O crepúsculo dos ídolos

“Luz de Inverno”. DVD da Versátil Home Vídeo

Luz de Inverno (Nattvardsgästerna) – 1961

Ingmar Bergman

“Uma obra-prima sobre a crise da fé”.

A frase acima é do jornalista Antonio Gonçalves Filho – autor do livro “A Palavra Náufraga – ensaios sobre cinema” (Cosac & Naify), e está na capa do DVD do filme Luz de Inverno, de Ingmar Bergman, lançado no Brasil pela Versátil Home Vídeo.

Às palavras de Gonçalves Filho, tomo a liberdade de acrescentar que Luz de Inverno é, sim, um filme sobre crise da fé; mas, também, sobre redenção (explicarei isso adiante).

Filmado em 1961 – como integrante daquela que seria conhecida como a “Trilogia do Silêncio”, juntamente com Através de um Espelho e O Silêncio –, Luz de Inverno é uma das obras mais bem realizadas de Bergman; e, em minha modestíssima opinião, está entre os seus três melhores filmes. É um filme curto, de 80 minutos, dividido em três movimentos – como uma música de câmera, diz Bergman no excelente documentário Ingmar Bergman Makes a Movie (1962), de Vilgot Sjöman[1].

Há poucas personagens e, na maior parte do tempo, concentra-se em duas. O protagonista é o pastor Tomas Ericsson (o que dizer de Gunnar Björnstrand e seus 23 filmes com Bergman?), e a professora Märta (Ingrid Thulin, poderosa!) é sua principal interlocutora. Há o sacristão Algot Frövik (Allan Edwall – o carteiro Otto, de O Sacrifício, de Tarkovski), o pescador Jonas Persson (Max von Sydow, que dispensa apresentações) e Karin Persson (Gunnel Lindblom), esposa de Jonas. Todos estes fizeram mais de três filmes com Bergman. Há ainda, em participações menores, o organista Fredik Blom, o administrador Knut Aronsson e a viúva Magdalena Ledfors.

A história é muito simples. Tão simples que Bergman, quando fala do filme, reiteradamente diz da dificuldade em realizá-lo, por sua extrema simplicidade. Trata-se de um único dia na vida de Tomas, um pastor protestante que se vê absolutamente sufocado por dúvidas em relação a Deus – e a tudo; questões que o levaram a um nível crítico de esgotamento, não só físico, mas emocional e espiritual. Sua esposa morrera havia quatro anos e, desde então, Tomas não consegue se encontrar. A professora Märta é sua nova amante, com quem tem uma relação assaz complicada – em determinado momento do filme diz, de maneira duríssima, que a odeia. Os dois são como companheiros de um naufrágio (palavras de J. R. R. Tolkien sobre o casamento, em carta a seu filho Christopher), tentando sobreviver ao mar furioso, utilizando uma única bóia, furada.

O filme se inicia numa pequena (e vazia) igreja sueca, com a Celebração da Ceia (ou Eucaristia). Há nove pessoas ao todo, incluindo uma criança. O pastor Tomas está visivelmente cansado e o tempo todo olha para o chão, não ousa encarar os fiéis. Depois de citar as Escrituras e o Pai Nosso, oferece o pão e o vinho:

Eucaristia

O corpo de Cristo.

(…)

O sangue de Cristo.

O silêncio constrangedor só é quebrado pela música sacra da liturgia (aliás, o filme não tem trilha sonora, o que o torna ainda mais opressivo). A criança, enfadada, dorme no banco. O organista toca impacientemente, bufando e olhando no relógio. O administrador boceja…Entretanto, nota-se um clima de devoção sincera nos olhos dos poucos comungantes. A viúva Magdalena e o sacristão Algot estão profundamente absortos.A belíssima bênção final é impetrada:

Os elementos

Abri vossos corações para Deus e recebei sua bênção.

O Senhor vos abençoe e vos conduza. Que a luz do Senhor brilhe sobre vós e seja benevolente. Que o Senhor vos guarde e vos conceda a paz.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Amém.

