Eric Voegelin e o Cristianismo

ERIC VOEGELIN E O CRISTIANISMO


 O encontro turbulento e redentor com o Deus Desconhecido, que se tornou o Deus Conhecido por sua presença em Cristo; eis a novidade absoluta do cristianismo perante os mitos, as filosofias e as religiões da Antiguidade. (Eric Voegelin)

Este artigo visa a apresentar um pequeno panorama das relações fundamentais entre a filosofia de Eric Voegelin e o cristianismo.

Perfil biográfico

Erich Hermann Wilhelm Voegelin nasceu em Colônia, na Alemanha, em 03 de janeiro de 1901, e faleceu em Stanford, na Califórnia (EUA), em 19 de janeiro de 1985. Douturou-se na Universidade de Viena em 1922 (foi aluno de Othmar Spann e Hans Kelsen; este último, jurista e redator da constituição de Viena; o primeiro, cientista social), e lá mesmo tornou-se professor associado de Ciência Política, na Faculdade de Direito, em 1929. Em 1938 foi demitido pelo governo nazista, por sua frontal oposição ao regime nacional-socialista e a Hitler. Suas quatro obras publicadas entre 1933 e 1938, onde, dentre outras coisas, denuncia a total falácia do conceito de raças[1], colocaram a Gestapo em seu encalço.

Foge para Suíça com sua esposa, Lissy Voegelin (1906 – 1996), e, de lá, para os Estados Unidos. Passa um ano lecionando no departamento de Ciência Política em Harvard e depois na Universidade do Alabama.

Em 1942, ingressa no corpo docente da Universidade Estadual da Louisiana, permanecendo até 1958, quando recebeu o convite para retornar à Alemanha e fundar o Instituto de Ciência Política da Ludwig-Maximilians-Universität, em Munique, ocupando a cadeira que um dia fora de Max Weber.

Em 1969 retorna definitivamente para os EUA, para o Instituto Hoover para o Estudo da Guerra, Revolução e Paz da Universidade de Stanford, lá permanecendo até sua morte, em 1985.

História e Realidade

Eric Voegelin afirma que o objetivo de sua obra é o que chamou de Filosofia da História, e tem suas origens na situação política que viveu [2]. Uma de suas principais reflexões dá-se no campo da linguagem. Afirma que, por influência das ideologias, a linguagem perverteu-se de tal forma, que é impossível ser usada para expressar a verdade da existência. Sendo assim, é necessário que o filósofo rompa com o círculo intelectual ideológico dominante e saia em busca de recuperar o sentido da realidade; e a melhor maneira de efetivar a retomada deste sentido é o contato com os pensadores do passado que ainda não o tinham perdido, ou que estavam preocupados em recuperá-lo. Tal façanha exige um trabalho árduo, de reconstrução das categorias fundamentais da existência, da experiência, da consciência e da realidade [3].

Segundo Voegelin, dentre as supressões da realidade operadas pelas ideologias – com o intuito de erigir falsos sistemas –, um item sempre excluído é a “experiência de tensão do homem em direção ao plano divino de sua existência” [4], e afirma que este comportamento é denunciado desde a filosofia antiga [5].

 

Ordem e História

Os volumes de “Ordem e História”, publicados pela Ed. Loyola

Ordem[6] é um termo recorrente na obra de Voegelin. Para ele, as experiências de ordem e desordem remontam ao mundo pré-histórico, e utiliza o termo alienação (αλλοτρίωσις), criado pelos estóicos – um estado de retirada do próprio eu [7] –, para retratar a desordem de nosso tempo. Se existir filosoficamente é ter consciência da humanidade do homem, a alienação é um afastamento dessa consciência.

