Os terrores de Bergman

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A Hora do Lobo (Vargtimmen) – 1968

Em seu livro “Imagens” (Martins Fontes, 1996), Ingmar Bergman recorda que as anotações para “A Hora do Lobo” – considerado seu filme de terror – iniciaram-se em 1962, logo depois de terminar “Luz de Inverno” (obra-prima que faz parte da chamada Trilogia do Silêncio).

Axel Fridell: Den gamla antikvitetshandeln (Little Dorrit)

O argumento iniciou-se sob o nome de “Os Canibais”, e faz alusão a uma sombria gravura de Axel Fridell (1894 – 1935) – artista gráfico sueco, cujos desenhos mostram, em geral, figuras e cenas grotescas – onde um grupo de canibais cerca uma menina, preparando-se para atacá-la, enquanto um velho débil a protege (inutilmente, ao que parece).

“A Hora do Lobo” é uma espécie de conto de horror, narrado por Alma, esposa grávida (fragilizada, portanto) de Johan, um pintor assombrado por demônios.

O filme se inicia com um texto, onde o “narrador” explica que Johan morrera e que a história que se segue foi retirada de seu diário e do relato de Alma.

Em seguida, curiosamente – enquanto o nome dos atores vai aparecendo em letras brancas sobre o fundo preto –, ouvimos uma conversa no estúdio, entre o diretor e sua equipe, preparando-se para uma filmagem. É como se nos insinuasse: “vejam, isso aqui é um filme, não é real”.

A primeira cena é marcante. Alma sai da casa, senta-se num banco e começa a contar como as coisas aconteceram; fala à câmera, ao espectador, e seu rosto revela um pavor contido e uma resignação comovente:

“Você se pergunta por que escolhi permanecer aqui? Vivemos juntos nessa casa por quase sete anos” – explica-se Alma a seu interlocutor.

Conforme dito acima, Alma está grávida – Liv Ulmann estava realmente grávida, de Linn Ulmann, filha que teve com Ingmar Bergman, seu marido na época; seu rosto, ligeiramente inchado (ainda assim muito belo), revela isso. Conta, em poucas palavras e de maneira um tanto desconexa, o que os levou à Ilha de Baltrum (Ilhas Frísias, Alemanha) e o que aconteceu com Johan.

A próxima cena é, em minha opinião, umas das melhores do filme; muitíssimo bem-feita, mostra a chegada de Johan e Alma à ilha num pequeno barco. E mostra, também, porque Sven Nykvist é um dos maiores diretores de fotografia de todos os tempos.

O início do filme mostra uma espécie de vida paradisíaca do casal, compartilhando da beleza e quietude de uma ilha isolada. Uma vida onde, aparentemente, nenhum mal poderia tirar-lhes a paz. Até que, ao voltar de uma costumeira pescaria, Johan está sombrio. Um lençol branco no varal, sacudindo freneticamente ao vento, em frente à câmera, materializa o desconforto do casal ao se encontrar à entrada da casa. Alma vem sorridente receber o marido, Johan a abraça de um jeito estranho, mudo, e faz-lhe um carinho agressivo no rosto.

O rumo da história começa a se apresentar: Johan mostra a Alma alguns desenhos dos demônios que diz estar vendo; está assustado e assusta a esposa. No outro dia, enquanto Alma estende roupas no varal, uma senhora de aspecto espectral lhe aparece no quintal (como que saída do nada) e pede a ela que leia o diário de Johan, que está embaixo da cama (como ela sabia?). Já Johan tem alguns encontros na ilha: com sua amante Verônica Vogler – um dos pivôs da história –, o terapeuta Heerbrand (em quem, por sua insistência em segui-lo, dá uma bofetada violenta no rosto) e o Barão von Merkens, dono de um castelo na ilha. É convidado, por este último, para um jantar no castelo. É nesse jantar que, praticamente, toda a trama se desenrola.

Daí em diante, tudo acontece como num sonho, até o desaparecimento de Johan, na floresta, perseguido pelos demônios (o Barão e família: esposa, mãe e irmão; o terapeuta Heerbrand, o arquivista Lindhorst e a velha que apareceu à Alma), que o ferem, fazendo seu sangue jorrar.