Todos saem, exceto o administrador  Knut e o sacristão Algot, que acompanham o pastor à sacristia. O primeiro conta as poucas moedas retiradas da salva de pano, enquanto o segundo aborda o pastor, dizendo ter um assunto sério a tratar. Algot é ligeiramente desprezado pelos outros dois; tem uma deficiência física incômoda e uma prestatividade irritante. O pastor promete uns minutos de conversa com ele antes do culto em Fröstnas, onde substituirá o pastor local, que “foi viajar com seu carro novo”.

Pastor Tomas tosse e boceja, está tão gripado que mal consegue manter os olhos abertos. De repente, chegam à sacristia o pescador Jonas e sua esposa Karin; querem falar-lhe. O assunto é sério: Jonas, ao ler nos jornais que a China está construindo uma bomba atômica, foi tomado de pavor, pensando, inclusive, em suicidar-se. A esposa está muito preocupada. O pastor fica desconcertado, não tem o que dizer; mas – de uma maneira absolutamente desastrada – diz:

Todos sentem este medo de certa forma. Temos que confiar em Deus.

Jonas Persson, que até então não dissera palavra, lança um olhar fulminante para o pastor, que, envergonhado, se levanta da cadeira. Nesse momento, a câmera de Sven Nykvist foca as mãos hesitantes do pastor, numa cena profundamente marcante. Bergman diz que o filme carece de cenas fortes[2]; pois eu acho esta um verdadeiro soco no estômago.

A esposa faz o pescador prometer levá-la para casa e retornar, para uma conversa particular com o pastor. Jonas resiste, mas obedece. Os dois saem.

Enquanto aguarda, Tomas abre uma carta, mas desiste de lê-la; é de Märta. Sai para a nave do templo e pára em frente a um ícone de Jesus Cristo crucificado, onde, acima da cruz, Deus-Pai o sustenta. O pastor olha e diz:

Que imagem ridícula.

Ícone

Märta chega, traz café – que ele recusa – e diz que não irá se demorar. Segue-se um diálogo tenso entre os dois, onde Deus e o amor – ou melhor, a ausência dos dois – são os assuntos principais. Tomas afirma, desconsolado ao lembrar-se da conversa fracassada com o casal Persson:

Deus está em silêncio.

Märta não lhe dá a mínima, concentra-se em seu amor e diz que Tomas deveria casar-se com ela; arremata dizendo:

Deus nunca falou, pois Deus não existe. Só isso.

Sai e deixa Tomas só; ele decide ler a carta. E eis que acontece um dos monólogos mais desconcertantes da história do cinema. Tomas lê a carta, mas é Märta quem aparece, em close, falando à câmera. Enquanto fala, a tensão cresce e seu rosto parece desfigurar-se lentamente. Dentre outras coisas, diz:

Tomas, eu nunca acreditei na sua fé. Principalmente por nunca ter sido torturada por aflições religiosas. Minha família não-cristã se caracterizava pelo carinho, união e alegria. Deus e Jesus existiam somente como noções vagas. Para mim sua fé é obscura e neurótica, de certa forma cruelmente esgotada de emoção, primitiva. Uma coisa em particular eu nunca fui capaz de entender: sua peculiar indiferença para com Jesus Cristo.

Märta narra sua carta

Também fala de sua mágoa, pela repugnância que Tomas demonstrou quando feridas apareceram em suas mãos e cabeça, fruto de um mal psicossomático. Pediu a Tomas que orasse com ela, mas ele se recusou. Ela, desesperada, o fez sozinha… e foi curada!

Por fim, declara:

Rezei para purificar minha mente e consegui. Percebi que amo você.

Rezei para usar minha força em alguma tarefa e obtive uma. Esta tarefa é você.

A cena é memorável!

Tomas termina de ler a carta tomado de ira. Junta as folhas e as coloca no envelope de qualquer jeito. Quando levanta o rosto, vê Jonas Persson. Mais uma vez, um desastre.

Em vez de ouvir Jonas, é ele quem se confessa. Diz ser um mau sacerdote, de ter formado para si uma imagem improvável de Deus, que amava a humanidade, mas a ele próprio acima de tudo; e que todas as vezes que tentava confrontar esse Deus, ele se transformava num Deus monstruoso. Entretanto, das muitas insensatezes que disse ao

A conversa desastrosa entre o pastor e o pescador

pescador, esta, talvez, tenha sido a pior:

Se Deus não existe, isso realmente faria alguma diferença? A vida se tornaria compreensível. Seria um alívio. E a morte seria a extinção da vida. O fim do corpo e do espírito. Crueldade, solidão e medo, todas estas coisas seriam claras e transparentes. O sofrimento é incompreensível, portanto não exige explicação. Não existe um criador. Nenhum provedor da vida. Nenhum desígnio.

