Lutero e a (livre) interpretação

Martin Luther

“Sim”, objetas novamente, ”se é verdade que é necessário ter escolas, de que nos adianta ensinar latim, grego, hebraico e outras artes liberais? Não se poderia ensinar a Bíblia e a palavra de Deus em língua alemã, o que nos basta para a salvação?” Resposta: Sim, infelizmente sei muito bem que sempre seremos chamados e haveremos de ser bestas e bichos loucos, pois é assim que nos chamam os países vizinhos, como certamente o merecemos. Apenas me admira por que não dizemos também: “Que nos interessa seda, o vinho, especiarias e este tipo de produtos estrangeiros, quando nós mesmos temos na Alemanha vinho, trigo, lã, linho, madeira e pedras em abundância para nosso consumo, e não somente isso, mas temos, inclusive, seleção e escolha para honrarias e jóias”? As ciências e as línguas, que não nos prejudicam, mas que, pelo contrário, nos servem de ornamento, proveito, honra e promoção (tanto para o entendimento da Sagrada Escritura como, também, para dirigir o governo secular), a estas queremos desprezar; os produtos estrangeiros, porém, que não nos são necessários nem úteis, e que, além disso, nos escorcham até os ossos, destes não queremos prescindir! Não é com razão que tais pessoas sejam chamadas de tolos e bestas?

(…)

E que seja dito o seguinte: não conseguiremos preservar o Evangelho corretamente sem as línguas. AS línguas são a bainha da espada do Espírito. São o cofre no qual se guarda essa preciosidade. Elas são o vaso que contém essa bebida. São a despensa em que está guardado esse alimento. E, como o mostra o próprio Evangelho, são os balaios nos quais se guardam esses pães e essas sobras. Sim, se o desprezarmos – Deus nos guarde disso! – a ponto de esquecermos as línguas, não perderemos apenas o Evangelho, mas chegaremos ao ponto de não mais falarmos ou escrevermos direito nem o latim nem o alemão. Como prova e advertência disso, tomemos por exemplo lamentável e assustador as universidades e conventos, nos quais não só se desaprende o Evangelho, mas também se corrompe a língua latina e alemã. Aí, então, as miseráveis pessoas quase viraram bichos; não sabem falar ou escrever corretamente nem alemão nem latim e quase perderam, inclusive, a razão natural.

(…)

Contanto que trataram as Escrituras sem o conhecimento das línguas, todas as explicações dos antigos pais, ainda que não ensinem nada de errado, revelam com muita freqüência uma linguagem insegura, desajeitada e inadequada. (…) Também o próprio Santo Agostinho tem que admitir, conforme escreve em seu livro “Da Doutrina Cristã”, que um mestre cristão, que quer interpretar a Escritura, tem de conhecer, além do latim, o grego e o hebraico. Do contrário, é impossível que não tropece em toda parte; pois isso até é muito difícil quando alguém domina bem as línguas.

(…)

Por isso é algo bem diferente o caso de um simples pregador da fé e de um intérprete da Escritura ou, como diz S. Paulo, de um profeta. Um simples pregador dispõe (é verdade), com base em traduções, de suficientes enunciados e textos claros para entender e ensinar a Cristo, viver uma vida piedosa e pregar a outros. No entanto, para interpretar a Escritura e tratá-la autonomamente e para combater aqueles que citam a Escritura erroneamente – para isso não tem formação; sem línguas isso não é possível. Mas na cristandade sempre se precisa destes profetas que estudam a Escritura e a interpretam e que e que também sejam aptos para o debate; para tanto não basta uma vida piedosa e o ensino correto.

(LUTERO, Martinho. Aos Conselhos de todas as cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs (1524). In: “Obras Selecionadas” – Vol. V, Sinodal, pp. 310-312).

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