O pequeno demônio

Há cenas memoráveis e aterrorizantes no filme; como a que Johan, enquanto pesca, encontra-se com um garoto (um “pequeno demônio”, segundo Bergman) que o ataca, o morde e o força a matá-lo, batendo-o violentamente nas rochas pontiagudas da encosta e jogando-o no mar. Bergman diz que a ideia era que essa cena fosse filmada com os atores totalmente nus. Que, se assim fizesse, “o plano teria tido uma nitidez brutal”. Porém, diz que não teve energia ou ousadia para pedir isso a Max von Sydow.

Também há a cena em que o Barão von Merkens sobe pela parede e anda no teto – num truque perfeito! –, dizendo-se enciumado pelo encontro de Johan com Verônica Vogler.

Uma frase particularmente interessante é dita pelo arquivista

Efeito especial em 1968

Lindhorst, que maquia Johan de um jeito apalhaçado e efeminado para o encontro com Verônica. Sempre que este homem aparece, um (ou mais) corvo(s) aparece(m) também. Ao deixar Johan na porta do quarto onde está sua amante, diz – batendo um par de asas que surge repentinamente em suas costas – cercado por corvos: “Você vê o que quer!”

A cena do encontro com Verônica é o ponto alto do filme. Interpretada pela belíssima Ingrid Thulin, a amante de Johan encontra-se deitada, como morta, numa mesa semelhante à de uma funerária, nua e coberta por um lençol branco. Johan a descobre, passa a mão sobre seu corpo nu, quando, de repente, ela abre os olhos e começa a gargalhar. Levanta-se e começa a beijá-lo frenéticamente. Johan percebe outras gargalhadas no local, levanta a rosto e vê todos os demônios assistindo sua situação vexatória. O quadro é pavoroso. Johan se vê humilhado e diz:

Eu agradeço a você. A barreira foi finalmente ultrapassada. O espelho foi quebrado. Mas o que é refletido por seus pedaços? Você consegue me dizer?

Os demônios caçoam de Johan

A cena termina e o filme retorna à Alma, no “presente”, que conta o restante da história; de como encontrou Johan na floresta sendo perseguido pelos demônios, e como ele, de repente, desapareceu. O plano, então, é mostrado. Alma termina sua narrativa perguntando a seu interlocutor:

Não é verdade que quando uma mulher, que viveu um longo tempo com um homem… não é verdade que ela fica igual ao homem?Já que ela o ama, e tenta pensar como ele, e ver como ele. Dizem que isso pode mudar uma pessoa. Foi por isso que comecei a ver aqueles fantasmas? Ou eles já estavam lá de qualquer jeito?

Agora, arriscando uma análise, digamos, teológica do filme, algo que me impressionou muito foi a presença de um mal quase absoluto na história. Um mal a que Johan se entrega como quem deseja comer (e come) do fruto proibido. E esse mal só não encerra totalmente a porta da Graça, senão pela presença singela e impotente de Alma. Essa alma que, em meio a uma desgraça sem precedentes, arrisca falar de amor; que, em meio à morte, está gerando vida; que, e em meio à total desesperança – como aquela da entrada de Dante no Inferno –, planeja o futuro.  Essa Alma que diz:

“Se eu o tivesse amado menos e não me preocupado com tudo ao seu redor, eu poderia tê-lo protegido melhor?”

Dessa forma, Alma me fez lembrar da ideia de Simone Weil – repetida por Nicolae Steinhardt em seu sublime “Diário da Felicidade” –, de que Deus “se retrai” para que sejamos. Ou, nas palavras da própria Simone Weil:

“Não se possui senão o que se renuncia”. (1)

Isso é o que me fascina nos filmes de Bergman! Essa tensão – provavelmente fruto de sua cultura e educação cristãs – que, propositalmente ou não, sempre se apresenta e nos permite ver que, a despeito do niilismo que os críticos atuais adoram atribuir a suas obras (e a ele), há uma porta aberta; estreitíssima, mas há.

“A Hora do Lobo” é um filme interessante e incomum de Bergman. Uma pequena obra-prima, onde o mestre sueco dialoga, sobretudo, com seus próprios demônios da infância. E, confesso, fez-me dialogar com os meus.

(1) WEIL, Simone. A Gravidade e a Graça. ECE, p. 89.

Paulo Cruz

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