são indiscutivelmente inspiradas.

Exilado de sua terra natal, Tarkovski filmou “O Sacrifício” em Gotland, uma pequena ilha sueca ao lado de Fårö – a ilha domicílio de Ingmar Bergman. E não só utilizou o país de Bergman para as locações, como também várias pessoas de sua equipe. Dentre eles, além de Erland Josephson e Allan Edwall, Daniel Bergman – filho de Ingmar, como assistente de câmera –, e o lendário Sven Nykvist, na direção de fotografia.

Uma pequena digressão se faz necessária.

Para Tarkovski, a arte é uma “ânsia eterna e insaciável pelo espiritual, pelo ideal”[4], e o artista, alguém escolhido para transmitir uma espécie de mensagem divina à humanidade. Menciona o grande poeta Puchkin, para dizer que “todo poeta tem dom de profecia”, e que “o artista é sempre um servidor, e está eternamente tentando pagar pelo dom que, como que por milagre, lhe foi concedido”.[5] Mais do que isso, para Tarkovski, o telos da arte assemelha-se ao da Filosofia em Platão. Comparemos:

O objetivo da arte é preparar uma pessoa para a morte, arar e cultivar sua alma, tornando-a capaz de voltar-se para o bem.[6]

[…] os que praticam verdadeiramente a Filosofia, de fato preparam-se para morrer, sendo eles, de todos os homens, os que menos temor revelam à idéia da morte.[7]

E aquele que se abre para a arte, compartilha com o artista a mesma motivação, a mesma fé e a mesma entrega que o levou a realizar a obra. E nesse sentido, o artista, como servidor que é, constrói um caminho em direção àquele objetivo sempre perseguido, mas nunca alcançado. Ou seja, é um ato de dar a vida em favor do outro.[8]

A única condição para lutar pelo direito de criar é a fé na própria vocação, a presteza em servir e a recusa às concessões. A criação artística exige do artista que ele “pereça por inteiro”, no sentido pleno e trágico destas palavras. E assim, se a arte carrega em si um hieróglifo da verdade absoluta, esta será sempre uma imagem do mundo, concretizada na obra de uma vez por todas.[9]

Andersen e a “vereda dos espinhos”

Hans Christian Andersen – o grande escritor dinamarquês, famoso por contos como “A nova roupa do Imperador” e “A pequena vendedora de fósforos” – conta uma história muito comovente, chamada “A vereda dos espinhos”, em que fala do árduo caminho percorrido por homens célebres – dentre estes, os poetas –, a fim de revelar as verdades eternas. Diz:

A história do mundo é a projeção de uma lanterna mágica sobre o fundo escuro do passado, mostrando-nos a trajetória percorrida pelos grandes homens, pelos verdadeiros benfeitores da humanidade, através de suas veredas de espinhos. As cenas projetadas referem-se a todas as épocas, a todas as partes do mundo. Numa rápida síntese, desfilam ante nossos olhos os episódios que assinalaram existências longas e sofridas, mostrando-nos vicissitudes, conquistas, defeitos, êxitos. […] A vereda dos espinhos é longa, estendendo-se ao redor de todo o mundo. Bem-aventurados aqueles que foram escolhidos para percorrê-la, pois são eles os construtores da ponte que estabelece a ligação entre Deus e o Homem.[10]

E Tarkovski era plenamente consciente de sua vocação; por isso, O Sacrifício pode ser considerado o desfecho arrebatador de uma obra que buscou, incessantemente, seguir as pegadas de Deus. E fez de Alexander, assim como o “louco” Domenico (Nostalgia), o misterioso Stalker (Stalker), o monje Andrei Rubliov e o jovem sineiro Boriska (Andrei Rubliov), portadores de uma verdade incontestável:

Parece-me que, atualmente, o indivíduo se encontra em uma encruzilhada, confrontado com a opção de uma existência fundamentada em um consumismo cego, sujeito ao avanço inexorável da nova tecnologia e à infinita multiplicação dos bens materiais, ou, então, de buscar um caminho que conduza à responsabilidade espiritual, um caminho que, enfim, pode significar não apenas sua salvação pessoal, mas também a salvação da sociedade como um todo; em outras palavras, voltar-se para Deus. Esse é um problema que ele tem que resolver sozinho, pois só a ele cabe descobrir uma vida espiritual equilibrada para si mesmo. Ao resolvê-lo, ele pode se aproximar do estado em que pode ser responsável pela sociedade. Este é o passo que se transforma num sacrifício, no sentido cristão de auto-sacrifício.[11]

Deste modo, o ato de Alexander é um salto de fé radical e desesperado em busca de restaurar a Ordem[12] das coisas; a fim de solucionar – sacrificando tudo que lhe é mais caro:  a casa, o filho, a palavra – de forma misteriosa, as idiossincrasias do homem moderno. Esse homem que, ao longo do filme, é criticado veementemente; esse homem que destrói a si próprio em nome de um progresso burro; esse homem que, teimosamente, constrói a bomba que o vitimará, reverberando assim, dia após dia, as palavras de C. S. Lewis:

Cada novo poder conquistado pelo homem é, da mesma forma, um poder sobre o homem.[13]

Mas, contrariando o discurso positivista da ciência moderna, e perguntando ao mundo onde estão as “fronteiras da técnica” (Corção), Andrei Tarkovski é um homem corajoso (e, na maioria das vezes, incompreendido) que, como Paulo, o apóstolo dos gentios, não se envergonhava do Evangelho. E sua obra ecoa nos poemas de seu pai:

“Não acredito em pressentimentos, e augúrios

Não me amedrontam. Não fujo da calúnia

Nem do veneno. Não há morte na Terra.

Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há por que

Ter medo da morte aos dezessete

Ou mesmo aos setenta. Realidade e luz

Existem, mas morte e trevas, não.

Estamos agora todos na praia,

E eu sou um dos que içam as redes

Quando um cardume de imortalidade nelas entra.

[…]

Só preciso da imortalidade

Para que meu sangue continue a fluir de era para era.

Eu prontamente trocaria a vida

Por um lugar seguro e quente

Se a agulha veloz da vida

Não me puxasse pelo mundo como uma linha.”

(Arseni Tarkovski)

Andrei Tarkovski


[1] Erbarme dich, mein Gott, Um meiner Zähren willen; Schaue hier, Herz und Auge Weint vor dir bitterlich. Erbarme dich! Tem piedade de mim, Deus meu,observa meu pranto;eis que meu coração e meus olhoschoram amargamente diante de ti.Tem piedade de mim!

[2] Fader vår som… Fader vår som är i himmelen,

helgat varde ditt namn,

tillkomme ditt… ditt rike,

himmelen…

Vårt dagliga bröd

utan fräls oss ifrån ondo.

Ty riket är ditt, och makten, och härligheten, i evighet.

Amen.

[3] TARKOVSKI, Esculpir o tempo. Martins Fontes, p. 272.

[4] Ibid. p. 40.

[5] Ibid. p. 38.

[6] Ibid. p. 49.

[7] PLATÃO, Fédon. UFPA. Tradução: Carlos Alberto Nunes.

[8] “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos”. (João 15:13).

[9] Ibid. p. 42.

[10] ANDERSEN, Hans Christian. “A vereda dos espinhos”, in “Obra Completa – V. 1”. Villa Rica, p. 649, 653.

[11] Op. Cit. P. 261

[12] “Ordem é a estrutura da realidade como experienciada pelo homem, bem como a sintonia entre o homem e uma ordem não fabricada por ele, isto é, a ordem cósmica”. (VOEGELIN, Eric. Reflexões autobiográficas. É Realizações, 2008, p. 117).

[13] LEWIS, C. S. “A abolição do homem”. Martins Fontes, p. 56.

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