Ordem e História é seu magnum opus, em cinco volumes, escrito com a finalidade de estudar os símbolos das experiências históricas do ser humano, desde o mundo antigo até a atualidade, e buscar a restauração da ordem da existência. O volume I trata das experiências de revelação no Oriente Próximo – do salto no ser dos antigos hebreus –, e do período dos profetas. Os volumes II e III tratam do período helenístico, e o volume III é dedicado, exclusivamente, a Platão e Aristóteles. Nos volumes IV e V, Voegelin rompe com o projeto

Em “Anamnese”, publicado pela É Realizações, encontramos o desenvolvimento da Filosofia da Consciência de Voegelin.

original e procura construir uma Filosofia da Consciência (e não mais uma Filosofia da História), pois passa a acreditar que o problema da ordem é um problema da consciência. No volume IV há uma interessante exegese cristã, a partir da análise da teologia do apóstolo Paulo.

Voegelin e o Cristianismo

O ponto culminante da pesquisa de Voegelin é sua exegese do cristianismo. Retomando a tradição filosófica desde Platão e Aristóteles, passando por teólogos patrísticos como Clemente de Alexandria e Irineu de Lião; visitando a escolástica de Tomás de Aquino até aportar na exegese histórico-crítica dos teólogos protestantes alemães, Voegelin afirma que o advento de Cristo é a realização dos mitos, das filosofias e das religiões antigas [8].

Na década de 1970, Voegelin proferiu uma palestra denominada Evangelho e Cultura, onde expõe suas ideias a respeito do tema de maneira singular. Inicia afirmando que se a “comunidade do evangelho (a εκκλησία του θεου) não se tivesse penetrado na cultura do tempo ao entrar em sua ‘vida da razão’, teria permanecido uma seita obscura e provavelmente desapareceria da história” [9]. Analisando, então, o que chama de realidade interina [10] – a μεταξύ de Platão –, afirma que a existência não é um fato, mas sim movimento perturbante da realidade interina em direção ao fundamento divino do ser.

Numa passagem magistral, Voegelin fala do momento preciso onde a filosofia grega e o Evangelho se encontraram na história, onde houve a canalização do processo de busca pelo fundamento divino do ser: é na passagem do evangelho de João, capítulo 12, quando um grupo de gregos se aproxima dos apóstolos Filipe e André (nomes gregos!) com o desejo de ver Jesus, ao que Jesus responde que esta é a hora do Filho do Homem ser glorificado [11]. Noutra passagem descreve (de maneira poética) o processo de tensão paradoxal entre o deus mítico da filosofia grega e o Deus cristão [12].

Por fim, Voegelin critica os danos que os caminhos que a própria teologia cristã e seu dogmatismo causaram a essa visão do movimento de busca e de interinidade das realidades humanas, dizendo que, quando a teologia viu na revelação algo pretensa e completamente novo, negligenciou (e contestou) a experiência do homem antigo [13], e que era preciso, como Tomás de Aquino, restabelecer a perspectiva de que o Cristo não é só o Cabeça da Igreja, mas sim, de toda humanidade.

Fazendo ligações e correlações entre a filosofia grega e a mensagem cristã, e afirmando categoricamente não só essa ligação, mas o cumprimento de uma pela outra, é que Voegelin pretende nos mostrar que, tendo o mesmo cerne noético do evangelho, a filosofia deve intervir nas experiências de teofania, a fim de entender e resgatar a realidade da existência em direção ao fundamento do ser.

Ainda há algo a considerar: Voegelin foi muito criticado por alguns contemporâneos seus, pelo fato de não ter manifestado, em nenhum momento, sua fé cristã. Muito pelo contrário, sua exegese ignora alguns dogmas cristãos tradicionais – como a ressurreição de Cristo, a parusia –, bem como o sentido de salvação, fundamental e imprescindível na teologia cristã. Porém, temos de compreender que a intenção de Voegelin não era dogmática; ele não pretendia criar uma doutrina cristã, mas, simplesmente, enquadrar sua análise do cristianismo no contexto de sua filosofia da ordem; e, de fato, para ele, o cristianismo é a culminância do processo de diferenciação[14] da revelação da realidade em direção ao Fundamento. No entanto, acusa a doutrina cristã de ter-se distanciado do drama histórico da revelação, descarrilando no gnosticismo[15], dando origem a ideologias revolucionárias – inclusive dentro do próprio seio do cristianismo.