Jonas sai sem dizer palavra.

O pastor deixa a sacristia, totalmente desnorteado; Märta o aguarda. Ele olha para ela e diz:

Agora estou livre; finalmente livre.

Uma cena belíssima!

Anda cambaleante e cai prostrado. Um sol vacilante (a luz de inverno?) entra pelo vitral e forma uma cena de raríssima beleza. Mais uma vez, obra do mestre Sven Nykvist.

Uma notícia chega pela viúva Magdalene e termina o primeiro movimento.

Aqui faço uma digressão para o comentário do próprio Bergman em relação a esse filme:

Com “Luz de Inverno” eu me despedi do debate religioso e apresentei o resultado, o que talvez seja de menos importância para os espectadores que para mim. O filme é como uma laje de sepultura que coloco sobre um conflito doloroso que, em minha consciência, se manteve em carne viva grande parte da minha vida. As imagens de Deus foram destruídas sem que meu sentimento de ser humano, portador de um destino sagrado, se tenha esvaecido. Com este filme, ponho um ponto final ao problema.[3]

A descrição deste primeiro ato é o suficiente para sabermos que Luz de Inverno é um filme denso e dramático. À parte da tensão entre ele e Märta – que figura aqui como uma espécie de contraponto forte e mundano da fraqueza espiritual de Tomas – o casal Persson (sobretudo o marido) tem papel decisivo na trama e no destino do pastor.

A esposa era seu porto seguro e, de certa forma, seu ídolo. Com sua morte, Tomas está condenado. Bergman diz, em Imagens:

Parece-nos tratar-se de uma complexidade de caráter religioso, mas é mais profundo do que isso. Sob o ponto de vista sentimental, o pastor está em vias de morrer. Sua vida se desenrola sem amor, sem quaisquer relações humanas.[4]

Frövik fala ao pastor sobre sofrimento e abandono

Quando o filme se encaminha para o final, sem nenhuma perspectiva de redenção, surge Algot Frövik, na sacristia da igreja de Fröstnas. Frövik diz que a questão que quer tratar é urgente. Relembra que quando as dores que sentia à noite

não o deixavam dormir, o pastor recomendara-lhe a leitura do Evangelho. Brinca dizendo que, de fato, às vezes, é um excelente sonífero. Porém, quando chegou na Paixão de Cristo, suas dores milagrosamente cessaram. Então faz uma comparação entre o sofrimento físico de Cristo – que considera igual (ou menor) ao seu – e o sofrimento espiritual, moral. Diz que é um erro enfatizarmos o sofrimento físico de Jesus, pois, o seu maior sofrimento foi ser abandonado por todos, inclusive por Seu Pai. Surpreende Tomas, dizendo:

Quando Cristo foi pregado na cruz, em meio ao sofrimento ele gritou: “Deus, meu Deus! Por que me abandonastes?” Ele gritou tão alto quanto podia. Ele achou que Seu Pai o havia abandonado. Achou que tudo que havia pregado era mentira. Nos momentos que antecederam sua morte, Cristo teve dúvidas. Certamente, aquele deve ter sido seu maior sofrimento.

Na Igreja vazia, somente Märta aguarda, sentada num banco no fundo do templo. O organista chega embriagado, faz uma provocação a Märta – afirmando que a esposa de Tomas foi sua ruína –, entra na sacristia e pergunta se haverá mesmo missa, pois não há ninguém na igreja, com exceção da amante do pastor. Se não, ele vai embora, pois tocará na Loja Maçônica.

Tomas – contra todas as expectativas – se encaminha para o templo; Fröviz dá um leve sorriso. O culto começa:

Santo, Santo, Santo,

Senhor Deus do Universo.

A terra proclama a Vossa glória.

Märta ajoelha-se.

