Jack Lewis e eu

A INFLUÊNCIA DE C. S. LEWIS EM MINHA VIDA CRISTÃ E INTELECTUAL


Confesso francamente todas as ambições idiotas do fim do século XIX. Como todos os outros menininhos pomposos, tentei colocar-me à frente de meu tempo; e descobri que estava 1800 anos atrás. Forcei minha voz com penoso exagero juvenil ao proferir minhas verdades. E fui punido da maneira mais adequada e engraçada, pois mantive as verdades: mas descobri, não que não eram verdades, mas simplesmente que não eram minhas. Quando imaginei que estava sozinho encontrei-me de fato na ridícula posição de receber o apoio de toda a cristandade. Deus me perdoe, mas talvez eu tenha tentado ser original; mas só consegui inventar por minha própria iniciativa uma cópia inferior das tradições existentes da religião civilizada. O navegador pensou ser o primeiro a descobrir a Inglaterra; eu julguei ser o primeiro a descobrir a Europa. Tentei fundar uma heresia só minha; e quando lhe dei o último acabamento descobri que era a ortodoxia. (CHESTERTON, G. K. Ortodoxia).

Não me lembro de uma influência tão marcante, depois do Senhor Jesus – creio que seja preciso dizer –, do que a impressa em mim pela leitura das obras de C. S. Lewis; isso logo nos primórdios de minha conversão ao cristianismo.

Dietrich Bonhoeffer também foi fundamental, mas posterior e de maneira diferente.

Lewis é um tipo fascinante. Acho que, principalmente, por ter sido a criança que não fui. Não que eu não goste da criança que fui, mas porque, de certa maneira, foi ele, e não eu, que entrou em contato com as óperas de Richard Wagner – uma paixão mais que tardia, em meu caso – ainda na infância. Alguém que pode, nessa mesma infância, vislumbrar os versos arrebatadores de Longfellow, em sua tradução do poema Drapa, de Isaías Tegner:

I heard a voice, that cried,

“Balder the Beautiful

Is dead, is dead!”

[Ouvi uma voz, que chorava,

“Bálder, o Belo,

Está morto, está morto!”][1]

e ser fisgado, como um peixe, pelo que chamou de Alegria, a “Flor Azul” de Novalis.

Também foi ele, e não eu, um “produto de longos corredores, cômodos vazios e banhados de sol, silêncios no piso superior, sótãos explorados em solidão, ruídos distantes de caixas-d’água e tubos murmurantes, e o barulho do vento sobre as telhas. Além disso, de livros infindáveis”[2].

Veja, caro leitor, não falo isso com inveja; digo mais por causa de minha fascinação por elementos biográficos formadores, do que por qualquer outra coisa. Tenho os meus, é certo, mas descobrir os de outros – principalmente daqueles que admiro – provocam em mim uma espécie de nostalgia por quem não fui.

Lembro-me de ter lido avidamente a biografia de Thomas Merton – o famoso monge (e poeta) trapista americano – e entrado em crise. Os elementos formadores vividos em seu período universitário são descritos de maneira fascinante! E também de ter lido a autobiografia de Eric Voegelin – tema de meu TCC em Filosofia, dada a paixão imediata – numa única noite, completamente extasiado.

O anseio incontido – quase desesperado – de Lewis pela Alegria, de certa forma, se parece com o meu. Mas eu nunca consegui denominá-lo, ou sequer percebê-lo, até minha própria conversão. Acho que ele também; mas registrou isso num livro, e eu não (risos).

A Alegria, para Lewis, é “uma espécie particular de infelicidade ou pesar. Só que do tipo que queremos”. Uma ânsia pelo inatingível, só comparada ao anseio por Deus. Com isso, quero concordar com o que disse o cineasta Andrei Tarkovski: “A arte nasce e se afirma onde quer que exista uma ânsia eterna e insaciável pelo espiritual, pelo ideal”; e completa dizendo que “o artista é sempre um servidor, e está eternamente tentando pagar pelo dom que, como que por milagre, lhe foi concedido” [3]. Todo artista é, de fato, um “refém” da Alegria.

A imaginação artística que se apoderou de Lewis na infância só chegou a mim, com a devida intensidade, perto dos trinta anos. Se bem que, a primeira experiência de deslumbramento artístico que tive foi com a leitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis, nos tempos de Ginásio (hoje Fundamental II). A dúvida “Capitu-traiu-ou-não-traiu” me foi avassaladora! Não consegui parar de ler, mesmo depois de passado o dia da prova (vê-se o interesse no livro per se). E não obstante todo o absurdo de ter-se que ler livros para ser avaliado – o que causava ojeriza em qualquer garoto propenso a não estudar – terminei a leitura de Dom Casmurro, digamos, realizado. E fim, esse foi o único livro que li na infância.