O debate acerca dessas questões não está encerrado, e, também, o próprio Voegelin nunca se pretendeu unânime. Mas não podemos negar que estamos diante de um grande filósofo, e suas análises – bem como as de outros pensadores ao longo da História (alguns citados neste artigo) – das patologias existenciais de nosso tempo, nos fornecem elementos suficientes para que busquemos um caminho para a restauração da ordem do homem e da sociedade.

Paulo Cruz


Notas:

[1] O movimento nacional-socialista estava em franca ascensão, e, embora ainda não fosse possível antever sua chegada ao poder, o debate sobre as raças, o problema dos judeus e outras questões afins estavam muito presentes. O material se oferecia naturalmente à análise, e daí surgiram meus dois volumes sobre a questão da raça. A esse volumes incorporei também conhecimentos recém-adquiridos, e agora aprimorados, de teoria biológica. (VOEGELIN, Eric. 2008, p. 69, 70).

[2] “As motivações de minha obra, que culmina em uma filosofia da história, são simples. Elas têm origem na situação política. Qualquer pessoa bem informada e inteligente que, como eu, tenha testemunhado a história do século XX desde o fim da Primeira Guerra Mundial, se vê cercada, e mesmo asfixiada, pela maré montante da linguagem ideológica. (…) Por ser impossível reconhecer como debatedores os que se valem da um linguagem ideológica, é preciso torná-los objeto de investigação.” (Ibid., p. 139)

[3] Ibid., p. 143

[4] Ibid., p. 146

[5] “Renunciar ao plano divino significa recusar-se a reconhecer que sua existência é constitutiva da realidade do homem. Essa renúncia deliberada à experiência fundamental da realidade foi diagnosticada pelos estóicos como uma doença do espírito”. (Ibid., p. 148)

[6] “Ordem é a estrutura da realidade como experienciada pelo homem, bem como a sintonia entre o homem e uma ordem não fabricada por ele; isto é, a ordem cósmica.” (Ibid., p. 117)

[7] “Na psicopatologia estóica, allotriosis é um estado de retirada do próprio eu, o qual se constitui pela tensão entre o homem e o plano divino da existência. Uma vez que, tanto na filosofia clássica quanto na estóica, o plano divino da existência é o logos, ou fonte de ordem neste mundo, a retirada do eu, constituído por essa força ordenadora, é um recuo da razão na existência”. (Ibid., p. 118)

[8] “O encontro turbulento e redentor com o Deus Desconhecido que se tornou o Deus Conhecido pela sua presença em Cristo, eis a novidade absoluta do cristianismo perante os mitos, as filosofias e as religiões da Antiguidade”. (HENRIQUES, Mendo Castro. 2010, p. 180)

[9] VOEGELIN, Eric. 1988.

[10] “Tanto o chamado erotismo platônico da busca (zetesís) quanto a atitude aporética de Aristóteles, intelectualmente mais agressiva, reconhecem no “homem questionante” o homem movido por Deus a pôr as questões que o conduziram à causa do ser (arché).  A própria busca é a evidência da inquietação existencial; no ato de questionar, a experiência humana de tensão (tasís) para o fundamento divino irrompe na palavra da interrogação como uma oração pelo Verbo da resposta.  Questões e respostas estão intimamente relacionadas; a busca move-se no que Platão designou por metaxy, a realidade interina da pobreza e da riqueza, do humano e do divino; a questão é conhecimento, mas este conhecimento é ainda o tremor de uma questão que pode ou não alcançar a verdadeira resposta”. (Ibid., 1988).

[11] “Ora, havia alguns gregos, entre os que tinham subido a adorar no dia da festa.

Estes, pois, dirigiram-se a Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e rogaram-lhe, dizendo: Senhor, queríamos ver a Jesus.

Filipe foi dizê-lo a André, e então André e Filipe o disseram a Jesus.