Em Ingmar Bergman Makes a Movie ficamos sabendo que a personagem Algot Frövik foi inspirada em K. A. Bergman, produtor de objetos da equipe de Ingmar Bergman. K. A., assim como Frövik, sobre da Doença de Bechterew (hoje conhecida por Espondilite anquilosante), uma artrite inflamatória crônica, que causa dores lancinantes na região dos rins, irradiando para as pernas, ombros e mãos. Um dos efeitos é o enrijecimento do pescoço. K. A., em suas palavras, nos lembra a atitude de Tomas depois de ouvir as palavras de Algot:

Ficar na cama quando se está doente é o nosso pior erro. Precisa continuar se movendo. Mesmo que doa, precisa combatê-lo.[5]

Creio que agora consiga esboçar o que chamei de redenção no início deste texto.

Frövik e – podemos dizer também – Märta representam o cidadão comum que, apesar das circunstâncias, não deixa de crer; no infortúnio, é portador da Virtude Cardeal chamada Fortaleza[6].

Alguns podem se enganar, dizendo que Algot e Märta são levados por uma espécie de sentimento de dever do tipo kantiano; porém, algumas de suas atitudes demonstram o contrário. Por exemplo, a oração desesperada (e a cura) de Märta e a constatação de Algot que suas dores cessaram ao ler o Evangelho.

Não digo que Bergman tenha feito isso propositalmente – ele mesmo emprega uma dualidade de interpretações em Imagens[7]. Mas que, de uma maneira ou de outra, mais uma vez, a porta da graça se mantém aberta.

O que ocorre com o pastor Tomas Ericsson – e que acontecera anteriormente com Algot e Märta – é uma espécie de crepúsculo dos ídolos. Um despedaçar das imagens falsas de Deus e um despertar para a crueza da própria realidade, que nos convida, não à desilusão, mas a – como diria Chesterton –,  “crer no incrível”. Como disse Bergman (em citação anterior): as [antigas] imagens de Deus foram destruídas...

Dietrich BonhoefferIsso me remete às reflexões brilhantes de Dietrich Bonhoeffer, teólogo e pastor protestante alemão, morto pelo regime nazista – por ordem do próprio Hitler – a menos de um mês do suicídio do próprio Fürher. Conspirava contra a barbárie, inclusive, participando de um atentado malsucedido a Hitler.

Bonhoeffer representa em seu tempo a resistência radical da fé no Cristo diante do absurdo do nazismo e da guerra. Seus escritos são recheados de palavras de encorajamento e de reflexões acerca da fé num mundo caótico. Numa carta a Eberhard Bethge, seu cunhado e amigo, escrita em 30 de abril de 1944, dá pistas do que vinha pensando a esse respeito (a citação é longa, mas preciosa):

O que me ocupa incessantemente é a questão: o que é o cristianismo, ou ainda, quem é de fato Cristo para nós hoje. Foi-se o tempo em que se podia dizer isso para as pessoas por meio de palavras – sejam teológicas ou piedosas; passou igualmente o tempo da interioridade e da consciência moral, ou seja, o tempo da religião de maneira geral. Rumamos para uma época totalmente arreligiosa; as pessoas, sendo como são, simplesmente não conseguem mais ser religiosas. Também aquelas que sinceramente se dizem “religiosas”, de modo algum praticam o que dizem; portanto, é provável que com o termo “religioso” esteja referindo-se a algo bem diferente. Porém, toda nossa pregação e teologia cristãs de 1900 anos baseiam-se no a priori religioso das pessoas. O “cristianismo” sempre foi uma forma (talvez a verdadeira) da “religião”. Ora, se um dia evidenciar-se que esse a priori nem existe, mas foi uma forma de expressão historicamente condicionada e passageira do ser humano, se, portanto, as pessoas tornarem-se radicalmente arreligiosas – e acredito que em maior ou menor grau esse já seja o caso (p. ex., por que esta guerra, diferentemente de todas as demais, não provoca uma reação “religiosa”?) – então o que isso significa para o cristianismo? (…) Devemos atirar-nos, zelosos, rancorosos e indignados, precisamente sobre esse grupo suspeito de pessoas para vender-lhes nossa mercadoria? Devemos assaltar um punhado de pessoas infelizes num momento de fraqueza e, por assim dizer, violentá-las religiosamente? Se não quisermos nada disso e se, por fim, tivermos de considerar a forma ocidental do cristianismo como um estágio preliminar de uma arreligiosidade total, que situação surge então para nós, para a Igreja? Como poderá Cristo tornar-se o Senhor também dos arreligiosos? (…) Como podemos falar de Deus – sem religião, ou seja, sem os pressupostos temporalmente restritos da metafísica, da interioridade etc? Como podemos falar (ou talvez nem mesmo se possa mais “falar” disso como até agora) “de maneira mundana” de Deus? Como podemos ser cristãos “de maneira arreligiosa e mundana”? Como podemos ser ekklesia, convocados dentre outros sem nos entendermos como preferidos em sentido religioso, mas como, pelo contrário, totalmente pertencentes ao mundo? Cristo não é mais, então, objeto da religião, mas algo bem diferente, de fato, Senhor do mundo.[8] *