Só voltei a ler na adolescência, por alguma influência que ignoro. Mas se continuei – e melhorei o nível, passando de Paulo Coelho a Tolstói – foi por influência direta de meu pai, um ávido leitor.

Voltando a Lewis.

Clive Staples Lewis (Jack, como gostava de ser chamado) nasceu em Belfast, na Irlanda do Norte, em 1898, filho de um advogado e da filha de um pastor. Cresceu num ambiente de cristãos nominais e nada fervorosos. Perdeu a mãe aos nove anos de idade, uma experiência que o marcara profundamente[4].

Lewis relata três bênçãos fundamentais de sua infância: (1) “bons pais, boa comida e um jardim (que então parecia grande) onde brincar”; (2) a babá Lizzie Endicott, “na qual mesmo a exigente memória da infância não consegue apontar falhas”; e (3) seu irmão Warren (Warnie) Lewis, um companheiro durante toda a vida[5].

Depois de passar por alguns professores particulares e por internatos – e aqui vale destacar a figura marcante de W. T. Kirkpatrick, professor que Lewis comparava a uma “entidade puramente lógica”, ocupando um capítulo inteiro de sua autobiografia e cuja importância foi ter lhe ensinado a pensar – recebe uma bolsa de estudos em Oxford. No mesmo ano, ingressa em um batalhão do Exército para servir na Primeira Guerra, de onde voltaria, ferido, quase dois anos depois.

Depois de concluídos seus estudos, consegue um cargo de instrutor no Magdalen College, em Oxford, onde permaneceu por 29 anos!

Em Oxford conheceu homens cuja grande amizade desfrutaria por toda a vida, sobretudo: J. R. R Tolkien, Nevill Coghill, Hugo Dyson, Owen Barfileld e Charles Williams. Com estes (e outros) formaria os Inklings, espécie de confraria intelectual, que se reunia para ler e debater seus temas favoritos. O grupo existiu formalmente de 1933 até meados de 1949. Num Pub, em Oxford, chamado The Eagle and Child ou no próprio escritório de Lewis no Magdalen College, foram gestadas e discutidas as grandes obras destes homens; com destaque para O Senhor dos Anéis, de Tolkien – cujo encorajamento de Lewis foi fundamental, e sem o qual, disse Tolkien, ele nunca teria terminado e publicado – e também As Crônicas de Nárnia, de Lewis, obra influenciada por Tolkien, e também duramente criticada por este, por causa de seu tom excessivamente alegórico.

Foi também por influência dos Inklings que Lewis voltou ao cristianismo.

Após longos anos de ateísmo materialista e pessimismo, Lewis toma contato com as obras de George MacDonald e G. K. Chesterton. O choque ao ler Phantastes, de MacDonald, com “suas jornadas pelas matas, os inimigos fantasmagóricos, as damas boas e más da narrativa” o extasiaram. Diz ele: “pela primeira vez o canto das sereias soava como a voz da minha mãe ou da minha babá”[6]. Quando ferido, num hospital na França, teve o primeiro contato com um volume de ensaio de Chesterton. Lewis relata: “Talvez fosse de se esperar que meu pessimismo, ateísmo e ódio do sentimentalismo fizessem dele para mim o menos atraente de todos os escritores. Parece até que a Providência, ou alguma ‘causa segunda’, de uma espécie bem obscura, supere nossas inclinações anteriores quando decide aproximar duas mentes”[7].

Daqui para frente Lewis estaria a um passo da crença. E diz ainda: “Na leitura de Chesterton, como na de MacDonald, eu não sabia aquilo em que estava me enredando. O jovem que deseja se conservar ateu ortodoxo não pode ser seletivo demais nas leituras. A ciladas estão em toda parte – Bíblias abertas, milhões de surpresas, como diz [George] Herbert – ‘finas malhas e armadilhas’”[8].

Ainda vale a pena citar um trecho sobre Chesterton e MacDonald, descrevendo a reação de Lewis aos dois antes de sua conversão:

“George MacDonald fizera mais por mim que qualquer outro escritor; logicamente, era uma pena ter ele aquela espécie de obsessão com o cristianismo. Ele era bom, apesar disso. Chesterton era mais sensato que todos os outros modernos juntos; salvo, é claro, seu cristianismo. […] O desfecho de tudo pode praticamente ser expresso pela corruptela do grande verso de Roland, na Chanson: ‘os cristãos estão errados, mas todos os outros são chatos’”[9].

Dali,  então, passou a considerar alguma forma de idealismo, mas sem relação alguma com qualquer tipo de divindade. Porém, quando percebeu, por onde olhava via cristãos, ou religiosos; e se viu exposto. Relata, num tom ligeiramente cômico:

“A raposa fora expulsa da Floresta Hegeliana e agora corria em campo aberto, ‘com toda a angustia do mundo’, desgrenhada e exausta, os cães já no seu encalço. E quase todos agora (de uma forma ou de outra) faziam parte da matilha: Platão, Dante, MacDonald, Herbert, Barfield, Tolkien, Dyson, a própria Alegria. Tudo e todos se haviam unido do outro lado”[10].