E Jesus lhes respondeu, dizendo: É chegada a hora em que o Filho do homem há de ser glorificado”. (Jo 12: 20-23)

[12] “O Deus que brinca com o homem como um fantoche não é o Deus que se torna homem para salvar a vida, sofrendo a morte. O que gerou a narrativa salvífica da encarnação, morte e ressurreição divinas em resposta à questão da vida e da morte, é consideravelmente mais complexo do que a filosofia clássica; é mais rico devido ao fervor missionário do seu universalismo espiritual; é mais pobre pela sua negligência do controle noético; é mais amplo pelo seu apelo à humanidade inarticulada no homem comum, mais restrito devido à tendência contra a sabedoria articulada dos sábios; mais imponente através do seu tom imperial de autoridade divina; mais desequilibrado devido à sua ferocidade apocalíptica que conduz ao conflito com as condições da existência humana em sociedade; mais compacto devido à sua generosa absorção de extratos anteriores de imaginação mítica, especialmente devido à recepção da historiogênese israelita e à exuberância dos milagres operados; mais diferenciado através da experiência intensamente articulada da ação amoroso-divina na iluminação da existência pela verdade.” (Op. Cit., 1988)

[13] “Uma vez que a revelação (a diferenciação da consciência pneumática) tinha de ser algo completamente novo, que marcasse uma nova época na história, a presença, de forma compactada, do estrato pneumático no pensamento do homem primitivo foi negligenciada e mesmo contestada”. (Op. Cit. 2008, p. 160, 161)

[14] DIFERENCIAÇÃO: Processo pelo qual a verdade da existência é compreendida e articulada de um modo mais completo e profundo. Platão, por exemplo, diferencia a realidade transcendente como uma presença na alma denotada por termos como “noûs” e “helkein”. A compreensão mais compacta de transcendência nas sociedades cosmológicas compreendia o universal como um poder no cosmos. (FEDERICI, Michael P. 2011, p. 194)

[15] GNOSTICISMO: Ideologia que afirma o conhecimento absoluto da realidade. Segundo Voegelin, caracteriza o mundo moderno. É engendrado pela insatisfação com a estrutura da existência como ela é, pela crença de que uma nova ordem pode ser criada pela execução de um plano revolucionário de ação, baseado na gnose. A nova ordem representa uma transformação da natureza humana e da própria estrutura da existência. (Ibid., pp. 199, 200).

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Bibliografia:

FEDERICI, Michael P. Eric Voegelin – A restauração da ordem. São Paulo: É Realizações, 2011. Tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca.

HENRIQUES, Mendo Castro. A filosofia civil de Eric Voegelin. São Paulo: É Realizações, 2010.

PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Tradução de Anna Lia Amaral de Almeida Prado.

SANDOZ, Ellis. A revolução voegeliniana. São Paulo: É Realizações, 2010. Tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca.

VOEGELIN, Eric. Anamnese. São Paulo: É Realizações, 2009. Tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca.

VOEGELIN, Eric. Reflexões autobiográficas. São Paulo: É Realizações, 2008.  Tradução de Maria Inês de Carvalho.

VOEGELIN, Eric. Ordem e História (vols. I, II, III, IV, V). São Paulo: Loyola, 2010. Tradução:  Cecília Camargo Bartolotti (I, III), Luciana Pudenzi (II, V) e Edson Bini (IV).

VOEGELIN, Eric. Evangelho e Cultura. 1988. Disponível em: <https://christianrocha.files.wordpress.com/2009/05/eric-voegelin-evangelho-e-cultura.pdf&gt;. Acesso em 05 de janeiro de 2015. Tradução de Mendo Castro Henriques.

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4 respostas para “Eric Voegelin e o Cristianismo

  • Edug

    Muito bom artigo, parabéns!
    Tenho muito interesse na abordagem filosófica de Eric Voegelin. Essa consciência de que a linguagem reflete ideologias que suprimiram a realidade essencial e a consequente tentativa de recuperar o sentido dessa realidade é algo fascinante e deveria ser encarado com a finalidade última da própria filosofia ou no mínimo seu campo de investigação mais relevante.

  • Paulo Renan França

    Só uma curiosidade: Apesar das críticas por não manifestar abertamente sua fé, Voegelin era cristão?

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