Ou seja, é um convite, feito ao pastor Tomas Ericsson (e, por que não, a nós?), para falar de Deus – mais do que isso, ser de Deus! – num mundo onde não mais se crê Nele e Dele nada se espera. Onde se está “abandonado”.

Esse me parece ser o Deus de Bergman. Será o nosso?

Paulo Cruz


[2] BERGMAN, Ingmar. Imagens, Martins Fontes, p. 262

[3] Ibid., pg. 30.

[4] Ibid., pg. 262.

[6] (…) Quem resiste ao poderio do mal como empiricamente mais fraco, talvez arrisque coisas que tocam já mais perigosamente a existência: a liberdade, a saúde e a vida. No final das contas, toda a verdadeira Fortaleza baseia-se na disposição para a morte; ou, mais precisamente, na disposição para o testemunho de sangue. O verdadeiro símbolo da Fortaleza é o mártir. Mas a ausência de brilho permanece através de todos os graus de sua realização, como uma característica praticamente distintiva: nada se diz de ousadia, de risco, nem de “empenho heróico” (aliás, quando disto se fala, já se trata, quase com certeza, de um sinal de que nem existe a situação que exigiria autêntica Fortaleza). É precisamente ao extremo teste da virtude, ao próprio martírio, que costuma faltar completamente o brilho do “heróico”. A ousadia, a disposição de partir para a luta, o espírito vital de ataque do primeiro momento desvaneceram-se, e a dúvida talvez esteja penetrando até à própria consciência a tal ponto que o sacrificado – quando, digamos, a porta da masmorra se fechou definitivamente atrás dele -, é assaltado pela pergunta de se, afinal, não seria ele o idiota. Do mártir, afinal de contas, se fala post festum; as coroas de flores da veneração só vêm depois. Antes, na própria consumação do martírio, nada há senão um prisioneiro, um solitário, um objeto de riso e, sobretudo, um emudecido. Só lhe fica então a paciência que, ao longo de toda a tradição espiritual, tem sido considerada parte fundamental da Fortaleza. Hildegard von Bingen chama à paciência coluna “que por nada se deixa amolecer”. E nós, tarde nascidos, começamos a perceber porque os antigos consideravam como a parte essencial da Fortaleza o resistir, e não o atacar. (PIEPER, Josef. Estar certo enquanto homem – As Virtudes Cardeais. Tradução: Jean Lauand. Disponível em: http://sempreezen.blogspot.com.br/2008/01/estar-certo-enquanto-homem-as-virtudes.html. Acesso em 11/06/12).

[7] “Tudo foi queimado, e surge agora a primeira oportunidade de uma nova sementeira. Pela primeira vez em sua vida o pastor Ericsson toma uma resolução própria. Ele celebra uma missa embora não haja ninguém presente na igreja além de Märta Lundberg. Se uma pessoa é crente, pode dizer que Deus fala com ela. Se, pelo contrário, somos estranhos a qualquer concepção divina, podemos dizer que Märta Lundberg e Algot Frövik são dois seres humanos que levantam seu próximo de uma queda. Que conduz à morte. Nesse caso é indiferente se Deus se mantém calado ou s se pronuncia. (Op. Cit, pg. 269).

[8] BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e Submissão – Cartas e anotações da prisão. Sinodal, pg. 371.

* Aos teólogos peço que ponderem: Bonhoeffer escreveu isso da prisão, em plena II Guerra Mundial, numa Alemanha devastada pelo nazismo. Nada de ligações apressadas com a famigerada Teologia da Morte de Deus, que surgiu nos EUA na década de 60.

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