E quando menos esperava…:

“Aquilo que eu temia tanto pairava afinal sobre mim. Cedi, enfim, no período do ano letivo subsequente à Páscoa de 1929, admitindo que Deus era Deus, e ajoelhai-me e orei: talvez, naquela noite, o mais deprimido e relutante converso de toda a Inglaterra”[11].

No entanto, é importante salientar que até então Lewis só se convertera a uma espécie de teísmo, sem ainda admitir a obra de Jesus Cristo. Mas aqui, toda sua longa vivência como um estudioso e amante da Imaginação e dos Mitos o ajudou, e muito. Numa conversa com Tolkien e Dyson sobre mitos, ele finalmente começou a compreender a Encarnação. A esse respeito, quem escreve é seu biógrafo David Downing:

“No dia 1º de outubro de 1931, chegou a palavra definitiva, quando Jack escreveu a Arthur [Greeves]: ‘Acabo de passar do crer em Deus ao crer definitivamente em Cristo – no cristianismo’, acrescentando que ‘seu longo passeio noturno com Dyson e Tolkien estava diretamente relacionado a isso’. Jack descrevera seu longo passeio com J. R. R. Tolkien e Hugo Dyson numa carta a Arthur na semana anterior, dizendo que os três haviam começado a falar sobre metáfora e mito logo após o jantar, continuando a conversa enquanto caminhavam ao longo do Addison’s Walk perto do alojamento de Jack no Magdalen College e só foram dormir às quatro da manhã. […] De modo específico, proporcionou-lhe um modo de entender a encarnação como o cumprimento histórico dos mitos do Deus-que-morre encontrados em muitas culturas”[12].

Uma semana depois – e antes da carta enviada a Greeves -, num passeio de moto com seu irmão até o zoológico, Lewis diz:

“Sei muito bem quando se deu o passo final, embora me escape como. Fui levado até Whipsnade numa manhã ensolarada. Quando partimos, eu não acreditava que Jesus Cristo é o Filho de Deus, e quando chegamos ao zoológico, já cria”[13].

Muito se poderia dizer ainda sobre a vida de C. S. Lewis: seu casamento com Joy Davidman, suas riquíssimas e comoventes trocas de cartas, suas doações generosas, o abrigo de crianças na guerra etc; mas foi essa história, de uma conversão incomum e sem grandes arroubos emocionais – como a minha – que fez de Lewis uma de minhas maiores influências. Inspiram-me, sobretudo, o grande escritor religioso e defensor da fé que Lewis se tornou depois que encontrou a Cristo – não obstante os constantes protestos (e até certo afastamento) de seu grande amigo J. R. R. Tolkien, para quem a Teologia deveria ser assunto para “profissionais”. Produziu obras magistrais como Cristianismo Puro e Simples[14], O Problema do Sofrimento, Os Quatro Amores, A Abolição do Homem e As Crônicas de Nárnia, e que o transformaram, notoriamente, num gênio a serviço do Reino de Deus.

Paulo Cruz

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Referências bibliográficas

CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2007.

DOWNING, David. C. S. Lewis – o mais relutante dos convertidos. São Paulo: Vida, 2006.

DURIEZ, Colin. Tolkien e C. S. Lewis – O dom da amizade. São Paulo: Nova Fronteira, 2006.

LEWIS, C. S. Supreendido pela Alegria. São Paulo: Mundo Cristão, 1998.


[1] LEWIS, 1998, p. 24.

[2] Ibid. p. 18.

[3] TARKOVSKI, 2002, p. 40.

[4] Com a morte de minha mãe, toda a felicidade serena, tudo o que era tranquilo e confiável, desapareceu de minha vida. Estava por vir muita diversão, muitos prazeres, muitas punhaladas da Alegria; mas nada da velha segurança. Agora era mar e ilhas; o grande continente afundara como Atlântida. (LEWIS, 1998, p. 28).

[5] LEWIS, 1998, pp. 13, 14.

[6] LEWIS, 1998, p. 184.

[7] Ibid., p. 194.

[8] Ibid., p. 196.

[9] Ibid., pp. 218, 219.

[10] Ibid., p. 229.

[11] Ibid. p. 232.

[12] DOWNING, 2006, p. 156.

[13] LEWIS, 1998, p. 242.

[14] Transcrição de uma série de programas que Lewis apresentou na Rádio BBC no tempo da 2ª Guerra, a pedido dos próprios combatentes.

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Uma resposta para “Jack Lewis e eu

  • Jessé de Almeida Primo

    Olá, caro afro-amigo: minhas congratulações pelo texto, ainda mais que aprecio imensamente os textos de formação, de biografias intelectuais, o que você acabou de fazer de forma elegante, clara e comovente. Que Deus o abençoe e ao seu trabalho.

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